Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Venezuela, entre a ditadura e a guerra civil

por Jorge Soares, em 16.02.14

Venezuela

 

Imagem do Público 

 

Quando é que um regime que foi eleito pelo povo perde a legitimidade?

 

O que teme um governo que para além de manter toda a comunicação social publica e privada controlada, decide retirar das plataformas de cabo e da internet o sinal de um canal internacional que está a transmitir em directo, ao contrário dos canais nacionais, as manifestações e protestos organizados pelos estudantes em todo o país?

 

Na única noticia que vi na televisão portuguesa sobre o que está a passar em Caracas, ouvi Nicolás Maduro ameaçar o povo e a oposição com a radicalização da revolução e a utilização das armas para a defender, se os protestos continuarem.

 

Durante muito tempo defendi Chaves, não pela forma como governava mas sim pela legitimidade dos seus governos, confesso que não pude evitar sentir um arrepío na espinha ao ouvir aquelas palavras da boca de um presidente da República de um país onde supostamente existe uma democracia. Que tipo de governante ameaça o seu povo com a utilização das armas para o fazer calar?

 

Os protestos que se iniciaram nos estados Andinos da Venezuela e que rápidamente se estenderam a Caracas e a  praticamente todo o país, são contra as super degradadas condições económicas que derivam de uma inflação de mais de 50% e contra as condições de insegurança que pioram todos os dias e que convertem o país no segundo a nível mundial no número de homicídios.

 

O que faz Nicolás Maduro ante esta situação? Envia grupos paramilitares armados para enfrentar as manifestações. Força o encerramento dos jornais impressos ao não autorizar a importação de papel, controla os meios de comunicação  nacionais ameaçando com o encerramento a quem difunda noticias que mostrem a situação real do país e corta o sinal aos canais internacionais, chegou inclusivamente a impedir a difusão de fotografias no Twitter para evitar que os estudantes  o utilizem, e às restantes redes sociais, para mostrar ao país e ao mundo o que se passa nas ruas... Neste momento existe na Venezuela uma censura de facto.

 

A Venezuela é um dos países com mais recursos naturais do mundo, é o terceiro produtor mundial de petróleo, apesar de nos últimos 10 anos terem quase destruído a industria petrolífera, continuam a entrar milhões de dólares todos os dias no país. Para onde vai todo esse dinheiro?, ninguém sabe.

 

Chavez, Maduro e o seu partido estão no governo há 15 anos, nestes 15 anos em lugar de melhorar, a situação económica piorou todos os dias.

 

Chavez chegou ao poder principalmente devido à enorme desigualdade que existia no país, passados 15 anos, os pobres continuam pobres, vivem praticamente nas mesmas condições em que viviam antes, a população do país praticamente duplicou, os ricos são os mesmos, os pobres são muitos mais e a desigualdade social, a insegurança e a corrupção aumentaram de forma dramática.

 

Hoje vi Nicolás Maduro ameaçar os estudantes e o país com a imposição do poder pela via das armas, o que vi não é digno de um presidente democraticamente eleito, é digno de um qualquer ditador de república das bananas do século passado...  

 

Em 1958 A Venezuela foi o primeira democracia da América latina, não me parece que o povo esteja disposto a ter a primeira ditadura do século XXI, esperemos que Chavez mande de novo algum passarinho cantar ao ouvido de Maduro e que lhe mostre que o povo está primeiro e que não vai aguentar muito mais.

 

Desde aqui, de todo coração desejo o melhor para um povo e um país que aprendi a amar e que levo no coração como o meu...

 

La lucha del  pueblo venezolano es por un país onde se pueda vivir con justicia, paz y libertad, por favor no se rindan!

 

Update: Vídeo - O que está a acontecer na Venezuela?

 

 

Jorge Soares

publicado às 22:08

Conto - O homem que amei

por Jorge Soares, em 15.02.14

O HOMEM QUE AMEI
                                                                     

Houve uma época em minha vida que pensei ter voltado à terra para ir em busca do homem que amo. Era jovem e acreditava nessas coisas de outras vidas, retornos, enfim... Essas coisas que tornam mais digerível a existência. Então, procurei por ele. Procurei, procurei, até que, finalmente, o encontrei. E como o amei! Ainda hoje, em minha memória, parece que o vejo.
   
O homem que amei tinha olhos que guardavam o mar em tarde de chuva.

O homem que amei tinha passos firmes e gestos largos. Por vezes assumia um ar arrogante que tentava disfarçar sua timidez e insegurança. Mas, embora tímido e inseguro, o homem que amei era extremamente arrojado em seus sonhos, projetos e realizações.

O homem que amei tinha a voz aveludada que nada dissimulava e um semblante melancólico. Sua voz e semblante revelavam as emoções que sentia: da mais doce ternura à raiva mal contida; da pureza quase infantil à ironia mais sutil; da profunda tristeza à alegria que contagia. Por falar em emoções – é espantoso – mas o homem que amei conseguia vivê-las todas num mesmo dia.

O homem que amei tinha extremos loucos. Aproximava-me de Deus com a mesma facilidade com que me fazia conhecer o demônio. Com a mesma facilidade dizia impropérios ou revelava pensamentos sublimes. Por vezes agia e reagia como criança e, quase sempre, com a grandeza do homem vivido e sofrido.

O homem que amei conseguia me fazer curvar de tristeza ou explodir de alegria porque, como ninguém, ele sabia chorar quando era preciso e rir quando era o momento.

O homem que amei desabava diante das mazelas do mundo, mas crescia ao defender suas ideias com contundência.

O homem que amei tinha sonhos lindos, desejos simples e gosto sofisticado. Existia um ponto de interrogação no semblante meigo e forte do homem que amei, tipo, por que complicar o que é simples? A bem da verdade, o homem que amei era uma confusão e, por isso mesmo, me confundia e conseguia me surpreender sempre.

O homem que amei deslocava-se feito peixe fora d’água em meio à parafernália moderna, mas era rei em meio à natureza e no mundo das palavras. Era perspicaz e observador. Escrevia o dia a dia e comovia. Transformava asfalto em poesia.

O homem que amei era sedutor. Tinha paixões e provocava paixões.

O homem que amei era fascinante e delirante.

O homem que amei era intenso e raro.

Eu o conheci em seu reino, o das Palavras, o da Poesia, diante de uma máquina de escrever, e o amei desde então. Encontrei nele reflexos da minha alma. Nele havia o amor que tanto buscara. Torcia para que aquele homem conservasse a mágica do primeiro instante. Torcia porque, se perdesse a magia, ele perderia sua alma. Se perdesse a alma, não seria mais um homem raro. Se não fosse mais um homem raro, não seria mais o homem que eu amava. E daí, bem, daí minha vida teria perdido o sentido da volta.

Mas tudo isso foi há muitos e muitos anos. Perdi o homem que amei no tempo e no silêncio. Enviei um telegrama, não obtive resposta. Mandei um livro, não obtive resposta. O silêncio foi enorme, brutal. Há silêncios que são eloquentes, mas o silêncio ditado pelo homem que amei eu não soube interpretar. Afinal, se até Inês – aquela do Adoniram - deixara um recado pro Mané, ainda que num papel jogado no chão perto do fogão, por que eu não mereceria qualquer explicação?

Vida que vem, vida que vai, vida que leva... E a vida me levou até que aquele amor se desfizesse no tempo, tempo que se alongou, fazendo-me pensar, volta ou outra, se o homem que amei existira mesmo ou se eu o inventara.
 
Foi então que, hoje, ao abrir minha caixa de recados, encontro uma mensagem do homem que amei. De repente, assim, do nada. E foi como se ouvisse sua voz macia, chegando de algum pedaço remoto do passado.

Contou de sua vida, de seus amores e dores, de sua saudade e de utopias.

“Somos utopias. Utopias não deveriam falar, olhar, dizer, se expressar, se mostrar. Utopias deveriam apenas ser utópicas. Sonhadas, imaginadas, desenhadas, pintadas ao gosto de cada um. Nós dois nascemos utopias. Vivemos todo o tempo como utopia. Toda uma vida. Utopia é coisa linda para se levar na alma. Porque coração vai embora, a alma não. Utopia quando você ouve uma música, um som, um tom, um grilo. Utopias quando você, dentro de um avião, vê lá embaixo um belo horizonte e lembra que ali tem utopia. Quando você lê um verso, um conto, um livro, a biblioteca inteira e lembra utopias. Quando você passa num lugar e é atropelado por um utópico pensamento. Talvez a utopia venha num ônibus elétrico com letreiros apagados de um imortal Machado de Assis...”  A essa altura, as letras já embaçadas embaralhavam-se, parecendo dançar numa poça d’água. Bateu um cansaço infinito. Então desisti de ir até o final e deletei a mensagem.

Tirei os óculos, pensando nessa catarata que insiste em me lacrimejar os olhos. A velhice tem cada coisa... Preciso consultar um neurologista para saber a causa desse repentino tremor nas mãos. E um cardiologista também porque esta batida descompassada não é normal. Mas, antes, tenho que ver outro especialista, vai que esse nó na garganta seja coisa ruim...

 

Cecília Maria De Luca

Retirado de Samizdat

publicado às 21:17

Eluana

 

 

"Manter alguém a respirar durante 17 anos simplesmente porque está ligado a uma máquina fará algum sentido? qual? na esperança de um milagre?, na esperança que a medicina evolua tanto que seja possível refazer o funcionamento do cérebro?  E nesse caso, onde está o limite do aceitável?, 20 anos?, 30?... 50? "

 

Escrevi o parágrafo acima em 2009  neste post  a propósito da morte por eutanásia de Eluana, uma jovem mulher que "vivia" há 17 anos em estado vegetativo. 

 

Hoje na Bélgica foi aprovada por maioria uma lei que alarga a possibilidade de Eutanásia aos menores de idade. Se olharmos para este assunto sem preconceitos e perspectivas morais e/ou religiosas, a eutanásia não é mais que o direito a podermos escolher se queremos viver e morrer com dignidade.

 

Para mim é claro, todos temos direito a viver com um mínimo de dignidade, quando esse direito não está garantido e quando a vida se resume a um enorme sofrimento sem mais perspectivas que esperar que a morte siga o seu caminho, deveríamos ter direito a escolher não continuar a viver em sofrimento.

 

Evidentemente isto deveria ser válido para qualquer pessoa sem importar condição social, credos, religiões ou idade. Eluana teve que esperar 17 anos para poder morrer, entretanto os seus familiares viveram 17 anos na dependência de um ser querido que estava ali mas que na realidade era como se já estivesse morto, respirava porque havia uma máquina que lhe insuflava ar para os pulmões, e porque havia outra máquina que de forma completamente artificial a alimentava, será isto viver?

 

Não fosse a Eutanásia e Eluana podia continuar ali ligada ás máquinas indefinidamente, poderia até viver muito mais que os seus familiares, chegaria uma altura em que simplesmente estaria ali, sem que ninguém desse por ela, é isso viver? É isso que queremos para os nossos seres queridos? E será que é isso que podemos alguma vez querer para os nossos filhos?

 

Só podemos saber como vamos reagir às coisas quando realmente passarmos por elas, espero sinceramente nunca ter que tomar uma decisão destas com nenhum dos meus seres queridos, mas sou completamente a favor do direito à vida e à morte com dignidade por isso aplaudo com ambas as mãos a aprovação desta lei na Bélgica, espero que algum dia este assunto se possa discutir por cá.

 

Jorge Soares

publicado às 22:34

E se os homens fossem tratados como tratam as mulheres?

 

Imagem do Público

 

 

Num dia qualquer, um homem está em cima de uma bicicleta parado num sinal vermelho. Desde  passeio uma mulher dirige-se a ele aos gritos, oferecendo-lhe favores sexuais enquanto o ofende. A tentativa de negação é recebida com uma reacção violenta da mulher  que continua com os insultos. Seria assim um mundo dominado pelas mulheres, segundo a realizadora e actriz francesa Eléonore Pourriat. Não é bem o espelho da sociedade em que vivemos mas é uma aproximação bastante credível.

 

Chama-se Maioria Oprimida e é uma curta metragem que pretende mostrar como seria o mundo se em lugar de pelos machistas fosse dominado pelas feministas, ou seja, como seria o mundo se os homens fossem tratados como costumam tratar as mulheres.

 

O filme mostra-nos  um dia na vida de um homem anónimo que se depara com várias situações de opressão e violência de género. Enquanto percorre as ruas para ir ter com um amigo cuja mulher o obrigou a usar um véu, é alvo de todo o tipo de piropos de grupos de mulheres com ar ameaçador.

 

É uma perspectiva bastante interessante sobre a forma como uma mulher de hoje em dia vê o mundo e a forma como uma grande parte das mulheres é tratada no dia a dia.

 

Um filme a ver, a rever e que nos deve fazer pensar.

 

 

Jorge Soares

publicado às 22:04

Se murio "Risitos de oro"

por Jorge Soares, em 11.02.14
Shirley Temple

 

Imagem da Internet

É curioso, não me consigo lembrar de um único filme em que aparecesse já adulta a actriz Shirley Temple, mas tenho gravado na memória o olhar vivo e risonho da "risitos de oro" que vemos ali na fotografia. Numa época em que a televisão era outra coisa completamente diferente, na Caracas da minha infância e adolescência, haviam 4 canais a preto e branco e as tardes dos dois mais comerciais eram feitas de matinés cinematográficas muitas vezes com recurso aos filmes antigos, entre esses nunca faltava mais um de Risitos de Oro.

 

No fim dos anos 70, princípios do 80, já a senhora que nasceu em 1928, passava dos 50 anos de idade, mas a sua áurea de pequeno prodígio da actuação ainda permanecia viva e continuava a encantar pequenos e graúdos.

 

Com a chegada das cores e dos novos canais a televisão foi mudando e com essa mudança muitas coisas foram sendo esquecidas, duvido que a maioria dos leitores deste blog tenha sequer ouvido falar do nome Shirley Temple e tenho a certeza que os meus filhos nunca ouvirão.

 

Shirley Temple, Risitos de Oro, morreu hoje aos 85 anos, os seus filmes marcaram uma época no cinema americano. Trabalhou com John Ford, John Wayne, Henry Fonda, Cary Grant e Ginger Rogers, entre outros, o seu sucesso em Hollywood extravasou o grande ecrã, com a sua imagem a ser reproduzida em dezenas de produtos comerciais, como acessórios, canecas e bonecas.

 

Com apenas sete anos a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas atribuiu-lhe um Óscar em reconhecimento pelo contributo para o mundo do entretenimento. 

 

Depois cresceu e terá deixado o cinema e o espectáculo, mas os seus filmes são eternos e durante décadas contribuíram para a alegria de muitos. Morreu hoje aos 85 anos de idade.... há muito que quem conheceu o seu sorriso e a alegria que mostrava nos seus filmes tem saudades.

Jorge Soares

publicado às 21:49

É isto a democracia directa!

por Jorge Soares, em 10.02.14

Não à emigração

 

Imagem do Público

 

 

Na maioria das vezes em que aqui se fala da Suíça é porque aconteceu mais um referendo, primeiro foi o referendo aos minaretes, depois foram os referendos à diminuição de impostos e ao aumento dos dias de férias, ambos derrotados, hoje para não variar temos mais um referendo, referendo à manutenção da livre circulação de pessoas, o que na realidade se traduz, como: referendo à emigração.

 

Ouvimos muitas vezes o termo democracia directa, isto é a democracia directa, o que aconteceu este fim de semana na Suíça é isso mesmo, democracia directa, metade e mais um bocadinho dos suíços, 50,3 %, decidiu que estava na hora de atirar os acordos com a união europeia às malvas e voltar a fechar as fronteiras à emigração.

 

A Suíça é desde há muito um dos principais destinos da emigração portuguesa, mas não só, quase um quarto da população do país é constituído por emigrantes. 

 

Acontece que anexado ao acordo de livre circulação havia uma série de outros acordos que hoje estão em causa, a Suíça será, até pela sua situação física no mapa da Europa, o país de fora da união europeia que mais relações tem com a  comunidade, agora tudo isso está posto em causa e resta saber até que ponto haverá no seio da comunidade a força suficiente para fazer cumprir as regras à letra.

 

Assim de repente o que parece é que quem tem mais a perder com tudo isto é a Suíça e os suíços, há por exemplo muitíssima gente que vive em França, na Itália, na Alemanha e que trabalha na Suíça, a implementação de controlos nas fronteiras e o fim dos acordos comerciais iria tornar tudo isto quase impossível.

 

Há uns meses a Espanha decidiu implementar os controlos normais na fronteira com Gibraltar, que é fora do espaço Schengen, e foi o caos, imaginem-se o que seria implementar estes controlos nas fronteiras Suíças.

 

Por outro lado, a Europa não depende do mercado Suíço, poderia viver perfeitamente com uma ilha no meio, a Suíça está rodeada pela União Europeia, é até difícil de imaginar como seria a vida deste país de costas voltadas para todos os seus vizinhos se estes levassem as regras à letra e deixassem mesmo cair os tratados.

 

Há muito quem advogue as vantagens da democracia directa, hoje vemos as desvantagens, nem sempre as pessoas tem a capacidade de ver o filme todo, os referendos servem muitas vezes para avalizar as vontades de governantes sem escrúpulos que fazem do populismo uma forma de governo.

 

Não há sistemas perfeitos, mas eu confesso que entre a nossa democracia representativa e esta em que tudo se pode questionar e referendar, e em que muitas vezes se vota ao sabor do momento e dos interesses pessoais, eu prefiro o nosso.

 

Jorge Soares

publicado às 23:11

Estádio da luz

 

 

A Proteção Civil recomenda que não se saia de casa a partir das 18:00, visto que se prevê um agravamento do estado do tempo. A entidade considera mesmo que estar na rua é um comportamento de risco.

 

A frase acima foi repetida inúmeras vezes durante o dia em todos os meios de comunicação, entretanto havia pessoas que viajavam dos mais variados pontos do país para assistir a um jogo de futebol, que ia começar exactamente na altura em que as condições meteorológicas se iam chegar à sua fase mais critica.

 

Como é que é possível que na mesma altura em que se práticamente todo o país no nivel máximo de alerta e se aconselha à população que não saia de casa, se autorize que se realize um espectáculo ao ar livre com mais de 60 mil pessoas?

 

Todos vimos em directo como as placas metálicas da cobertura do estádio caiam sobre as cadeiras vermelhas que minutos antes estavam ocupadas por pessoas, o que teria acontecido se essas placas metálicas tivessem caído uns minutos antes? Quem seria responsável pelas consequências?

 

Todos sabemos da importância do negócio do futebol, mas será que não há limites? Qual a verdadeira importância e autoridade da protecção civil? Conseguem fechar a marginal do Porto porque as ondas podem chegar cá acima mas não conseguem impedir um espectáculo em que se colocam em risco a vida de milhares de pessoas?

 

Evidentemente ninguém estava à espera que a cobertura do estádio se desfizesse desta forma, mas não é novidade para ninguém que cada vez que há um jogo desta importância há milhares de pessoas que viajam de todo o país para assistir, será que ante o agravamento das condições atmosféricas e sabendo que essas pessoas se fariam à estrada no fim do jogo para em muitos casos fazer centenas de kms, não se deveria ter adiado o jogo?

 

Todos vimos que foi por pura sorte que não aconteceu uma tragédia no Estádio da Luz, de quem seria a responsabilidade se aquelas placas metálicas tivessem caido uns minutos antes?  O futebol não pode estar acima da vida das pessoas. O dinheiro e os interesses comerciais e televisivos não pdoeme star acima das vidas das pessoas.

 

Veja aqui a reportagem da RTP

 

Jorge Soares

publicado às 22:29

Conto - O namorado de vivi

por Jorge Soares, em 08.02.14

 

–– ORA, MAS VIVI era praticamente da família! E não me venha com essa história

de que “todo mundo diz isso!”. Vivi era, sim, praticamente da família! 

 

        Lembro-me ainda do dia em que fomos para Lagoa de Itaenga, onde fica a fazenda de vovô e naquele dia ensolarado, debaixo da cachoeira friíssima, conheci a Vivi... Eu tinha escorregado, sabe?, era uma criança, ainda, uma menina de meus lá oito anos, dos quais os oito tinham transcorrido em Recife. A única coisa que eu sabia da vida aventureira de criança era o que me diziam os parques da Jaqueira e o Sítio da Trindade!

 

Não, não mesmo, nunca frequentei o Parque Treze de Maio... Mainha e painho não deixavam, diziam que lá só tinham crianças pobrezinhas e gente se esfregando, uma pouca vergonha! Enfim, tudo o que eu sabia de uma vida aventureira se encontrava naqueles parques que acabo de lhe dizer; Ademais disso, vivia nos Shopping Centers, dentro dos cinemas e Game Stations... Essa era toda minha vida de criança no Recife.

 

Quando encontrei a Vivi na cachoeira lá em Lagoa de Itaenga eu estava numa situação inusitada, ao menos para mim naquela época, sabe? Calma, vou dizer. Aliás, já disse, eu tinha escorregado e me relei todinha nas pedras da cachoeira, se não fosse a Vivi... Ah, meu Deus, Vivi era praticamente da família!

 

Tudo bem, vou contar, ela ali, estava na cachoeira, me olhando de rabo de olho, era que eu, menina da cidade grande, queria não junto de mim os matutos da roça, mas veja, não me leve tão a mal, isso era o que me tinham incutido mainha e painho, eles, grandes médicos, me diziam que as perebas dos ricos e a dos pobres eram diferentes, veja só! Eu só podia crer como verdade... Além do mais, minha própria avó me dizia que quando rico morre, morre diferente de pobre. Confesso que morremos sim, diferentes, nós no luxo, eles na penúria, sofrendo sofrimento horrível... Caixão e vela preta!

 

Não que eu queira dizer que vamos para lugares diferentes..., sim, eu conheço a tal parábola do rico e do pobre... Mas não era pra menos, sendo Jesus filho de carpinteiro, achas mesmo que ele ia colocar o pobre no inferno e o rico no seio de Abraão? Ah, meu filho se toque!

 

Você não acha que estamos fugindo muito do foco? Tenho amigas que vivem me dizendo que gosto tanto de digressões que barro aquele meu velho ex-professor de Ciência Política e Teoria Geral do Estado!

 

O fato é que Vivi veio nova ainda aqui pra casa, todo mundo tinha gostado do que ela tinha feito –– pulou na cachoeira e foi nadando no fito de me socorrer lá em baixo... Pie só, eu estava sendo puxada pelas águas da cachoeira, e mais em baixo tinha outra... Seria mortal. Vivi me salvou.

 

Em troca disso, painho considerou dar-lhe um prêmio: uma oportunidade de viver na capital do Estado. Veja bem, você não acha inusitado, algo bom por demais da conta, para uma pessoa tão pobre e desajustada na vida? Os pais de Vivi cortavam cana, trabalho braçal insuportável naquela usina duns tais Campellos... Sabes qual seria sua maior herdade? Cortar cana como os pais e irmãos...

 

Lembrando disso eu até sinto que painho deve de estar agora no céu ao lado da Virgem ouvindo essa história que estou lhe contando e se arrepiando todo... Deus que lhe ilumine a alma! A caridade que fizemos, ninguém faz hoje em dia... Vivemos tempos de mentes secas, duma seca pior que a do sertão.

 

Daí, Vivi cresceu comigo, estudou numa escola daqui mesmo da capital. Como? Particular? Não, não, mainha colocou ela numa escola pública boa. Isso bastava, não? Considerando que ela não iria sequer estudar em Lagoa de Itaenga!

 

O que ela virou? Ora, claro que Vivi era nossa empregada! Ela foi por nós empregada para poder ter o dinheiro dela, para poder usar como bem lhe apetecesse, para poder ser alguém, entende? Ah, mas se eu ganhava mesada era porque era filha, se Vivi ganhava o dinheiro dela, era porque era trabalhadeira, e isso a ninguém repugna!

 

E daí, com a morte de painho, que Deus o tenha em firmes tronos, mainha já estava bastante velha e eu já casada e morando na mesma casa nossa no Poço das Panelas. Vivi, grande, tornou-se minha ajudante sem igual. Uma ajudante número um, sem falar que ganhou lá uns aumentos salariais... 

 

       Claro que foi por conta do plano real! Mas foram aumentos! Não diga que não foram, que importa o aumento das coisas, Vivi morava comigo, comia do meu pão, bebia do meu vinho, quer dizer, vinho mesmo ela num bebia não, não tinha costume, mas bebia da minha água, nunca precisou de comprar uma bolacha sequer, como disse, era praticamente da família!

 

       Meus filhos nasceram, e tanto eu quanto o Adalberto ficamos felizes da vida, nossa vida seria ainda melhor, e Vivi, ora, Vivi era a única pessoa em quem nós confiávamos para cuidar deles, para gerir seu carinho e cuidado... Vivi foi nossa babá.

 

       Mas veja só como o tempo passou! Estou eu agora com meus quarenta anos e minha filha mais velha com vinte! Vivi? Acho que deve ter minha idade, sempre foi maiorzinha, sabe?, nunca perguntei nem nada! Carteira de trabalho? Ora, já não falei que era quase da família?! Você assinaria a carteira da sua mãe? E não obstante ela sempre trabalhou pra você!

 

       Mas o problema veio quando Vivi arrumou aquele namorado! Quem já se viu, uma mulher de sues quarenta anos arrumando namorado, e foi numa folga que eu dei a ela para ela brincar o São João, ah meu Deus como eu me arrependo disso! Arrumou um traste de um namorado pelos lugares aí em que foi e, o que é pior... Engravidou! Sim, querido, isso mesmo, EN-GRA-VI-DOU!

 

       O que eu poderia fazer, meu Deus!, criar o filho de Vivi? Mas é claro que não! Já criei a própria Vivi, junto com minha mãe, ela era praticamente da família, tinha quarto, tinha cama, mesa e banho, tinha tudo, família e carinho, e jogou tudo por cima da janela como se fosse nada.

 

       Espaço? Mas é claro que minha casa tem espaço, mas a questão não é espaço, meu caro, é de espaço que vem o dinheiro que se gasta com comida, médico, consultas, escola, educação, moral e bons costumes e outras coisas mais que criança precisa? E veja, Vivi não era um bebê, tinha lá seus oito, nove anos, como eu, quando veio... Além do mais, na minha casa mando eu e meu marido, mas quando Adalberto cisma com alguma coisa, só posso fazer meu papel de boa diplomata. Adalberto disse categórico: “Não quero saber de menino chorando por aqui. Meus filhos já criei, essa daí que crie os dela”!

 

       Ora, não recrimine o Adalberto por dizer “essa daí” de Vivi, é que, os homens são mais estourados, não sabe? E ele, como quase um pai que foi pra Vivi, não podia ficar calado... Não, não, Vivi não foi minha madrinha de casamento, pra seu governo tenho grandes amigas, como poderia chamar Vivi?

 

        Falamos pra ela sobre esse problema e ela mesma resolveu voltar pra Lagoa de Itaenga, pra criar o filho lá. Disse ela, dis-se-E-la, que o tal namorado ia ajudar, quero ver como, só pode ser cortando cana!

 

        Não temo ter demitido Vivi, ou melhor, que conste que ela mesma é quem se despediu, só dói aqui no peito, sabe? Vivi era praticamente da família!

 

        Minha filha? Que tem minha filha? Sim, sim, minha filha está grávida do namorado... Mas veja, ele é estudante de direito da Universidade Federal, os pais são advogados e procuradores, tem escritório próprio, etc., boas relações na alta sociedade recifense, o rapaz faz despachos com desembargadores federais e estaduais..., não é a mesma coisa! Minha filha está bem assistida, e fez o que era certo, não foi com um desses quaisquer que ficam dançando forró por aí...

 

        Entenda, a mulher precisa mesmo de quem lhe dê de tudo. Homem sem dinheiro num pode ter mulher. Só tem mulher quem pode.

 

        Além do mais, já disse mil vezes, parece que você ainda não entendeu!, Vivi era pra-ti-ca-men-te, da família... Nunca disse que ela e-ra da família.

 

Mario Filipe Cavalcanti

publicado às 21:18

Ziferbalt

Imagem de aqui

 

O que pensaria de um café onde em lugar de pagar o que se consome, se paga pelo tempo que se permanece lá dentro? Um lugar onde à entrada entregam um pequeno relógio aos clientes, estes estão lá dentro o tempo que quiserem consomem o que entenderem entre o que está disponível e no fim paga-se pelos minutos que marca o relógio. O preço ronda os dois Euros à hora.

 

À primeira vista parece uma ideia maluca, mas acredite ou não é um conceito que já existe e que pelos vistos está a ter sucesso, já está em 11 locais, 9 na Rússia, um na Ucrânia e o último em Londres, chama-se Ziferbalte fica no 388 Old St., esquina con Shoreditch High Street,

 

A ideia ocorreu ao jovem Russo Ivan Mitin e o objectivo passa por criar lugares onde as pessoas possam socializar sem pressas e sem preocupações. Tudo começou quando ele abriu na Rússia uma especie  de café literário  onde se faziam gratuitamente tertúlias sobre literatura e poesia, a ideia inicial era a de que os participantes ajudassem a manter o local à base de donativos, como os donativos não eram suficientes para manter o negócio aberto, começou a cobrar pelo tempo e o conceito tornou-se um sucesso que já dá emprego a mais de 200 pessoas.

 

Segundo Ivan a sua filosofia é: "As pessoas não tem que pagar pelo consumo, nós pagamos o local, as pessoas pagam pelo tempo, é tudo uma questão de participação"

 

Há um pequeno detalhe, os empregados não estão lá para servir as pessoas ou atender pedidos, quem quer café ou tomar o pequeno almoço tem que o preparar.

 

Resta a questão de sabermos porque é que havemos de ir tomar o pequeno almoço a um lugar onde temos que pagar para sermos nós próprios prepará-lo ... em casa de certeza que é mais barato... em contrapartida a internet é gratuita.

 

Anda muita gente à procura de ideias para mudar de vida, que tal esta? Será que a moda podia pegar por cá? 

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:17

PraxeImagem de aqui

 

 

 

Há coisas que só vistas, há gente neste país que exige o direito a ser humilhado, vejam o vídeo:

 

É este o futuro do nosso país, para além de acéfalo e de Maria vai com as outras, gosta de ser humilhado .... o que vale é que não tarda nada, mal se deixem de praxes e consigam terminar o curso,  quando começarem a procurar emprego, vai haver muita gente que lhes vai fazer o favor... aposto que aí percebem que ser humilhado não tem piada nenhuma.

 

Triste o país que tem abéculas destas, que mal se conseguem expressar, como futuro.

 

Jorge Soares

publicado às 20:00



Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D