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A montanha pariu um Portas

por Jorge Soares, em 21.07.13

Presidente mantém governo

Imagem do Público

 

E no fim, voltamos ao inicio, afinal andamos três semanas às voltinhas, com conversas da treta, negociações de chacha, para nada, o Senhor presidente na hora das decisões escolhe sempre o mal menor... esquecendo que há 10 dias tinha dito que este governo não tinha condições para levar o país a bom porto... esquece também que o mal menor não deixa de ser um mal.

 

Cavaco decidiu manter o governo em funções até ao fim da legislatura, resta saber qual governo, o de antes da renuncia de portas? Outro qualquer formado por PSD e CDS? O que Passos Coelho lhe apresentou com Portas a Vice ministro e que ele não aceitou?

 

Neste ultimo caso, Paulo Portas saiu como único vencedor de tudo isto, foi ele que causou a crise ao demitir-se irrevogavelmente, no fim será empossado como vice ministro, terá muito mais poderes e controlará a pasta da economia.

 

Cavaco diz que é necessário que o governo aplique políticas de incentivo à economia e ao crescimento do emprego, que no fundo era o que dizia portas na sua carta de renuncia, mas não terá sido isso que pediu o PS e que levou ao fracasso das negociações?

 

Será que era mesmo preciso estarmos quase três semanas à nora para isto? Era mesmo necessário criar desconfiança nos mercados, fazer aumentar os juros e termos o país político parado durante três semanas? Quanto custou tudo isto ao país?

 

Três semanas, muita conversa, muita treta e no fim, a montanha pariu um Portas

 

Jorge Soares

publicado às 21:07

Conto, A visita da minha avó violante

por Jorge Soares, em 20.07.13

a minha avó violante

 

Eu que fui gerada depois da rádio, vi a televisão dar os primeiros passos, e uso com relativa desenvoltura este colosso da moderna comunicação que é a internet. Eu recebi a visita da minha avó Violante.

 

Podia ter sido assim, mas não foi.

 

Eu apenas imagino.  

 

Se não fosse minha avó Violante ter morrido nos seus frescos vinte e sete anos, seria hoje uma madura senhora de cento e muitos anos, e eu ponho-me a imaginar como seria se ela me visitasse um destes dias e pedisse, assim como se despercebendo de como o mundo tinha mudado:

 

– Pões-me água ao lume para um banho, minha filha?

 

Isto, se ela viesse passar comigo uma tarde, uns poucos de dias.

 

Imagino e falo-lhe, e imagino de novo como seria.

 

Para que ela fosse entendendo, ou porque, tanto quanto ela, eu estaria temerosa do que via através de seus olhos, dir-lhe-ia:

 

– Somos os filhos dos seus filhos e os netos de seus netos. Somos, como a Senhora, minha avó, descendentes daquele que ousou o sonho sentado nas galeras, preso nas grilhetas ou escrevendo com penas de bichos em praias ignotas. O que desvendou esse mistério que é o céu não ter presas em si estrelas como se fora bordado, mas ser afinal um vazio imenso onde as estrelas estão dependuradas a par de planetas e buracos negros e galáxias.

 

Um imenso campo de forças é onde nos somos uns e outros, havia de afirmar-lhe a provocar-lhe o espanto.

 

A minha avó Violante como seria outro que viesse com o conhecimento com que um dia se tivesse ido de doença, do coice de um cavalo, de um disparo ou de um mau parto; ou apenas pela degradação que é concomitante com o passar do tempo.

 

Como a minha avó, cada um deles ficaria pasmado e temeroso de ver gentes falando sem interlocutor, uns fones dependurados no ouvido, ou nem isso, que mesmo eu ainda os cuido de loucos falando sozinhos por todo o lado. E eu dir-lhes-ia, como me imagino a dizer a minha avó Violante:

 

– Avó, eles falam ao telemóvel.

 

E ela nem perguntaria: que é isso, filha?! que já minha avó se espantaria que eu tomasse para mim o dinheiro em notas, outras que não aquelas com que tinha comprado aquele tecido, o vestido verde que ela mesma costurou para levar ao baile. A minha avó a olhar as notas a saírem em buracos na parede. Seria legítimo o seu alvoroço e o seu espanto, e seria igual se fosse outro que tivesse vindo dos primórdios da revolução do carvão e dos barcos movidos a vapor, que já era espanto que chegasse esse fazer-se o ar quente em vez de braços de escravo ou alimária.

 

Tivesse minha avó vindo do tempo de onde veio, ou tivesse ela vindo do fulgor das campanhas de Bonaparte, e eu lhe diria de igual modo:

 

– Não digais de loucos aos que vieram depois que vós vos fostes, que cada uma dessas incomensuráveis, inimagináveis descobertas que fazeis e que tanto transtornam vosso sentir de outros tempos, estava já inscrita em cada um dos vossos sonhos.

 

E estou certa que ela me havia de sorrir e aquiescer que sim senhora.

 

Mas ainda assim lhe seria estranho, e mereceria crítica severa, o ruído e o movimento, e os carros, e as luzes que a deixariam tonta. E seria com mal-estar que veria frutas fora de época. E muito a desgostaria que fosse Verão em meses de ser o pico do Inverno, que se dessem por desapreciadas as estações do ano e desreguladas as colheitas.

 

Mas creio que, logo que lhe fosse dado esconjurar o medo, ela acometeria na rádio, na televisão e no telefone, seu humor de antanho como o faria na internet. E para isso, a levaria eu, de manso, passo a passo, a ver de cada um o encanto, mais que o susto que sempre se gera no homem face ao desconhecido.

 

Ela estranharia tanta novidade. É evidente que ficaria em desassossego, mas, sobretudo, lhe seria incongruente a pressa, a correria de vida, de cada ser humano. E sei que a veria a implorar aos céus que acalmasse os seus descendentes acometidos do pecado de querer controlar o tempo.

Sabedora do silêncio e da serenidade, sei que minha avó havia de pedir ao deus a quem tantas vezes implorou uma graça, que a salvasse desta grande provação que era ver o homem alienado numa corrida insana contra o tempo.

 

Minha avó Violante habituada à calma e ao raciocínio lento, como reagiria ela no mundo do telemóvel e do GPS, ela cujos olhos se teriam habituado à incomensurabilidade do Universo, deixaria que, curiosos, eles se passeassem pelas telas de um monitor ou de um tablet, e perguntaria, incrédula: que é issoe aquilo para que serve?

 

A minha avó Violante como se fora criança.

 

Sentar-nos-íamos numa sombra e, juntas, havíamos de recordar que estrelas e planetas e sóis e estrelas se regem de igual modo que a bola que cada um de nós, criança, atirou ao vidro da janela. E eu falar-lhe-ia de átomos e electrões, e da física quântica, e sei que a faria chorar quando dissesse que o homem que busca o como e onde do início dos mundos, também arrasa cidades com a cisão do átomo.

 

E, para sossega-la, iria passear com ela na margem de um rio, e falaríamos com gentes da poesia e da arte. E havíamos de escutar canções que ela acharia em tudo semelhantes às que um dia terá cantado. E, depois que tivéssemos percorrido a cidade grande, depois de cada novidade lhe ser apresentada, ou nem todas, mas as suficientes para que sentisse o temor e a grandeza, e a pequenez do homem a querer ser deus. Depois que ela me dissesse, e eu me espantasse disso, que tudo é relativo, tudo depende do ponto de vista. Depois que ela se apercebesse o que foi o futuro, com o cuidado que lhe viria de ter vivido cada um dos minutos de cozer o pão ou esperar um filho. Depois, ela havia de dizer-me do cuidado para que do sonho não resulte pesadelo. E eu havia de escutá-la.

 

A minha avó habituada a que lhe preparassem um banho morno numa banheira com pés em forma das patas de um bicho grande. Ou numa celha de madeira e lata situada, uma ou outra, mesmo no meio de uma sala.

 

Ela beberricando um chá de menta ficaria espantada que eu lhe tivesse o banho pronto no justo momento em que mo pedia, ou quase. E os olhos que, sei, seriam de um azul violeta quando os abria de espanto, ela os volveria para mim perguntando:

 

– Filha, a menina acha que vou meter-me aí dentro sujeitando-me a que reverbere mais água da parede e eu me afogue e queime?!

 

A minha avó Violante com o corpo ossudo coberto com uma capa de burel bordado com um largo capuz, havia de obrigar-me:

 

– Ora acabe com isso e vá buscar água ao poço e depois aqueça-a no lume. Faça como lhe peço, minha filha.

 

E eu havia de rir-me e ficaria agradecida que alguém me obrigasse a rolar o tempo a um ritmo tão lasso.

 

Se a minha avó Violante me visitasse.

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:39

Evidentemente, não há acordo!

por Jorge Soares, em 19.07.13

António José Seguro

Imagem do Público

 

Evidentemente não há acordo, não me parece que seja novidade nenhuma, se nem Portas que suportou a maioria queria ficar associado a estas políticas, como é que alguém pode pretender que depois destes dois anos de oposição, depois de moções de censura ao governo e às suas políticas, alguém podia acreditar que o PS pudesse assinar qualquer acordo que implicasse manter as políticas de austeridade a que estamos sujeitos?

 

Acho que era mais que evidente para todo mundo, menos para uma pessoa, que tudo isto não passava de show off, de não ficar mal na fotografia, não havia a menor hipótese de alguma vez haver um acordo entre PSD e PS.

 

Resta saber o que irá agora fazer Cavaco Silva, como ele mesmo afirmou hoje, a nossa constituição não suporta governos de iniciativa presidencial, um governo nomeado pelo presidente nunca terá a aprovação da assembleia da república.

 

Não me atrevo sequer a vaticinar o que irá acontecer a seguir, o que deveria acontecer era a convocação de eleições, principalmente depois de o Presidente da República ter afirmado que este governo já não tinha condições de seguir à frente do país... mas não sei se Cavaco atirará a toalha assim tão facilmente, está visto que para ele os interesses do PSD estão sempre em primeiro lugar e não me parece que ele esteja disposto a deixar cair o seu partido.

 

Pedir ao PSD que forme outro governo é uma hipótese que lhe passará certamente pela cabeça, mas depois daquela carta de demissão irrevogável, não me parece que Paulo Portas vá apoiar uma nova maioria..e dadas as circunstâncias, não estou a ver a menor hipótese de que alguém aceite governar em minoria.

 

Certo certo é que andamos há semanas nisto, a empatar tempo e energias para nada, está visto que a única saída que faz sentido é a convocação de eleições e que seja o povo a eleger o seu futuro... não sei o que estamos à espera para avançar.

 

 

Jorge Soares

publicado às 22:38

Califa Tcham José 
 José Carlos Martins  Oscar

 

 Imagens do Público 

 

A reportagem do Público chama-se filhos do vento, já lhes chamaram portugueses suaves, podia chamar-se filhos da guerra, ou deixados para trás, ou .....

 

Hoje são adultos, tem vidas próprias, a suas próprias famílias, em comum tem todos a mesma origem, são filhos de militares portugueses que tal como dizia aquela canção dos delfins,  foram "Combater a selva sem saber porquê / e sentir o inferno a matar alguém / e quem regressou / guarda sensação / que lutou numa guerra sem razão... 


A maioria tem mais ou menos a minha idade, se a reportagem fosse sobre Moçambique quem sabe e algum deles não podia ser meu irmão, afinal o meu pai também lá esteve e também era um daqueles jovens que foram retirados do seu meio ambiente e enviados para o outro lado do mundo... sozinhos.

 

Cada um tem a sua história, há quem tenha dois e três irmãos, do mesmo pai ou de pais diferentes, e todos ficaram para trás quando esses pais voltaram a Portugal para seguiram as suas vidas esquecendo que deixavam para trás outras vidas.

 

Tal como diz alguém, eles são portugueses.. de sangue, mas não são, porque foram deixados para trás e com a derrota, esquecidos, agora são filhos de pai incógnito .. filhos da guerra.

 

É interessante ler os comentários, aqui, e ver como podem ser diferentes as perspectivas, dá para ver como passados todos estes anos ainda há feridas abertas, ainda há quem não perceba que nada daquilo fazia sentido e que o que estas pessoas querem é da mais elementar justiça,  eles não pedem nada, apenas querem saber quem são os seus pais.

 

Não vou aqui fazer juízos de valor sobre os pais destas pessoas, era bom que todos assumissem a sua responsabilidade... mas cada um tem a sua consciência e é a ela que deve apelar.

 

Eu acho que é uma excelente reportagem, e que fazem falta muitas mais reportagens como esta, porque tudo isto faz parte da nossa história e ao contrario do que tem acontecido nos últimos 40 anos, já é altura de assumirmos que as coisas aconteceram, as boas e as más.

 

Perguntei ao céu: será sempre assim? 
poderá o inverno nunca ter um fim? 
não sei responder 
só talvez lembrar 
o que alguém que voltou a veio contar... recordar... 
recordar... 
Aquele Inverno 

 

Jorge Soares

publicado às 22:25

Carlos Sá, o super homem é português

por Jorge Soares, em 17.07.13

Carlos Sá

Imagem do Público

 

Ouvi falar pela primeira vez deste super atleta em Janeiro passado, eu ia de viagem no carro e ele era convidado na tarde desportiva da Antena 1. Voltei a ouvir falar dele ontem quando foi noticia nas redes sociais por ter ganho aquela que será talvez a ultramaratona mais difícil do mundo, a Badwater, nos EUA, são 217 kms pelo vale da morte na Califórnia.


A prova, que decorre em pleno deserto com temperaturas que nesta altura do ano rondam os 50 graus, tem um desnível de mais de 4500 metros, começa nos 86 abaixo do nível do mar e termina no monte Whitney a 4421 metros de altitude.


Carlos Sá que tem 39 anos, demorou 24:38.16 horas, deixando o segundo, o australiano Grant Maughan a 15,01 minutos e o terceiro, o mexicano Oswaldo Lopez a 48,47.


Esta vitória faz com que o atleta português seja considerado o ultramaratonista mais completo do mundo e será sem dúvida um dos melhores atletas que existe.


Pena que em Portugal o seu sucesso não passe de uma nota de rodapé, a vitória numa das provas mais difíceis do mundo não mereceu uma chamada de primeira página em nenhum dos jornais portugueses, nem dos desportivos nem nos generalistas, nos restantes meios de comunicação a noticia só teve algum relevo hoje, talvez devido a que foi um dos principais temas do dia nas redes sociais. Pelos vistos para os jornais desportivos deste país, o mais importante que aconteceu ontem no desporto Português foi mesmo a vitória do Benfica num jogo a feijões contra uma equipa de segunda linha da Suíça.. fantástico.

 

Eu fiquei a saber da vitória do Carlos pelo Facebook, é por estas e por outras que cada vez mais portugueses dispensam a compra dos jornais.

 

Desde aqui quero deixar os Parabéns ao Carlos Sá por esta magnifica vitória celebrada por ele com a bandeira nacional, foi um feito digno de um autêntico super homem.


Jornais desportivos

Imagem do Facebook


Jorge Soares


publicado às 21:26

Cecile Kyenge

 

Imagem do Público

 

“Gosto de animais – ursos e lobos, como todos sabem – mas quando vejo imagens de Kyenge não consigo pensar noutra coisa, ainda que não esteja a dizer que ela é, nas semelhanças com um orangotango”

 

Há quem ache que estas palavras não são sinal de racismo, são só uma forma de expressão, e não, não é só na Itália, basta ler os comentários à noticia do Público para se perceber que por cá também há quem pense assim. 

 

Cecile Kyenge, a senhora da fotografia,  nasceu na República Democrática do Congo emigrou com os seus pais, é a  imagem de muitos dos filhos de emigrantes que chegam à Europa e tem as oportunidades que dificilmente teriam no país dos seus pais. Ao contrario de muitos europeus, soube aproveitar essas oportunidades, estudou, tornou-se italiana e chegou a ministra, ministra da integração. É a primeira vez que há na Itália um ministro negro.


Desde que foi nomeada já foi alvo de muitos comentários depreciativos muitos deles a roçar o racismo, há na Itália muita gente para quem ela não só não deveria ser ministra como nem sequer deveria estar no país. O último, a frase que lemos acima, veio pela voz de Roberto Calderoli, senador pela Liga Norte e vice presidente do senado Italiano.

 

Para mim não há duvida nenhuma que isto é o mais puro racismo, não são as capacidades da senhora ou as suas competências como ministra o que se coloca em causa, é a cor da sua pele... e isso não tem outro nome, RACISMO.

 

É triste e vergonhoso que estas coisas aconteçam em pleno século XXI, quando vivemos num mundo global em que cada vez mais deixamos de ser cidadãos de um país ou de um lugar, para passarmos a ser cidadãos do mundo

 

Curiosamente a Itália, tal como Portugal, é um país de emigrantes, Brasil, Venezuela, Argentina, Estados Unidos, em todos estes país há centenas de milhar de italianos, muitos deles são políticos bem sucedidos o que pensariam os italianos se alguém fizesse um comentário deste tipo sobre um desses políticos?

 

Jorge Soares

publicado às 21:59

Um país entalado ...

por Jorge Soares, em 15.07.13

Os verdes vão apresentar uma moção de censura

Imagem do Público 

 

Estive três dias longe do mundo, longe do blog, da internet, da televisão, dos jornais, três dias de descanso na natureza. Voltei ontem ao fim do dia para perceber que nem fui para longe o suficiente nem foi o tempo suficiente. Voltei e tudo continua igual, continuamos a ser um país entalado, com partidos políticos entalados, um governo entalado e com o aspecto de o principal culpado, o Presidente da República, vir a ser o maior entalado, porque em lugar de resolver a crise, aumentou-a, entalando-nos a todos.

 

A maior novidade do dia é saber que um dos entalados não está nas reuniões para negociar, está lá para dialogar... isso explica que ao mesmo tempo que aceita o dialogo com PSD e CDS, o PS se apresse a esclarecer que vai votar a favor  na moção de censura ao governo a apresentar pelo partido ecologista Os Verdes. Na minha terra chama-se a isto ter um olho no burro e outro no cigano.. 

 

Acho que não é difícil entender a posição do PS, eles são contra a política do governo, apesar das promessas do primeiro dia, eles não conseguiram dizer que não a Cavaco e aceitaram entrar no diálogo, mas tal como a maioria do país, não acreditam muito na possibilidade de um acordo de salvação nacional, pelo que o melhor é jhogar pelo seguro.. não vá a ser que as eleições sejam mesmo em Setembro... 

 

Quanto ao CDS, o senhor irrevogável  já cantava de galo, dizem as más linguas que até já andava à procura de um poiso condigno das suas novas funções, agora está entalado, se não houver acordo ele vai ficar com o estigma da culpa, se houver acordo, num suposto governo a três dificilmente será chefe de fila, e mais tarde ou mais cedo terá que pagar as favas mesmo dentro do seu partido.

 

Quanto ao PSD, eu continuo a achar que se Passos Coelho tivesse dignidade, no momento a seguir à declaração em que o presidente da República disse que este governo já não conseguia governar o país, tinha-se demitido. Não consigo entender como é que alguém que nem sequer consegue impor os seus ministros, ele foi três vezes a Belém apresentar soluções que nunca foram aceites, pode continuar como chefe (?) de um governo imposto por outras pessoas. 

 

Supostamente as negociações, ou o diálogo, ou lá o que é que se está a a passar entre PS,CDS e PSD, vai durar até sexta feira, será mais uma semana em que a Europa, o FMI, A Troika e os mercados estarão pasmados a olhar para o que por cá se passa. Entretanto os juros da nossa dívida vão aumentando tal como a desconfiança de que alguma vez nos consigamos governar... e tudo isto para quê? Para nada, porque no fim o diálogo dará nisso, em nada, resta saber é quando é que Cavaco aceitará isso e fará finalmente o que devia ter feito à muito, convocar eleições... 

 

Esperemos é que o povo esteja a atento e não goste de ser entalado.

 

Jorge Soares

publicado às 21:44

Conto - O sol negro

por Jorge Soares, em 13.07.13

O sol Negro

Imagem de aqui


Do Livro de Contos “O Prédio” – 2002
Josette Lassance

Da janela morta a borboleta sai, ilesa, vestida com sua asa de pérola, ganha o imenso céu. Ela ficou escondida no quarto, entre suas paredes vivas que pareciam a engolir - um branco nostálgico quase prata era tomado pela grafite rude onde escrevera palavras quando embebida de sua solidão quase num ato único - correspondiam seus gritos: rabiscos, arabescos úmidos de idéias - cofres perpétuos de insanidades...

Seu cérebro carregava um par de lentes grossas de alumínio fosco: um par de óculos míopes. O que fazia ali era puro desejo, de sentir através das palavras, que acabavam arrancando os sentidos mais íntimos de suas necessidades existenciais.

Acordava e um pássaro pousara nu quase olhando para ela de um fio de rua - suas janelas por descuido ficaram abertas, mas quase sempre mortas para a rua, introspectivamente vomitava sua ira pela luz do sol. O pássaro ficou minutos e ensaiou uma canção rouca de alvorada – ela acordou e quase imperceptível mostrou-se num olho descoberto pelo lençol – dormia nua e quase todas as vezes sua nudez contrastava com sua desordem: um quarto sem início e fim – onde amontoados livros faziam perceber-se como um labirinto em que se perdia quase sempre nas tardes em que lia infinitamente Rimbaud em suas páginas seculares, palavras eternas, amareladas pelo pôr-do-sol. 

Um negro saco de dormir cobria sua cama de solteiro e sua pele branca contradizia um sol negro desenhado na parede direita, parecia querer saltar os olhos e os restos de seus cigarros sujavam o chão de taco marrom. 

Onde estaria ela, se a cada instante era um gomo de personalidade? Incógnita esfinge revestida de acaso. 

Talvez fizesse diferença conhecer alguém que a fizesse amar tão forte ao ponto de não suportar-se liberar suas emoções mais intensas – como a de desfazer-se de um sol negro que a encobria e descobrir-se em sua alma o que pudesse vir a ser um sol de verdade, sem o escuro proposital de um corpo de quarto forjando arbitrariamente uma luz, invertendo seu sentido anti-horário do dia.

O dia grafitado energicamente na penumbra de seus pensamentos... O tempo ali pesado tomando eletro choques e vomitando parágrafos pervertidos cheios de cólera pelo mundo.

Não queria encontrar nada evidente, por isso, esgotava-se nas sensações de pertencer-se primitivamente à sua selvageria. E quando bebia muita cerveja nos bares que freqüentava, quase sempre fazia parecer-se a um porco, com seus cabelos negros descuidados, sujos de gordura soprada pelos ventiladores de teto e enfiava-se num vaso sanitário para vomitar toda a sua vontade de beber, um retorno onírico de desesperanças.

Depois ia para casa fatigada, exausta de ter perdido tantas chances... Como se deixasse de viver por isso. 

Deixava-se caminhar com amigos durante as noites mais chuvosas – como a descer a ladeira do Bolonha como se fosse seu desfiladeiro. Lá, poderia sumir de tudo e ser tomada pelo escuro ou multiplicar-se as mil luzes artificiais das ruas inanimadas, como se fossem as casas mais vazias do mundo. Havia um silêncio de sábado, de sinagoga – e uníssono era o som de uma música ferida saindo da boca de um instrumento metálico: agudo/grave/seis pernas marcavam os sólidos paralelepípedos. Sangravam seus sapatos pesados nas veias do chão.

E os momentos todos passaram e o passado não servia.

E todas as formas foram mudando de lugar, a cada dia, a cada banho, a cada beijo...

Via-se apaixonada e os garotos cabeludos foram crescendo e o olhar para trás fora diminuindo de tamanho e sua importância já não era mais a mesma.

A borboleta saíra pela janela morta e sozinha entrou no planeta que escolheu desfrutar suas loucuras preferidas.


Josette Lassance


Retirado de Overmundo

publicado às 21:27

Quem quer salvar o País?

por Jorge Soares, em 10.07.13

Cavaco Silva falou ao País

Imagem do Público

 

O Presidente da República exigiu esta quarta-feira dos líderes políticos um "acordo de médio prazo entre os partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento com a União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, PSD, PS e CDS” assente em “três pilares”, a saber, eleições antecipadas para Junho de 2014, apoio dos três ao governo que se mantiver em funções até lá e apoio dos mesmos ao Governo futuro.


Pronto dou o braço a torcer, afinal o homem ainda consegue surpreender, depois deste tempo todo, quando a maioria pedia eleições mas poucos duvidavam que CDS e PSD não fossem reconduzidos, eis que o presidente da república larga uma espécie de bomba, não a bomba atómica que todos queríamos, mas uma bomba mais pequenina.

 

Pedir nesta altura do campeonato que os actuais lideres do PSD do CDS e do PS se entendam, deve ser o equivalente a pedir um milagre... nós já sabíamos que Cavaco é crente, que acredita nos poderes da virgem e que até vai à missa, mas quer-me parecer que neste caso nem a virgem nos acode.

 

Diz o presidente que o povo saberá tirar ilações no caso de os três partido não se entenderem... eu por mim já tirei as primeiras ilações, alguém lavou as mãos e passou a responsabilidade a outros, não sei quanto tempo teremos de esperar até que se desista da tentativa de entendimento, mas acharia muito estranho que depois de tudo o que disseram nos últimos tempos, António José Seguro e o PS entrassem num governo que avalize a continuação das medidas de austeridade... Quase que poderia dizer o mesmo do (agora revogável) Paulo Portas... mas acho que nesse caso já nada me surpreenderia.

 

Resumindo, Cavaco voltou a lavar as mãos, não me parece que com os actuais lideres dos três partidos que assinaram o acordo com a Troika possa ser possivel salvar o que quer que seja... e tenho sérias dúvidas que se consigam eleger outros lideres em tempo útil de modo a termos um governo nos próximos meses.

 

Gostaria de saber o que pensam a Troika e os mercados de mais este imbróglio em que nos acabam de meter, será que há alguém por aí com a força de vontade e suficiente e com eles no sitio que queira entender-se com a direita e a esquerda e salvar o país?

 

Update: Ainda não sei quem quer salvar o país, mas já está claro quem não quer, o PS

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:23

Livro - O monte dos vendavais

por Jorge Soares, em 09.07.13

O monte dos vendavais

 

Este foi um dos que a R .levou para as férias da Páscoa, com tudo o que choveu por aqueles dias (que saudades da chuva) ao terceiro dia já ela o tinha lido, encontrei-o pousado algures e peguei nele... já foi difícil de largar. Por algum motivo que não percebi, o livro perdeu-se na viagem de volta, apareceu há pouco e pude finalmente terminar a leitura.

 

Este romance de Emilie Jane Brontë já é considerado um clássico da literatura inglesa. É um livro que fala de amor, de grandes paixões, de grandes desilusões e sobretudo de raiva e vingança. 


A história passa-se algures no campo na Inglaterra pré-vitoriana e é contada por Nelly Dean, a governanta da família Earnshaw. Numa Viagem a Liverpool, Mr. Earnshaw recolhe Heathcliff um órfão que encontra na rua e leva-o para sua casa para que este cresça junto com os seus dois filhos biológicos, Hindley e Catherine


A relação entre os três nunca é pacifica, com o tempo o pobre órfão cresce e apaixona-se por Catherine, num romance impossível que termina quando Catherine se casa com outro e Heathcliff após inúmeros maltratos e humilhações, decide partir.


Quando volta, Heathcliff tornou-se um homem duro, tem como único objectivo de vida tornar-se dono de tudo o que pertenceu aos Earnshaw e vingar-se deles por todas as formas possíveis.


Todo o livro apresenta não  romantismo poético em que se vão desenvolvendo as várias vidas, como também um realismo violento e perturbador. É um livro forte e complexo e as suas personagens revelam um carácter profundo e forte. 


A obra foi adaptada para cinema, com título homónimo, destacando-se o filme de William Wyler (1939) e o de PeterKosminsky (1992); este tem as interpretações de Juliette Binoche e Ralph Fiennes.


Nunca vi nenhum dos filmes, mas apesar da dureza e até crueldade da narração, adorei o livro.


Jorge Soares

publicado às 22:39



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