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Adopção: de novo as crianças devolvidas

por Jorge Soares, em 20.05.13

adopção

 

Alguém me deixou o seguinte comentário neste post do Nós adoptamos


"Aprecio que tenha corrido tudo bem ao autor do blog, no entanto comigo não se passou assim...
Recebi dois irmãos de braços abertos para quem preparei tudo e dediquei muito tempo da minha vida á espera.

No entanto um dos irmãos (menina de 9 anos), cujo passado não era dos melhores e eu até já sabia, pois tinha suspeitas de abusos sexuais por parte dos pais), revelo-se se ainda pior.
Com o tempo soube que a menina não só tinha sido abusada pelo pai mas também pelo tio, ( com a indiferença dos pais), pois também soube que a sua irmã mais velha que vivia com a avó era filha do avô.

Isto tudo descobri á posteriorí, pois quando me foi apresentado o processo só me disseram que havia suspeitas, (no entanto estava tudo nos registos do tribunal que mais tarde tive acesso).
Acontece que a menina que esteve numa instituição cercade dois anos não teve qualquer apoio psicológico e que a sua preparação para a nova família foi apenas a psicóloga dizer-lhe que não precisava gostar dos pais novos tinha só de pensar que ia receber muitas prendas.

Escusado será dizer que a menina nunca gostou de nós e que desde que entrou na nossa casa só pedia que lhe dessemos tudo e fazia exigências tendo tornado-se até um bocadinho mal educada e pedindo coisas com alguma soberba.

Pois a resposta da segurança social foi que tinhamos que colocar a menina em apoio psicológico e psicoterapia.

Agora pergunto-me, sabendo a instituição de tudo isto e recebendo os subsidios do estado que como sabemos não são poucos, não deveria ter sido esta a colocar a criança em psicoterapia.... será legitimo pedir aos candidatos em pré-adoção que se querem ter uma menina que goste deles terão de lhe pagar sessões de psicoterapia...

Digo-lhe que estou prestes a devolver a menina pois esta de dia para dia vai estando pior, e como não lhe damos a prendas prometidas pela psicologa da instituição cada dia nos trata pior e como seus criados. ainda não a devolvemos só por causa da irmã mais nova que se adaptou bem a nós e que está muito bem integrada, e que sabemos que iremos perder se entregar-mos a mais velha.... e neste caso a culpa é de quêm? dos pais que esperam pelo menos uma criança que os trate bem e que não parta televisões de propósito e depois ainda se ria?

Será que as nossas instituições estão a funcionar devidamente ou só se interessam mesmo com os subsidios não se preocupando nada com as crianças que albergam nem as avaliando devidamente nem preparando para ter uma familia?

Antes de descriminar-mos quem devolve crianças deveremos pensar mesmo nas razões..... e não nos podemos esquecer que também existem crianças crueis e algo más."


Deixe lá ver se eu percebi:

Se tivesse sabido dos abusos sexuais não tinha aceite a criança, é isso? Ou seja, para a criança o facto de ter passado por uma experiência traumática como essa, torna-se um castigo, um motivo para ser retirada à família e um motivo para não voltar a ter família, é isso?

É evidente que também acho que a criança deveria ter sido acompanhada durante a institucionalização, mas isso não pode ser motivo nem para não ser adoptada nem para ser devolvida.

Repare, é de uma criança de 9 anos que estamos a falar, a senhora é uma adulta não é ela que tem que se esforçar para lhe agradar, é a senhora que se tem que esforçar para a conseguir cativar.

Não podemos exigir a uma criança de 9 anos que sofreu de maus tratos e abandono que não tenha problemas, nós adultos é que temos que aprender a amar essa criança apesar dos seus problemas.

Diz que a menina nunca gostou de si, e a senhora, dispôs-se a gostar dela apesar dos problemas?

Eu tenho dois filhos que estão a entrar na adolescência, naquela fase em que se acham donos do mundo e da verdade, há dias em que perco a paciência e já não sei que fazer, um é adoptado e hiperactivo, a outra é biológica e cheia de personalidade, há dias em que me sinto mesmo farto, em que também acho que eles são uns mal agradecidos e que não dão valor à família e ao esforço que fazemos por eles, acha que também os devo devolver?

Eu já disse isto e volto a dizer, não há motivo nenhum para se devolver uma criança, e quando isso acontece a culpa NUNCA é da criança, é sempre de quem a devolve e  da equipa da segurança social que a entregou a quem não devia

Devolver uma criança é desistir de ser pai, é abandonar de novo e maltratar alguém que já foi abandonado e/ou maltratado, é dizer à criança que ela não serve para ser amada... e não há criança nenhuma que não mereça ser amada, há é pessoas que não sabem amar.

Eu sei que todos nós sonhamos com ter os filhos perfeitos, sei que muita gente que se propõe a adoptar idealiza os filhos perfeitos, amorosos e agradecidos porque alguém os aceitou, mas sabe uma coisa?, isso não existe.

 

Não há crianças perfeitas, e não as há entre as adoptadas ou entre as biológicas, cada criança é uma criança e cada caso é um caso, mas os adultos somos nós..e somos nós que temos que aprender a viver com os nossos filhos.

Se quer o filho perfeito, o melhor é desistir de tentar ter filhos

Jorge Soares

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publicado às 22:55

Vitor Pereira Bi-Campeão

 

O porto ganhou hoje o seu vigésimo sétimo titulo de campeão nacional, o terceiro consecutivo e o segundo de Victor Pereira

 

Tal como o ano passado, acho que há muito do trabalho e do saber do treinador do Porto neste titulo, custa-me entender como um treinador que ganha dois títulos seguidos, um treinador que ganha um campeonato sem derrotas, que apesar de ter um plantel curto, muito curto, consegue ganhar o campeonato, chegar à final da Taça da liga e aos oitavos de final da Liga dos campeões, e mesmo assim ser tão mal amado.

 

Vitor Pereira é um excelente treinador, acaba de ser bicampeão nacional  e mesmo assim, tal como no ano passado, há muita gente que o quer ver pelas costas, que o acha mau treinador. 

 

Haverá muita gente a dizer que o Porto foi campeão apesar do seu treinador, para mim fomos campeões graças ao treinador, sou um admirador dos jogadores e dos treinadores portugueses e é claro que a minha opinião vale o que vale, mas quantos treinadores seriam campeões depois de em dois anos seguidos terem de reconstruir a equipa depois da saída dos seus melhores e mais influentes jogadores?

 

Há que recordar que o Porto iniciou a época com a saída do Hulk no fim do período de transferências, e que em Janeiro os reforços foram o Liedson e o Ismaylov, que finalmente conseguiram ser campeões em Portugal mas que a nível de mais valia para equipa foram pouco mais que zero. 

 

Digam o que digam e apesar do que se possa pensar sobre o penalti do primeiro golo do Porto de hoje, acho que temos um justo campeão, porque um campeonato não se decide num jogo, decide-se em trinta jornadas e a verdade é que apesar das manias de grandeza de muita gente, o Porto foi consistente, não perdeu nenhum jogo e sobretudo, ao contrário dos outros, não falhou nos momentos cruciais.

 

Era bom que quem tanto fala do penalti de hoje se lembrasse do jogo do Benfica contra o Sporting, dos lances que prejudicaram o Sporting e da arbitragem completamente infeliz do Capela

 

Parabéns a Vitor Pereira, parabéns aos jogadores, parabéns a todos os portistas.. somos campeões.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:29

Os ninguéns de Eduardo Galeano

por Jorge Soares, em 18.05.13

Os ninguéns


As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns em deixar a pobreza; que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

 

Os ninguéns: os filhos de ninguéns, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.

Que não são, embora sejam.

Que não falam idioma, falam dialetos.

Que não praticam religiões, praticam superstições.

Que não fazem arte, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não têm cultura, têm folclore.

Que não têm cara, têm braços.

Que não têm nome, têm número.

Que não aparecem na História Universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

 

Eduardo Galeano

(O livro dos abraços, tradução de Eric Nepomuceno)


Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:34

Co-adopção

 

Imagem do Pontos de Vista 

 

Contra todas as expectativas, o parlamento aprovou a proposta de lei apresentada pelos deputados socialistas Isabel Moreira e Pedro Delgado Alves que legaliza a co-adopção por casais ou unidos de facto do mesmo sexo.


A lei, que foi aprovada por 5 votos, 99 a favor e 94 contra, fica aquém da situação ideal em que não deveria haver nenhum tipo de discriminação, mas representa mais um pequeno passo. Falta a discussão e a votação dos projectos de lei dos verdes e do Bloco esquerda que prevêem a adopção plena em todos os casos, mas acho que não há duvidas sobre o chumbo mais que certo.

 

Jorge Soares

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publicado às 13:23

Democracy not Found


Imagem do Pontos de Vista

 

Foi hoje apresentada pela bancada do partido os Verdes uma proposta para que a constituição nacional passe a ser matéria de estudo para os alunos entre o 7 e o 12 ano, como já vem sendo habitual esta proposta foi rejeitada pela maioria PSD-CDS.

 

A mim também não me parece que os alunos devam sair do 12 ano a saber a constituição de cor e salteado, isso deve ser deixado para quem vai estudar leis, mas entendo que no mínimo se deve sair da escolaridade obrigatória com uma ideia geral do que é a constituição, para que serve e quais os seus princípios. O que a julgar pela reportagem que vi hoje no telejornal (Ver aqui) actualmente não acontece, há alunos do 12 ano que nem sequer sabem o que é a constituição.

 

Para Eloisa Apolónia, "A consciência dos direitos torna as pessoas mais reivindicativas desses direitos" , que será talvez o que esta maioria tenta evitar ao rejeitar propostas como esta.


Já Fernando Negrão, deputado do PSD, veio defender que “os alunos não devem ter nenhum contacto com esta Constituição” e que, por isso, o projecto de resolução deverá ser rejeitado.


Está à vista que há deputados que teimam em esquecer o que é a democracia.


Jorge Soares

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publicado às 22:53

Benfica, é triste morrer na praia

por Jorge Soares, em 15.05.13

Benfica voltou a morrer na praia

 

Imagem do Público 

 

Parece que é a sina do Jorge Jesus, perder as finais nos descontos,  é muito triste perder assim, principalmente quando o Benfica  foi a equipa que desde o inicio do jogo mais procurou o golo e a vitória.

 

O Benfica entrou no jogo com uma disposição muito diferente da do último Sábado contra o Porto, hoje entraram  sem medos e com vontade de atacar e de marcar. É verdade que não chegaram muitas vezes à baliza, mas mostraram mais futebol e mais vontade de vencer que o Chelsea.

 

Hoje voltou a provar-se que não são os muitos milhões, os grandes orçamentos ou as grandes estrelas que constroem as grandes equipas, porque hoje o Benfica foi mais equipa e mostrou mais futebol, até ao fatídico minuto 92.

 

Mas o futebol é isto, nem sempre ganha quem mais merece e quem mais faz pela vitória, e o jogo só termina mesmo quando o árbitro apita, foi pena aquela pérdida de bola do Cardozo nos últimos segundos de jogo, o Benfica merecia pelo menos o prolongamento.

 

Pró ano há mais

 

Jorge Soares

PS: E agora que voltamos às competições nacionais, espero que o Guimarães tenha aprendido como se faz, que ainda há outra final.

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publicado às 21:50

Angelina Jolie

 

Imagem do Público

 

“A minha mãe lutou contra o cancro durante quase uma década e morreu aos 56. Aguentou o suficiente para conhecer os primeiros dos seus netos e para lhes pegar ao colo. Mas os meus outros filhos nunca terão a oportunidade de a conhecer e de sentir quão amável e graciosa ela era.


Por vezes temos a tendência a achar que estas coisas só acontecem às pessoas normais, mas não, ninguém por mais bonito ou famoso que seja deixa de ser humano e de estar sujeito às mesmas maleitas que qualquer outro comum mortal.

 

Angelina Jolie mostrou que para além de humana, é uma mulher preocupada com a sua saúde. O seu é um exemplo da forma como deve ser encarada a doença, a prevenção é e será sempre o melhor dos tratamentos, para a maioria das pessoas a propensão para a doença, as análises genéticas e a mastectomia preventiva seriam até hoje conceitos completamente desconhecidos. 

 

Para muita gente o caminho é manter-se na ignorância e isso faz com que quando se descobre a doença já seja em muitos casos tarde, é preciso muito valor para tomar a decisão que ela tomou, não deve ser de animo leve que uma mulher decide retirar os dois peitos, mas ela soube mostrar que acima dos clichés e da estética estão valores muito mais fortes, como a vida e a saúde.

 

"Cancro é ainda uma palavra que planta medo no coração das pessoas, produzindo uma profunda sensação de impotência. Mas hoje é possível descobrir, através de uma análise de sangue, se somos altamente susceptíveis ao cancro da mama e dos ovários e então tomar uma atitude."


Esperemos que com este exemplo muitas mais pessoas tomem consciência da importância da prevenção e de que por cima dos ideais de beleza, está a vida e a saúde.

 

O The Scar Project já por aqui passou antes, neste post, mas nunca está de mais recordar

 

 

Jorge Soares

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publicado às 22:01

É por estas e por outras que sou ateu!

por Jorge Soares, em 14.05.13

os três parvinhos

Imagem do Pontos de Vista

 

Cavaco afirma que a sétima avaliação da troika é “inspiração de Nossa Senhora de Fátima” 

 

É por estas e por outras que sou ateu, está visto que com santos como estes não há milagres que nos salvem da desgraça, mas também entre a Troika, o Cavaco, o Gaspar e o Passos Coelho, venha o diabo e escolha.

 

Jorge Soares

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publicado às 20:54

Miguel Calhaz - Era uma vez um país

por Jorge Soares, em 12.05.13

 

Letra

 

Era uma vez um país
"Lá num canto desta velha Europa,

era uma vez um país
vivia à beira do mal "prantado",

mas apodrecia na raíz


Reza a história que foi saqueado

mesmo por debaixo do nariz
Triste sina, oh que triste fado,

era uma vez um país


Os mandantes que por lá passavam

eram só ares de "bon vivant"
Viviam à grande e à francesa

como se não houvesse amanhã


Havia quem avisasse o povo

p´ra não dar cavaco a imbecis
Mas caíram na asneira de novo,

era uma vez um país


Esta fábula do imaginário

tão próxima do que é real
Canção de maledicente escárnio

à república do bananal


Que se encontrava em tão mau estado,

andava a gente tão infeliz
E o polvo já tão infiltrado,

era uma vez um país


E lá se vão sucedendo os casos,

grita o povo: "agarra que é ladrão!"
Mas passam belos dias à sombra do loureiro
Enquanto o Duarte lima as grades da prisão


E nunca se esgotam personagens

neste faz de conta que é assim
Raposas com passos de coelho no mato
e até um corta relvas de madeira no jardim


Entre campeões de assalto à vara

e filósofos de pacotilha
Entram nas portas dos submarinos azeiteiros de oliveira às costas
com o ouro da nação p'ra por nas ilhas Cai-mão, cai-pé, 

baixa os braços e as calças e a cabeça e o nariz, 
aqui finda esta história que não tem final feliz"
(era uma vez um país)

 

Prémio Ary dos Santos -- Poesia 
Tema -- Era uma Vez um País 
Autor - Miguel Calhaz 
Intérprete -- Miguel Calhaz

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publicado às 16:10

Conto - Encontro às escuras

por Jorge Soares, em 11.05.13
Encontro às escuras

 

“Então, tá. Amanhã, às duas da tarde, no parque municipal. Vou te esperar sentada num dos bancos...” De pé, em frente ao espelho, ele relembrava as palavras dela, tão bem impressas haviam ficado na sua mente que chegava até mesmo a ver os pontos e as vírgulas. As reticências que teimavam aparecer ao final não chegavam a incomodá-lo, percebera mesmo um pouco de hesitação na sua voz. Mas a certeza inerente aos apaixonados, a do amor inabalável que eles necessitam ter para continuar amando, fazia-o acreditar que ela compareceria ao encontro.

 

O encontro fora marcado depois de eles conversarem por semanas ao telefone. Nunca haviam se visto. Um dia, o telefone tocou, ele atendeu, era engano, mas ele insistiu, queria saber de quem era a voz feminina do outro lado. Sempre fazia isso. Puxava papo até com as moças de tele marketing. Dizia para elas que sabia, que tinha certeza, intuição mesmo, que ele conheceria a mulher de sua vida assim, casualmente, numa conversa de telefone. Nunca convencera moça alguma, até esse dia. A voz feminina do outro lado respondeu seu nome e a conversa rendeu uma amizade provisória, como um ensaio para o grand finale, que não tardou a acontecer, logo estavam prontos para o sentimento que se manifestava. E agora ele estava na frente do espelho pensando num traje para usar no encontro. Mas para além da escolha do traje, uma dúvida o encarcerava. Ele não tinha o braço esquerdo e ela não sabia. Quis contar várias vezes, mas sempre recuava como uma criança travessa diante da mãe castradora. O espelho, impiedoso, acusava sua falta.

Nasceu assim, do ombro não partia nada, acabava ali, sem explicação. A mãe, mortificada com a notícia do defeito do filho, culpou-se durante meses, como era congênito?, vinha dela então? O médico explicou, mas ela só se acalmou depois que buscou conforto na tragédia da vizinha: o filho tão aguardado era autista. “Pelo menos, meu filho me reconhece.”

Olhando para a imagem ausente do braço, lembrou-se do primeiro dia de aula no jardim de infância, também o primeiro dia que se lembra na vida. Chegou de mãos dadas com a mãe ao portão da escola, nem deu tempo de se soltar, um menino apontou gritando: “Olha, ele não tem um braço!”. E a mãe dizendo para ele ser homem e enxugar aquelas lágrimas, que homem não chora. “Mas eu não era um homem, eu era um menino.” E o menino descobriu que era diferente. A mãe lhe dizia que, mesmo sem ter um braço, ele podia ser feliz. “Como, mãe, se eu não posso soltar pipa igual a todo mundo?” A mãe mostrava o filho da vizinha: “Ele não sabe nem o que é pipa.” A comparação com o autista não lhe trazia o mesmo efeito que o provocado na mãe. “Ele tem os dois braços, não solta pipa porque não quer.” Riu do raciocínio infantil, observou os dentes refletidos no espelho como quem nota um pássaro intruso na paisagem; virou-se para o armário e pegou a prótese. O primeiro braço mecânico foi uma doação dos pais de um coleguinha rico, já que sua mãe, e somente ela, pois pai não tinha, não podia arcar com a compra de um. Voltou da escola chorando, carregando o braço na mão direita; disse à mãe que nunca mais ia usá-lo, porque não queria ser o Capitão Gancho da turma. “Bobagem, meu filho.” “Mas eu queria ser O Homem de Seis Milhões de Dólares, o homem biônico da TV.” “O filho da vizinha não pode ser nem a Mulher Biônica!” Não adiantou, o braço ficou esquecido no fundo do armário. Agora, tinha uma prótese moderna, totalmente flexível, mas ainda um corpo estranho. “Como fui bobo em não contar a ela.”


Aline Ponce

Retirado de Bestiario

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publicado às 21:11



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