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Férias em Portugal????

por Jorge Soares, em 16.06.10

Praia da Rocha

 

O tema já não é nada actual, mas não o vou deixar passar, principalmente porque este fim de semana lembrei-me do senhor presidente e das suas palavras, que foram:

 

“Os portugueses devem fazer turismo no seu próprio país. é uma ajuda preciosa para ultrapassar a situação difícil em que o país se encontra. Turismo no estrangeiro significa importações de serviços e consequentemente agravamento da dívida externa de Portugal, que é um dos nossos maiores problemas”

 

Não vou discutir aqui se ele deveria ou não ter tiradas destas, só de pensar que o primeiro ministro britânico ou o amigo Zapatero tenham uma tirada destas, dá-me arrepios na espinha... mas pronto, estamos em pré campanha e estas coisas caem bem. O que eu queria discutir aqui é se devemos ou não dar ouvidos ao senhor.

 

Este fim de semana voltei ao Alentejo, vejamos em que condições fazemos turismo em Portugal. Não sei se já repararam, mas o Alentejo é caro que se farta, qualquer turismo de habitação médio custa muito mais de cem Euros por noite e com 3 crianças... a alternativa era tentar os bungalows dos parques de campismo. Custam quase o mesmo dos turismos de habitação.. e mesmo assim foi difícil arranjar vagas.

 

No Domingo passamos pela praia, é verdade que poderia ter escolhido outra, mas aquela era próxima  e estava bem assinalada na estrada. Lá chegados o que verificamos: Um bar de praia que funciona a gerador e que não tem água corrente, uma praia com bastante gente mas que apesar de ter um bar e portanto um concessionário,  não é vigiada. No fim paguei um euro por um café...  e vim-me embora, ali não havia condições.

 

É bonito querermos passar férias em Portugal, mas é preciso ver se o país nos dá condições para tal. É claro que o cenário que descrevo não é o geral, há excelentes praias na costa alentejana.. mas é verdade que o Alentejo é muito caro, é difícil arranjar alojamento e há muito por fazer para ser uma região que atraia as pessoas.

 

Mas falemos das férias em si, orgulho-me de conhecer o país todo, de norte a sul, de Sagres a Bragança, por norma tenho férias repartidas sendo que os 15 dias de Agosto são quase sempre a acampar... e no verão acampar com o mínimo de condições é no estrangeiro. 99% dos parques de campismo  deste país não cumprem as normas,  a maior parte do tempo são uma espécie de bairro de lata formado por caravanas às quais as pessoas vão juntando coisas até que se convertem numa casa de férias barata. No verão estão superlotados e sem as condições mínimas para acampar.  No pouco espaço que resta do bairro de caravanas amontoam-se as tendas em qualquer espaço livre, sem regras e sem o mínimo respeito por quem está à volta.  Basta passar a fronteira e tudo isto muda como por arte de magia, em Espanha as normas cumprem-se, as entradas são limitadas, o espaço é respeitado..e não há bairros de caravanas nos parques... porque o espaço é para acampar.

 

Meus senhores, não basta pedir aos Portugueses que passem férias em Portugal, é preciso primeiro ver se há condições para isso. Não se pode pedir aos portugueses que passem férias cá quando fica mais barato ir às Caraibas, ou ao Sul de Espanha.. e já nem vou falar do profissionalismo e da forma de atender que encontramos por cá... disso já falei aqui e aqui

 

Mas foi engraçado perceber que todos os nossos politicos vão passar férias por cá... pelo menos foi isso que disseram na televisão... Pois, está bem.

 

Jorge Soares

publicado às 22:31

Das flores às vuvuzelas... recordar é viver!

por Jorge Soares, em 15.06.10

 

Flores silvestres da minha infância

 

Mais fotografias minhas no Momentos e olhares

 

 

Há uma série de assuntos sobre os quais quero aqui falar, mas hoje é um daqueles dias em que não me sinto capaz de alinhavar mais que duas frases seguidas... em lugar de escrever fui tentar colocar um pouco de ordem nas milhares de fotografias que tirei nos dois meses de licença...  e encontrei estas... que me fizeram recordar o quanto gosto de coisas simples.

 

Ali na fotografia elas parecem enormes, uma boa máquina e a lente adequada fazem milagres, na verdade são umas flores pequeninas e simples.  Fizeram-me regressar aos dias em que corria solto por montes e vales, na primavera elas invadiam todos os muros de pedra da aldeia, existem outras cores, mas o predominante eram este dois tons que consegui apanhar na fotografia. Os muros ficavam cobertos de branco e lilás.

 

Hoje foi dia de futebol... a coisa não correu lá muito bem e cheira-me que daqui para  a frente só vai piorar.... assim,  é melhor mudar de assunto.... falemos da já famosa e infernal vuvuzela.

 

O mundo acordou agora para esta gaita infernal, não sei se vão acreditar em mim ou não, mas a vuvuzela, ou uma coisa parecida, fez parte da minha infância. Tinha eu 6 ou 7 anos, o meu pai era mecânico numa empresa de autocarros, um dia de inverno entre o Natal e o Ano Novo, chegou a casa com uma corneta, não sei  onde a terá ido arranjar, mas imagino que faria parte de alguma buzina de um autocarro.

 

Lembro-me que demorei dias a conseguir tirar algum som da coisa, o meu pai bem se esforçava, eu soprava, soprava, mas nada. O objectivo era conseguir fazer algum barulho com aquilo até à noite da passagem de ano, altura em que me juntava aos rapazes mais velhos do lugar e iamos por todos os caminhos da aldeia com tachos, cornetas, qualquer coisa que fizesse barulho para escorraçar o ano velho.

 

No primeiro ano não consegui mesmo, mas lembro-me de ser meia noite, estar na outra ponta do lugar e ouvir perfeitamente que o meu pai festejava a passagem de ano desde a varanda de minha casa. No ano a seguir eu mesmo infernizei a vida à aldeia... Foi a minha última passagem de ano por aqueles caminhos, no ano seguinte estava a muitos milhares de Kms... e quando finalmente voltei... os tempos eram outros e nem eu nem ninguém escorraçava o ano velho pelos caminhos da aldeia.

 

Jorge Soares

publicado às 22:48

Em crise corta-se na comida e fica-se com o telemóvel

Imagem do Público

 

 

Já lá vão uns anos desde essa altura, ao mesmo tempo que estudava em Lisboa, eu era responsável pela informática de uma pequena empresa em Oliveira de Azeméis, que entre outros negócios, geria um supermercado. Eram os tempos do cavaquistão, da Europa choviam apoios, havia emprego para todos e ninguém falava de crise. Mas há coisas que aparentemente não mudam.

 

Ficaram-me na memória as conversas com as colegas da loja sobre as pessoas que chegavam à caixa e não tinham dinheiro suficiente para tudo o que tinham despejado para o carrinho das compras. Quando chegava a altura de decidir o que ficava, quase sempre o primeiro era a carne, depois o peixe, depois os restantes artigos alimentares, quase nunca eram os champôs, amaciadores ou artigos de maquilhagem. Ficava sempre incrédulo mas as histórias repetiam-se.

 

Pelos vistos as crises não mudam assim tanto os comportamentos das pessoas, hoje uma noticia do Público dizia o seguinte:

 

Crise: Famílias cortam sobretudo no supermercado e na farmácia

 

Segundo a Deco, as famílias portuguesas que se encontram com dificuldades para pagar os seus compromissos no primeiro que cortam é na comida, passando a comprar marcas mais baratas, deixam simplesmente de comprar medicamentos mesmo que estes sejam receitados pelo médico, mas raramente cortam em serviços e telecomunicações e simplesmente negam-se a vender o carro.

 

Somos um país em que vale mais parecer que ser, para a maioria das pessoas abdicar do telemóvel ou dos canais do cabo é descerem o nivel de vida, e tentam manter estas coisas mesmo quando não há dinheiro suficiente para comer.

 

Todos ouvimos falar da crise mas ninguém ouviu falar de aumento de passageiros dos transportes públicos, ou de diminuição das filas nas entradas das cidades. Estamos em crise, mas quando durante a semana passada tentámos arranjar bungalows para passar este fim de semana no Alentejo, verificamos com espanto que mesmo a mais de 100 Euros por noite, há muito que estava tudo cheio.... isto com previsão de feriados e fim de semana molhados.

 

Ontem passaram uma reportagem sobre uma loja em que oferecem roupa em Lisboa, as pessoas têm vergonha e não deixaram que lhes filmassem as caras, resultado, filmaram os pés..e não pude deixar de reparar que todas as senhoras andavam de sandálias e com as unhas dos pés muito bem pintadas... pobres mas vaidosas...e o verniz é barato... pena que não o ofereçam na loja.

 

A verdade é que a maioria dos portugueses dá por conquistado tudo o que tem, não faz contas, não abdica de nada, acha que vai ter sempre a vida que tem e nunca pensa que amanhã há mais dias... e a julgar pelo que diz a DECO, mesmo quando é apanhado pelas curvas da vida, nega-se a aceitar a realidade.... quer-me parecer que com pessoas assim, a crise veio mesmo para ficar.

 

Jorge Soares

publicado às 21:39

Onde comprar os chips para as SCUTS?

por Jorge Soares, em 14.06.10

Onde comprar os chips para as SCUTS

 

Desde que neste post perguntei se deveríamos ou não pagar as SCUTS, tenho tido o blog invadido por gente que cà chega à procura de informação sobre onde comprar os benditos chips. Chips estes  que afinal serão identificadores parecidos com os da Via Verde  e que permitirão circular pelas autoestradas que antes eram SCUts ( vias sem custo para os utilizadores) e que supostamente a partir de 1 de Julho serão pagas.

 

Hoje finalmente fez-se luz, segundo as ultimas noticias,aquiaqui e aqui, os benditos aparelhos poderão ser encomendados nas lojas da Via Verde e  dos CTT.... para além de um site da internet que haverá de aparecer um destes dias.

 

Se é um dos felizardos que mora perto das scuts que não foram contempladas por esta lei, Algarve (Via do Infante), da Beira Litoral e alta, da Beira Interior e Interior Norte, saiba que segundo esta notícia do Público, o governo se prepara para as passar a cobrar também.

 

Mas eu não me apressaria, é que segundo esta noticia do JN, os partidos de oposição preparam-se para no dia 24 de Junho revogar a lei que foi hoje publicada em diário da Republica....  a ver vamos se esta vez o PSD está no governo ou na oposição.

 

Jorge Soares

publicado às 19:42

Conto: Ester Lucero

por Jorge Soares, em 12.06.10

Rosa

 

Levaram Ester Lucero numa maca improvisada, sangrando que nem um boi, os olhos escuros abertos de terror. Ao vê-la, o doutor Angel Sánchez perdeu pela primeira vez a sua calma proverbial e não era para menos, pois estava apaixonado por ela desde o dia em que a viu, quando era ainda uma menina. Nesse tempo ela ainda não largara as bonecas e ele, por seu lado, regressava envelhecido mil anos da sua última Campanha Gloriosa. Chegou à povoação à frente da sua coluna, sentado no tejadilho de uma camioneta, com uma espingarda sobre os joelhos, uma barba de meses e uma bala alojada para sempre na virilha, mas tão feliz como nunca estivera antes nem depois. Viu a rapariga agitando uma bandeira de papel vermelho, no meio da multidão que aclamava os libertadores. Naquele momento ele tinha trinta anos e ela andava pelos doze, mas Angel Sánchez adivinhou pelos firmes ossos de alabastro e pela profundidade do olhar da menina, a beleza que em segredo se estava a desenvolver.

 

Observou-a do alto do seu veículo convencido que era uma visão provocada pelo calor dos pântanos e pelo entusiasmo da vitória, mas como nessa noite não encontrou consolo nos braços da noiva de ocasião que lhe coube por turno, compreendeu que devia sair para buscar aquela criança, pelo menos para comprovar a sua condição de miragem. No dia seguinte, quando se acalmaram os tumultos da rua pela celebração e começou o trabalho de ordenar as coisas e varrer os escombros da ditadura, Sánchez saiu da aldeia a correr. A sua primeira ideia foi visitar as escolas, mas verificou que estavam fechadas desde a última batalha, de maneira que teve de bater às portas uma por uma. Ao fim de vários dias de paciente peregrinação e quando já pensava que a rapariga tinha sido um engano do seu coração extenuado, chegou a uma casa minúscula,

pintada de azul e com a frontaria perfurada pelas balas, cuja única janela se abria para a rua sem mais protecção do que umas cortinas de flores.

 

Chamou várias vezes sem obter resposta, então decidiu entrar. O interior era um único aposento, pobremente mobilado, fresco e na penumbra.

Atravessou a sala, abriu uma porta e encontrou-se num amplo pátio atulhado de móveis e ferro-velho com uma rede pendurada debaixo de uma mangueira, um tanque para lavar roupa, um galinheiro ao fundo e uma quantidade de latas e potes de barro, onde cresciam ervas, verduras e flores. Encontrou-se ali, por fim, com quem julgava ter sonhado. Ester Lucero estava descalça, com um vestido de linho ordinário, a sua floresta de cabelo atada na nuca com um atacador de sapatos, ajudando a avó a estender roupa ao sol. Ao vê-lo, ambas recuaram num gesto instintivo, porque tinham aprendido a desconfiar de quem calçava botas.

 

- Não se assustem, sou um companheiro - apresentou-se ele com a boina sebenta na mão.

 

A partir desse dia, Angel Sánchez limitou-se a desejar Ester Lucero em silêncio, envergonhado daquela paixão inconfessável por uma rapariguinha impúbere. Por ela recusou ir para a capital quando se repartiu o bolo do poder, e preferiu tomar a seu cargo o único hospital daquela povoação esquecida. Não aspirava a consumar o amor mais para lá da sua imaginação.

 

Vivia de ínfimas satisfaçöes: vê-la passar a caminho da escola, cuidar dela quando apanhou sarampo, dar-lhe vitaminas nos anos em que o leite, os ovos e a carne só se conseguiam para os mais pequenos e os outros tinham de conformar-se com banana e milho, visitá-la no seu pátio onde se sentava numa cadeira a ensinar-lhe a tabuada sob o olhar vigilante da avó.

 

Ester Lucero acabou por lhe chamar tio à falta de nome mais apropriado, e a velha foi aceitando a sua presença como outro dos inexplicáveis mistérios da Revolução.

 

- Que interesse pode ter um homem instruído, doutor, chefe do hospital e herói da pátria na conversa de uma velha e nos silêncios da neta? - perguntavam as comadres da aldeia.

 

Nos anos seguintes, a rapariga cresceu como sucede quase sempre, mas Angel Sánchez julgou que no seu caso era uma espécie de milagre e que só ele podia ver a beleza que amadurecia escondida debaixo dos vestidos inocentes confeccionados pela avó na sua máquina de coser. Tinha a certeza que à sua passagem se excitavam os sentidos de quem a via, tal como acontecia com os seus, por isso achava estranho não encontrar um torvelinho de pretendentes à volta de Ester Lucero. Vivia atormentado por sentimentos enrolados: receios naturais de todos os homens, uma constante melancolia - fruto do desespero - e a febre do inferno que o atacava à hora da sesta, quando imaginava a menina nua e húmida chamando-o da sombra do quarto com gestos obscenos. Ninguém soube dos seus atormentados estados de ânimo. O controlo que exercia sobre si mesmo tornou-se uma segunda natureza e assim adquiriu fama de homem bom. Finalmente, as matronas da aldeia cansaram-se de procurar noiva para ele e acabaram por aceitar que o médico era um pouco esquisito.

 

- Não parece maricas - cochicharam -, mas talvez a malária ou a bala que tem no entrepernas lhe tenha tirado para sempre o

gosto pelas mulheres.

 

Angel Sánchez amaldiçoava sua mãe, que o tinha trazido ao mundo vinte anos mais cedo, e ao seu destino, que lhe semeara o corpo e a alma com tantas cicatrizes. Pedia que algum capricho da natureza alterasse a harmonia e apagasse a luz de Ester Lucero, para que ninguém suspeitasse que era a mulher mais formosa deste mundo e de qualquer outro. Por isso, na quinta-feira fatídica, quando a levaram para o hospital numa maca com a avó a caminhar à frente e uma procissão de curiosos atrás, o doutor deu um grito visceral, quando tirou o lençol e viu a jovem trespassada por uma ferida horrível, julgou que de tanto desejar que ela nunca pertencesse a nenhum homem tinha provocado aquela catástrofe.

 

- Trepou à mangueira do pátio, escorregou e caiu espetada na estaca onde atamos o ganso - explicou a avó.

- Pobrezinha, ficou atravessada como um vampiro. Não foi nada fácil descravá-la - esclareceu um vizinho que ajudava a transportar a maca.

 

Ester Lucero fechou os olhos e queixou-se muito ao de leve. Desde esse instante, Angel Sánchez bateu-se em duelo pessoal contra a morte. Fez tudo para salvar a jovem.

 

Operou-a, deu-lhe injecçöes, fez-lhe transfusöes, deu-lhe o seu próprio sangue, encheu-a de antibióticos, mas dois dias passados era evidente que a vida escapava pela ferida como uma corrente imparável. Sentado numa cadeira junto da moribunda, esmagado pela tensão e pela tristeza, apoiou a cabeça aos pés da cama e por alguns minutos dormiu que nem um recém-nascido.

 

Continua

 

Isabel Allende in Contos de Eva Luna

publicado às 21:00

Origem do dia de Portugal

por Jorge Soares, em 10.06.10

Bandeira de Portugal

 

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

Todos sabemos que hoje é feriado em Portugal, mas será que sabemos qual a origem do Dia de Portugal?, Desde quando se festeja e o porquê de se ter escolhido o dia em que se presume morreu Camões para o festejar? Eu não fazia a menor ideia.

 

O dia de Portugal só passou a ser festejado após a implantação da República em 1910. Na altura e num tentativa de se criar um estado mais laico foram eliminados alguns dos feriados religiosos e decretados os seguintes dias feriados nacionais:

 

1º de Janeiro, que era o dia da Fraternidade Universal;

31 de Janeiro, que evocava a revolução – aliás, falhada - do Porto, e que portanto era consagrado aos mártires da República;

5 de Outubro, vocacionado para louvar os heróis da República;

1º de Dezembro, que era o Dia da Autonomia e o Dia da Bandeira;

25 de Dezembro, que passou a ser considerado o Dia da Família, tentando também laicizar essa festa religiosa que era o Natal"

 

Para além destes dias, os municípios podiam escolher um dia do ano para evocar as suas festas tradicionais, os republicanos de Lisboa escolheram para feriado Municipal o dia 10 de Junho em que se festejava o dia de Camões.

 

Segundo Cecília Meireles "Camões representava justamente o génio da pátria, representava Portugal na sua dimensão mais esplendorosa e mais genial". Era essencialmente este o significado que os republicanos atribuíam ao 10 de Junho, isto "apesar de ser um feriado exclusivamente municipal no tempo da República". Os republicanos de Lisboa tentaram também com este feriado retirar alguma importância aos festejos do Santo António, de novo numa tentativa de afastamento das festas religiosas.

 

Com o advento do estado novo o dia passou a ser feriado nacional e adquiriu um sentido nacionalista em que se exaltava o império e a sua importância.

 

Fonte JPN

 

Jorge Soares

publicado às 21:12

Mundial da África do sul

 

Faltam dois dias para o primeiro jogo do mundial de Futebol, ontem a noticia do dia era a lesão no ombro  do Nani, hoje a noticia do dia fala do mundo real, uma noticia que veio recordar que na África do Sul há vida para além do futebol, para o bem e para o mal.

 

Dois jornalistas portugueses e um espanhol que acompanham a selecção portuguesa de futebol no Mundial 2010 da África do Sul foram hoje assaltados por homens armados, mas estão bem.

 

Até hoje este tinha sido o mundial das vuvuzelas e do seu infernal barulho, hoje voltamos à triste realidade, a África do sul é um pais violento, morrem dezenas de pessoas diariamente, uma mulher é violada a cada 17 segundos. Até hoje a mensagem que os jornalistas tentavam passar era a de que se sentiam seguros. Não percebo muito bem qual pode ser a sensação de segurança que se pode ter num sitio em que o tempo todo se está rodeado de guardas armados, em que os hoteis estão rodeados de arame farpado electrificado.. mas era o que eles diziam, sentiam-se seguros. Parece que acordaram para a realidade, a meio da tarde mais de um questionava o facto de a Fifa ter entregue a organização do mundial  a um país com estes níveis de violência.

 

Hoje ao fim do dia os entrevistados eram os jornalistas, a questão era o que achavam sobre a ideia de um Mundial em África, os mesmos que ontem se sentiam seguros, hoje achavam que a FIFA tinha cometido um erro, África não está preparada para um mundial, não há condições nem segurança.

 

Eu vivi num país com as condições de segurança da África do sul, a verdade é que insegurança ou não a vida segue. Eventos como este são oportunidades para os países darem saltos em frente, dinheiro, infraestruturas, experiência em organizações.. tudo isto são coisas que ficam e que sem o Mundial demorariam anos, muitos anos a chegar. Nós em Portugal tivemos essa experiência com a Expo e com o Euro..será que sem a Expo haveria uma ponte Vasco da Gama? e como seria a zona oriental de Lisboa?

 

A resposta é sim, é muito positivo que o mundial se realize na África do sul, porque todos tomamos consciência de que existem outras realidades bem diferentes da nossa, sim, porque estes eventos deixam sempre coisas positivas e sim, porque em África vivem seres humanos que merecem ter a sua parte da vida.

 

E o próximo é no Brasil, um dos poucos países que pode rivalizar com a África do Sul quanto a níveis de insegurança.

 

Jorge Soares

publicado às 22:19

Helena e Teresa casadas uma com a outra

 

Li no Público, A Teresa e a Helena casaram (uma com a outra), li e ouvi muita gente, muitos arautos da desgraça  que achavam que esta união entre dois seres humanos que simplesmente querem seguir a sua vida com os mesmos direitos que todos  os demais, seria o fim do sagrado sacramento do matrimónio. Pois eu, heterossexual casado e pai de filhos, não sinto nada, minto, sinto alegria por elas, não as conheço de lado nenhum, mas consigo sentir a alegria daqueles momentos em que se faz justiça,  em que as coisas são como devem ser, nem mais, nem menos.

 

É claro que haverá muita gente com azia, toda aquela gente que previa o fim da instituição casamento, o fim das relações normais, o fim da família... mas a azia é algo que tem cura fácil, e o mundo segue, e o meu casamento seguirá como até aqui, tão válido como qualquer outro e tão moral e justo como o delas.

 

Hoje Portugal conseguiu provar  ao mundo que pode ser um país tão justo como outro qualquer, um país que sabe respeitar o direito dos seus cidadãos a serem iguais,  nem mais nem menos, só iguais, porque elas são iguais a mim, iguais aos meus filhos, iguais a ti...pronto, está bem, elas tem alguns gostos diferentes, mas quem não os tem?

 

Li no Ionline que vão continuar a lutar, agora querem adoptar, prevejo uma luta bem mais difícil, porque ao contrário do casamento em que uma lei fez tudo mudar, na adopção não é só de uma lei que se trata, na adopção é de pessoas que estamos a falar, pessoas que apesar de todas as normas e leis, decidem quem pode ou não ter filhos... mesmo que mudem esta lei parva que dá direitos com uma mão e os tira com a outra, ninguém muda a mentalidade retrógrada da maioria das pessoas deste país.

 

Ainda a semana passada uma mãe contava que as assistentes sociais lhe tinham dito que o facto de ela já ser mãe a mandaria para o fim da lista, porque os casais jovens e sem filhos  estão sempre primeiro, isto apesar de não existir lei nenhuma que diga tal coisa. Para a segurança social a única lei que conta é o livre arbítrio dos seus funcionários.

 

Sou a favor da adopção por qualquer pessoa com capacidade para amar e criar um filho, mas prevejo um caminho muito difícil para este ou outro casal homossexual. Terão que esperar 4 anos para poderem entregar a candidatura, mesmo que já vivam em união de facto há 10 anos, ninguém lhes vai aceitar a candidatura antes dos 4 anos de casadas, depois, e no caso de a lei já ter mudado, passarão muito tempo a ser avaliadas, quase de certeza serão aprovadas, e depois, estarão anos, 5, 6, 7.. os anos que forem precisos até desistirem ou atingirem o limite de idade e nunca adoptarão... É claro que irão perguntar, reclamar, apresentar exemplos de casais que se inscreveram depois delas... de nada lhes vai servir, porque em ultimo caso há a resposta tipo... a resposta que cala qualquer reclamação: a adopção consiste em encontrar os pais certos para a criança e não o contrário. .... acreditem gostava sinceramente de estar enganado, mas as mentalidades não se mudam por decreto.

 

Jorge Soares

publicado às 21:07

Adopção.... não fique indiferente!!!

por Jorge Soares, em 06.06.10
Adopção

Há muito que não se fala por aqui de adopção, não é que a forma como está a decorrer o processo não justificasse já alguns posts,.. mas há alturas na vida em  que o silêncio é de ouro.... e haverá tempo no futuro..

Encontrei o Vídeo algures na internet, é interessante ver como os jovens olham para um tema como este, a mensagem final mostra que não chegaram fundo o suficiente na questão, mas é um excelente trabalho.


Jorge Soares

publicado às 22:25

Conto: Sonhos de alma acordaram-me o corpo

por Jorge Soares, em 05.06.10

 

Papoila.. sonhos de alma

 

Imagem do Momentos e Olhares

 

Sonhei-lhe. Ela estava no quintal, trabalhando no pilão. Pilava sabe o quê? Água. Pilava água. Não, não era milho, nem mapira, nem o quê. Água, grãos do céu.


Aproximei. Ela cantava uma canção triste, parecia que estava a adormecer a si própria. Perguntei a razão daquele trabalho.
- Estou a pilar.
- Esses são grãos?
- Sao tuas lágrimas, marido.


Foi então: vi que ali, naquele pilão, estava a origem do meu sofrimento. Pedi que parasse mas a minha voz deixou de se ouvir. Ficou cega a minha garganta. Só aquele tunc-tunc-tunc do pilão sempre batendo, batendo, batendo. Aos poucos, fui vendo que o barulho me vinha do peito, era o coração me castigando. Invento? Inventar, qualquer pode. Mas eu daqui da cela só vejo as paredes da vida. Posso sentir um sonho, perfume passante. Agarrar não posso. Agora, já troquei minha vida por sonhos. Não foi só esta noite que sonhei com ela. A noite antepassada, doutor, até chorei. Foi porque assisti minha morte. Olhei no corredor e vi sangue, um rio dele. Era sangue órfão. Sem o pai que era o meu braço cortado. Sangue detido como o dono. Condenado. Não lembro como cortei. Tenho memória escura, por causa dessas tantas noites que bebi.


E sabe, nesse tal sonho, quem salvou o meu sangue espalhado? Foi ela. Apanhou o sangue com as suas mãos antigas. Limpou aquele sangue, tirou a poeira, carinhosa. Juntou os pedaços e ensinou-lhes o caminho para regressar ao meu corpo. Depois ela me chamou com esse nome que eu tenho e que já esqueci, porque ninguém me chama. Sou um número, em mim uso algarismos não letras.


O senhor me pediu para confessar verdades. Está certo, matei-lhe. Foi crime? Talvez, se dizem. Mas eu adoeço nessa suspeita. Sou um vivo, não desses que enterra as lembranças. Esses têm socorro do esquecimento. A morte não afasta-me essa Carlota. Agora, já sei: os mortos nascem todos no mesmo dia. Só os vivos têm datas separadas. Carlota voou? Daquela vez que lhe entornei água foi na mulher ou no pássaro? Quem pode saber? O senhor pode?


Uma coisa eu tenho máxima certeza: ela ficou, restante, por fora do caixão. Os que choravam no enterro estavam cegos. Eu ria. É verdade, ria. Porque dentro do caixão que choravam não havia nada. Ela fugira, salva nas asas. Me viram rir assim, não zangaram. Perdoaram-me. Pensaram que eram essas gargalhadas que não são contrárias da tristeza. Talvez eram soluços enganados, suor do sofrimento. E rezavam. Eu não, não podia. Afinal, não era uma morta falecida que estava ali. Muito-muito era um silêncio na forma de bicho.

 

Mia Couto in Vozes adormecidas

 

Retirado de Contos de aula

publicado às 20:47



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