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Laços de Ternura

por Jorge Soares, em 16.01.10

Laços de ternura

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

 

Nascemos para amar; a humanidade

Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:

Tu és doce atractivo, ó formusura,

Que encanta, que seduz, que persuade.

 

Enleia-se por gosto a liberdade;

E depois que a paixão n’alma se apura

Alguns então lhe chamam desventura,

Chamam-lhe alguns então felicidade.

 

Qual se abismou nas lôbregas tristezas,

Qual em suaves júbilos descorre,

Com esperanças mil na ideia acesas.

 

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre,

E, segundo as diversas naturezas,

Um porfia, este esquece, aquele morre.

 

(Bocage in "Obra Poética" 1997)

 

Patos Mandarim no Jardim do Bonfim

Setúbal

Dezembro de 2009

Jorge Soares

 

publicado às 22:41

Livro:O Catalão, Noah Gordon

por Jorge Soares, em 15.01.10

O catalão

 

Está visto que me tornei fã de este autor... pena que cada vez é mais dificil encontrar os seuslivros em Portugal.

 

O Catalão é o ultimo livro do Noah Gordon, não tem a força de o Fisico, nem de o Ultimo Judeu, mas é um excelente romance histórico que nos deixa uma visão de uma parte da historia Espanhola e da Catalunha.

 

É um livro que nos fala de escolhas e da capacidade de sonhar, apesar das contrariedades, apesar do mundo, há quem consiga sonhar e fazer as escolhas certas para a vida.

 

Josep é um Jovem que nasce no interior da Catalunha rural, cresce num ambiente feito por tradições arcaicas que ao ser o segundo filho, o obrigam a não ter sonhos ou aspirações, as terras do seu pai estão destinadas ao seu irmão A sua vida ganha um rumo diferente quando um sargento aparece na cidade para recrutar jovens para a Guerra Carlista. Alistar-se e partir parece-lhe ser a melhor maneira para conseguir algum dinheiro e casar-se com a namorada.Acreditando que segue uma causa nobre, Josep parte para uma guerra que afinal para ele não passa de uma ficção. Depois de participar numa intriga politica que mudará o rumo de Espanha, vê-se obrigado a fugir para França, onde se dedica de alma e coração  a aprender os segredos do tratamento da vinha. A morte do seu pai na Catalunha faz com que retorne a sua casa e de asas aos seus sonhos.

 

Um excelente livro de leitura fácil e agradável, um tributo a Espanha e a quem acredita que o destino não é mais que a nossa luta pelos nossos sonhos.

 

Jorge Soares

 

 

publicado às 21:41

Haiti - O não país - Como ajudar

por Jorge Soares, em 14.01.10

Haiti, a destruição de um não país

 

O Haiti é o mais antigo estado da América Latina, obteve a sua independência da França em 1804 quando a sua população era de perto de 500000 habitantes, dos quais 5000 eram brancos e os restantes eram escravos ou pobres descendentes de escravos, e desde então a sua sina tem variado entre as invasões, e a miséria total.

 

Foi invadido pelos espanhóis, pelos franceses, pelos piratas, de novo pelos franceses, pelos Americanos, de novo pelos americanos.... nos intervalos entre invasões foi sendo governado por uma trupe de ditadores e até um imperador chegou a ter... sendo que a faceta mais conhecida dos seus habitantes é a crença do vudu que é praticado pela grande maioria.

 

A situação actual é a de um não país, sem exercito, sem serviços, sem nada, mais de 80% da população vive no limiar da pobreza e se ainda resta algo é graças à presença da organização das nações Unidas que desde 2004 praticamente governa o pouco que restava.

 

Como prova de que nunca se está suficientemente mal, a natureza encarregou-se de destruir o pouco que restava,  hoje durante todo o dia as imagens que iam chegando ao mundo é a do desespero total, os relatos são aterradores e extremamente preocupantes pelo facto de que o que vemos é uma população abandonada à sua sorte, sem nenhum tipo de apoio. 

 

Estava à pouco a ler esta noticia do Público onde se diz o seguinte:

 

"- Não recolha água, alimentos nem roupas para o Haiti porque o país não dispõe das infra-estruturas necessárias para os distribuir;

- Opte por doar dinheiro a organizações de ajuda humanitária reconhecidas, permitindo aos profissionais obterem exactamente aquilo que é preciso sem sobrecarregar os recursos já escassos para os transportes e armazenamento;"

 

Está na mesma noticia, mas deixo aqui a lista das instituições que estão a  receber ajuda para o Haiti:

 

Cáritas Portuguesa – pode fazer donativos na conta "Cáritas Ajuda Haiti", com o NIB 003506970063000753053 da Caixa Geral de Depósitos

Cruz Vermelha Portuguesa – pode fazer donativos para o Fundo de Emergência da organização em vários bancos, indicados no site 
http://www.cruzvermelha.pt/cvp_t/, ou por telefone para o número 760 20 22 22 de atendimento automático (custo da chamada é de 0,60€ + IVA)

Ajude a Missão de emergência da AMI no Haiti – contribua para esta missão através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672 Multibanco: Entidade 20909 Referência 909 909 909 em Pagamento de Serviços

Associação Amurt – contribua para esta organização através da conta na CGD. NIB: 0035 2168 00020393630 21 ou cheque à ordem de Amurt - Associação de Apoio Social e Humanitário, enviados para Rua Visconde de Santarém, nº 71 3º andar, Sala 1 1000 - 286 Lisboa. Mais informações em 
http://www.amurt.pt/donativos 

Angariação de Fundos "Emergência no Haiti" da Oikos – contribua para esta campanha com transferências bancárias para o NIB: 0035 0355 00029529630 85, em conta da Caixa Geral de Depósitos.

Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura – os donativos poderão ser feitos através do número bancário 0033.0000 45207093568 05 e os bens alimentares não perecíveis e medicamentos devem ser entregues na sede da associação, na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, em Lisboa.

Associação Adventista para o Desenvolvimento, Recursos e Assistência – foi aberta uma conta destinada a recolher donativos para respostas de emergência (0046 0017 00600031123 74).

Rede Miqueias (de igrejas evangélicas) – campanha SOS Haiti – donativos para a conta 0697 6358 596 30, da Caixa Geral de Depósitos (NIB - 0035 0697 0063 5859 63074)

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:30

As palavras também morrem .....

por Jorge Soares, em 13.01.10

Buçaco.. é o que diz a placa

 

 ... porque nascem, e tudo o que nasce, mais tarde ou mais cedo, morre.

 

Vem isto a propósito das minhas dúvidas sobre como se escreve Buçaco e que expressei neste post do momentos e olhares, que não é uma dúvida só minha, basta dar uma olhadela pelo Google para verificar que a maioria dos naturais da daquela zona escreve Bussaco. de tal forma que até o Palace Hotel do Bussaco, fica no meio da mata do Buçaco... podem ir ver o site!

 

Tudo isto fez-me recordar o acordo ortográfico, que o Paulo Sousa explicou bastante bem no post  O que muda com o acordo ortográfico? no Vila Forte. A maioria das pessoas é contra o acordo, o ser humano é conservador por natureza, todos aprendemos a ler e escrever segundo as regras do livro amarelo... ou de outro qualquer descendente daquele, agora achamos que aquelas regras são sagradas e aí de quem  tente dizer que elas já não são válidas.

 

Se nos detivermos uns minutos a pensar, e foi o que fiz depois de ler o post e os comentários do Paulo, se calhar podemos mudar de ideias... eu mudei, vejamos:

 

Em primeiro lugar, não muda nada, simplesmente há uma serie de palavras que passa a ter duas formas de se escrever.

 

Os Brasileiros são 190 Milhões, comparado com o nosso é um mercado gigantesco, o facto de passar a haver regras comuns fará que aconteça o mesmo que acontece na América latina de língua espanhola em que a Real Academia dita as regras, qualquer livro editado no Brasil passará a ser aceite também em Portugal, o que em principio fará com que os livros desçam de preço, não é a mesma coisa fazer uma edição de 10 ou 20 mil livros que uma de 100 mil ou uma de um milhão.

 

Isto para já não falar dos muitíssimos livros que são editados no Brasil e que não o são por cá e aos que passaremos a ter acesso facilitado, ora mais livros no mercado farão descer os preços, como diz o Paulo e muito bem, basta olhar para os preços dos livros em língua Inglesa que mesmo em Portugal são mais baratos que os em língua portuguesa, economia de escala.

 

Além disso não vale a pena tentar enganar-nos, eles são 20 vezes  mais que nós, mais tarde ou mais cedo a evolução natural da língua ia levar a isto... Assim como o Bussaco evoluiu para Buçaco... ou o contrário... assim as palavras iriam evoluir para a forma utilizada pela maioria... afinal, não foi assim à tanto tempo que se escrevia Pharmacia.... certo?

 

Já agora, a fotografia foi tirada no Luso, se repararem bem, diz Buçaco......

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:52

De cuecas no metro de LisboaJá alguma vez se perguntaram o que leva as pessoas a fazer algumas coisas? o que leva as pessoas a juntarem-se para uma manifestação, para apoiar uma causa, para participar em petições online, por norma participa quem quer ser solidário, quem partilha uma ideologia ou uma ideia, quem apoia um pedido.

 

No Sábado passado, um grupo de pessoas, entre 30 e 200, é difícil saber porque depende do meio de comunicação que dá a noticia  e está visto que os jornalistas em Portugal não sabem contar até 3, onde é que eu ia?... já sei, este grupo de pessoas decidiu juntar-se para andar de metro em cuecas.  E porquê o fizeram?, por nada!!!! Bem, por nada não, fizeram-no porque algures noutras cidades de outros países, outros grupos de pessoas fizeram o mesmo, motivo parece que não há nenhum, como se faz lá fora, alguém decidiu que era engraçado e já está, temos um grupo bem disposto a andar de cuecas no metro de Lisboa.

 

Não tenho nada contra, cada um se diverte da maneira que entender,  ainda que eu achava muito mais interessante que aquela gente toda fizesse um passeio pela Rua Augusta acima e abaixo com os 2 graus de temperatura que estavam no Sábado em Lisboa, isso é que era divertido de se ver, no metro quentinho é fácil.

 

O que já não entendo é porque é que isso foi motivo de noticia em todos os meios de comunicação do país, desde os jornais gratuitos até à televisão pública!!!!! Eu sei que a malta já estava farta das noticias da neve, do frio e do mau tempo, mas o que interessa ao país e ao mundo que uns malucos andem de cuecas no metro?

 

Assim como não entendo como é que uma exposição de fotografias em que só se vêem caras da Clara Pinto Correia é noticia em não sei quantos jornais e em toda a blogosfera...  eu recebo a newsletter do Olhares, há imensas exposições de fotografias pelo país todo, a maioria delas bem mais interessantes que as caretas da Clara Pinto Correia, porque é que só esta é noticia?... será pela palavra orgasmo associada? Ela nesta fotografia está mesmo com cara de quem está a ter um orgasmo não está? Por certo, se foi o marido que tirou as fotografias, quem é que..... Ok, isso agora não interessa nada.

 

É ideia minha ou a nossa comunicação social anda com falta de perspectivas?... ou estamos a ficar sem assuntos sérios dos que falar... é pá, antes o frio e a chuva.

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:40

O MSN e a nossa consciência como pais

 

Hoje por volta da hora do almoço numa  das séries de investigação criminal do FOX Crime, era investigada a morte de uma adolescente durante uma festa com muita bebida. A investigação levou a levantar o véu sobre as relações de um grupo de jovens, o abuso do álcool, as relações com as famílias, com os adultos, com as novas tecnologias e com as leis.

 

Sou pai de duas crianças que em breve serão adolescentes, no fim dei por mim a pensar no que foi a minha adolescência, há coisas que não mudaram assim tanto desde essa altura, mas há outras que mudaram profundamente...e sinceramente dei por mim preocupado..

 

Tenho o meu MSN publicado no blog, é uma conta que não costumo utilizar normalmente, sou adicionado por muita gente, as pessoas que conheço adiciono na conta que costumo utilizar, as restantes espero que digam algo... e de vez em quando dizem, como expliquei neste post, mas nem sempre tem tanta graça.

 

A semana passada voltou a acontecer, deixei a conta aberta umas horas, a meio da tarde alguém me contactou, depois de um olá a que correspondi,  a segunda pergunta foi "Quantos anos tens?", eu respondi com a verdade, a pessoa não acreditou, pela forma de escrever eu imaginei que não teria mais de 18 anos, bastantes erros ortográficos e muitos k's pelo meio. Decidi dar conversa, perguntou de onde era e se não tinha uma fotografia, eu disse que sim, ela perguntou porque não a colocava para ela ver. Decidi perguntar-lhe a idade, 15 anos. Não me conseguiu explicar onde tinha arranjado o meu endereço de MSN, insistiu na fotografia dei-lhe o endereço do perfil do SAPO e disse que fosse lá ver.. ela foi, a seguir disse adeus.

 

É a  segunda vez que isto me acontece, em ambas as ocasiões eram miúdas e mostravam uma fotografia, em ambas as ocasiões insistiram em saber onde é que eu estava, e na fotografia, uma era do Algarve, a outra dos arredores de LIsboa.

 

Hoje, depois de ver a série, com miúdos mortos, pais presos, futuros perdidos, lembrei-me das duas miúdas, e em quem seria o próximo com quem tentaram contactar pelo MSN.

 

Costumo achar um exagero quando se fala dos perigos da internet, a internet não é perigosa, o perigo vem da inconsciência de quem está por trás do teclado... e se calhar, da nossa inconsciência que como pais não damos a atenção suficiente ao mundo dos nossos filhos.

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:50

Conto:O Pastor Gabriel

por Jorge Soares, em 09.01.10

Ovelha 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Nunca houve em toda a montanha pastor como o Gabriel.

 

- Merecias outras ovelhas, homem! - disse-lhe um dia o Prior, desanimado da anarquia dos seus paroquianos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.

 

- Deus me livre! já me vejo maluco com estas...

 

Mentira. O padre tinha razão. Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural, ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos do Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.

 

- Que fazes tu ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!

 

- Nada. Dou-lhe monte, como a outra gente. Sorria. E lá continuava a educar os malatos com gestos e palavras que ninguém sabia fazer nem dizer. Nunca batia numa rés. O castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal humorada. Mas bastava. Ao fim de algum tempo, cada cabeça como que porfiava em não desagradar ao dono, em viver sintonizada com aquele governo sem cajado. E dava gosto ver a disciplina com que o rebanho deixava o redil e atravessava o povo.

 

- Não há dúvida! Nem o mestre na escola! Continuava a rir-se por dentro. Espantavam-se com pouco. Com a pequenina amostra do muito que estava por detrás...

 

Na verdade, toda aquela disciplina tinha um fim, e era muito mais apertada do que parecia. Como os pastos no verão escasseavam, só havia uma solução: aceivar os nabais de noite, pela calada. Ora, para Áfricas dessas, o Gabriel necessitava de gado mudo e lesto, cegamente obediente ao comando. Por isso, sem dizer porquê nem por que não, exigia sistematicamente dos patrões que vendessem os carneiros mancos ou rebeldes, e ninguém ouvia o balido de nenhum.

 

- O teu gado não berra?

 

- Pergunta-lhe. É o berras! Ou não se chamasse ele Gabriel e não capitaneasse um bando de salteadores.

 

No meio da escuridão, abria a porta do curral e punha-se a andar. O rebanho atrás, como um cão rafeiro. À entrada da melhor sementeira, parava, perscrutava os horizontes e arrombava o tapume. Depois, em silêncio., deixava entrar os famintos e esperava que cada boca se fartasse em silêncio.

 

Se por acaso ouvia vozes ou passos de gente que se aproximava, subia acima da parede, descalçava os socos, batia com um no outro e largava a fugir com quantas pernas tinha. Não era preciso mais: quando chegava ao redil, já o rebanho lá estava.

 

- Não, tu hás-de ter qualquer segredo, qualquer mistério... - insinuava o Languna, a sondar.

 

- Palavra de honra que não. E realmente não tinha. A coisa vinha-lhe espontaneamente, duma maneira directa, rápida, infalível, de entender e de se fazer entender por todos os seres vivos. Via um coelho na cama, falava-lhe e punha-lhe a mão em cima. Acalmava um cão açulado-a sorrir-lhe.

 

Mas esta comunhão instintiva com a natureza dos bichos não tentava o Gabriel alargá-la à natureza dos homens. Desses arredava-se discretamente., sem querer passar, nas relações com eles, do plano amorfo da neutralidade. Alugava o suor. Enjeitado, sem vintém, servia este e aquele. A indústria de Ferrede era comprar gado magro, engordá-lo e vendê-lo. Portanto, quem tinha dinheiro tinha o poder, e não valia a pena discutir. Que lhe interessava a ele perder tempo com palavreado ou mendigar intimidades que sabia impossíveis de antemão? O que os donos de cada rebanho queriam já o sabia: era que lho entoirisse de qualquer maneira. Recebia, pois, o farnel pela manhã, e ala que se faz tarde. Cada qual para o que nasce.

 

No verão em que fez vinte e dois anos, não pôde, contudo, ficar indiferente a um apelo que, muito embora fosse de cordeira no cio, vinha duma criatura cristã, com quem, de resto, acabou por casar.

 

Foi assim: como a serra inteira ardia na fornalha do Agosto, certo dia, no pino do sol, resolveu assestar o gado na loja. Servia então o Silvano, o maior proprietário da terra. E enquanto o rebanho, sonolento, ruminava, estendeu-se também no catre, igualmente sonolento e a ruminar. Era a hora do jantar, e lá em cima os patrões comiam e bebiam à tripa-forra. Ele, coitado, teria uma malga de caldo no fim do banquete, e viva o velho!

 

Nisto, sente passos pela escada abaixo, abre-se a porta, e a filha da casa, bonitota, mas de pêlo na venta, que nunca dera conta que o olhasse como homem e nunca lhe consentira que a olhasse como mulher, aparece de cântara na mão, ao vinho.

 

Em silêncio e sem se mexer, deixou-a passar para a adega, que era ao fundo, numa loja contígua Mas apenas sentiu desandar a torneira da pipa e a espuma do tinto a ferver dentro do barro lhe fez cócegas na garganta, pediu humildemente:

 

- Minha ama, dê-me uma pinga! - Dou. Anda cá bebê-la... Ergueu-se num pronto, saltou por cima do gado, entrou no armazém, recebeu a pichorra, levou-a à boca e começou a consolar a alma. De repente, sem mais nem para quê, a moça, calada, dá-lhe um empurrão à vasilha com a ponta do dedo. De respiração afogada e ainda engasgado, a tossir, relanceou-a toda. Ao machio, a senhora morgada!

 

E nada mais simples: pousou a caneca e dobrou a rapariga sobre uma facha de palha.

 

 

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha

 

Retirado de Contos de Aula

publicado às 22:23

Em Portugal há quem morra de solidão

por Jorge Soares, em 07.01.10

Em Portugal há quem morra de solidão

Imagem minha

 

Amanhã discute-se na assembleia da República a alteração da lei dos casamentos, há quem ache que se discute o casamento, há quem ache que se discute a família, há até quem tenha feito da adopção um cavalo de batalha.... eu continuo a achar que se discute a discriminação e o direito a ser diferente.

 

Entretanto a vida segue, e há tantas outras coisas mais importantes com que nos deviamos preocupar, andou um batalhão de pessoas a recolher assinaturas nas igrejas, no futebol, nos centros comerciais, tanta energia que se podia ter gasto de alguma forma bem mais útil.. porque todos sabemos que as assinaturas não vão servir para nada.

 

No DN online podemos ler o seguinte

 

Entre  as 10.00 e as 22.00 de domingo  foram encontrados mortos nove idosos, sete homens e duas mulheres, que viviam sós.


"Janeiro e Fevereiro levam e o velho e o cordeiro", diz o adágio popular a admitir que aqueles meses são os mais ameaçadores para a vida dos idosos. Mas as nove mortes, sete homens e duas mulheres, que a PSP registou entre as 10.00 e as 22.00 de domingo apresentam características que violam a ordem natural da existência humana. Uns morreram abandonados, outros em situação de solidão, outros provavelmente às mãos de gente criminosa, e outros porque os desespero ditou o fim da linha.

 

Enquanto o país monta um circo em volta de algo que nem devia ser tema de discussão, há quem morra de solidão..... 

 

«Morrer é só não ser visto.»

 

A morte é a curva da estrada,

Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

 

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

 

Fernando Pessoa

 


Jorge Soares

publicado às 21:26

Adopção, pelo direito a uma família

 

Em Novembro, no workshop sobre a adopção em que participei, a Sandra perguntou directamente às responsáveis da Segurança social, porque não se utilizava a adopção internacional como solução para as crianças para as que não há candidatos em Portugal, a resposta foi lapidar:

- Porque tal como em Portugal, não há candidatos na adopção internacional para estas crianças, os candidatos dos outros países, tal como os portugueses, querem bebés.

 

A Alexandra Borges é uma jornalista que sempre se preocupou com o tema da adopção, são muitas as reportagens que já fez sobre o assunto, é alguém que está por dentro, sabe o que se passa realmente, por isso, para mim a reportagem da TVI foi uma enorme desilusão, porque não esclareceu nada, porque não informou e pior do que isso, deixou uma ideia muito errada da situação da adopção em Portugal e ao nível da adopção internacional não esclareceu absolutamente nada.

 

Neste, como na maioria dos programas em que se fala de adopção, a ideia que ficou foi que há muitas crianças que esperam por uns pais e não os tem porque os candidatos são os maus da fita, que só querem bebes loiros e de olhos azuis e os processos são lentos por causa disso... uma tremenda mentira. 

 

Eu sou candidato à adopção, quero uma criança até aos 6/7 anos, de qualquer raça ou etnia, estou disposto a aceitar algumas doenças que não sejam impeditivas do desenvolvimento, estou à espera há ano e meio e segundo me dizem na Segurança social de Setúbal, tenho que esperar mas dois ou três anos.... expliquem-me lá onde é que eu me encaixo, sou racista?, só quero bebés de olhos azuis?, onde estão essas crianças que saem dos parâmetros que todos querem?, não há uma para mim?

 

Mas há coisas mais graves, só entre as pessoas que eu conheço, há duas que foram adoptar a Cabo Verde, aceitavam portanto crianças de cor,  porque na altura em que aquela menina da reportagem foi para adopção internacional porque supostamente não havia pais para ela em Portugal,  foi-lhes dito que não havia crianças para elas. Alguém me explique, porque mandam a criança para outro país e os candidatos nacionais para a adopção internacional... ao mesmo tempo!!!! Porque é que a segurança social não entregou aquela criança aos candidatos nacionais que na altura a aceitavam?... 

 

O programa deixou-me indignado, irritado, porque uma vez mais há muita gente, até do estrangeiro, a deitar as culpas para os candidatos, quando o problema está claramente no sistema. Aquele menino que foi para França foi abandonado aos seis meses, e só foi decretado que ia para adopção aos 5 anos, alguém se pergunta porquê? porque é que ele teve que estar 5 anos à espera? à espera de quê? A maioria dos candidatos que conheço aceitava aquela criança com 5 anos e com estrabismo, porque foi ele para adopção internacional?

 

O programa deixou muita gente com lágrimas nos olhos e vontade de adoptar, porque tem pena das pobres criancinhas que estão à espera, desenganem-se, há muito poucas criancinhas à espera de serem adoptadas, e as que há, estão lá por incúria de assistentes sociais, juízes, procuradores, comissões de defesa de menores, responsáveis de instituições de acolhimento e sobretudo, por culpa de pais irresponsáveis que durante anos tentam impedir que seja decretada  a adopção.

 

Não há pior cego que o que não quer ver...  não é Alexandra Borges?

 

Jorge Soares

PS:Para quem quiser ver o vídeo do programa, está aqui

publicado às 21:15

Como agua para chocolate

Como a tantos outros blogs, não me lembro como cheguei ao Há vida em Marta, mas depois dessa primeira vez, tornou-se visita obrigatória. Estes dias e a propósito de este post e de um dos seus comentários, fiquei a pensar em como por vezes pode ser errada a imagem que temos de nós como país.

 

O comentário dizia o seguinte:

"A ideia de associar a culinária à literatura - ideia que eu penso terá começado com um livreco de Laura Esquível - é uma moda que resulta comercialmente, mas de resultados literários inevitavelmente abaixo de medíocres. No limite dos limites, sairá algo digno de Bulhão Pato. Olvidável, portanto."

 

Não me lembro quando li o Como Agua Para chocolate a primeira vez, devia ter uns 16 ou 17 anos, mas sei que depois de ver o filme  já o voltei a ler, e mal termine um dos 3 que estou a ler, vai de certeza ser o seguinte. É claro que não o acho um livreco, longe disso e deixei o meu comentário a expressar isso mesmo... e obtive a seguinte resposta:

 

".... 99,99% do que se publica são livrecos. Não é um fenómeno recente. Foi sempre assim. No séc. XIX, por exemplo, há milhares de tipos a escreverem romances. Quem sobreviveu? Eça, Camilo, Antero de Júlio Diniz, Almeida Garrett, Herculano e pouco mais.

E, no entanto, quem na época dissesse, por exemplo, que Pinheiro Chagas era um autor de livrecos seria atirado às feras. Afinal, não ganhou ele o grande prémio nacional de literatura a Eça de Queirós?

Acreditem: daqui a 100 anos, tirando um outro estudioso de bizarrias literárias do fim do séc. XX, ninguém fará ideia nenhuma de quem foi Laura Esquível e qual a sua obra. E não por uma injustiça que depois se reparará. Apenas porque a sua obra é olvidável.

Comprometamo-nos os três (eu, a Marta e o Jorge Freitas Soares) a passar por aqui daqui a 100 ou 200 anos e veremos se tenho ou não razão."

 

Os maias

Podem pensar o que quiserem, mas eu acho o Eça de Queirós um chato de primeira,  no liceu eu li Cem anos de solidão do Garcia Marquez, Dona Barbara de Romulo Gallegos e a cidade e os cachorros do Vargas LLosa, quando vim para Portugal para a universidade ouvia os meus colegas falar do sacrifício que tinha sido ler um resumo de Os Maias, fiquei curioso, arranjei o livro e li de seguida numa tarde..ok, achei razoável, depois disso li de seguida mais dois ou 3 do Eça... e terminei por me chatear, depois de ler o segundo ficou tudo previsível, eu conseguia saber o que ia acontecer nas paginas seguintes, porque os livros são todos iguais.

Eça de Queiroz é muito conhecido em Portugal, eu estudei na Venezuela, sempre fui um leitor inverterado, li dezenas de livro na adolescencia.... antes de chegar a Portugal, nunca tinha ouvido falar do Eça, aposto que se formos ao México ninguém nunca ouviu falar dele.

Daqui a 100 anos no México e na América latina continuará assim, ninguém terá ouvido falar dele, nem de outros autores portugueses.. excepção para o irreverente Saramago, não é em vão que se ganha um Nóbel da literatura, mas aposto que todos recordarão a Laura Esquivel.

Não sou nada de denegrir o que é nosso, mas é preciso ter consciência da realidade da nossa pequenês... e eu considero a maioria dos livros do Eça.. uns livrecos... mas a minha opinião não interessa para nada....e gostos, não se discutem.

 

Jorge Soares

PS:imagens da internet

publicado às 21:57



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