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Conto: O derradeiro eclipse

por Jorge Soares, em 18.09.10

O derradeiro eclipse

 

Justinho Salomão era ratazanado pela dúvida sem método. O homem sofria de ser marido, lhe pesavam as frias sombras da desconfiança. A mulher, Dona Acera, é linda de fazer crescer bocas, águas e noites. Devorado pelo ciúme, Justinho emagrecia a pontos de tutano. Lastimagro, cancromido, ele para se enxergar precisava procurar-se por todo o espelho. Justinho fazia comichão às pulgas. Um dia, o padre o avisou à saída da missa:
- “Seja prestável na atenção, Justinho: sua alma é como um fumo que não tem lugar onde caiba”.
Raios picassem o padre que nunca falava direito. O que o sacerdote sabia era do domínio incomum: Acera era demasiado mulher para esposa. Justinho suspeitava mais dos argumentos que dos factos. Seria a esposa mais desleal que um segredo? A resposta era sombra sem luz nem objecto. Em véspera de viagem, a suspeição do marido se agravava. Desta vez, um longo serviço de visitações o vai obrigar a geográfica ausência. Acera recebe, tristonha, a notícia:
- “Quanto tempo você me vai sozinhar?”
Um mês. A mulher contorce o bâton, abana as mechas. Até uma lágrima lhe crocodileja a pálpebra. O marido ainda mais se aflige perante tanto inconsolo. Será verdade ou conveniência de fingimento? Quem, tão novo, guelra tão ensanguentada, pode se aguentar em guardos de fidelidade? Na véspera de partir, o marido se decidiu certificar em garantia de lealdade. Primeiro se dirigiu à Igreja e solicitou socorro do padre português. O religioso torce as mãos, reticente e, como era hábito, barateou filosofia:
- “Bem, não sei. Para cruzar as pernas é preciso que haja duas...
- “Duas quê?
- “Duas pernas, ora essa”.
E prosseguiu divaguando, água em líquidos carreiros. Justinho esperava que o sacerdote o tranquilizasse. Lhe dissesse, por exemplo: vai em paz, você está bem casado, mais anelado que Saturno. Mas não, o padre ondulava a testa de suposições.
- “Não sei, não. Quem mais espreita não é o próprio sol?
- “Explique-se melhor, senhor padre.
- “Quer que seja mais claro? Me responda, então: onde o chão está mais limpo não é em casa de mortos?”
Justinho não respondeu. Voltou costas e saiu da igreja. Ainda se afastava e a voz irada do padre se faz ouvir:
- “Já sei para onde vais, criaturazita. Vais ter com o feiticeiro! Mas verás o que os meus poderes, aliás os poderes divinos, irão fazer com esse bruxo tropical!”
Um arrepio ainda atravessou Justinho. Mas ele não toldou passo no caminho para o feiticeiro e pediu que lhe assegurasse. Heresia bater nos ambos lados da porta? Se um mortal tem mais que um deus-pai não pode ter mais que uma crença?
- “Isso não posso. Vontade de mulher está acima dos meus poderes. Posso, sim, destinar castigo nos abusadores.
- “E como?
- “Hei-de tratar sua casa”.
E foi executado o tratamento: uma pequena cabaça à entrada da residência de madeira e zinco. Desrespeitoso que entrasse haveria de sofrer muitas consequências. O marido ainda tem acanhamento na consciência:
- “Eles... eles irão morrer?”
O feiticeiro ri-se. O que iria suceder eram inchaços e gases, tudo inflando as entranhas do culposo intrometedor. No final dos serviços e depois de saldadas as contas, o feiticeiro hesita no momento da despedida:
- “Você, antes de mim, consultou o senhor padre? E ele o que disse de mim?”
Justinho subiu as omoplatas, fosse um assunto superior a suas competências. O feiticeiro virou costas e se afasta, enquanto comenta:
- “Esse padre ainda vai chorar como a galinha. Conhece a história da galinha que comeu o colar das missangas só para a outra galinha não usar?”
Passaram-se dias e Justinho lá partiu. A viagem demora mais que ele pretende. Quando regressa, a mulher está à espera dele, à entrada. Vestido do gosto dele, penteada a presente, corpo todo na conveniência do marido. Até o botão cimeiro está desempregado, distraído sobre o decote. Acera, toda ela, está às ordens da saudade dele. Se engolfinham, enredando pernas nos suspiros, confundindo lábios e suores, vidas e corpos.

 

Continua.

 

Mia Couto em Contos do Nascer da terra

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:00

Mourinho na selecção?... não!!!!

por Jorge Soares, em 16.09.10

Mourinho na selecção por dois jogos?

Imagem do Público

 

Quando hoje de manhã  li a notícia nem queria acreditar, a primeira coisa que pensei foi, mas está tudo doido? A esta hora ainda acredito que tudo isto não passe de mais um daqueles boatos  que se devem ao facto de termos 3 jornais desportivos diários.. quando não há noticias, há boatos... é por isso que passamos o verão a ler nomes de jogadores em letras grandes na capa dos jornais.. que depois terminam a jogar noutro país qualquer. Ontem um jornal com toda a tranquilidade do mundo, dava como certo Paulo Bento na selecção... hoje é o Mourinho por dois jogos.

 

Tenho José Mourinho como uma pessoa muito inteligente, alguém com os pés na terra, e como disse neste post, como um treinador que para além de muito especial, é um exemplo para todos nós pela sua capacidade de, com muito trabalho, ser alguém que realmente faz a diferença onde chega.

 

Dito isto, e por muito que digam as noticías mais recentes que ele estará disponível, eu só vou acreditar quando o vir sentado no banco a dirigir os jogos. Por muito amor à pátria que ele possa ter, por muito que ele goste da selecção e do nosso futebol, não me parece que queira associar o seu nome a toda esta trapalhada em que caiu a federação portuguesa de futebol nos últimos meses.

 

Pelos vistos a reunião em Madrid aconteceu mesmo e ele até se terá mostrado disponível, mas aposto que vai sair um comunicado em como o Real Madrid não está de acordo e não autoriza tal loucura... Tal como Figo, Mourinho não se quer meter em problemas, que seria o único que iria retirar disto tudo, a diferença é que o Figo foi directo, o Mourinho é mais inteligente... ele está disponível, o Real Madrid é que não vai em trapalhadas destas.... vai uma aposta?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:04

Voando papagaios em Albarquel

por Jorge Soares, em 15.09.10

 

Fim de tarde em Albarquel

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Viver em Setúbal tem coisas excelentes, hoje saí de Loures eram quase 18:15, mesmo assim, ainda deu para chegar a casa pegar na família e ir voar papagaios para a praia de Albarquel.

 

Apesar de estar nublado, o sol a pôr-se entre a serra da Arrábida e as nuvens pintou o céu de um dourado fantástico, isto conjugado com o reflexo de toda esta luz dourada na água deu um daqueles pôr do sol com um ambiente de cortar a respiração ... e eu que deixei a máquina fotográfica em casa.

 

E lá estávamos nós a tentar fazer voar um papagaio junto ao mar, depois de um bocado a coisa estava a funcionar e o papagaio voou mesmo, cheio de cor a contrastar com o cinzento dourado do céu e com a sua cauda cor de rosa... voava mesmo.

 

De repente a minha meia laranja virou-se para o N.  e disse:

 

- Pronto, agora já cumpriste o teu sonho de fazer voar um papagaio.

 

Dei por mim a pensar... eu nunca na vida tinha voado um papagaio.... fiquei nostálgico, não pelos papagaios.. mas sim por tantas outras coisas ....

 

Jorge Soares

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publicado às 22:09

Crise já chegou aos colégios.. ou não!

 

Imagem do Público

 

O assunto estava destinado para o post de ontem.. ainda comecei a escrever, mas não estava a ser o meu post e decidi mudar de tema. Numa daquelas coisas da vida, hoje de manhã encontrei a seguinte notícia no Sol: A crise já chegou aos colégios, e  uns minutos depois o seguinte no Público: Crise não está a afectar as inscrições no ensino privado, no mínimo caricato.

 

Mas tudo isto vem a propósito de uma conversa com a minha meia laranja em que ela me falava de um colégio onde  para aceitarem as incrições no ciclo fazem duas entrevistas à criancinha, uma com a família e outra individual. Isto claro, para aqueles que seja lá por que meio, conseguem chegar até à fase das entrevistas, o que dadas as listas de espera.... não costuma ser muito fácil. Tudo isto para se ter o privilégio de se pagar para cima de uma fortuna de mensalidade.

 

Dei por mim a pensar como seria uma entrevista com o meu filho de 10 anos... não consegui imaginar, e concluí que neste nosso cada vez mais estranho país, é mais fácil entrar numa universidade, seja esta pública (88% de colocados na primeira fase)  ou privada, que num colégio.

 

Mas desengane-se quem pensa que isto é só para o ensino secundário, no outro dia um dos meus colegas contava a odisseia que passou para colocar o rebento mais novo, que ainda não tem dois anos,  no infantário de um destes colégios de elite de Lisboa. Depois de muito penar e de muitas consultas a ver quem tinha a melhor cunha ou as melhores ligações com a igreja católica.. conseguiu... não digo aqui quanto vai ele pagar por mês porque acho completamente obsceno.

 

Em Lisboa há uma já famosa escola que abre as inscrições no dia 2 de Janeiro de modo a ter os pais acampados à porta e a fazer a passagem de ano à chuva e ao frio. É claro que nunca falta a notícia nas televisões e a consequente publicidade gratuita.. alguém me explica porque não abrem as inscrições noutra altura qualquer?, porque é que tem que ser a 2 de Janeiro?

 

Os meus dois filhos mais velhos estão no ensino público, isto depois de duas tentativas falhadas de recorrermos ao ensino privado, a primeira ainda no infantário, terminou quando verificámos que num dos colégios com mais nome em Setúbal,  as condições eram tão más que as crianças nem à casa de banho conseguiam ir. Isto para já não falar de uma reunião com os pais que terminou quando eu já incrédulo me virei para as senhoras (freiras) e lhes disse alto e bom som e bem na cara, que elas não eram sérias.

 

É claro que tanto nos colégios como nas escolas públicas haverá de tudo, mas eu desconfio sempre da qualidade da educação quando vejo que os alunos de uma das escolas mais selectas desta cidade, onde se paga 600 ou 700 Euros por mês, andam no apoio ao estudo onde andam os meus e tem exactamente as mesmas dificuldades e problemas que tem os meus na escola pública. E andam os pais a recorrer ao crédito e a desbaratar as poupanças para isto (ver noticias).

 

Como dizia acima, neste estranho país é bem mais fácil entrar numa universidade que num colégio ou em algumas escolas públicas... mas pelo menos não se ouve (ainda)  falar de ensinos primários tirados ao Domingo de manhã....

 

Jorge Soares

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publicado às 21:17

Fatias de cá: Viriato no Castelo de Almourol

por Jorge Soares, em 13.09.10

Viriato

 

Ontem o dia estava quente, quando chegámos a Vila Nova da Barquinha por volta das 16 horas, estavam 36 graus, muito calor, deu para apreciar o belíssimo parque ribeirinho junto ao Tejo... mas só à distância,  sentados à sombra dos enormes plátanos e com um gelado na mão. Ficou a promessa de lá voltarmos noutra altura... menos quente.

A peça só está em cena uma vez por ano, no máximo um ou dois fins de semana de Setembro, este ano foi só uma função.. e foi ontem. O palco não pode ser mais monumental, com o castelo de Almourol e o rio Tejo como pano de fundo,  é baseada num dos meus livros preferidos, A voz dos deuses e fala da nossa história e das nossas origens como povo.

 

Viriato no Castelo de Almourol, Fatias de cá

Se o cenário é grandioso, a representação não lhe fica atrás, são dezenas de actores e figurantes e inclui até a entrada em cena de grupos de cavaleiros a galope.

 

Como todas as obras deste grupo, inclui a participação do público, que é convidado de honra no banquete do casamento do Viriato. Um banquete à imagem dos da época dos romanos, com carne assada no pão, vinho de razoável qualidade e fruta da época, tudo servido pelos mesmos actores e participantes que momentos antes víamos no centro da acção.

 

Dizia alguém que esta será a obra mais grandiosa e mais bem conseguida do grupo, pela historia em si e pela grandiosidade de todo o ambiente que a rodeia, talvez seja, ainda que eu ache que não fica atrás de  O Nome da Rosa de que já falei neste post

 

Ontem e apesar do calor, estava um ambiente fantástico, o facto de a representação ser ao fim do dia dá uma luz mágica à primeira parte, a segunda parte ocorre já noite dentro o que nos permite ver o castelo iluminado por fogos e tochas, algo verdadeiramente inesquecível.

 

Em suma, como todas as peças deste grupo, é algo que vale realmente a pena, porque nos dá a conhecer uma parte importante da nossa história, porque acontece num lugar verdadeiramente mágico e porque a representação é grandiosa.. a não perder.

 

A História do grupo de teatro Fatias de cá retirada do site:

 

O Fatias de Cá (criado em Tomar em 1979) tem 6 centros de produção teatral (Tomar, Barquinha, Chamusca, Constância, Coimbra e Lisboa) enquadrados pelo Fatias de Cá - Mãe. Enquanto Companhia de Teatro, desenvolve projectos de âmbito profissional e amador para o que conta com mais de 100 membros (entre permanentes, regulares e pontuais).

A designação "Fatias de Cá" inspira-se no nome de um doce conventual (Fatias de Tomar) cuja receita pode ser considerada uma metáfora do acto teatral: batem-se as gemas de ovos demoradamente até obterem um aspecto cremoso e uniforme e vão a cozer em banho-maria numa panela especial até ficarem com a consistência do pão que se fatia e frita-se em calda de açúcar.

A opção estética do Fatias de Cá assume três vertentes:

- o património, quer o construído quer o paisagístico, é entendido como um espaço teatral privilegiado tendo em conta o cenário natural que comporta;
- a partilha com o público de um momento de refeição é assumido como uma forma de sociabilização e de concentração no espaço-tempo convocado pelo espectáculo;
- o acto teatral é entendido como um momento que emocione e divirta.

O Fatias de Cá usa como lema uma frase atribuída a Galileu: não resistir a uma ideia nova nem a um vinho velho

 

 

Outras obras do mesmo grupo e de que já aqui falei:

 

O Anel Quebrado na Quinta da Regaleira

 

O Nome da Rosa no convento de Cristo

 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:12

Hoje li algures uma frase lapidar:

 

"Dificilmente alguém não se lembrará onde estava no dia 11 de Setembro  de 2001"

 

É verdade, eu lembro-me perfeitamente, estava a trabalhar e longe da televisão, fomos seguindo tudo pela internet, mas consigo recordar a maior parte do dia.  Entretanto passaram 9 anos, e de uma certa forma o mundo mudou... é muito dificil perceber se foi  para melhor ou para pior.

 

Esta semana deu para perceber que foi um dia que deixou marcas principalmente na sociedade americana, uma sociedade feita de muitas culturas, um autêntico arco iris humano onde de certeza é possível encontrar comunidades de imigrantes de absolutamente todos os países do mundo.

 

Primeiro foram as noticias sobre o rechaço à construção de uma mesquita em Nova York a poucas centenas de metros do Ground Zero, o lugar onde se deu o atentado,  depois foi o aparecimento num lugar perdido do enorme mapa americano de um fanático que pretendia converter este dia no dia da queima do corão.

 

Não sei quantas mesquitas haverá em Nova Iorque, mas de certeza que serão muitas e haverá de certeza muitos milhares de fieis para elas. Toda esta polémica à volta do lugar de construção da nova Mesquita, tal como a louca ideia de queimar os livros do Corão,  mostra que a sociedade americana ainda não curou as suas feridas e mostra sobretudo que não percebeu algo essencial, os atentados não são obra de uma religião, não são obra de um povo, são obra de um grupo de loucos fanáticos que se juntaram numa organização, a Al qaeda.

 

De resto a queima de símbolos não é nada original, quantas vezes já vimos serem queimadas bandeiras americanas, ou de Israel, há bem pouco tempo e após o aparecimento de cartoons que retratavam alá, a queima de bandeiras da Dinamarca. É evidente que esta ideia de queimar o Corão é resultado do fanatismo cego de alguém que procurava os seus 5 minutos de fama, é sem dúvida um acto idiota e que não fosse a aldeia global em que vivemos, não teria direito nem a um pé de página nas noticias do dia.  Para mim foi estranho ver toda a repercussão que pode ter o acto de um louco. Manifestações de protesto em vários países que chegaram a causar mortos e a intervenção directa do próprio presidente americano Barack Obama. Curiosamente, não me lembro de manifestações nem preocupações  do mesmo tipo quando são queimados ou destruídos símbolos ocidentais.

 

O 11 de Setembro deixou marcas evidentes, principalmente nos Estados Unidos, acredito que daqui a duas ou 3 gerações não será mais que uma data no calendário, tal como hoje é a data em que ocorreu Pearl Harbor ou a data do lançamento da primeira bomba atómica em Hiroshima no Japão. Entretanto, a sociedade Americana lambe as feridas que parece que tardam em cicatrizar, mas há algo que ninguém pode esquecer, os muçulmanos são parte dessa sociedade, uma parte enorme e importante, já era assim antes de 2001 e será-o cada vez mais.... e se há algo que esta sociedade sabe fazer, é aprender a viver com a sua história.

 

 

 

Imagens do Sapo Fotos de PCIS2010

 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:04

Conto: A máquina

por Jorge Soares, em 11.09.10

Máquina de escrever

Imagem de aqui

 

Morreu uma tia minha. Ela morava sozinha, não tinha filhos. A família toda foi até lá num final de semana, separar e dividir as coisas dela para esvaziar a casa. Móvel, roupa de cama, louça, quadro, livro, tudo espalhado pelo chão, uma tremenda confusão.

Foi quando ouvi meus filhos me chamarem. 

— Mãe! Maiê!

— Faaala. 

Eles apareceram, esbaforidos.

— Mãe. A gente achou uma coisa incrííível. Se ninguém quiser, essa coisa pode ficar para a gente? Hein? 

— Depende. Que é? 

Eles falavam juntos, animadíssimos. 

— Ééé... uma máquina, mãe. 

— É só uma máquina meio velha. 

— É, mas funciona, está ótima! 

Minha filha interrompeu o irmão mais novo, dando uma explicação melhor. 

— Deixa que eu falo: é assim, é uma máquina, tipo um... teclado de computador, sabe só o teclado? Só o lugar que escreve? 

— Sei. 

— Então. Essa máquina tem assim, tipo... uma impressora, ligada nesse teclado, mas assim, ligada direto. Sem fio. Bem, a gente vai, digita, digita... 

Ela ia se animando, os olhos brilhando. 

— ... e a máquina imprime direto na folha de papel que a gente coloca ali mesmo! É muuuito legal! Direto, na mesma hora, eu juro! 

Ela jurava? Fiquei muda. Eu que jurava que não sabia o que falar diante dessa explicação de uma máquina de escrever, dada por uma menina de 12 anos. Ela nem ai comigo. Continuava.

— ... entendeu como é, ô mãe? A gente, zupt, escreve e imprime, até dá para ver a impressão tipo na hora, e não precisa essa coisa chatérrima de entrar no computador, ligaaar, esperar hóóóras, entrar no world, de escrever olhando na tela e sóóó depois mandar para a impressora, não tem esse monte de máquina tuuudo ligada uma na outra, não tem que ter até estabilizador, não precisa comprar cartucho caro, nada, nada, mãe! É muuuito legal. E nem precisa de colocar na tomada! Funciona sem energia e escreve direto na folha da impressora! 

— Nossa, filha... 

— ... ah, mas só tem duas coisas que são meio chatas: não dá para trocar a fonte e nem aumentar a letra, mas não tem problema não. Vem, que a gente vai te mostrar. Vem... 

Eu parei e olhei, pasma, a máquina velha. Sensacional pensar assim. Eles davam pulinhos de alegria. 

— Mãe. Será que alguém da família vai querer? Hein? Ah, a gente vai ficar torcendo, torcendo para ninguém querer para a gente poder levar lá para casa, isso é o máximo! O máximo! 

Bem, enquanto estou aqui escrevendo nesse meu antiquado "teclado", ouço de longe o plec - plec da tal máquina maravilhosa, que, claro, ninguém da família quis, mas que aqui em casa já deu até briga. Está no meio da nossa sala de estar, em lugar nobre, rodeada de folhas e folhas de textos "impressos na hora" pelos meus filhos. Incrível, eles dizem, plec - plec - plec, muito legal essa máquina mesmo, plec - plec - plec. 

Céus. Achei que tinha acabado, quando a minha filha vem de novo falar comigo, toda decidida e animada, com um texto recém escrito (sem ligar nada na tomada) na mão. 

— Mãe. Me ajuda a fazer uma coisa muito legal que eu morro de vontade de fazer? 

— O que é?

Ela deu um sorriso, com um ar sonhador.

— Ah, eu queria tanto colocar isso dentro de uma carta... no correio, com envelope, selo colado... nunca fiz isso, mãe... ahhh, me ajuda?

 

Lúcia Carvalho

 

Retirado de Releituras

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publicado às 18:00

Educação sexual.. Santa Ignorância

por Jorge Soares, em 10.09.10

Pais Proíbem filhos de terem educação sexual

 

Imagem de Henricartoon

 

Através de uma carta enviada à direcção das escolas, já há pais a proibir os filhos de assistirem às aulas de educação sexual. No documento fica expresso que não é autorizada "qualquer aula, acção ou aconselhamento relativo a educação sexual", sem o "acordo por escrito, atempadamente solicitado pela escola".

 

Fiquei na dúvida, no 4º Ano as crianças na parte em que dão o corpo humano falam dos órgãos sexuais e da reprodução, isto também está abrangido por esta carta?

 

Estes senhores  agruparam-se numa plataforma que se chama Resistência nacional.... resistência a quê? e a quem?

 

Será que eles são capazes de falar do assunto com os filhos? ou serão dos que acham que é tabu até em casa e deixam que estes aprendam por si mesmos e muitas vezes da pior maneira... Santa ignorância.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:31

O estigma da adopção em Portugal

por Jorge Soares, em 09.09.10

Não há filhos biológicos e adoptivos, só há filhos

 

 

Público: PJ detém filho adoptivo da médica que foi assassinada em Coimbra

Expresso: Homicídio da médica: Suspeito é filho adoptivo

Ionline: Filho adoptivo da médica de Coimbra confessa homicídio

DN: PJ Prende filho adoptivo de médica assassinada

A Bola: Coimbra: PJ detém filho adoptivo que matou mãe

Correio da Manhã:Filho adoptivo de médica assassinada preso pela PJ

Diario Digital: Filho adoptivo terá encenado assalto depois de degolar a mãe

 

Alguém me explica a relevância da palavra adoptivo para a notícia? o facto de o filho ser adoptivo tem alguma importância para o caso? há muitos filhos que matam os pais, alguma vez leram "Filho biológico matou os pais" numa manchete de um jornal? ou no titulo de uma notícia?

 

O que podemos concluir de tudo isto é que a sociedade portuguesa continua a olhar para as crianças adoptadas de lado, são os coitadinhos que tiveram a sorte de encontrar umas almas caridosas que os aceitaram.. é verdade, eu ouço muitas vezes isso. É o estigma da adopção e é algo muito grave, porque há incluso candidatos a pais adoptivos que pensam assim. Uma vez ouvi uma historia de um casal que na viagem em que ia conhecer o seu futuro filho se viraram para a assistente social e perguntaram:

 

- Mas ele não vai herdar como os outros pois não?

 

Se isto não é estigma e discriminação é o quê?

 

Eu tenho três filhos, dá-se o caso de dois serem adoptados, ambos sabem que são adoptados e cá em casa tentamos que o facto seja levado com a maior naturalidade possível, mas é evidente que para mim são os três meus filhos e a adopção é algo que não existe para além do facto de eles terem a cor da pele diferente da minha e da irmã. Porque de facto, para a lei e a partir do momento em que é decretada a adopção plena, não há absolutamente diferença nenhuma entre um filho biológico e um adoptado.  Se olharmos para os documentos dos meus três filhos o que vemos na parte da filiação é exactamente o mesmo, seja no Bilhete de identidade, no passaporte, nas certidões de nascimento, qualquer documento, a filiação de um filho adoptivo é exactamente a mesma que a de um biológico.. porque para a lei não há filhos adoptivos e biológicos... porque na verdade não há, só há filhos. E nenhum dos meus filhos me tem que agradecer nada, eu é que tenho que lhes agradecer o facto de fazerem da minha vida o que é, com tudo o que tem de bom e de mau.

 

E as pessoas não sabem o que me irrita a conversa dos coitadinhos que tiveram muita sorte e da excelente pessoa que eu sou por os ter adoptado... assim como me irritou profundamente ver os títulos das notícias e a palavra adoptivo a bold nos textos. Os jornalistas deveriam ter vergonha, todos deveríamos ter vergonha de vivermos numa sociedade que é capaz de fazer estas distinções.

 

Não há filhos adoptivos e biológicos, nem filhos e filhos do coração, só há filhos.

 

Update: Editorial do jornal Destak sobre este assunto escrito por Isabel Stilwell: Filho “adoptivo”, o adjectivo assassino (Obrigado Cláudia)

 

Jorge Soares

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publicado às 21:12

Casa Pia será caso único?

 

Imagem do Ionline

 

A noticia no ionline falava da hipótese de vir a ser o estado a pagar as indemnizações a que foi condenado o Carlos Silvino (Bibi) , na verdade quando lemos as letras pequenas percebemos que não é o estado e sim a Instituição Casa Pia quem deverá assumir as despesas, dá-se o caso que esta instituição é propriedade do estado e no fim será ele, ou seja, todos nós, quem terminará por pagar.

 

Passaram 8 anos desde o início deste processo, ninguém sabe quantos anos terão passado desde o início dos abusos, sabemos sim que o assunto era conhecido dentro da instituição e até da tentativa de alguns dos jovens de chamar a atenção para ele numa visita do então presidente da República Ramalho Eanes. Durante estes 8 anos que durou o processo, para além dos nomes dos agora condenados, foram lançadas acusações e suspeitas sobre muitíssima mais gente e a acreditar nas insinuações de Carlos Cruz, muitos mais nomes irão aparecer.

 

No meio de tudo isto há algo que não entendo, se as vítimas estavam ao cuidado da Casa Pia, se eram levadas para os locais dos abusos por um funcionário da instituição e segundo consta, muitas vezes numa viatura da instituição, a que se deve que a instituição nunca tenha sido acusada ou responsabilizada?

 

Durante todos estes anos passou muita gente pela Casa Pia, funcionários, professores, gestores, subdirectores, directores, será possível que todos tenham passado por lá sem verem aquilo que era evidente? As crianças estavam entregues à guarda da instituição, ninguém reparava nas ausências dos jovens?  Ninguém reparou nos sinais? Ninguém viu? Ninguém ouviu? Eram todos cegos, surdos e mudos?

 

Todos ouvimos as palavras emocionadas de Catalina Pestana na passada Sexta Feira, não estava Catalina Pestana na instituição na altura em que os jovens eram levados para Elvas? Em que eram levados e abusado por um funcionário e por um dos subdirectores da instituição? Não ouvia os boatos?  Não conhecia os jovens? O que fez nessa altura para evitar ou denunciar a situação?

 

Quanto a mim, a Casa Pia era a família destes jovens, era responsável pela sua formação, educação e o seu bem estar, terá falhado claramente em várias destas  responsabilidades, qualquer família que não cuida dos seus filhos é julgada e penalizada por isso, porque não foi a Casa Pia julgada e responsabilizada por tudo isto?

 

Existem em Portugal mais de 10000 jovens institucionalizados, entre Cats e lares existem quase mil instituições de acolhimento em Portugal, alguém acredita que a Casa Pia é caso único? Em quantas mais instituições haverá jovens a serem abusados, ou maltratados? Na passada Sexta Feira na Antena 1 Eduardo Sá chamava a atenção para o facto de neste caso só haverem rapazes abusados, e mostrando a sua incredulidade sobre a não existência de raparigas abusadas. O que faz o estado Português para garantir que as instituições cumpram o seu papel de guarda dos jovens?  Para garantir que não há mais casos como este nas centenas de instituições deste país? Para garantir que não há mais cegos, surdos e mudos? O que fazemos todos nós?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:18



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