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A Origem do Carnaval

por Jorge Soares, em 14.02.10

Carnaval Português, Cabeçudos

 

Hoje é o dia dos namorados e é Domingo de Carnaval... por uma vez as datas fazem sentido . Fiquei na dúvida se havia de falar da tradição comercial americana, ou do nosso "ninguém leva a mal"..., ganhou o Carnaval.

 

Ao contrario do que muita gente possa pensar, o Carnaval não é uma festa inventada pelas mulatas esculturais no Brasil, também não é uma tradição católica e não tem nada a ver com a Quaresma e o jejum, que são invenções bem mais recentes.

 

A origem da tradição do Carnaval remonta à Grécia antiga, por volta de 600 antes de Cristo com o aparecimento da agricultura, os antigos gregos festejavam mais ou menos nesta altura a fertilidade e produtividade dos solos. Desde o século VII antes de Cristo, quando se festejava o culto a Dionísio e até ao ano 590 d. c., festejava-se o Carnaval pagão.

 

O festejo com folias e máscaras tem origem no antigo Egipto, onde os foliões se juntavam à volta da fogueira. Do Egipto a tradição espalha-se pela Grécia e  Roma antigas e é nesta altura em que o sexo e as bebidas se incluem na tradição. A festa funcionava como uma válvula de escape para a intensa luta entre classes sociais.

 

No Ano 590 depois de Cristo, a igreja católica decide incorporar a festa como um evento religioso numa tentativa de a controlar, já que era considerada um evento libertino e pecaminoso.  Em 1545, o Concilio de Trento reconhece o Carnaval como um evento de rua e popular e define a data em que se deve festejar. Isto para evitar que coincida com a Páscoa.

 

O Carnaval ocorre sempre 40 dias antes do Domingo de Ramos, que se festeja na semana anterior à Pascoa. A Pascoa católica por sua vez, ocorre sempre no primeiro fim de semana a seguir à primeira lua nova da Primavera.

 

O Carnaval foi levado para o Brasil pelos Portugueses, ainda que quem der uma olhadela pela maioria dos Carnavais que por cá se festejam, fique com a certeza que foi ao contrário... e este ano com o frio que está, causa arrepios só de olhar.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:50

Conto:Boca de Sapo - Isabel Allende

por Jorge Soares, em 13.02.10

Rosa por detrás da rede

Imagem Minha do Momentos e olhares

 

Os tempos eram duros no Sul. Não no Sul deste país, mas do mundo, onde as estaçöes mudaram e o Inverno não é no Natal, como nas naçöes cultas, mas a meio do ano, como nas regiöes bárbaras. Pedra, colmo e gelo, extensas planícies que até à Terra do Fogo desfazem-se num rosário de ilhas, picos decordilheira nevada fechando o horizonte ao longe, silêncio instalado ali desde o nascimento dos tempos e interrompido por vezes pelo suspiro subterrâneo dos glaciares deslizando lentamente para o mar. É uma natureza áspera, habitada por homens rudes. Nos princípios do século nada havia ali que os Ingleses pudessem levar, mas obtiveram concessöes para criar ovelhas. Em poucos anos os animais multiplicaram-se de tal forma que ao longe pareciam nuvens agarradas rente à terra, comeram toda a vegetação e pisaram os últimos altares das culturas indígenas. Era nesse lugar que Hermelinda ganhava a vida com jogos de fantasia.

 

No meio do descampado erguia-se, como uma torta abandonada, a grande casa da Companhia Pecuária, rodeada por um relvado absurdo, defendido contra os rigores do clima pela esposa do administrador, que não pôde resignar-se a viver fora do coração do Império Britânico e continuou a vestir-se de gala para cear a sós com o marido, um fleumático cavalheiro perdido no orgulho de tradiçöes obsoletas. Os peöes crioulos viviam nas barracas do acampamento, separados dos patröes por cercas de arbustos espinhosos e rosas silvestres, que tentavam em vão limitar a imensidão da pampa e criar para os estrangeiros a ilusão de uma suave campina inglesa.

 

Vigiados pelos guardas da gerência, atormentados pelo frio e sem tomar uma sopa caseira durante meses, os trabalhadores sobreviviam à desgraça, tão desamparados como o gado a seu cargo. Pelas tardes não faltava quem pegasse na guitarra e então a paisagem enchia-se de cançöes sentimentais. Era tanta a carência de amor, apesar da pedra-lume posta pelo cozinheiro na comida para apaziguar os desejos do corpo e as urgências da recordação que os peöes fornicavam com as ovelhas e até com alguma foca, se ela se aproximava da costa e conseguiam caçá-la. Estes animais têm grandes mamas, como seios de mãe, e ao tirar-lhes a pele, quando ainda vivas, quentes e palpitantes, um homem muito necessitado pode fechar os olhos e imaginar que abraça uma sereia. Apesar destes inconvenientes os operários divertiam-se mais que os seus patröes graças às brincadeiras ilícitas de Hermelinda.

 

Era a única mulher jovem em toda a extensão daquela terra, salvo a dama inglesa, que só passava a cerca das rosas para matar lebres a tiro de espingarda, vislumbrando-se nessas ocasiöes apenas o véu do seu chapéu no meio de uma poeirada de inferno e uma barulheira de cães perdigueiros. Hermelinda, pelo contrário, era uma fêmea próxima e precisa, com uma mistura atrevida de sangue nas veias e uma óptima disposição para festejar. Tinha escolhido esse ofício de consolo por pura e simples vocação, gostava de quase todos os homens em geral e de muitos em particular. Reinava entre eles como uma abelha-mestra. Amava neles o cheiro do trabalho e do desejo, a voz rouca, a barba de dois dias, o corpo vigoroso e ao mesmo tempo tão vulnerável nas suas mãos, a índole combativa e o coração ingénuo. Conhecia a fortaleza ilusória e a debilidade extrema dos seus clientes, mas não se aproveitava de nenhuma dessas condiçöes, pelo contrário, compadecia-se de ambas. Na sua natureza bravia havia traços de ternura maternal e, frequentemente, a noite encontrava-a cosendo remendos numa camisa, cozinhando uma galinha para algum trabalhador enfermo ou escrevendo cartas de amor para noivas remotas. Fazia a sua fortuna sobre um colchão de lã crua, debaixo de um tecto de zinco ondulado que produzia música de flautas e oboés quando o vento o atravessava.

 

Tinha as carnes firmes e a pele sem mácula, ria-se com gosto e sobravam-lhe desejos, muito mais do que uma ovelha aterrorizada ou uma pobre foca sem couro podiam oferecer. Em cada abraço, por breve que fosse, revelava-se como uma amiga entusiasta e travessa. A fama das suas sólidas pernas de ginete e suas mamas invulneráveis ao uso havia percorrido seiscentos quilómetros de província agreste e os seus namorados viajavam de longe para passar um bocado na sua companhia. As sextas-feiras chegavam a galopar à rédea solta de lugares tão afastados que os animais, cobertos de espuma, caíam desmaiados. Os patröes ingleses proibiam o consumo de álcool, mas Hermelinda lá fazia por destilar uma aguardente clandestina com a qual melhorava o ânimo e arruinava o fígado dos seus hóspedes, mas que também servia para acender as suas lâmpadas à hora da diversão. As apostas começavam depois da terceira rodada de licor, quando se tornava impossível concentrar a vista ou agudizar o entendimento.

 

Hermelinda tinha descoberto a maneira de obter benefícios seguros sem armadilhas. Salvo as cartas e os dados, os homens dispunham de vários jogos, e sempre o único prémio era a sua pessoa. Os que perdiam entregavam-lhe o seu dinheiro e também os que ganhavam, MaS obtinham o direito de desfrutar um pedaço breve da sua companhia, sem subterfúgios nem preliminares, não porque a ela lhe faltasse boa vontade, mas porque não dispunha de tempo para dar a todos uma atenção mais esmerada. Os participantes na Galinha Cega tiravam as calças, mas conservavam os coletes, os gorros e as botas forradas de pele de cordeiro, para se protegerem do frio antárctico que assobiava por entre os tabuöes. Ela vendava-lhes os olhos e a perseguição começava. às vezes armava-se tal alvoroço que as risadas e os arquejos cruzavam a noite mais para lá das rosas e chegavam aos ouvidos dos Ingleses, que ficavam impassíveis, fingindo que se tratava só do capricho do vento na rampa, enquanto continuavam a beber lentamente a sua última chávena de chá-de-ceilão antes de irem para a cama. O primeiro que punha a mão em cima de Hermelinda dava um cacarejo exultante e louvava a sua sorte, enquanto a aprisionava em seus braços. O Baloiço era outro dos jogos. A mulher sentava-se numa tábua pendurada no tecto por duas cordas. Desafiando os olhares apreciadores dos homens flectia as pernas e todos podiam ver que não tinha nada por debaixo dos saiotes amarelos. Os jogadores, dispostos em fila, tinham uma só oportunidade de a atacar e quem conseguia o objectivo via-se apanhado entre as coxas da bela, numa agitação de saias, balançando, embalado até aos ossos e, finalmente, levado ao céu. Mas muito poucos conseguiam isso e a maioria rebolava pelo chão por entre as gargalhadas dos outros.

 

No jogo do Sapo um homem podia perder em quinze minutos o ordenado de um mês. Hermelinda desenhava no chão uma marca de giz e a quatro passos de distância traçava um grande círculo,dentro do qual se deitava, com os joelhos abertos e as pernas douradas à luz dos candeeiros de aguardente. Aparecia então ocentro escuro do seu corpo, aberto como uma fruta, como uma alegre boca de sapo, enquanto o ar do quarto se tornava denso e quente. Os jogadores ficavam por detrás da marca de giz e atiravam procurando acertar no alvo. Alguns eram exímios atiradores, de pulso tão seguro que podiam deter um animal assustado em pleno galope atirando-lhe entre as patas duas bolas de pedra atadas por uma corda. Mas Hermelinda tinha uma maneira imperceptível de fugir com o corpo, de escapar-se para que no último instante a moeda perdesse o rumo. As que caíam dentro do círculo de giz pertenciam à mulher. Se alguma entrasse na porta, dava ao seu dono um tesouro de sultão, duas horas detrás da cortina, sozinho com ela, em completo regozijo, para procurar consolo por todas as penúrias passadas e sonhar com os prazeres do paraíso. Diziam, os que tinham vivido essas duas horas preciosas, que Hermelinda conhecia antigos segredos de amor e que era capaz de levar um homem até à porta da morte e trazê-lo de volta transformado em sábio.

 

Até ao dia em que apareceu Paulo, o asturiano, muito poucos tinham ganho essas duas horas prodigiosas, embora vários tivessem desfrutado algo semelhante mas não por uns cêntimos, mas por metade do salário. Por essa altura ela tinha acumulado uma pequena fortuna, mas a ideia de se retirar para uma vida mais convencional não lhe tinha ainda ocorrido, na verdade tirava muito partido do seu trabalho e sentia-se orgulhosa das faíscas felizes que podia oferecer aos peöes. Paulo era um homem seco, de ossos de frango e mãos de menino, cujo aspecto físico contradizia com a tremenda tenacidade do seu temperamento. Ao lado da opulenta e jovial Hermelinda ele parecia um tipo metediço, envergonhado, mas aqueles que ao vê-lo chegaram a pensar que podiam rir-se um bom bocado à sua custa, tiveram uma surpresa bem desagradável. O pequeno forasteiro reagiu como uma víbora à primeira provocação, disposto a bater-se com quem lhe ficasse pela frente, mas a briga esgotou-se antes de começar, porque a primeira regra de Hermelinda era que debaixo do seu tecto não se lutava. Estabelecida a sua dignidade, Paulo sossegou. Tinha uma expressão decidida e algo fúnebre, falava pouco e quando o fazia tornava-se evidente a sua pronúncia espanhola. Tinha saído da sua pátria escapando à Polícia e vivia do contrabando através dos desfiladeiros dos Andes. Até então tinha sido um eremita carrancudo e brigão, que se estava nas tintas para o clima, as ovelhas e os Ingleses. Não pertencia a nenhum lado e não reconhecia amores nem deveres, mas já não era jovem e a solidão ia-lhe entrando nos ossos. Por vezes despertava ao amanhecer sobre o chão gelado, embrulhado na sua manta negra de Castela e com a sela por almofada, sentindo que lhe doía todo o corpo. Não era uma dor de músculos entumecidos, mas de tristezas acumuladas e abandono. Estava farto de vaguear como um lobo, mas também não estava feito para a mansidão doméstica. Chegou àquelas terras, porque ouviu o boato de que no fim do mundo havia uma mulher capaz de torcer a direcção do vento, e quis vê-la com os seus próprios olhos. A enorme distância e os perigos do caminho não conseguiram fazê-lo desistir e quando por fim se encontrou na adega e teve Hermelinda ao alcance da mão, viu que ela era feita do mesmo metal rijo que ele e decidiu que depois de uma viagem tão longa não valia a pena continuar a viver sem ela. Sentou-se num canto do quarto a observá-la com cuidado e a calcular as suas possibilidades.

 

O asturiano tinha tripas de aço e pôde emborcar vários copos do licor de Hermelinda sem que as lágrimas lhe viessem aos olhos. Não aceitou tirar a roupa para a Roda de São Miguel, para o Mandandirun-dirun-dán nem para as outras coisas que lhe pareceram francamente infantis, mas no final da noite, quando chegou o momento culminante do Sapo, cuspiu o mau sabor do álcool e juntou-se ao coro de homens à volta do círculo de giz. Hermelinda pareceu-lhe formosa e selvagem como uma leoa das montanhas. Sentiu acordar o instinto de caçador e a vaga dor do desamparo, que lhe tinha atormentado os ossos durante toda a viagem, tornou-se gostosa antecipação. Viu os pés calçados com botas curtas, as meias grossas presas com elásticos abaixo dos joelhos, os ossos grandes e os músculos tensos daquelas pernas de ouro entre as ondas dos saiotes amarelos e soube que tinha uma oportunidade de a conquistar. Tomou posição, fincando os pés no chão e inclinando o corpo até encontrar o próprio eixo da sua existência, e com uma olhadela rápida paralisou a mulher no seu lugar e obrigou-a a renunciar aos seus truques de contorcionista. Ou talvez as coisas não sucedessem assim, talvez tivesse sido ela que o escolheu entre os outros para a aquecer com o presente da sua companhia. Paulo aguçou a vista, expirou todo o ar do peito e depois de alguns segundos de concentração absoluta atirou a moeda. Todos a viram fazer um arco perfeito e entrar certeira no lugar preciso. Uma salva de palmas e assobios de inveja celebrou a façanha. Impassível o contrabandista ajeitou o cinturão, deu três grandes passos em frente, agarrou na mão da mulher e pô-la de pé, disposto a provar-lhe em precisamente duas horas, que também ela já não podia prescindir dele. Saiu quase a arrastando e os outros ficaram a olhar os relógios e a beber, até que passou o tempo do prémio, mas nem Hermelinda nem o estrangeiro apareceram. Passaram três horas, quatro, toda a noite, amanheceu e soaram os sinos da gerência chamando para o trabalho, sem que se abrisse a porta.

 

Ao meio-dia os amantes saíram do quarto. Paulo não trocou um só olhar com ninguém, selou o seu cavalo, outro para Hermelinda e uma mula para carregar a bagagem. A mulher vestia calças e casaco de viagem e levava atada à cintura uma bolsa de lona cheia de moedas. Tinha uma nova expressão nos olhos e um bambolear satisfeito no traseiro inesquecível. Acomodaram cuidadosamente os objectos no lombo dos animais, montaram e começaram a andar. Hermelinda fez um gesto vago de despedida aos seus desolados admiradores e seguiu Paulo, o asturiano, pelas planícies desoladas sem olhar para trás. Nunca mais regressou.

 

Foi tanta a consternação provocada pela partida de Hermelinda que para divertir os seus trabalhadores a Companhia Pecuária instalou baloiços, comprou dardos e flechas para o tiro ao alvo e mandou vir de Londres um enorme sapo de loiça pintado com a boca aberta, para que os peöes afinassem a pontaria atirando-lhe moedas. Mas face à indiferença geral, estes brinquedos acabaram por decorar o terraço da gerência, onde os Ingleses ainda os usam para combater o tédio dos fins de tarde.

 
Isabel Allende

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publicado às 20:48

Mafalda e a liberdade de expressão

 

Os portugueses somos definitivamente um povo estranho,  de repente parece que a crise, o orçamento, até o futebol, foram engolidos por uma ideia.... liberdade de expressão... na realidade foi tudo engolido por uma providência cautelar e umas edições de um jornal.... mas a malta faz de conta que todo este barulho é pela liberdade de expressão.

 

Para um país que viveu 40 anos a só ler, ouvir ou ver o que era permitido por uns senhores que utilizavam um lápis azul para decidir o que se passava ou não em Portugal e  no mundo, esta conversa sobre liberdade de expressão é um pouco estranha mesmo.. e que o país quase pare por causa da divulgação contra toda a lógica e as leis, da transcrição de umas escutas telefónicas, é de pasmar.

 

Na blogosfera circulou uma petição em prol da liberdade de expressão e para grande espanto meu, foi convocada uma manifestação de bloguers para o dia da entrega das assinaturas. Está visto que os promotores da coisa não conhecem este mundo virtual. Pensar que os bloguers iriam abandonar a segurança que lhes dá o anonimato que é estar por trás de um computador, para ir para a praça publica fazer barulho é estar mesmo a leste deste mundo. Isto para já não falar de que possa partir da blogosfera, o meio que em si personifica a liberdade de expressão e a democracia da comunicação, uma iniciativa destas, um completo contra-senso.

 

Confesso que a mim o facto de que as escutas apareçam assim na comunicação social, ao sabor dos interesses do momento, já sejam estes do governo ou da oposição, de uma forma completamente impune e ao arrepio de qualquer lógica, me causa alguns escalafrios. Que justiça temos que permite que estas coisas aconteçam? Existe... bem, deveria existir, algo chamado segredo de justiça, e que algo se chama presunção de inocência, e o direito à preservação da intimidade, de um momento para o outro tudo isto é simplesmente esquecido e as escutas aparecem nos jornais, ou no Youtube e todos passamos de espectadores a juízes em causa alheia. Quem tem o azar de ter telefonado na hora errada para o número errado, passa a condenado na praça pública num piscar de olhos e sem direito a recurso. 

 

Mas grave grave, é que eu vejo muita gente a pedir explicações e responsabilidades sobre o que aparece transcrito nos jornais... mas ainda não ouvi ninguém a tentar pedir explicações e investigações sobre como é que as escutas que estão em segredo de justiça vão parar aos jornais.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:47

Postais de Cabo Verde 2

por Jorge Soares, em 11.02.10

Crianças com carrinhos de arame em Cabo Verde

Imagem minha do momentos e olhares

 

No Postal anterior falei da Cidade, mas como devem imaginar não nos ficamos  pela Praia, até porque a nossa D. vem mesmo lá de bem do interior. Hoje vou tentar deixar neste postal uma ilustração do que é o interior da ilha.

 

A Primeira saída foi à cidade velha, que é um lugar que tem muito de velho e de cidade,.... nada. Frente a uma pequena baía e uma praia de rocha negra, há um largo com um cruzeiro, um restaurante, um posto de turismo e algumas, poucas casas. Algures, há muito tempo, foi ali a primeira capital de Cabo Verde e um importante entreposto, de esses tempos e para além do cruzeiro onde ainda estão as argolas onde prendiam os escravos, restam algumas ruínas entre as árvores. Dispúnhamo-nos a visitar as ruínas do convento e da pousada, que ficam umas centenas de metros para o interior, quando reparei que alguém nos seguia, à primeira vista fiquei preocupado, era um lugar ermo e solitário. Quando estávamos prestes a chegar ao nosso destino, o homem abordou-nos, para ver as ruínas tínhamos que pagar...  mais ou menos 5 Euros cada um.... não pagamos, limitamo-nos a dar meia volta, achei um enorme exagero pagar 5 Euros para ver o que já estávamos a ver desde o caminho e que não era mais que muros de pedra a delimitar uma zona com árvores de manga.

 

A Segunda vez fomos ao lado norte da ilha ao lugar de onde vinha a D., é uma viagem de uma hora que dá para ver que quanto mais nos afastamos da cidade mais distante ficamos do mundo que conhecemos. A velha estrada dos  tempos coloniais é de paralelos e vai passando pelos vales que agora estão secos, mas que aqui e ali estão salpicados de pequenas plantações, é de aqui que o ano inteiro saem os vegetais que alimentam o mercado do Plateau. Junto à estrada um campo de milho e feijão, com vacas muito magras a alimentar-se do que resta da palha seca...e balizas de futebol. Para aproveitar a época das chuvas até o campo de futebol é plantado. Mais à frente uma porca com 3 ou 4 leitões atravessa a estrada em frente a uma pequena casa, mais à frente um grupo de crianças com 3 ou 4 pilões moem o grão à beira da estrada ...e por todos lados, crianças, muitas crianças... e pobreza, e miséria, muita miséria....e um enorme nó no coração, porque há alturas da vida em que não podemos ser mais que aquilo que somos.

 

No Sábado, quando  já estava tudo tratado e finalmente tínhamos alguma paz de espírito fomos convidado para ir à praia. Por volta da hora do almoço chegaram os pescadores que tinham saído a meio da noite, cada um em seu barco a remos. Os peixes são de um colorido que nunca tinha visto, vermelhos, amarelos, azuis, mas são poucos... muito poucos para quem passou 12 horas no mar a remar, na praia esperavam as mulheres e as crianças que iriam vender o fruto da pescaria. 

 

Entre o peixe havia algumas moreias que eu nunca tinha provado, e passados uns minutos chegou uma dose de moreia frita, que foi das coisas mais deliciosas que já comi.

 

E de novo fiquei com vontade de lá voltar, com outro tempo e outro espírito, porque há lugares que nos encantam, pela sua beleza, pelas suas pessoas e pela sua simplicidade.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:23

Postais de Cabo Verde

por Jorge Soares, em 09.02.10

Achada de Santo António, Praia, Cabo Verde

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Normalmente enviamos os postais quando nos encontramos nos lugares... eu até fui carregado com o portátil, afinal vivemos na era da internet e estamos sempre comunicáveis desde qualquer lugar.... bom, mais ou menos. Este será portanto um postal especial, porque é enviado desde o conforto da sala da minha casa... um postal em que para além de vós, também eu estou à distância do lugar e do momento.... mas não deixa de ser um postal.. veremos se o consigo ilustrar.

 

É difícil descrever a cidade da Praia, a primeira impressão é que está tudo a meio construir: as ruas, os prédios, as casas, e o que não está meio construído, está degradado e a precisar de obras. As ruas são de paralelepípedos e exceptuando as mais centrais, os passeios são de terra ressequida. Mas mesmo assim a cidade é limpa, não há lixo pelo chão nem pelos cantos.

 

As pessoas são simpáticas e por norma recebem bem, mas a vida é para levar com alguma calma, o stress é algo que existe algures na Europa, não no centro do atlântico.

 

Quando andamos pela cidade a sensação com que ficamos é que a Praia é a cidade dos serviços e repartições públicas, porta sim porta não há algo ligado ao governo, o comercio tradicional há muito que deu lugar às lojas dos chineses e para além delas pouco mais há, ainda hoje me pergunto de que vive tanta gente.

 

Fazendo jus ao seu nome, é uma cidade que fica frente ao mar, mas ao contrário do que se possa pensar não é uma cidade virada para o mar, apesar dos 24 ou 25 graus da agua do mar, as praias estão descuidadas e raramente se vê lá alguém, não há um porto e os raros pescadores que vi andavam aos pares em barcos a remo.

 

As coisas nos supermercados são caras, os produtos são os mesmos de cá e aos preços de cá ou mesmo mais caros, os restaurantes são a baratos, sendo que os mais caros são a preços de restaurantes médios de cá, come-se excelente peixe... mas lá está, não tenha pressa.

 

Depois há coisas que nos colocam os cabelos em pé, precisamos de vários documentos do tribunal, sentenças, autorizações, certidões, não houve um único que saísse bem à primeira, ou eram os nomes trocados, ou as datas, ou ambas as coisas, tudo vinha e voltava para ser corrigido e depois voltava, com outros erros... para nós que precisávamos dos documentos com tempo para entregar na embaixada e tratar de vistos e autorizações, era de arrepiar,... 

 

A internet no hotel era cara, muito cara, 6 Euros à hora, dispus-me a pagar....  é claro que wireless a funcionar só na recepção e ali à volta, funcionava.... mas muito lentamente, demorei 35 minutos a colocar uma dúzia de fotografias online e enviar um mail... e lá se foram as minhas ideias de escrever uns posts.... além de que no segundo dia, qualquer tentativa de utilizar o mail esbarrava numa página de sites bloqueados... desisti de vez.

 

Mesmo assim, eu gostei, e quero lá voltar, com tempo e disposição para desfrutar da paz e do clima.

 

Fotografia do Largo que fica em frente à Embaixada Portuguesa na Achada de Santo António, ao fundo vemos o edifício da Assembleia nacional de Cabo verde

 

Jorge Soares

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publicado às 21:44

Crianças em Cabo Verde

 

Tudo começou quando ela queria uma mana, na verdade tudo começou antes, mas até aquele dia eu não estava para aí virado, mas há apelos que são maiores que nós, apelos que são maiores que o coração, desde então passou mais de um ano e meio, passamos pela avaliação e neste blog falou-se muito sobre adopção...e o sonho foi crescendo, um sonho feito de alentos e desalentos, momentos altos e baixos.... agora o sonho cumpriu-se.

 

Chegamos no Domingo de Cabo Verde e connosco veio a D., uma menina linda e sorridente com uns olhos negros expressivos.

 

Cabo Verde é um país de pessoas simpáticas, um país de pessoas que sabem receber, mas é um país que está a muita distância dos padrões da vida ocidental que conhecemos e a que estamos habituados, um país em que as pessoas sobrevivem. Para terem uma ideia, o ordenado mínimo é de 9000 Escudos por mês, 90 Euros, mas dizia-me um dos taxistas que conhecia pessoas que viviam com metade disso.

 

Conheço várias pessoas que optaram pela adopção internacional e por Cabo Verde, já tinha ouvido várias histórias, mas nada nos prepara para a realidade que encontramos, há que passar pelas situações para as podermos sentir e entender... e acreditem, há coisas que são difíceis de enfrentar. Ver as condições em que a minha filha vivia tocou-me a alma e tocou-me muito mais saber que há muitíssimas mais crianças em piores condições.

 

Em Cabo verde os processos de adopção não funcionam como cá, não há segurança social que encaminhe as crianças, não há instituições onde elas estejam, na maior parte dos casos elas estão com a família, com os pais ou com familiares, ou com famílias que as ajudam, e vem directamente de uma família para a outra.

 

É evidente que em 99% dos casos não há registos de saúde, nunca há avaliações prévias, não há vacinas, não há nada, há uma enorme miséria, há crianças que chegam a Lisboa e vão directamente para o Hospital, tal era o estado em que se encontravam.

 

Felizmente a nossa D. é uma menina feliz e sorridente, que nos adoptou tão rápidamente como nós a ela, ela é a prova de que eu estava errado, afinal, os sonhos existem....e tornam-se realidades.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:23

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