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Conto, Lírica

por Jorge Soares, em 21.05.11

Lírica, Cíntia Moscovich

 

Se na bagunça do teu coração,meu sangue errou de veia e se perdeu.


Chico Buarque

 

A eternidade não existe.


No entanto, olhando Annika aqui, justo a meu lado, custo a acreditar que esta arquitetura de carnes desmorone; impossível conceber a pele do rosto sem a aparência de louça, inconcebível que os seios miúdos e redondos percam a firmeza. Não, jamais estas melenas encanecerão; em tempo algum estes músculos restarão sem vigor.


Pesado o dia de hoje. A neve, sempre a neve. Tive de arrumar as malas, organizar os papéis, juntar meu material de trabalho. Depois, o pior: catar minhas calcinhas, grudadas às de Annika na gaveta, e resgatar meu xampu, que namorava o rinse dela no box do banheiro. Perguntava-me qual a utilidade de partir. Partir para o quê? Para onde? Para um país desvalido, onde tantas vezes me senti em terra alheia. Pensava nisto quando ela entrou no quarto, as maçãs do rosto vermelhas de enfrentar o frio de fora.

 

Não me disse nada, não emitiu um som, olhou dolorida minha bagagem. Ela não queria que eu partisse, queria que eu ficasse, havia me dito um milhão de vezes. Despiu a manta e o casacão e pendurou-os no cabide junto à porta. Veio até mim. Com que maciez me passou a mão pelos cabelos. Com que leveza me trouxe para junto dela, beijando-me minúscula, com aquele sempre sem-pressa. Mais uma vez, os pontos cardeais endoideceram. Arrepios e arrepios quando senti a mão nas minhas costas, os dedos deslizando no carinho. Ah, o beijo de Annika, o que de mais verdadeiro e eterno já conheci. Primeiro a boca umedecendo-se na minha boca e, logo depois, a língua passeando por entre carne, dente e saliva. Choque dos beijos, os lábios mordiscando os lábios sem fúria. As mãos que desceram até o meio de mim, dissimuladas pela roupa. O encontro dos rostos sempre mais urgente, o coração trovejando e eu encharcada de uma hemorragia sem sangue. Depois, os seios de Annika, os bicos em florescência e minha mão ali, aberta, sentindo a carne bem feita, as fibras correndo com precisão, as curvas suaves sustentadas por músculos fortes. Fêmea, fêmea, nós as duas. Quanto tempo nos acariciamos, quanto tempo ela perdeu beijando-me o sexo, quanto tempo eu me suicidei no meio de suas coxas. E as mãos, sempre as mãos, muito mais do que suaves, muito mais do que algodão; as mãos de Annika, mãos de aragem. O corpo dela sobre o meu, sem peso, só com o volume de desejo e os olhos de pânico, implorando-me para que eu ficasse. Sim, eu ficaria a vida inteira beijando aquelas nádegas, usaria o tempo do mundo para mimar aquelas espaldas. Sim, eu queria a eternidade para ter a flor dos seios dela brotando na palma de minha mão. Sim, eu ficaria, disse por fim, tombando de gozo sobre a alvura das costas, o rosto mergulhado na cabeleira, as mãos enlaçadas nas dela. Depois de eu morta, ela continuou a contração das coxas, o vaivém das ancas, esfregando-se nos meus dedos, sufocando-me, esmagando- me, querendo a mim, querendo morrer, querendo. Até que tremeu como uma pássara, ave nova em breve vôo.


Agora, a pressa aplacada e o ressonar do desmaio. Ela aqui, tão plena, tão cheia, como se a vida fosse o exato momento em que ela me tem, o exato instante em que a alma se perpetua, o exato segundo em que a chama contagia a chama no encadeamento infinito. Que vida existia em mim antes dela? Beijos em arremedo, afetos feito pressa, mesquinharias de paixão. E, agora, o beijo de Annika, a visão mais clara da divindade, a epifania mais evidente, o momento de graça permitido. Ela me oferecia a eternidade e eu pensava em partir. Por quê? Não, não mais. Devo despertá-la, devo reafirmar. Não, que ela durma em paz, só mais um pouco para que eu desfrute da beleza que o tempo há de ignorar.

 

Afinal, a eternidade existe.

 

Cíntia Moscovich

Do Livro O Reino das Cebolas

publicado às 23:53

 Dominique Strauss-Kahn

Imagem do Público

 

Moral:

Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada.

 

Segundo uma notícia do El Mundo, a última coisa que terá dito DSK (Dominique Strauss-Kahn) antes de ser detido no aeroporto de Nova Iorque,  terá sido "Quel beau cul!",  acho que não precisa tradução. A frase terá sido dita á passagem de  uma das hospedeiras de bordo do voo da Air France em que ele iria voar para Paris. 

 

A expressão em si será mais ou menos inocente, mas diz muito sobre a forma como este senhor se relacionava com o sexo Feminino, de resto, consta que há muito que na Europa  e principalmente em França, eram comentadas à boca pequena as suas atitudes e alguns episódios se calhar não tão graves como este agora protagonizado no luxuoso hotel.

 

Que alguém  com este tipo de atitudes possa ter chegado a presidente do FMI e fosse um dos principais candidatos à presidência da França diz muito sobre a moral em que vivemos. Haverá quem diga que o senhor fazia estas coisas em privado e que ninguém tem nada a ver com a sua vida privada.... a mim quer-me parecer que o corredor de um avião não é bem um lugar privado e que em privado tudo será válido sempre e quando as coisas se façam com acordo e consentimento... o que pelos vistos nem sempre seria o caso.

 

De resto ainda a semana passada cá em Portugal  foi notícia um senhor que abusando da sua condição de médico, violou, sim, os factos foram dados como provados no tribunal, uma das suas pacientes grávida de 34 semanas e foi absolvido. Consideraram os juízes que a violação não terá sido feita com a violência suficiente. (podem ler o processo aqui)

 

Pelos vistos nos Estados Unidos a moral é outra, e lá se vai a definição que coloquei no inicio do post,  porque quer-me parecer que por mais advogados e dinheiro que este  senhor tenha à sua disposição, os juízes americanos não vão estar cá a analisar o grau de violência, irão analisar sim se a coisa foi ou não consentida ...e já se fala de uma pena de até 70 anos.

 

Num aparte, não sei o que andarão a colocar na água dos hotéis de Nova Iorque, mas a julgar pelas notícias dos últimos tempos, não são lá muito seguros para se ficar.. digo eu.

 

Jorge Soares

publicado às 22:20

O Porto é grande.. em qualquer lado.. falcão e a taça

 

Imagem do Público

 

Eu sou do tempo em que o Porto não ganhava nada há 17 anos, em que o Benfica era a única equipa que tinha ganho a taça dos campeões e os Benfiquistas faziam alarde disso, eles tinham ganho a Taça dos Campeões, o Porto não tinha ganho nada, nem campeão nacional conseguia ser... nessa altura não era fácil ser Portista.

 

Um dia as coisas mudaram, o Porto foi finalmente campeão, é claro que para os benfiquistas isso não importava nada, só eles eram campeões da Europa .. duas vezes!... Estava eu em Caracas em 1983 quando as coisas mudaram ainda mais, aquela final da taça das taças com a Juventus foi um primeiro passo, não foi preciso muito tempo para noutra final ganharmos mesmo, e em poucos meses o Porto foi campeão da Europa, ganhou a Super Taça Europeia e a Taça Intercontinental.

 

Foi aí quando se terminaram os argumentos, eles nunca tinham ganho nada disso, o Porto ganhava porque era melhor, mais organizado, mais profissional e sobretudo porque  sabia escolher os jogadores, muitos deles chegavam às Antas como jogadores normais e em pouco tempo saiam de lá como grandes estrelas.

 

De clube de provincia o Porto transformou-se num grande da Europa e do Mundo, um clube que não se deixa encandear com o sucesso, ao contrário, aprende com ele, com cada triunfo torna-se mais forte, maior, mais respeitado por quase todo o mundo... e com o tempo aparecem mais sucessos... muitos campeonatos nacionais, muitas supertaças, muitas taças...e a Taça Uefa, e a Liga dos campeões, e o melhor treinador do mundo... e mais, mais, mais, porque o céu é o limite.

 

Já não sou aquela criança que tinha que levar com as conversas dos colegas benfiquistas no caminho para escola, continua a ser complicado ser Portista num país de Benfiquistas... mas quantos adeptos no mundo podem dizer que em 30 anos viram o seu clube ganhar tudo o que havia para ganhar, a nivel nacional e internacional? e a maioria das coisas mais que uma vez?

 

Eu Posso!!!!!!!!! 

 

Jorge Soares

publicado às 22:14

Praias da Arrábida

 

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

Foi há quase um ano que foram elegidas as  7 maravilhas naturais e que escrevi o post: Setúbal: o que queremos fazer da maravilha natural, da serra e das praias? Entretanto algo mudou, este ano a praia da Figueirinha tem direito a bandeira azul... custa-me a entender como, não vi que fizessem obras, a menos que me esteja a escapar algo a única casa de banho continua a ser a do restaurante e não me parece que o proprietário passe a gostar de a ter invadida pelos banhistas, de resto, as condições são exactamente as mesmas do ano passado... vá lá a gente entender.

 

Este fim de semana fomos à praia do Portinho da Arrábida, como a época balnear ainda não começou, não há apoios de praia, não há nadadores salvavidas, a areia ainda não foi limpa e continua com uma parte do lixo que o mar depositou durante o inverno. Não há caixotes do lixo e pelos vistos também não há recolha do lixo, no Domingo ao fim do dia os contentores ao lado do primeiro restaurante estavam cheios e quase cobertos com o lixo que entretanto se ia acumulando à volta, evidentemente com o calor que se fazia sentir o cheiro não era  nada agradável.

 

Como era de esperar a praia estava cheia de gente, a do Portinho, a da Figueirinha, a do Creiro, Galápos e Galapinhos, todas as praias estavam cheias, alguém me explica porque é que a época balnear em Setúbal só começa a 1 de Junho quando as praias estão cheias todos os fins de semana desde meio de Abril? 

 

Com as praias cheias a estrada desde o Outão até depois do Portinho estava convertida num gigantesco parque de estacionamento, com carros estacionados de ambos lados, sem respeito por sinais ou traços amarelos. É claro que nestas condições não havia espaço para o trânsito que só durante a época balnear tem restrições de sentidos, o resultado foi um enorme engarrafamento, nervos, discussões, gritos de quem queria passar e não conseguia, etc, etc, etc. É claro que não vimos um  único GNR ou policia.

 

Resumindo, um ano depois e às portas do verão, nada mudou, para quem alimentava a esperança de que o galardão de maravilha natural viesse com algum carinho pela serra e pela paisagem, desengane-se, para o único que serviu foi para estar a ganhar pó nalgum gabinete de alguma eminência parda da câmara de Setúbal.

 

Entretanto, no próximo Sábado dia 21 de Maio, o Clube Arrábida vai promover uma acção de limpeza na zona do Portinho da Arrábida que se designa Operação Arrábida Limpa.

 

Mais informação na página do facebook do Clube Arrábida 

 

Jorge Soares

publicado às 23:02

Vá lá a gente tentar perceber as crianças!

por Jorge Soares, em 16.05.11

Vá lá a gente tentar perceber as crianças

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Durante anos, dia após dia o N. ficava a chorar no infantário, todos os dias, desde que tinha um ano e até que finalmente entrou para a escola primária, fosse eu ou fosse a mãe quem o levava, ficava lavado em lágrimas e num pranto inconsolável. De inicio e até percebermos que mal ele deixava de nos ver as lágrimas paravam de imediato e começava a brincadeira como se nada fose, a coisa foi complicada. Não é fácil deixar uma criança a chorar todos os dias, o primeiro pensamos é que ela é maltratada e que não gosta da sala, da educadora, das auxiliares... passa-nos tudo pela cabeça, incluindo mudar a criancinha de escola.. coisa que chegámos a fazer, sem que nada mudasse... 5 anos de choro diário é dose.

 

Mas se acham que isto é mau, o que acham de uma criança que todos os dias quando a vão buscar arma um berreiro porque não quer sair da escola? Mau não é? pois... isso é o que acontece comigo todos os dias.

 

Imaginem o que é chegarem à escola e estarem os outros pais a buscar as suas criancinhas sorridentes e terem que andar atrás da vossa porque ela mal vos vê corre para a outra ponta? É ver as mães com um sorriso amarelo e a pensarem:

 

-Como será que eles tratam a pobre criança que ela nem quer ir para casa ao fim do dia?

 

Depois o sorriso amarelo passa para as auxiliares e claro, para mim.. que nunca encontro nenhum buraco onde me esconder.

 

Com o tempo comecei a tentar usar estratagemas, em lugar de lá ir eu, mandava os irmãos, primeiro o N. e depois a R., para nada, o comportamento era exactamente o mesmo, só quando é a mãe a ir lá ela não faz fita.. raio de criança.

 

Estava a ficar seriamente preocupado até que um dia a fui deixar na escola de manhã e para minha grande surpresa, fez uma birra exactamente igual à que faz ao fim do dia, só que ao contrário, não queria lá ficar por nada, quando não se agarrava a mim, tentava fugir para a rua.

 

Estão a ver a minha cara de alivio? desta vez o sorriso amarelo era mesmo da auxiliar que a veio receber.

 

Vá lá a gente tentar perceber as crianças.

 

Jorge Soares

publicado às 22:32

O que é a Taxa Social única?

por Jorge Soares, em 15.05.11

O que é a Taxa Social ùnica?

Imagem de aqui

 

Taxa social única é uma expressão que entrou em nossas casas na última semana, na realidade ela foi trazida à ribalta pelo memorando da Troika, memorando que recorde-se foi assinado pelos 3 principais partidos, PS, PSD e CDS. Foi portanto com algum espanto que vi a forma como todos os partidos a utilizaram como arma de arremesso durante esta semana. Mas o que é realmente a Taxa social única? 

 

Um destes dias dizia a Sandra o seguinte no Facebook:

 

TSU - Taxa Social Única é um imposto pago em % dos ordenados dos trabalhadores pelas empresas.

A taxa aplicável é de 34,75%, dos quais 11% já são pagos pelos trabalhadores e 23,75% pelas empresas.

20,21% da taxa global é utilizada para cobrir as despesas do Estado com a velhice, 0,5% para doença profissional, 1,41% para doença, 0,76% para a parentalidade, 5,14% para desemprego, 4,29% para invalidez e, por último, 2,44% em caso de morte.

 

Na verdade não é só isto, é uma taxa social sim, mas não é única, porque existem percentagens diferentes pelo menos para os órgãos sociais das empresas e para empregados com algum grau de invalidez.

 

Como bem diz a Sandra, os valores pagos pelas empresas todos os meses são o garante da solidez financeira da segurança social, o que se traduz em reformas, funcionamento da caixa de previdência e hospitais, etc.

 

O que se pretende com a redução destas taxas?, em primeiro lugar aliviar custos fixos das empresas, pagando menos ao estado estas ficam com mais capacidade financeira para investir, investimentos que se poderiam traduzir em mais empregos e mais exportações. A médio prazo isto deveria traduzir-se numa enorme ajuda para superarmos a crise.

 

Do meu ponto de vista, os 23,75 % que pagam directamente as empresas são o principal motivo para a existência de tantos falsos recibos verdes e em último caso de uma Geração à rasca, para não ter que pagar esta percentagem as empresas preferem contratar a recibos verdes ou em outsourcing, reduzindo os custos fixos,  descer a taxa contribuiria para diminuir a precariedade.

 

É claro que, resta saber como seria compensada a menor entrada de dinheiro na segurança social, e aqui é a parte onde de todo não concordo com o PSD, se a alternativa é aumentar o IVA o que parece é que estamos a penalizar a população para beneficiar as empresas, e aí, eu não posso concordar.

 

Em suma, descer a TSU é uma medida que terá efeitos positivos para criar emprego e aumentar as exportações, e como disse no inicio, é uma imposição da Troika, pelo que Sócrates e o PS estão a ser demagogos quando criticam o PSD. É uma medida que terá que ser tomada seja quem for que ganhe as eleições a 5 de Junho, haverá que buscar alternativas para evitar a descapitalização da segurança social, e aí eu inclino-me fortemente para o que tem sido uma das batalhas do Bloco de Esquerda: aumentem-se os impostos aos lucros dos bancos, taxem-se as mais valias em bolsa e as transferências de dinheiro para fora do país.

 

Faltam 3 semanas para as eleições, os debates que vi foram pobres e pouco esclarecedores, debateu-se muito a Taxa Social Única e pouco as propostas sérias que cada um tem para governar, ou como disse alguém, muitos pentelhos ... e pouca uva... continuo à nora sobre em quem irei votar.

 

Jorge Soares

publicado às 22:08

Conto, O primeiro beijo

por Jorge Soares, em 14.05.11

O primeiro beijo

 

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.


- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? perguntou com dor.


Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.


O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.


E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.


E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.


E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.


Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.


O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.


De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.


Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.


E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.


Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.


Ele a havia beijado.


Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atónito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.


Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.


Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…
Ele se tornara homem.


Clarice Lispector, in Felicidade Clandestina 

Retirado de Contos de Aula

publicado às 23:20

Pela sua saúde, preste atenção: O Melanoma

por Jorge Soares, em 12.05.11

 

 

 

O MELANOMA

O melanoma é o tipo de cancro da pele mais grave. Em Portugal surgem, anualmente, cerca de 700 novos casos de melanoma maligno.

Nos países ocidentais, todos os anos o melanoma tem aumentado.

O QUE É O MELANOMA?

O melanoma é um tipo de cancro de pele. Tem início nas células da pele, os melanócitos. Para perceber o melanoma, é útil conhecer a pele e os melanócitos: qual a sua função, como crescem e o que acontece, quando se tornam cancerígenos.

A PELE

A pele é o maior órgão do corpo: protege-o do calor, da luz do sol, de feridas e de infecções. Ajuda a regular a temperatura corporal, armazena água e gordura, e produz vitamina D.

A pele tem duas camadas principais: a epiderme (exterior) e a derme (interior).

A derme contém vasos sanguíneos, vasos linfáticos, folículos pilosos e glândulas. Algumas destas glândulas produzem suor, que ajuda a regular a temperatura do organismo. Outras glândulas produzem sebo, uma substância oleosa que contribui para que a pele não seque. O suor e o sebo atingem a superfície da pele, através de pequenas aberturas: poros.

MELANÓCITOS E SINAIS

Os melanócitos produzem melanina, o pigmento que dá à pele a sua cor natural. Quando a pele é exposta ao sol, os melanócitos produzem mais pigmento, fazendo com que a pele bronzeie, ou seja, escureça.

Por vezes, surgem umas proeminências de grupos de melanócitos e de tecido circundante, chamados sinais. Os sinais são muito comuns. A maioria das pessoas tem 10 a 40 sinais. Os sinais podem ser rosados, castanhos claros ou escuros, ou de uma cor muito parecida com o tom normal da pele. As pessoas de pele escura tendem a ter sinais escuros. Os sinais podem ser achatados ou volumosos. São, geralmente, redondos ou ovais e mais pequenos do que a borracha de um lápis; podem estar presentes desde o nascimento ou aparecer mais tarde – geralmente antes dos 40 anos. Tendem a desaparecer nas pessoas mais velhas. Quando os sinais são removidos cirurgicamente, normalmente não voltam a aparecer.

MELANOMA

O melanoma surge quando os melanócitos (células pigmentares) se tornam malignos. A maioria das células pigmentares encontra-se na pele; quando o melanoma tem início na pele, a doença chama-se melanoma cutâneo. O melanoma pode, também, ocorrer nos olhos (melanoma ocular ou melanoma intra-ocular). O melanoma raramente surge nas meninges, no aparelho digestivo, nos gânglios linfáticos ou noutras áreas onde há melanócitos. Os melanomas com origem noutras zonas, que não a pele, não serão aqui abordados.

O melanoma é um dos tipos de cancro mais comum. A probabilidade de desenvolver melanoma aumenta com a idade, embora a doença afecte pessoas de todas as idades. Pode ocorrer em qualquer superfície da pele. Nos homens, o melanoma encontra-se, muitas vezes, no tronco (zona entre os ombros e as ancas), ou na cabeça e pescoço. Nas mulheres, desenvolve-se muitas vezes na zona inferior das pernas. A ocorrência de melanoma, na raça negra e noutras raças com pele escura, é rara; quando se desenvolve em pessoas de pele escura, tende a ocorrer sob as unhas dos pés e mãos, na palma das mãos ou planta dos pés.

Quando o melanoma se espalha, ou dissemina, podem aparecer células cancerígenas nos gânglios linfáticos vizinhos. Os gânglios linfáticos "captam" bactérias, células cancerígenas ou outras substâncias nocivas, que possam estar presentes no sistema linfático. Se o tumor atingiu os gânglios linfáticos, pode significar que as células cancerígenas se espalharam já para outras partes do corpo, tal como o fígado, pulmões ou cérebro. Neste caso, as células cancerígenas do "novo tumor" são, ainda, células de melanoma, e a doença chama-se melanoma metastizado, e não cancro do fígado, do pulmão ou do cérebro (sistema nervoso central).

 

Fonte Info Cancro


 

Porque a informação e a atenção com a sua saúde nunca estão demais

 

Jorge Soares

publicado às 22:33

Eduardo Catroga e a política dos Pentelhos

por Jorge Soares, em 12.05.11

 Os pentelhos do Catroga

 

Via Henricartoon

 

 

 

Agora percebo porque é que passa o tempo, os debates, as discussões e não há forma de ficar mais claro o que querem estes senhores para o país... nós estamos à espera de propostas e eles discutem a politica dos pentelhos ..... estamos lixados... com F grande.

 

Jorge Soares

 

PS:Já agora, para os senhores da SIC, segundo o dicionário Priberam, escreve-se com e. 

publicado às 13:47

Requiem por uma máquina de escrever

por Jorge Soares, em 11.05.11

Requiem por uma máquina de escrever

 

Aposto que a maioria não se lembra quando foi a última vez que viu alguém a escrever à máquina, se calhar uma grande parte nem terá visto tal coisa. Eu lembro, há um ano atrás em Cabo Verde fui pagar uma conta da Meninos do Mundo a um despachante, após explicar ao que ia e ter entregue o dinheiro, o senhor pediu a um dos funcionários que me entregasse o recibo. Para meu espanto, este sentou-se em frente a uma máquina de escrever, colocou as folhas entre os rolos: original, papel químico preto e duplicados, acertou-as e após perguntar em nome de quem era... bateu o recibo à máquina.

 

Podem não acreditar, mas ouvir aquele som das teclas no papel foi como ouvir uma velha e conhecida melodia... e o meu espanto por aquilo que estava a presenciar passou para segundo plano quando a minha mente começou a viajar no tempo... anos, muitos anos para trás.

 

A minha era verde azeitona como aquela, mas muito mais pequena e portátil, completamente manual, escrevia muito bem, acompanhou-me durante os anos do liceu e  eu adorava escrever.  Por norma os meus trabalhos escritos eram sempre volumosos, lembro-me de um trabalho de história contemporânea sobre os partidos políticos com mais de 20 páginas.... alguém faz ideia o que era escrever 20 páginas à máquina? É claro que não dava uma décima parte dos erros que dou agora, e a escrita tinha que ser pensada, nas máquinas não há como voltar atrás, só há voltar a escrever desde o início da página.

 

Teria eu 16 ou 17 anos e escrevi uns artigos para uma revista, eram sobre a presença de Portugal nos mundiais de Futebol, no fim da segunda página descobri que tinha saltado um nome a meio... toca a escrever de novo, ia tão embalado que voltei a fazer o mesmo... e recomecei, e voltei a fazer o mesmo... aí decidi que já estava bom, dei a volta ao texto e fiz o senhor aparecer no fim da página. Num computador não tinha demorado mais de 5 segundos a corrigir o erro, ali levei de certeza mais de uma hora.

 

As máquinas de escrever tiveram a sua época, os computadores mudaram o mundo de muitas formas, uma delas foi na forma de escrever, mas não deixa de ser com alguma nostalgia que hoje li no El Mundo que fechou a última fábrica de máquinas de escrever que ainda existia. É difícil entender como mais de 20 anos depois da massificação do computador, dos processadores de texto e das impressoras, ainda existia esta fábrica na Índia, chamava-se Godrej & Boyce... Assim de repente, senti que perdi uma velha amiga, cúmplice de tantas coisas e de tantas ideias.... sabem uma coisa?, estou a ficar velho.

 

Já agora, se puderem leiam este conto : A Máquina, é fantástico.

 

Jorge Soares

publicado às 22:25



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