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Devolução de IRS 

 

Eu devo ser muito burro, nos últimos dois dias o meu Facebook foi inundado com imagens como a que vemos acima e outras parecidas, bom, ou o estado não se soube explicar, ou o lóbi dos que não querem pagar impostos me entrou em força pelo Facebook adentro.

 

Vejamos, até agora nós pagávamos o IVA e não só não recebíamos nada em troca, como muitas vezes ao não pedirmos factura o imposto que pagávamos não ia para o estado mas sim direitinho para os bolsos de comerciantes pouco escrupulosos. A partir de agora, não só o estado nos vai passar a devolver uma parte do IVA que pagamos, como ao pedirmos sempre factura vamos contribuir para a diminuição da fuga aos impostos e na sequência para a melhoria das finanças do estado.

 

É claro que podemos sempre argumentar que 5% do IVA é um valor muito baixo, mas é preciso ter em conta que o IVA é um imposto  e que o estado não pode simplesmente abdicar do valor recaudado, de resto, esta não é uma medida para dar nada a ninguém, esta é uma medida que tem por finalidade combater a fuga aos impostos.

 

Também deveria ser claro, pelos vistos não é, que se bem é verdade que quem ganha  o salário mínimo não pode dar-se ao luxo de gastar 25000 Euros para poder receber 250, eu ganho bem mais que o salário mínimo e não tenho essa capacidade, também é verdade que quem ganha o salário mínimo não paga IRS, logo, também não tem por onde fazer a dedução.

 

Por fim, para aqueles que como esta senhora, utilizam o argumento de que se ganha mais não pedindo factura que pedindo, só queria recordar que não pedir factura para não pagar o IVA é crime, não, não é ser Chico-esperto, é roubar o país e é contribuir para a situação em que estamos. Todos deitamos a culpa ao governo e a quem nos tem governado pela situação em que estamos, mas na hora da verdade quando temos que fazer a nossa parte e contribuir com a nossa parte como cidadãos, fazemos tudo o possível para fugir às nossas obrigações.

 

Eu não sei vocês, mas eu penso pedir factura de cada Euro que gaste, se no fim me devolverem 10 Euros eu vou ficar contente, porque 10 Euros é melhor que os zero que me tem devolvido até aqui. 

 

Agora, alguém me explique como se eu fosse muito burro, o que tem de mal que o estado nos devolva uma parte do IRS que pagamos?

 

Jorge Soares

publicado às 19:07

Morreu o historiador José Hermano Saraiva

 

Imagem do Público 

 

 

Sou demasiado novo para me recordar do passado pré 25 de Abril de José Hermano Saraiva, não tão novo como para ignorar que ele foi uma personagem ligada ao antigo regime e que teve o seu papel na história do regime e em tudo o que ele significou.

 

Mesmo assim, para mim que não fiz o ensino secundário em Portugal e que nunca estudei a história do nosso país, José Hermano Saraiva é o homem que me deu a conhecer não só uma boa parte da nossa história, como muitos lugares dos que não teria nunca ouvido falar se não fossem os seus programas de televisão .

 

Hoje José Hermano Saraiva passou de nos contar a nossa história a fazer parte dela, segundo notícia do Público, morreu em sua casa em Setúbal... eu vou ter saudades dos seus programas.

 

Jorge Soares

publicado às 19:00

Setúbal, Cartaz da Feira de Santiago 2012

por Jorge Soares, em 20.07.12

Feira de Santiago

 

Considerada a mais antiga do sul do país e, assinalando este ano, 430 anos, a Feira de Sant’iago vai de novo surpreender. De 21 de Julho a 5 de Agosto, a Câmara Municipal de Setúbal e a Parque Sant’iago promovem um certame que irá oferecer aos visitantes novos espaços no recinto bem como ter um programa de espectáculos como nunca se viu.


No ano passado a Feira de Sant’iago alcançou o recorde de visitantes (410 mil). Em 2012 a aposta concentra-se na qualidade e variedade de oferta num recinto que aguarda a sua visita.


"O Mercado do Livramento - 136 anos de histórias e tradições" é o tema da feira deste ano. Consulte o programa e venha até à Feira de Sant’iago.
Seja bem vindo a Setúbal.

Programa - Palco Amarsul

Clique nos artistas e eventos a bold para detalhes,
biografias e fotos

JULHO

  • 21 - Sábado - 22h00 - Gonçalo Bilé
  • 21 - Sábado - 22h45 - Vanessa da Mata
  • 22 - Domingo - 21h30 - Grande Noite do Fado
    Geogete de Jesus, Piedade Fernandes, Deolinda de Jesus, Maria Madalena, Rui do Cabo, Inês Duarte, Eduardo Silva, Ramiro Costa, Vanessa Costa, Custódio Magalhães,
    Vitor Pereira
  • 22 - Domingo - 23h00 - Ana Lains
  • 23 - Segunda-feira - 22h00 - Aurea
  • 24 - Terça-feira - 22h00 - Bandas Jovens
    The Ballis Band, Wind Koala, Until Death Dies. Uaninauei
  • 25 - Quarta-feira - 22h00 - Boss AC
  • 26 - Quinta-Feira - 22h00 - OGAE Summer Party
    Filipe Delgado, Carla Ribeiro, Ricardo Soler, Vânia Osório, Gerson Santos, Teresa Miguel, Bruno Correia
  • 27 - Sexta-Feira - 22h00 - Toy
  • 28 - Sábado - 22h00 - Janita Salomé com Filarmónica de Idanha-a-Nova
  • 29 - Domingo - 22h00 - David Fonseca
  • 30 - Segunda-feira - Noite de Rap S. Sebastião Flow
    Mundo 3, Sentido Obrigatório, Mente Explosiva, Poetas Suburbanos, Sniper, BBkapa, Beat Box Filipe Goncalves, Bee-Boys Digimon Crew, Star Dance, Dagun - Kosmo & Malaba
  • 31 - Terça-feira - 21h00 - Noite Setubalense
    Alcorrazes, Massacotes, 4 Sixties, Cantares do Sado,
    Trio Zagaia
  • 31 - Terça-feira - 22h30 - Jorge Nice

AGOSTO

  • 01 - Quarta-feira - 22h00 - Luísa Sobral
  • 02 - Quinta-feira - 22h00 - Carminho
  • 03 - Sexta-feira - 22h00 - Orquestra Ligeira Bohémia
  • 03 - Sexta-feira - 23h00 - Tributo a José Afonso
  • 04 - Sábado - 22h00 - Noite da Lusofonia
    Chalo - Angola, Tércio Borges e os Democratas do Samba - Brasil
  • 05 - Domingo - 22h00 - José Cid
Retirado de Música Portuguesa

publicado às 18:50

Incêndios na Madeira

Imagem do Público

 

Infelizmente os anos passam e as coisas só pioram, o que se está a passar na Madeira, em Tavira e um pouco por todo o país é uma repetição do que se passou o ano passado, há dois anos, e básicamente em todos os anos anteriores, porque apesar de que todos os verões é a mesma coisa, a verdade é que não aprendemos nada de um ano para o outro e mal termina o calor e aparecem as primeiras chuvas em Setembro ou Outubro, simplesmente esquecemos os incêndios, a área ardida e as causas de tudo isto.

 

A propósito deste assunto, escrevi o seguinte neste post a 27 de Julho de 2010:

 

Há 15 dias fui passar o fim de semana aos meus pais, no Sábado à tarde peguei na máquina fotográfica e fui dar uma volta pelo lugar. Junto às ultimas casas e antes de entrarmos na densa floresta de pinheiros e eucaliptos, nos terrenos abandonados restam algumas árvores de frutos, uma figueira, pessegueiros, restos de uma enorme cerejeira e uma macieira coberta de frutos avermelhados que despontam por entre o enorme silvado que tomou conta de tudo. Do outro lado e a poucos metros das casas, por entre as árvores o mato que há muito não é limpo por ninguém, é bem mais alto que eu.

 

Hoje no telejornal (podem ver aqui) Hermínio Loureiro, Presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis, desde as margens do rio Caima em Ossela, falava de um incêndio que decorria a poucos metros da povoação e descrevia uma situação assustadora e caótica. Lembro-me de há 3 ou 4 anos passar naquele mesmo lugar, que fica a poucos Kms da casa dos meus pais,  e ver toda a encosta junto ao rio completamente queimada. Não foi há muito que toda aquela floresta ardeu.. esse incêndio terá sido a ultima vez que aquele lugar foi limpo, sendo que desde então esteve a acumular combustível... para mais um incêndio.

 

A lei diz que a responsabilidade da limpeza das matas é dos seus proprietários, mas cabe ao estado, neste caso à Câmara Municipal, fiscalizar e notificar para que as limpezas sejam feitas. A realidade é que as matas não são limpas, ninguém fiscaliza e mal o tempo começa a aquecer os incêndios aparecem... e as imagens são as que infelizmente conhecemos de todos os anos.

 

Em toda a Europa a Biomassa é um negocio  que movimenta muitos milhões de Euros e em crescimento constante, em Portugal a biomassa acumula nas matas até que é consumida pelos incêndios florestais. O dinheiro que não se ganha com o seu aproveitamento é gasto no aluguer de aviões e de helicópteros que são sempre em número insuficiente para acudir ao número cada vez maior de incêndios (notícia do Público).

 

É de louvar que nesta altura o Sr, Hermínio Loureiro apareça junto à população, mas era muito mais inteligente de sua parte aparecer por lá na Primavera junto com os fiscais da Câmara e garantir que no verão as matas estejam limpas e livres de biomassa, e a prevenir que estas coisas aconteçam. E quem diz Hermínio Loureiro, pode dizer qualquer outro responsável camarário das centenas de câmaras com área florestal no nosso país.

 

Hoje os locais e os protagonistas são outros, mas a realidade e os culpados são os mesmos

 

Jorge Soares

publicado às 23:01

Dom Januário Torgal Ferreira e a corruopção

 

D. Januário Torgal Ferreira compara "alguns" ministros a "diabinhos negros" 

 

"Há jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção. Este Governo é profundamente corrupto nestas atitudes a que estamos a assistir", as palavras são de Januário Torgal Ferreira, bispo e capelão das forças armadas.

 

Curiosamente a primeira vez que ouvi falar do assunto alguém associou as palavras ao governo de Sócrates e não ao de Passos Coelho, independentemente da imagem que se tenha da igreja católica e das pessoas que a formam, e a imagem que eu tenho é mesmo péssima, é difícil entender que alguém com a visibilidade que este senhor tem, venha para a praça pública dizer coisas como estas.

 

Porque uma coisa é dizer que estes senhores governam mal, e todos sabemos que isso é verdade, que aplicam a austeridade de forma cega, que o fazem, ou que estão a levar o país por um caminho que dificilmente nos tirará da atoladouro em que caímos, outra coisa muito diferente é dizer, "este governo é profundamente corrupto".

 

Acusar um politico de não saber governar ou de governar em prol dos interesses do seu partido é muito diferente de o acusar de ser corrupto.

 

Feita a acusação, agora exige-se que o senhor concretize,  que explique com factos e nomes de que corrupção está ele a falar, a corrupção é um crime, está penada por lei e é do país e dos impostos de todos nós que estamos a falar.

 

Dom Januário, estamos à espera, diga lá se faz favor os nomes dos corruptos que a malta quer justiça e limpeza no governo.

 

Jorge Soares

publicado às 21:11

Conhecer Portugal: Praia Fluvial da Fróia

por Jorge Soares, em 17.07.12

Praia Fluvial da Fróia, Proença a nova

Imagem minha do Momentos e olhares

 

 

Somos um país tão virado para o mar que muitas vezes esquecemos que existe vida e muito que ver e fazer para além da faixa litoral e das praias cheias.

 

Na Beira baixa, para além das Aldeias do Xisto e dos muitos percursos pedestres, existe uma rede de Praias fluviais onde os municipios souberam aproveitar a natureza já seja pela sua beleza ou  pela qualidade da água dos seus rios, para proporcionar já seja aos seus habitantes ou a quem os queira visitar, locais de lazer de excelente qualidade.

 

A Praia fluvial da Froia fica na vila de Sobreira Formosa, a 11 Kms de Proença a Nova e conquistou o galardão Praia com Qualidade de Ouro da Quercus.

 

Situa-se num pequeno vale, tem as suas margens requalificadas com caminhos pedestres, áreas de descanso, áreas para picnic, casas de banho e até um parque infantil. Trata-se de um espaço bem arranjado que se estende ao longo de cerca de duzentos metros da ribeira. A praia é vigiada e possui um bar de apoio e um largo passeio, onde podem estender-se as toalhas, a  água impressiona pela sua transparência e qualidade.

 

Praia Fluvial da Froia


A zona de banhos que se extende ao longo dos 200 metros, tem zonas de águas profundas onde os mais afoitos podem mergulhar e nadar e zonas menos profundas onde as crianças mais pequenas se podem divertir em completa segurança.
 

 

Tirando o detalhe do apoio de praia de que já aqui falei, é um cantinho do nosso país que aconselho vivamente.

 

Podem ver mais fotografias no picasa, aqui

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:27

O Freeport pariu um rato

Imagem do Público

 

 

O Ministério Público pediu esta segunda-feira no Tribunal do Barreiro a absolvição dos dois arguidos do caso Freeport, Charles Smith e Manuel Pedro, considerando que durante o julgamento não ficaram provados os factos que lhes eram imputados

 

Depois dos rios de tinta que se gastou com isto, das fugas para a China, depois de tantas acusações e denuncias directas ou indirectas, depois de tantas suspeitas lançadas ao vento, foi preciso que mudasse o governo e que Sócrates fosse estudar para Paris para que no fim tudo isto desse em nada.

 

É curioso como estas coisas acontecem uma e outra vez nos processos judiciais em Portugal, eu não consigo deixar de pensar que tudo isto:

 

1- Não foi mais que uma enorme encenação para denegrir e afastar do poder um ou mais nomes que constam ou que se pretendia que constassem do processo.

 

ou

 

2- A nossa justiça está mesmo ferida de morte e raramente algum processo que envolva actuais ou ex-politicos termina em condenação efectiva porque por trás de tudo o que vemos há quem mexa todos os cordelinhos para garantir a impunidade.

 

Depois de todo o folclore e todo o barulho feito por não sei quantos magistrados e investigadores do ministério público, como podem estes senhores pedir a absolvição dos acusados? Então aquilo tudo foi para quê?

 

O pior é que depois disto tudo e de todo o tempo e dinheiro que já se gastou com todo este filme triste, agora vão de certeza vir os pedidos de indemnização de quem durante anos foi acusado e viu o seu nome ser denegrido junto da opinião pública... indemnizações que irão evidentemente sair dos nossos impostos e não do bolso de quem andou anos a brincar à justiça.

 

Este país é sem dúvida nenhuma cada vez mais surreal

 

Jorge Soares

publicado às 22:58

 

Letra

 

Sete passos levam Carolina

desta esquina até aquela

passos leves de menina

levam Carolina

e ela nunca dá por quem só dá por ela

 

Se o relógio da torre da estação

também for assim preciso

hoje já vem com demora

mas eu só acerto a hora

quando ela dobrar a esquina

 

e é tão triste a madrugada

quando não existe nada

a não ser a Carolina 

e eu parado numa esquina 

a contar os passos dela

 

e é tão linda a madrugada

é tão triste a madrugada

 

e eu que não sou muito de sonhar

ás vezes lá me atrevo

e uma moça na janela

sabe quantos passo leva

desta esquina até aquela

 

e é tão triste a madrugada

quando não existe nada

a não ser a Carolina

e eu parado numa esquina  

a contar os passos dela

 

e é tão linda a madrugada

é tão triste a madrugada

publicado às 22:11

Praia Fluvial da Froia

Imagem minha do Momentos e Olhares 

 

Este fim de semana andamos de passeio pela beira interior, um dos lugares que visitamos foi a praia fluvial da Fróia, um lugar paradisíaco que fica a 11 kms de Proença a Nova, com um excelente aproveitamento da Ribeira da Froia em piscinas de água límpida e transparente de que já falarei outro dia.

 

A praia fica distante da povoação e é servida por um bar moderno com excelentes vistas para a serra e a praia. Como estava muito calor decidimos fazer a viagem ao fim da tarde, os miúdos aproveitaram para dar muitos mergulhos e nós fizemos a viagem mais descansados fora da hora do pico do calor.

 

Antes de sairmos decidimos comer qualquer coisa no bar. Mandamos vir hambúrgueres para mim e para os miúdos e uma tosta mista para a minha meia Laranja, tudo acompanhado por meias de leite e um café para mim. 

 

As meias de leite e o meu café vieram de imediato, o resto é que foi mais complicado, quando já tinha passado uma boa meia hora e evidentemente as meias de leite estavam frias ou bebidas, e depois de ver como pessoas que tinham chegado depois de nós tinham sido servidas e até já tinham comido,  achamos que era demais e perguntamos o que se passava.

 

A empregada pediu imensa desculpa, uma mesa antes de nós tinha pedido 5 hambúrgueres e isso tinha atrasado os nossos, não gostei da desculpa, mas tentei entender. Passados mais uns 10 minutos lá vieram os hambúrgueres, mas da tosta mista nem cheiro.... estava tudo com fome e os hambúrgueres foram num instantinho, da tosta mista nada... até que a P. perdeu a paciência e foi ao balcão perguntar o que se passava.

 

Pelo que percebemos o que se passava é que simplesmente se tinham esquecido da tosta mista e deram como desculpa que a tostadeira estava fria e que tiveram que esperar que aquecesse. Deve ser uma coisa especial de corrida para demorar 45 minutos a aquecer.

 

Eu percebo que estas coisas aconteçam, mas já não percebo a arrogância com que o senhor, que imagino era o dono do bar, nos respondeu, sempre com 4 pedras na mão, cheio de razão e sem nunca assumir o erro ou pedir desculpa. Quando questionamos porque tinham levado as bebidas se sabiam que os hambúrgueres e a tosta iam demorar muito tempo, respondeu que a culpa era nossa, nós é que não explicamos que queríamos as bebidas junto com a comida... pois.

 

Um dos maiores problemas do Turismo no nosso país são os serviços, não adianta termos lugares fantásticos, bonitos e arranjados como a Praia da Fróia, construirmos apoios de praia modernos e funcionais, se depois colocamos a gerir os lugares e a servir os turistas pessoas sem formação e sem a mínima vocação.

 

Mas devíamos logo ter percebido quando no dia anterior ao ir com as crianças a comprar um gelado, nos disseram que não era permitido estar ali em fato de banho.... isto quando a arca dos gelados está bem no interior do bar... ora, um apoio de praia onde não se pode entrar em fato de banho deve ser mesmo uma originalidade tuga.

 

Jorge Soares

publicado às 23:16

Conto, Sevilhanas

por Jorge Soares, em 14.07.12

Sevilhana

Imagem de aqui

 

Onze e quarenta e cinco, anunciava o relógio. Anoitecera, embora ninguém tenha se preocupado em acender as luzes. Talvez em nome da agradável penumbra avermelhada no quarto, traçada a partir do abajur do contista; talvez pelo destaque que o escuro possibilitava ao som do piano vindo daquele mesmo cômodo. Um dó, um ré, um mi. Um fá. Um sol, ao fim da luz vermelha, e na primeira margem da folha vazia. Sentou-se na cadeira de madeira, recostando-se. Ao seu lado, os dedos prosseguiam a pressionar fortemente as teclas do canto direito do piano -- as agudas, doces, de cor azul-púrpura. Poderia estar enganado, reconhecia, mas tinha a impressão de estar ouvindo, de modo consideravelmente longínquo, o leve som da batida de castanholas. Levantou-se e certificou-se de destoar o trinco enferrujado da janela. Precisava de mais sons além dos provenientes do dó, do ré, do mi, além das vozes caladas, da forte batida de seus dedos nas teclas de sua máquina de escrever Olivetti. Precisava do silêncio que os demais sons traziam. As castanholas pareciam seduzí-lo, e puxavam-no pela gravata -- ato seguido por um olhar proibido. Seduziam-no tanto quanto o roçar da barra do vestido nas pernas. Lábios vermelhos, mãos delicadas.


Pele com pele.
Perdeu-se em sensações, convicto de que são as únicas coisas que carrega consigo...
... e então avistou.
O fez ainda de longe, mas certo de que tratava-se de barras de vestido, de pernas e de lábios -- avistou as castanholas -- e de mãos. Certo de que tratava-se de uma cigana.

Atentou-se aos cabelos longos, bem escuros, enrolados. Aos olhos acizentados, aos lábios, delicados como as maçãs de seu rosto. O vestido vermelho cobria sua cintura fina, roçando nas pernas atraentes. Uma flor escarlate presa em sua cabeça, e brincos de argola. Sua expressão trazia a mesma luz da quinta nota musical, e, então, o barulho -- o som do piano abaixava cada vez mais, até atingir tons inaudíveis. As vozes, antes caladas, passaram a marcar presença em sua mente quando lá acumularam-se. Perdeu-se nelas, certo de que assim somos movidos.
Perdeu-se por um longo tempo.


Apoiando-se na batente da janela, redirecionou sua cabeça em direção à lua e fechou os olhos. Imaginou-se girando a maçaneta dourada da porta de madeira com um breve movimento de suas mãos, e viu-se correndo em direção ao som das castanholas, tão impreciso e sedutor.

 

Desejou suas próprias mãos completando o vazio que havia ao redor daquela cintura -- em seus semotos pensamentos, já há tempos ansiava que não mais estivesse envolta por cetim vermelho algum. Via a mesma penumbra vermelha de seu quarto iluminando-a, refletindo-se naqueles olhos nublados. E o oco som das castanholas prosseguia a soar de suas mãos delicadas. Um passo, seguido por outro. Seus pés tocam o piso de madeira, em uma sequência ritmada às suas mãos. Seus braços se dobram para atrás, e sua cintura move-se para lá e para cá, em movimentos discretos, porém um tanto chamativos aos olhos do rapaz. A atraente cigana move seu braço esquerdo para a direita, e suas pernas realizam movimentos que fixam a atenção. A mão direita é erguida em direção à lua, e lentamente abaixada acompanhada pelo leve soar das velhas castanholas. A barra de seu vestido é erguida por suas mãos, tão finas e belas, e, infelizmente, sentiu o contista, logo abaixada, dando uma volta quase completa ao redor de suas canelas, e então retornando à sua posição inicial.


O homem decidiu aproximar-se, seduzido por seus movimentos. Todo o seu ser desejava intensamente aqueles lábios, aquelas mãos, aqueles olhos nublados, chuvosos. Por toda a sua vida nunca desejara tanto alguma mulher como ansiava por estar o mais próximo possível daquela cigana naquela noite. Ergueu suas mãos, fortes, masculinas, em direção ao rosto da mulher mais bela que já vira em todos os seus anos de vida.
...
Duas e dezessete, anunciava o relógio. Logo após encaixar a folha vazia em sua máquina de escrever, o contista compunha um novo escrito ao som de castanholas. Poderia estar enganado, sempre o reconhecia, mas tinha a impressão de estar ouvindo, de modo consideravelmente longínquo, o açucarado som de uma flauta...

 

Carolina Benazzato

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:14



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