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Conto - Voo

por Jorge Soares, em 14.12.13
Voo
Imagem de aqui
A escola circense tinha sido um bom lugar... Por um instante seus devaneios conseguiram encontrar um norte, um porto, um atracamento qualquer, qualquer lugar naquele mar de vastidão e loucura mental em que estava absorto naqueles dias. As escolas geralmente são, concluiu em seguida, não pelo que aprendemos nelas, tudo muito maçante, mas pelos amigos que conhecemos e por experiências como a Maria.
Maria... Maria era um ensandecimento que ele tinha. Mulher, em todo o aspecto forte e poderoso do termo, palavra que, parece, hipnotiza. A mulher mais determinada que um dia já conheceu, cheia de si, cheia de um declarado feminismo que lhe deixava ainda mais atraente... Uma trapezista!
Engraçado como esse nome dito assim deixava a mãe dela transloucada! Nunca aceitara a profissão da filha. Trapezista... Eles já tinham rido tanto disso num pretérito mais que perfeito que tiveram..., lembrava. Na verdade, tinham sido apenas amigos – para Maria, uma felicidade só, para ele, angústia. Era esse o seu pretérito mais que perfeito: imperfeito. Mas, pensando por outro lado, ao menos eram alguma coisa um do outro...
Os saltos de Maria eram tão perfeitos e calculados que se os organizadores de olimpíadas deixassem de ser pretensiosos e reconhecessem nas coisas de circo além de arte, esporte espetáculo, fariam isso só para satisfazer um intuito pré-concebido de premiar com os louros de Maratona a diva trapezista. Maria era. O que estava fora dela não era. O que não estava em Maria não estava no mundo. O mundo só é belo quando a nossos olhos ganha cor. Maria era a cor dos olhos dele.
As lembranças dela sempre eram determinantes, encorajantes, fortes, era uma amazona, seu signo?, se isso existisse, deveria ser o mesmo de Palas Atena, a diferença entre ambas era a lança e as armaduras; a lança de Maria, na realidade sua arma de guerra, era o trapézio, suas armaduras: as carnes duras do corpo.
Houve um momento quase fatal para ele, quando Maria, após um dia de exercícios e enquanto conversavam no quarto dela, dormiu. O corpo de atleta grega, espartana muito mais firme e rija que qualquer marmanjo da Hélade, refletindo os últimos raios amarelados do sol, o pequeno short que usava, todo florido (que contradição!, que bela complementação!), a blusinha quase transparente, os seios brancos e os mamilos rosados, de aço erguido, desafiando, desafetados de qualquer mansidão e pudor... Ele quando deu por si, já estava quase por cima dela. Maria, por debaixo, acordava de seu sono subitamente, num movimento involuntário de proteção, dando-lhe um soco! 
Não mais tentou.
Eram amigos. Amizade é amor na igualdade, amor desafetado da posse e do sexo, dizem. Quando cravada na desigualdade dos sexos, das mentes e dos corpos, nada mais seria que um embuste de Eros..., uma armadilha. Ele caíra. Ela, firme e forte era Maria, isto é, ela mesma, a trapezista mais determinada e dura que já conheceu.
Por algum instante, naquela época, chegara até mesmo a duvidar do gosto de Maria, do desejo dela, de sua opção sexual, ri vagamente ao se lembrar disso. Pensou que Safo, na ilha de Lesbos, também devia ter sido muito bela e determinada... E esse era um pensamento que lhe consumia, que lhe engolia por dentro, que lhe queimava como um ácido sulfúrico cinzento, pastoso e destruidor... 
Maria era um vulcão que crepitava dentro dele com larvas tão quentes quanto infernais. Naquela fase, ele estava em plena erupção. E aquele inferno era-lhe o céu.
A natureza parece que é má. Todos os seus hormônios desejavam Maria, todos os seus tremores internos, parece que ela tinha sido escolhida para a manutenção de sua existência, para a perpetuação de seus genes, de seu corpo, de seu ser, perto dela ele se esquecia de que um dia não mais seria. Ele simplesmente era, sem o quando, por quê, onde, pra onde, sem as idiotices da vida. E Maria? Maria era a indiferença travestida em amizade.
Suas dúvidas sobre Maria persistiram até que foram trabalhar naquele circo recém-chegado, chamado Grande Circo Brasileiro. Um nome pomposo bolado por um proprietário cheio de ego. Maria tinha sido contratada tão logo chegara. Na fila ainda, em pé, tinha chamado os olhares de seu Bernardo Brasileiro, o dono. Ele, sentado em sua cadeira, na frente de um birô velho e jocoso, levantou a vista e em vez de dizer “próximo!”, disse “você!” e apontou pra Maria. Ela, sem medo nenhum, furou uma fila de dez pessoas injustiçadas e sentou-se majestosa em sua frente.
Contratada. Palavra bonita quando se precisa de dinheiro. Levantar-se e ir-se embora? Não, ela olhou para seu Bernardo com o carinho que um gato nos olha quando tem fome e pediu que também contratasse o melhor amigo dela. O velho proprietário olhou, calculou com os olhos, as pestanas trêmulas, deu um mixoxo e assentiu com a cabeça. Maria conseguia tudo o que queria, desde sempre, graças a ela é que ele também estava devidamente contratado e trabalhando naquele tal Circo Brasileiro.
Feliz? Não, não, o pobre estava era afetado com aquelas palavras terríveis: “melhor amigo”...
E agora o instante terrível! Nunca esquecia com rigor de detalhes o momento em que adentraram primeira vez a lona do Grande Circo Brasileiro... Seu rosto transfigurava-se no instante exato em que sua memória vaidosa o guiava para essa parte da história sua. Na transfiguração, nenhum rosto judaico-bíblico, mas Mefistófeles, ele próprio, rogando promessas faustas. Ficava cabisbaixo. Pensar que...
No momento exato em que entraram pela lona do circo, saía Marcos, o equilibrista. Maria e Marcos toparam-se um no outro. Não lembra se ela bateu a cabeça, se tinha tomado algum remédio com efeitos colaterais gravosos, se as pílulas anticoncepcionais que tomava desde o dia em que tinha transado com o rapaz que foi concertar o telefone na casa dela tinham lhe feito mal, ou mesmo se algum mal olhado tinha sido jogado nela, mas o fato é que Maria o surpreendeu, o desiludiu, repentinamente, sem mais nem menos, como num sopro de vento, levantando poeira, e folhas secas de árvores, num redemoinho, e o diabo no meio...
O diabo é a cara que temos quando desgostamos das coisas. Deus?, é um clamor.
Mas ainda que clamasse, não haveria retorno ao eco de sua voz. Ela estava apaixonada. Perdida. Perdidamente. Doidamente. Severamente. Transloucada. O cupido encontrou-se com ela e as chamas que brotaram de sua seta eram maiores que as de Santa Tereza em êxtase!
Mas o que era aquilo? Tinham apenas se chocado, se topado, e já era suficiente? Ele que há tanto tempo a acompanhava, era o baú de seus segredos, o amigo, o irmão, o melhor amigo... A pessoa mais indicada para receber em cheio os dotes de seu amor, e ela, dura e impassível. Senhora de si, de sua vida, de seus sentimentos, de suas paixões mais secretas, determinada, feminista... Ora, esquecera-se de seu feminismo? Porque estava, então, tão vitimada com aquele homem que não lhe dava qualquer bola? Pensava. Poderia dar-lhe o braço, um dedo, qualquer coisa baixa que demonstrasse indiferença, mas não. Ante ao amor a gente é... Não é.
Marcos era também determinado, impassível, senhor de si, de seus sentimentos e de suas paixões. Nada na beleza de Maria, na essência de Maria, nas curvas de Maria, na existência de Maria, no firme modo como saltava no trapézio, de sua firmeza, nada em absoluto afetara sequer de longe o ímpeto de Marcos. E Maria, não obstante, só falava dele, só notava ele, só queria ele, só pensava nele... 
Lembrou-se que teve um momento em que ela chegou com uma história de que tinha sonhado com ele, e naquele instante já não aguentou mais! Levantou-se, virou-lhe as costas e saiu. Maria era um colibri no trapézio, leve e firme, mas um colibri que voara para outros braços. Os seus há tanto abertos, esperando, ansiosos, enquanto dizia para si “vem, colibri”, mas ora!, o mundo dá voltas e numa dessas voltas a gente cai. Mas o que o deixava ainda mais preocupado era o fato de que os braços que a recebiam não estavam abertos. Ele a amava, pensava em seu bem-estar, se não seria com ele, ao menos que fosse com o outro, mas o outro...
Foi aí que aquilo... Ri amargamente até hoje quando se lembra disso. Assim, de supetão! Inesperadamente, de repente, num susto do qual até hoje não se recuperou, empalidece sempre que lembra: Marcos estava apaixonado também, repentinamente, imensuravelmente, intensamente, de supetão, depois de um rápido choque, na entrada da lona do circo..., só que por ele.
Poema homônimo de Edweine Loureiro: 
"Voo 
Diz o trapezista:
vem, colibri.Não te deixo cair... 
Mas, para seu terror,
a trapezista voou
rumo ao equilibrista,
que a abandonou".

Mario Filipe Cavalcanti

 

Retirado de Samizdat

publicado às 17:44

Carteiro é uma profissão em extinção

por Jorge Soares, em 11.12.13

Carteiro

Imagem do El País

 

A noticia é do El país, no Canadá a empresa pública dos correios, os CTT lá do sitio, vai acabar com a entrega de cartas a domicilio às pessoas, à semelhança do que já acontece actualmente em algumas zonas rurais e nos subúrbios das grandes cidades canadienses. A partir de 2019 quem quiser receber cartas vai ter que ter um apartado postal.

 

A medida permitirá reduzir entre 6 e 8 mil  o número de empregados e uma poupança anual de 500 milhões de dólares. Está previsto também um aumento de preços de 35% no correio normal.

 

Para além disto, o plano contempla também o encerramento de centenas de estações de correios que serão substituídas por franquicias em centros comerciais e grandes superfícies... onde é que eu já ouvi isto?

 

Não me lembro quando foi a última vez que recebi uma carta em papel, para além de toneladas de papel em publicidade, a única correspondência que recebemos cá em casa são: contas, facturas, avisos bancários, avisos das finanças ... Há pouco dei por mim a pensar que tudo isto era facilmente substituível por correio electrónico, aliás, em alguns casos só não o foi ainda por mera preguiça de minha parte, porque as empresas que me prestam o serviço até já fazem o envio por mail. Já para não falar da quantidade de vezes em que as cartas se vão amontoando no escritório durante semanas e por abrir... e já não seria a primeira vez que muitas vão assim mesmo, fechadas, directamente para a lareira.

 

Entendo que a entrega de correio continua a ser importante, há muita gente que não tem computadores e muito menos correio electrónico, mas pensando friamente, cá em casa  e na grande maioria das casas que conheço, o serviço dispensava-se perfeitamente. 

 

Em Portugal não será de certeza nos próximos cinco anos, talvez demore mais 15 ou 20 anos, mas eu pessoalmente não tenho dúvidas nenhumas, o que está a acontecer agora no Canadá irá acontecer de certeza noutros países e mais cedo que tarde, irá acontecer por cá. A compra de selos e a entrega de correio em mão irá passar a ser um serviço de luxo e a profissão de carteiro será mais uma daquelas que passará à história. Não há como lutar contra o progresso.

 

Progresso que segundo a amazom, poderá passar pelo seguinte, vejam só:

 

 

 

 

Jorge Soares

publicado às 22:15

Livro - Comer orar e amar

por Jorge Soares, em 10.12.13

 

Quantas vezes já nos apeteceu deitar tudo para trás das costas e simplesmente partir? Aos 30 anos, Elizabeth Gilbert tinha tudo o que uma mulher ocidental formada e ambiciosa podia querer, tinha a vida que muita gente ambiciona e nunca consegue, o marido dos seus sonhos, a casa com que a maioria pode sonhar e uma carreira de sucesso.


Aos 34 deu por si a olhar à volta e a sentir que não era dali e resolveu simplesmente deixar tudo para trás, começar a sonhar de novo e partir à aventura, à procura de experiências de vida e de novos sonhos.


A primeira escala é em Itália, e esta é para mim a melhor parte do livro, em poucas páginas podemos encontrar toda a magia e romantismo com que tantas vezes imaginamos  tanto Roma como o resto da Itália. Esta é a parte do comer e tudo o que se come nesta parte do livro é simplesmente sublime, quase que conseguimos sentir o sabor e os aromas da Itália mais tradicional... tudo envolto numa enorme aura de romantismo e beleza... não fosse eu já ter estado na Itália e juro que me candidatava ....


A segunda escala é na India, é a parte do Orar, foi a parte que gostei menos do livro, para mim a descrição da oração, do yoga e da concentração são levados a um extremo que por vezes torna a escrita enfadonha... mas imagino que faça parte... é claro que de novo as descrições são sublimes. 


A terceira parte é a de amar e passa-se em Bali.. aprendeu a equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina. Tornou-se aluna de um feiticeiro nonagenário e apaixonou-se da melhor maneira possível - inesperadamente.


Eu vi o filme antes de ler o livro e recomendo os dois, este é um livro sobre muitas coisas, sobre os sonhos e a forma como estes vão mudando ao longo da nossa vida, sobre os prazeres da vida e sobre como muitas vezes temos que fazer enormes sacrifícios em troca de pequenas coisas que pouco a pouco e no seu todo nos vão preenchendo... mas é sobretudo um livro sobre o recomeçar. Quantas vezes já abdicámos de sonhos achando que tínhamos a relação ideal e o emprego de sonho, e chegamos à conclusão que às vezes temos de recomeçar do zero?... há quem consiga e se dê bem... pelo menos nos filmes.





Jorge Soares

publicado às 22:40

Pessoas fortes e boas

por Jorge Soares, em 09.12.13

Pessoas fortes e boas

 

Imagem do Público 

 

Chama-se José António Pinto, mas todos o conhecem por Chalana, é assistente social e acaba de  lhe ser atribuída a medalha de ouro comemorativa do 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Medalha atribuída pelo júri do Prémio Direitos Humanos constituído no âmbito da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República.

 

Numa altura em que cada vez mais as pessoas olham com desconfiança para o mundo que os rodeia, José António faz da proximidade e da ajuda a sua forma de vida e leva a sua função como assistente social ao limite, não hesitando em mover céu e terra para ajudar quem precisa, ou para denunciar as situações.

 

Amanhã o "Chalana" vai estar na assembleia da República a receber a sua medalha e já tem claro o que vai dizer aos deputados "Troco esta medalha por outro modelo de desenvolvimento económico"  E ele sabe do que fala, ao contrário de quem decide a política de austeridade ou lá longe do país real faz as leis, ele lida todos os dias com o desespero de quem pouco ou nada tem.

 

Do artigo do Público destaco o seguinte:

 

"Chalana" não é inocente. Sabe que a colaboração que tem mantido com a comunicação social, e que considera fundamental “porque sem denúncia, não há transformação” (algo que aprendeu com, o ex-presidente da República Mário Soares), lhe dá um “capital social” invejável. “As pessoas odeiam-me, amam-me ou têm medo de mim”, diz. Um capital que foi conquistado pelas muitas denúncias que fez, mas também por ter sido condenado por promover, reiteradamente, o aborto, em 2002, no mega processo do aborto, na Maia, e em que foram acusadas 43 pessoas, incluindo 17 mulheres que tinham interrompido a gravidez.

 

"Chalana" não se dá com posturas politicamente correctas. Os colegas da mesma área, diz, criticam-no abertamente. Porque transporta os utentes no carro pessoal, um velho Peugeot 206. Porque estabelece relações com eles (“os meus colegas têm muito medo do afecto”). Em casa, também não é fácil. Tem duas filhas, de sete e dez anos, e o tempo entre o trabalho, o voluntariado na associação Cor é Vida, no Hospital de S. João, os projectos em que se envolve e o seu lado boémio não lhe deixam muito tempo para a família. “A mãe das minhas filhas às vezes zanga-se.” A única coisa em que não cede, na busca de algum distanciamento, é no telemóvel. Não tem.

 

Roubei o título do post de um dos comentários à noticia, mas não há duvida que é mesmo isso, este país precisa de muitos José Antónios, de muitas pessoas fortes e boas.

 

Jorge Soares

publicado às 23:03

Conto - Natal é todo o ano

por Jorge Soares, em 07.12.13
Natal é Todo o ano
Imagem minha do Momentos e Olhares
– Todo o ano? Qual Natal, pai, o dos nascimentos ou o das prendas?
– O nosso, que não fazemos outra coisa senão presépios, anjinhos e outras figurinhas alusivas, em barro.
– Estas meias-pinhas não têm muito que ver com o Natal…
– Meias, não, Tiago. As metades de baixo que estás a moldar… Pressiona bem esse barro no molde para não ficar com falhas. Dizia eu, as tuas metades mais as de cima, ali da tua mãe, unidas e retocadas por mim, fazem pinhas inteirinhas e, depois de irem ao forno, ficam bem bonitas.
– Eh!
– É uma peça barata para oferecer como gentileza, nesta época. Não é um presente de marido para mulher ou de avô para neto, mas é uma boa ideia para oferecer entre colegas de trabalho, ou entre amigas. Como sabes, há até empresas que as compram às dezenas para acompanhar outras prendas aos empregados.
– Sim, eu sei, não é a primeira vez que venho ajudar; mas o que é que têm que ver com o Natal?
– O Natal reteve muitas das práticas das festas pagãs dos antigos, para festejar o solstício do inverno. Mantém uma grande ligação ao campo, à floresta. E pinha lembra floresta. Não é, Teresa?
– Com certeza. E fogo. Sequinha, é a melhor acendalha que há. Nas aldeias, ainda hoje se acendem grandes madeiros, no adro da igreja. Já viste, lá na Amieira, o povo todo à volta da fogueira na noite de Natal! Pinha, fogueira e Natal andam associados.
– E essas bolinhas?
– Azevinho. Algumas pessoas também ornamentam as casas com ele, quer as ombreiras das portas, quer as lareiras e as mesas. Estas bagas, que hão de ser pintadas de vermelho, e estas folhas, aqui em cima da pinha, são de azevinho.
– Salvo seja, mãe!
– Olha que não estão nada más! Zé, tens aqui mais cinco.
– Aonde é que vamos passar o Natal este ano?
– Então, vamos à Amieira! O ano passado foram os tios que vieram cá…
– À Amieira?! Ganda seca! Porque é que não vamos para o Algarve?
– O Natal é a festa da família, Tiago. Se não estivermos reunidos nesta altura, só nos vemos nos enterros.
– Tiago, oca bem essa metade! Se o barro ficar muito grosso estala na cozedura.
 Fogo! Os tios só me oferecem livros com histórias que não interessam nem ao Menino Jesus.
– Se calhar não te fazia mal nenhum lê-los, em vez de estares sempre agarrado à consola de jogos.
– Bela consola, esta! Estou todo consolado! Já deito pinhas pelos olhos!
– Tiago Manuel! Não menosprezes este trabalho. Cada uma rende pouco, mas se vendermos seiscentas como no ano passado… Dão mais do que meia dúzia de presépios como aquele ali, que já me leva uns cinco dias de trabalho. Ali, debaixo daquele pano húmido! A propósito, lembras-te de a tua mãe dizer que não era muito lógico o pastor levar uma lebre no braço?
– Sim, até apostaste com ela um lanche na pastelaria. As apostas forretas do costume! O que é que tu dizias, mãe?
– Que fazia mais sentido ser um cabrito ou um borrego. Se é um pastor…
– Pois! Mas, o que me parecia ver na estampa da Adoração dos pastores do pintor Gregório Lopes era uma lebre. No domingo de tarde, enquanto estavas para o cinema, eu e a tua mãe fomos de propósito ao Museu de Arte Antiga tirar as teimas. Realmente, ver o quadro ali mesmo à nossa frente, é outra coisa! Fiquei convencido de que é um cabrito. Perdi! Sempre me tinha parecido uma lebre.
– Não ganhei grande coisa nessa aposta. Se fosse o Euromilhões! Zé, o que é que tu gostavas que eu te desse, agora no Natal, se me tivesse saído muito dinheiro?
– Uma autocaravana.
– Assim, levas uma camisa, oh-oh!
– Eu quero uma viola elétrica.
– Para quê? Tu não sabes tocar!
– Como é que eu posso aprender? A ver telediscos?
– Já tens uma acústica, de madeira.
– E toco! Mas a música agora tem de ter amplificação e encher o espaço.
– Era só o que nos faltava – barulheira. Eu gosto pouco de barulho.
– Então um leitor de mp4. Com auscultadores.
– O que é que achas, Teresa?
– Eu não me importo. Só tenho medo que ele fique surdo como o filho do vizinho. Andava sempre com aquilo nos ouvidos, que não dava por ninguém. E ao teu irmão, o que é que havemos de dar?
– Isso é que é mais difícil! Ele já tem tudo. Também não lhe vamos dar uma moto de água, para andar na barragem, que é só no que ele fala agora!
– Tem de ser uma coisa boa!
– Mesmo que ele já tenha, mãe?
– Uma camisola faz sempre falta. Mas das boas, que lá o frio até corta. Fancaria é que não. Como uns brincos de pechisbeque que o teu pai me deu uma vez.
– Gostaste deles, confessa!
– Eh! Estávamos casados só há um ano. Não ia dizer que não gostava ou que não queria. Estão para ali. Passa-me essa espátula, Tiago.
– Já estou cansado…
– E se fizéssemos uma pausa para lanchar, Zé?
– Sabem o que me apetecia agora, com esta conversa? Uma filhó.
– Ainda bem que falas nisso. Este ano, estamos a atrasar-nos. A ver se daqui a bocado vou comprar farinha. No sábado que vem, amasso-as, e à noite fritamo-las.
– Eu viro-as.
– E eu espalho o açúcar por cima, posso?
– Vai parecer o presépio.
– Falta o burro e a vaca. Não querem convidar os vizinhos do rés-do-chão?
– Tiago Manuel!
– Tiago Manuel…

 

Joaquim Bispo

 

Retirado de Samizdat

publicado às 17:35

Mandela

 

Imagem de Artigo 21 

 

É um capricho da história que a morte de Nelson Mandela encontre no poder em Portugal o mesmo partido que governava naquela altura quando alguém decidiu votar contra a moção das Nações Unidas que  pedia a sua libertação.

 

Hoje o governo de Passos Coelho declarou três dias de luto nacional pela morte de Madiba, Cavaco Silva é hoje presidente da Republica, na altura era primeiro ministro e responsável pelo governo,  já expressou o seu pesar em nome de todos os portugueses, era bom que o senhor ou algum dos então responsáveis, nos esclarecesse os motivos pelos que nos fez passar a vergonha de sermos um dos três países que votaram contra a liberdade e a favor de quem prendia, discriminava e oprimia.

 

Mandela ficará para sempre como um símbolo da luta pelos oprimidos, um homem que  da luta contra a discriminação, a segregação e o racismo uma forma de vida, o seu lugar na história será de certeza absoluta eterno.

 

O que aconteceu naquela votação é uma vergonha para o país, e era bom que todos fossemos esclarecidos, quem e porquê tomou a decisão de votar contra? Em nome ou a pedido de quem?

 

Jorge Soares

publicado às 15:58

Mandela

 

Imagem de Pontos de Vista

 

Haverá poucos homens no mundo que tenham dado tanto pelos seus e pelo seu país. Durante mais de 20 anos liderou uma campanha pacífica e não violenta contra o Governo da África do Sul e as suas políticas racistas. Com Oliver Tambo depois fundou um escritório de advocacia que dava aconselhamento a negros que não dispunham de representação.


Foi preso em 1956 junto com mais 150 pessoas e passou 27 anos da sua vida preso, tornou-se o prisioneiro mais famoso do mundo e mesmo de dentro da prisão nunca deixou de lutar pela liberdade dos seus. Ao fim de todo este tempo  surgiu como o líder do ANC (Congresso Nacional Africano)  e liderou este partido  para conduzir a transição da África do Sul para a democracia e a igualdade após 46 anos de um regime baseado no racismo e na segregação racial.


Foi o primeiro presidente da África do Sul eleito democraticamente e o primeiro presidente negro, em 1993 ganhou o Nobel da Paz. O Dia Nelson Mandela foi instituído em 2009 para celebrar a sua vida e a chamada à acção que fez ao longo da sua vida. Celebra-se a 18 de Julho e, propositadamente, não é um feriado para que inspire todas as pessoas em todo o mundo a trabalharem pelos valores que Nelson Mandela defendeu ao longo de toda a sua vida.

Hoje o mundo ficou mais pobre, morreu Madiba, um símbolo da democracia, da liberdade, da igualdade, o seu exemplo perdurará para sempre e a sua história servirá de farol a todos os que acreditam na liberdade e na igualdade entre todos os seres humanos


Jorge Soares

publicado às 21:59

Em mau português - Cartuxo?

por Jorge Soares, em 04.12.13

Cartuxos

 

 

car·tu·xo 
(latim medieval Carthusiumfrade da ordem da Cartuxa)

adjetivo e substantivo masculino

1. Relativo a ou religioso da ordem da Cartuxaestabelecida por SBruno em 1084.

substantivo masculino

2. [Figurado]  Homem retirado do convívio social (sem ideia de misantropia).


Sinónimo Geral: CARTUSIANO


In Priberam

 

 

Senhores da TVI, ainda há monges em Leiria? Ou a fábrica seria de cartuchos para armas?

 

Jorge Soares

 

Update: a imagem é da TVI e não da SIC como tinha referido inicialmente, as minhas desculpas à SIC e a quem por aqui passa e obrigado ao Gonçalo que me alertou para o erro

publicado às 22:43

Receber o país de tanga e entregar nu

por Jorge Soares, em 03.12.13

Dívida Pública

Imagem de aqui

 

Há muito que O  BE e o PCP clamam que a solução para a crise passa por uma renegociação da dívida, a maioria no governo e o PS sempre se escusaram a aceitar sequer falar deste assunto, para este governo até agora só existia um caminho, a austeridade. 

 

Cortar nos salários, cortar nos direitos dos trabalhadores, cortar nas pensões, aumentar impostos, privatizar as empresas do estado, vender os serviços... era este o caminho seguido à risca e sem desvios. Até hoje, porque hoje ficamos a conhecer uma nova maneira, chutar o problema para a frente, de preferência para lá das eleições, quem vier a seguir que se amanhe.

 

Pela ministra dos sawps, ficamos a saber que o governo renegociou uma parte da dívida que o país tem que amortizar durante o ano que vem, qualquer coisa como 6000 milhões de Euros... Só que para mim renegociar uma dívida deveria significar arranjar um compromisso em que se facilite a vida a quem deve de modo a tornar mais fácil o seu pagamento. Para o governo, renegociar significa fazer um novo contrato em que se fica a dever o mesmo e se tem que pagar juros mais altos e durante mais tempo.

 

Não está escrito em lado nenhum, mas está à vista que a maioria destes créditos são dos bancos nacionais, Caixa Geral de depósitos incluída, que recebem o dinheiro do BCE a taxas irrisórias, muito abaixo de 1%, e agora (aceitaram?) renegociar com o estado com juros à volta dos 5% e evidentemente lucros milionários à custa dos nossos sacrifícios.

 

2014 e 2015 são anos de eleições, logo, não dá muito jeito aumentar ainda mais a austeridade, entendemos isso, mas era bom que alguém fosse pensando como é que em 2017 e 2018 se vai resolver mais este problema... quem vier a seguir que se amanhe.

 

Ou seja ,este governo é mesmo original, tal como todos os anteriores deita a culpa da situação do país para a herança recebida, mas se recebeu o país de tanga está-se mesmo a ver que o vai entregar nu.

 

Jorge Soares

publicado às 23:16

Luís Caracol

 

 

Luiz Caracol, é um artista luso-angolano, e surge na cena musical em 2004, com um estilo “lusófono” e muito próprio. Este músico cantor e autor tem como fonte de inspiração a mistura entre a lusofonia cada vez mais emergente em si, e uma urbanidade característica da cidade de Lisboa, local onde vive e onde essas varias culturas se encontram e convergem entre si.


Fonte Get Records

 

 

Letra

Letra

 

Despertei em graça
No meio da praça
E de um só momento
Eu fiz um momento

Procurei-te norte e sul
Todo o mapa mundo
Inventei-te e encontrei-te a cada segundo

Por querer mais, por querer tanto
Ao que é de mais, ao que é espanto

Saí daqui, subi à lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e
Saí daqui, subi à lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e não resisti

Eu tava na tua

Ao som dos teus passos
Levantei os braços
Desci a ladeira
Sacudi poeira

Por querer mais, por querer tanto
Ao que é de mais, ao que é espanto

Saí daqui, subi à lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e..
Saí daqui, subi à lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e não resisti

 

 

"Tava na tua" é o segundo single do álbum "Devagar" do Luiz 
Caracol, com a participação especial da cantora Sara Tavares


Podem ouvir mais do Luiz Caracol, aqui

publicado às 23:28



Ó pra mim!

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