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paulo morais.jpg

 

Imagem de aqui

 

Passei o fim de semana no Alentejo, praia, sol, Calor, estive um pouco a leste, algures numa das idas da praia para o Parque de Campismo, falava-se da Grécia e do desastre iminente, a seguir falava-se de corrupção, das comissões, da assembleia da República. Por entre as conversas dentro do carro não dei pela mudança de assunto, e dei por mim  a pensar que era iso que tinha levado a Grécia até ao estado em que se encontra.

 

Há pouco estava a ler o Shark e caí em mim, a noticia não era da Grécia, segundo a Lusa, um tal de Paulo Morais disse o seguinte:

 

 "o centro de corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República"

 

 

Nunca na vida tinha ouvido falar deste senhor, mas espero sinceramente voltar a ouvir em breve, porque uma afirmação como esta não pode simplesmente cair no esquecimento, seria mau demais.

 

O que este senhor disse é grave demais para passar impune, a assembleia da Republica é o órgão máximo da Democracia em Portugal, os deputados são eleitos por todos nós e estão lá para nos representar. Se há deputados que para além de não cumprirem com o seu papel de representantes, ainda prejudicam o país então devem ser denunciados.

 

Sr. Paulo Morais, eu, cidadão e votante exijo que concretize com factos, nomes e apelidos, quem e como prejudicou o país, o que o Sr. disse é grave demais e não pode ficar assim.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:59

Conto, Isabel

por Jorge Soares, em 18.06.11

Isabel, Mulheres que pecam


Estudo de Mulher. Rodolpho Amoedo, 1884.

Em dias comuns, ela era triste, como os pés sem sapatos. Seus olhos escureciam e ela torcia as mãos frias enquanto olhava para lugar nenhum.
Escorregava pelas paredes claras, pela mobilia cara, pela prataria. Girava pelo assoalho, os tapetes e as almofadas, até a porta da entrada que, naquele momento, não tinha intenção de abrir. Pela janela, os passos, os carros, as buzinas. A violencia sentida do tempo. Isabel tinha medo, muito medo de morrer cedo.
Tinha essa urgência firme, tão assustadora quanto a morte. Esperava sempre os raios e as trovoadas - queria sempre o movimento. Em dias comuns, tudo era muito simples. Tudo era rotina. O trabalho, o relógio, os vestidos. As manhãs, sempre plácidas, sempre cheia de certezas, tinham sempre muita luz. Isabel não gostava muito das manhãs.
Passava o dia inteiro esperando a noite cair. Era uma fã ardorosa de estrelas. São formas de luz muito discretas, tão pequenas e distantes e que escondem praticamente tudo. Isabel era um pouco assim. Só mostrava seu brilho no escuro.
No escuro. Quando nada mais se via, quando só se acendiam lampadas, estrelas e vagalumes, Isabel abria os olhos. Enxergava finalmente. Era quando sentia os espasmos, e tremia sem parar. Quando a abstinencia tomava conta de todos os poros e ela sabia que, então, tinha que levantar. Hora de chutar a poeira do guarda-vestido, de pintar a boca, as unhas, colocar os brincos. Hora da cinta-liga e dos espartilhos. Hora de por os saltos altos e sair.
No meio da rua, chamava-se Bela. Andava rápido e ria alto. Entrava e saia dos lugares, vivia cercada de gente, de vicios. Vivia cercada do mundo.
De dia, a contemplação. De noite, o desejo, uma imensa necessidade, um castigo. Era o sexo. Não podia ficar sem ele. Tinha que ser muito, e tinha que ser sempre. Nem precisavam pagar, mas ela era boa, e eles achavam justo. Não tinha prazer em negar nada à ninguém.
Bela era um apelido de infância que ela detestava. Era a mãe que a chamava desse jeito. Depois que ela sumiu, o apelido virou um fardo, uma obsessão. O pai passou a chamá-la assim, só para manter a presença da mãe em casa. Mas ela não estava ali porque não queria. Foi embora sem olhar para trás, e a deixou com o peso da ausencia nos ombros.
Isabel queria que Bela servisse para alguma coisa.  E então pensou que podia ser isso. De dia, havia apenas a lembrança da Bela que o pai melancolico e bebado só enxergava de longe; De noite, ela podia ser Bela, e ser feliz. De noite, Bela gritava, mordia, dançava, e fazia tudo de caso pensado, consentido. De noite, era a mudança, o inferno, o paraíso, o pecado. Isabel adorava o pecado.
Era uma pena que a noite era só um interlúdio, um espaço entre horas...
Porque de dia, quando tudo voltava a ser comum, Isabel fechava o corpo, os olhos,as portas e os armários, e botava sua vida para dormir.


Retirado de Mulheres que Pecam

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publicado às 21:06

Quando as cores se misturam

por Jorge Soares, em 17.06.11

As cores

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

POEMA DAS CORES

 
Quando as cores 
se misturam o negro vira branco, 
e o branco vira preto sem tanta
 tinta misturar.

 
O verde fica vermelho 
dependendo unicamente 
de cada modo de olhar. 

 
Mas se o olhar 
for alegre ou mesmo triste
aonde tanta cor eu terei que buscar...

 
Portanto nem sequer 
mesmo me preocupo se nada mais tenho 
com que me preocupar. Se enquanto as cores
 tornem dentre elas a se misturar.

 
Pois que seja da cor preta
ou de cor branca, a cada cor eu 
pretendo logo amar.

 

Alexandre Oliveira

Publicado no Recanto das Letras em 15/10/2009

Jorge Soares

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publicado às 22:29

Alunos do CEJ apanhados a copiar

Imagem do Público

 

Já passei duas vezes pela faculdade, em ambas vivi as situações mais estranhas, desde o exame de electromagnetismo do Brotas de que havia 4 versões há uma carrada de anos e que se repetiam todos os anos, um  exame de teoria dos jogos que ninguém conseguiu resolver, que pudemos levar para casa e entregar na semana a seguir e mesmo assim a melhor nota foi 13. Fiz um exame de electrónica com perguntas para 40 valores, das que podíamos escolher as que quiséssemos num máximo de 30 valores, em que o professor entregou os enunciados, saiu da sala e voltou duas horas depois para os recolher.

 

Vi muita gente copiar, desde os cábulas até aos melhores alunos e não me vou armar em inocente, também copiei algumas vezes. Não vou dizer que atire a primeira pedra quem nunca copiou, porque sei que há pessoas mesmo honestas que nunca o fizeram ....

 

Mesmo assim, não consigo de deixar de ficar chocado ao ler que no Centro de estudos judiciários 137 futuros magistrados foram apanhados a copiar num teste de cruzinhas e como prémio tiveram todos passagem administrativa com 10 valores.

 

Note-se que não estamos a falar de alunos normais, estamos a falar de advogados, pessoas adultas, formadas e presume-se com uma noção da justiça e da honestidade, que após a conclusão do curso irão fazer justiça e com as suas decisões decidir a vida de muita gente.

 

Não sei o que me choca mais, se perceber que o futuro da nossa justiça está nas mãos de um grupo de pessoas que não prima pela honestidade e sim pelo chico espertismo, ou que mesmo na justiça, o crime compensa, quanto a mim era 0 valores para todos e para o ano há mais. Afinal, a justiça e o exemplo devem começar por casa.

 

Entretanto hoje uma outra notícia fala de uma nova avaliação e do fim dos exames de cruzinhas ... então e uma cadeira sobre honestidade e ética na formação, não se arranjará?

 

Jorge Soares

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publicado às 21:58

Quem tem medo do Caracol?

por Jorge Soares, em 15.06.11

Quem tem medo do caracol

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

O Medo é uma manifestação mais ou menos irracional da expressão de um sentimento de receio que manifestamos ante uma determinada situação da vida.

 

De uma forma ou outra todos temos medos, há quem tenha medo dos aviões ou de voar, quem tenha medo das alturas, de andar à noite, dos fantasmas, dos mortos, dos vivos. Eu tenho medo, pavor, impressão, chamem-lhe o que quiserem, das cobras. Cresci numa aldeia e no verão andava livre pelo campo, mais que uma vez tive encontros imediatos com elas e até hoje, até quando aparecem na televisão mudo de canal.

 

Cá em casa há medos para todos os gostos, a minha meia laranja tem medo de ratos e roedores, o N. tem um pavor terrível dos cães, é mais forte que ele, qualquer bola de pelo de poucos centímetros o deixa em pânico. Até à pouco a D. era uma miúda destemida e sem medo de nada, ultimamente deu em ter medo de tudo o que seja insecto, mal vê uma mosca desata aos berros:

 

- Medo do bicho!

 

Mas não tem medo de todos os bichos. Não sei de que modo descobriu que a R. tem medo de caracóis, vai daí entre ela e o irmão, arranjaram maneira de numa das saídas ao jardim trazerem para casa uns dois ou três caracóis que foram estrategicamente guardados num dos vasos de orquídeas da varanda.

 

Num destes dias, estava a R. a ver televisão e aparece a D. com um caracol na mão:

 

-Olha mana!

 

A outra quando viu o que era desatou a gritar e a correr pela casa, e de repente tínhamos uma matulona de 12 anos que está mais alta que a mãe,  a correr entre a sala e a cozinha aos gritos com uma pirralha de três anos atrás dela morta de riso e a gozar o prato.

 

Fizemos desaparecer os caracóis.. não serviu de muito, este fim de semana na visita ao Castelo de Penela, o diabinho encontrou um caracol e lá tivemos a repetição da cena para gáudio de miúdos e graúdos ... 

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:13

Praia fluvial de Poço Corga

 

"O parque de campismo existe há dez anos e é especialmente dedicado para pessoas que gostem da natureza e tranquilidade, mas também para crianças que se podem divertir muito neste lugar maravilhoso. A nossa intenção ao criarmos o parque de campismo foi de mantê-lo pequeno e acolhedor para assim podermos dispensar a devida atenção com os nossos hóspedes.Existem aproximadamente 60 lugares ....."

 

É esta descrição que podemos encontrar no site do Parque de Campismo o Moinho, e é exactamente o que encontrámos quando lá chegámos, um camping rodeado de natureza, um lugar tranquilo, simpático e acolhedor. É claro que ao nível dos serviços tem o mínimo indispensável: casas de banho limpas e funcionais, um pequeno bar e pouco mais. 

 

Mas estando no meio da natureza tem tudo o que é necessário à volta: um restaurante com bar e esplanada à porta, um café com mercearia a 300 metros e a excelente praia fluvial de Poço Corga composta por várias piscinas no rio Pêra, com direito a nadador salvador e tudo e que fica a 10 metros do parque.

 

Este será talvez o parque de campismo mais calmo e mais bucólico em que já estive. Fica a 3 Kms da Vila de Castanheira de Pêra, nas margens do Rio Pêra. É um parque sem residentes, onde tudo à volta é verde e natural, tem imensas sombras e mesmo em época alta tem preços bastante acessíveis, incluindo os Bungalows e grandes tendas.

 

De realçar a simpatia do seu proprietário e pelo menos nesta altura, único funcionário, sempre bem disposto e disponível....

 

Está mais que visto que fiquei cliente e já está decidido que para o ano por esta altura vamos voltar, para conhecer novas trilhos na natureza e outras das muitas praias fluviais que há nos arredores.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:16

Praia das Rocas, Castanheira de Pera

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Somos um país pequeno, mas mesmo assim cheio de enormes assimetrias, por muito que se diga que cada vez mais estamos de costas para o mar, a verdade é que a  grande maioria da população vive numa pequena faixa do litoral a menos de 30 Kms do Mar, é lá que se concentram as indústrias, os centros comerciais, os eventos culturais, e sobretudo, o Poder. Um país de costas para o mar que vive praticamente com os pés na Areia.

 

Entretanto o resto do país vai definhando, no interior falta quase tudo, falta indústria, falta organização na agricultura arcaica e feita de minifúndios, faltam acessos, faltam perspectivas ... e com tudo isto, cada vez mais, faltam as pessoas. 

 

Mas há quem teime em lutar contra a situação, quem saiba tirar partido do muito que o interior do país tem, quem saiba aproveitar muito bem o que mais sobra, natureza e beleza natural.

 

Este fim de semana estive em Castanheira de Pêra, uma pequena Vila bem no centro do País, longe do betão das auto-estradas, longe das praias, longe do litoral, o que por lá vi deixou-me deveras surpreendido. 

 

Não sei de quem terá sido a ideia, mas  se a praia fica muito longe para as gentes de Castanheira e arredores, nada como levar a Praia até Castanheira e constrói-se uma, magnifica, com ondas e nadadores salvadores e tudo. Dá pelo nome de Praia das Rocas e garanto que pelo menos em Junho é um local muito agradável de se estar.

 

Conjugando este magnifico equipamento, com o circuito das aldeias de Xisto, os inúmeros circuitos de passeios pedestres que se conjugam com as muitas praias fluviais em rios de águas límpidas e cristalinas, a gastronomia e a beleza natural, temos ali um excelente pólo do cada vez mais na moda, Turismo da natureza.

 

Ouvimos muitas vezes falar dos malefícios da interioridade, Castanheira de Pêra pareceu-me um excelente exemplo de como se contraria a interioridade, com ideias que privilegiam o aproveitamento da natureza, criam emprego e dinamizam a economia. Um exemplo a seguir, um local que aconselho vivamente a visitar e a revisitar.

 

Jorge Soares

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publicado às 22:21

Conto, Eveline

por Jorge Soares, em 11.06.11

Eveline, James Joyce

 

Ela sentou-se à janela para ver a noite invadir a avenida. Encostou a cabeça na cortina e o odor de cretone empoeirado encheu-lhe as narinas. Sentia-se cansada.
Poucas pessoas por ali passavam. O sujeito que morava no fim da rua passou a caminho de casa; ela ouviu seus passos estalando na calçada de concreto e em seguida rangendo sobre o caminho coberto com cascalho em frente às casas vermelhas. Tempos atrás havia ali um terreno baldio onde eles brincavam toda noite com os filhos dos vizinhos. Mais tarde um indivíduo de Belfast com­prara o terreno e construíra casas — mas não eram casas pequenas e escuras como aquelas em que eles moravam; eram casas vistosas de tijolo e com telhados luzidios. As crianças que moravam na avenida costumavam reunir-se para brincar naquele terreno — crianças das famílias Devine, Water, Dunns, o pequeno Keogh, que era manco, ela e seus irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, nunca brincava: já estava crescido. O pai dela muitas vezes enxotava-os do terreno com sua bengala de madeira preta; mas geralmente o pequeno Keogh montava guarda e dava o alarme quando avistava o homem se aproximando. Apesar de tudo consideravam-se bas­tante felizes naquela época. Seu pai ainda não estava tão mal e, além disso, a mãe ainda estava viva. Isso tudo acontecera há muito tempo; ela, seus irmãos e irmãs tinham crescido; a mãe estava morta. Tizzie Dunn também morrera e a família Water havia retornado à Inglaterra. Tudo se modifica. Agora era a vez dela ir embora, como os outros, ia sair de casa.
Casa! Correu os olhos pela sala, revendo todos os objetos conhecidos, por ela espanados uma vez por semana há tantos anos, e perguntou-se de onde vinha tanta poeira. Talvez jamais voltasse a ver aqueles objetos conhecidos dos quais jamais imagi­nou separar-se um dia. Contudo, durante todos aqueles anos ela nunca viera a saber o nome do padre cuja fotografia amarelada se encontrava pendurada na parede acima da pianola quebrada, ao lado da gravura em louvor à beata Margarida Maria Alacoque. O padre fora colega de escola do pai dela. Sempre que mostrava a foto a uma visita ele repetia mecanicamente a mesma frase:
— Ele está em Melbourne agora.
Concordado em partir, em deixar a própria casa. Teria sido uma decisão sensata? Tentou analisar cada lado da questão. Em casa ao menos tinha um teto e comida; vivia entre pessoas que conhecia desde criança. É bem verdade que o trabalho era pesado, tanto em casa quanto no emprego. O que diriam na loja quando descobrissem que ela fugira de casa com um sujeito qualquer? Que era uma idiota, talvez; e sua vaga seria preenchida através de um anúncio no jornal. Miss Gavan ficaria bem satisfeita. Sempre implicara com ela, especialmente quando havia gente em volta.
— Miss Hill, não está vendo estas senhoras esperando?
— Mexa-se, Miss Hill, por favor!
Ela não derramaria muitas lágrimas por deixar a loja.
Em seu novo lar, num país distante e desconhecido, tudo seria diferente. Estaria casada — ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito. Não seria tratada como a mãe o fora. Mesmo agora, que estava com mais de dezenove anos, sentia-se às vezes amea­çada pela violência do pai. Sabia que tinha sido isso a causa daquelas palpitações. Quando eram crianças ele nunca havia batido nela, conforme batia em Harry e em Ernest, porque ela era menina; mas ultimamente passara a ameaçá-la e a dizer o que faria com ela não fosse a lembrança da mãe falecida. E agora não havia mais ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que trabalhava com decoração de igrejas, estava quase sempre ausen­te, viajando pelo sul do país. Além do mais, o inevitável bate-boca sobre dinheiro todo sábado à noite começava a deixá-la exausta, mais do que qualquer outra coisa. Ela sempre entregava o salário inteiro — sete shillings — e Harry sempre enviava o que podia mas o problema era conseguir arrancar dinheiro do pai. Ele dizia que ela desperdiçava dinheiro, que não tinha juízo, que não lhe daria o seu dinheiro suado para ser jogado fora, e dizia muito mais, pois geralmente ficava em péssimo estado nas noites de sábado. Contudo, acabava dando-lhe o dinheiro e perguntava-lhe se ia ou não comprar as provisões para o jantar de domingo. Então ela era obrigada a sair correndo para o mercado, segurando firme a bolsa preta de couro enquanto abria caminho na multidão com os cotovelos, e voltava para casa tarde, carregada de pacotes. Trabalhava pesado para manter a casa em ordem e garantir às duas crianças que haviam ficado sob os seus cuidados a oportunidade de freqüentar a escola devidamente alimentadas. O traba­lho era pesado — uma vida difícil — mas agora que estava prestes a deixar tudo para trás não considerava a vida que levava de todo indesejável.
Estava prestes a começar a explorar uma outra vida ao lado de Frank. Frank era um homem bom, viril, amoroso. Concordara em fugir com ele na barca noturna para tornar-se sua esposa e viver ao seu lado em Buenos Aires, onde ele possuía uma casa à espera dela. Com que nitidez se recordava da primeira vez em que o vira! Ele alugava um quarto numa casa na rua principal, que ela costu­mava freqüentar. Tudo parecia ter acontecido há apenas algumas semanas: ele parado no portão, com o boné no cocuruto da cabeça e o cabelo despenteado caído sobre a testa bronzeada. Então começaram a se conhecer melhor. Ele costumava esperá-la todas as noites à porta da loja para acompanhá-la até em casa. Levou-a para assistir The bohemian girl e ela ficou radiante por sentar-se ao lado dele num setor do teatro onde não costumava ficar. Ele adorava música e tinha uma voz razoável. As pessoas notavam que os dois estavam namorando e, sempre que ele cantava a canção sobre a jovem que amava o marinheiro, ela sentia um agradável acanhamento. Ele gostava de chamá-la de Poppens, carinhosamente. A princípio a idéia de ter um namorado não passara de uma empolgação, mas logo começou a gostar dele de verdade. Frank contara-lhe histórias de países distantes. Começa­ra a vida como taifeiro ganhando uma libra por mês a bordo de um navio da Allan Line com destino ao Canadá. Disse-lhe tam­bém os nomes de todos os navios em que viajara bem como de diversas companhias de navegação. Velejara pelo estreito de Ma­galhães e contara-lhe histórias a respeito dos terríveis habitantes da Patagônia. Estabelecera-se em Buenos Aires, dizia ele, e voltara à velha terra natal apenas para passar férias. O pai dela, obviamente, descobrira o namoro e a proibira de sequer dirigir-lhe a palavra.
— Conheço bem esses marinheiros — ele dizia.
Um dia o pai discutira com Frank e a partir de então ela fora obrigada a encontrar-se com o namorado às escondidas.
A noite aprofundava-se na avenida. O reflexo branco de duas cartas que tinha ao colo se tornava indistinto. Uma era para Harry; a outra, para o pai. Ernest era seu irmão preferido mas também gostava de Harry. O pai estava ficando velho, dava para notar; sentiria a falta dela. Às vezes, ele sabia ser agradável. Há pouco tempo, quando ficara acamada um dia inteiro, ele lera para ela um conto de terror e preparara-lhe umas torradas. Em outra ocasião, quando a mãe ainda estava viva, fizeram juntos um piquenique em Hill of Howth. Lembrava-se do pai colocando o chapéu da mulher para divertir as crianças.
Estava chegando a hora mas ela continuava sentada à janela, com a cabeça encostada na cortina, aspirando o cheiro de cretone empoeirado. Lá embaixo na avenida ouvia um realejo tocando. Conhecia a canção. Estranho que o realejo surgisse ali naquela noite, como que para lembrá-la da promessa que fizera à mãe, de preservar o lar unido enquanto pudesse. Lembrou-se da noite em que a mãe morrera; era como se estivesse novamente no quarto fechado e escuro do outro lado do hall e lá fora ouvisse a melan­cólica canção italiana. Na ocasião, deram seis pence ao tocador de realejo e pediram-lhe que fosse embora. Lembrou-se do pai vol­tando ao quarto da enferma com um andar emproado, excla­mando:
— Italianos desgraçados! O que eles querem aqui?
Enquanto divagava, a visão deplorável da vida que a mãe levara tocou-a no fundo da alma — uma vida de sacrifícios banais culminando em loucura. Estremeceu quando voltou a ouvir a voz da mãe repetindo com uma desvairada insistência:
—Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!
Levantou-se num sobressalto de pavor. Fugir! Precisava fugir! Frank a salvaria. Daria uma vida a ela, talvez, quem sabe, até amor. E ela queria viver. Por que haveria de ser infeliz? Tinha direito à felicidade. Frank a tomaria nos braços, a abraçaria. Ele a salvaria.

 

Lá estava ela no meio da multidão ondulante na estação de embarque de North Wall. Ele segurava-lhe a mão e ela sabia que estava se dirigindo a ela, repetindo alguma coisa a respeito das passagens. A estação estava repleta de soldados carregando malas marrons. Através dos largos portões do embarcadouro ela podia ver o vulto negro do navio, atracado ao longo do cais com as vigias iluminadas. Ela nada respondia. Sentia o rosto pálido e frio e, num labirinto de aflição, rezou pedindo a Deus que lhe guiasse, que lhe apontasse o caminho. O navio lançou dentro da névoa um silvo longo e triste. Se partisse, amanhã estaria no mar ao lado de Frank, navegando em direção a Buenos Aires. As passagens dos dois já estavam compradas. Seria possível voltar atrás depois de tudo o que ele fizera por ela? A aflição que sentia lhe provocava náuseas e ela continuava a mover os lábios rezando fervorosamente em silêncio.
Um sino repicou em seu coração. Deu-se conta de que ele lhe agarrara a mão:
— Vem!
Todos os mares do mundo agitavam-se dentro de seu coração. Ele a estava levando para esses mares: ele a afogaria. Agarrou-se com as duas mãos às grades de ferro.
— Vem!
Não! Não! Não! Era impossível. Suas mãos agarraram-se ao ferro em desespero. No meio dos mares ela deu um grito de angústia!
— Eveline! Evvy!
Ele correu para o outro Lado do cordão de isolamento e a chamou, para que o seguisse. Gritaram para que fosse em frente, mas ele continuava a chamá-la. Ela o encarava com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstra­vam qualquer sinal de amor, saudade, ou gratidão.

 

Retirado de Mulheres que pecam

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publicado às 21:10

Que se festeja no dia de Portugal?

por Jorge Soares, em 10.06.11

O que se festeja no dia de Portugal?

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Todos sabemos que hoje é feriado em Portugal, mas será que sabemos qual a verdadeira origem deste dia?, Desde quando se festeja e o porquê de se ter escolhido o dia em que se presume morreu Camões para o festejar? Eu não fazia a menor ideia.

 

O dia de Portugal só passou a ser festejado após a implantação da República em 1910. Na altura e num tentativa de se criar um estado mais laico foram eliminados alguns dos feriados religiosos e decretados os seguintes dias feriados nacionais:

 

1º de Janeiro, que era o dia da Fraternidade Universal;

31 de Janeiro, que evocava a revolução – aliás, falhada - do Porto, e que portanto era consagrado aos mártires da República;

5 de Outubro, vocacionado para louvar os heróis da República;

1º de Dezembro, que era o Dia da Autonomia e o Dia da Bandeira;

25 de Dezembro, que passou a ser considerado o Dia da Família, tentando também laicizar essa festa religiosa que era o Natal"

 

Para além destes dias, os municípios podiam escolher um dia do ano para evocar as suas festas tradicionais, os republicanos de Lisboa escolheram para feriado Municipal o dia 10 de Junho em que se festejava o dia de Camões.

 

Segundo Cecília Meireles "Camões representava justamente o génio da pátria, representava Portugal na sua dimensão mais esplendorosa e mais genial". Era essencialmente este o significado que os republicanos atribuíam ao 10 de Junho, isto "apesar de ser um feriado exclusivamente municipal no tempo da República". Os republicanos de Lisboa tentaram também com este feriado retirar alguma importância aos festejos do Santo António, de novo numa tentativa de afastamento das festas religiosas.

 

Com o advento do estado novo o dia passou a ser feriado nacional e adquiriu um sentido nacionalista em que se exaltava o império e a sua importância.

 

Fonte JPN

 

Jorge Soares

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publicado às 10:03

... um carinho no momento preciso ....

por Jorge Soares, em 09.06.11

 

Valorizar as pequenas coisas

 

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

 

Mário Quintana

 

E de que é feita a vida senão de pequenas coisas?

 

Setúbal, Maio de 2011

Jorge Soares

 

PS:Quando estiver a ler isto estarei algures a gozar os feriados... bom Feriado e bom fim de semana

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publicado às 21:03



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