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De Chaves a Lisboa, quantos hospitais há?

por Jorge Soares, em 04.02.14

Ambulancia

 

Imagem do Público 

 

Ninguém gosta daquela frase que diz Lisboa é Lisboa o resto é paisagem, mas há alturas em que percebemos que não só isso é verdade, como é cada vez mais verdade.

 

Quando vemos uma noticia que diz que um jovem que teve um acidente de carro em Chaves terminou internado no Hospital de Santa Maria em Lisboa a mais de 400 kms de distância, porque supostamente em nenhum dos hospitais a norte de Lisboa havia vagas, ou médicos, ou ambas as coisas, ficamos a perceber que afinal é mesmo verdade, Portugal é Lisboa, o resto é paisagem.

 

Vejamos: Deu entrada no hospital de Chaves onde não havia os cuidados que ele necessitava, ao fim de três horas de espera foi decidido que teria que ser transferido. O hospital mais próximo é o de  Vila Real a 60 Kms, há outro em Braga, a 124 Kms, outro em Guimarães a 100 kms, há vários mais ali à volta, mas vamos focar-nos nos principais. Ao Porto, onde há não um, mas vários hospitais que supostamente são de referência, são 150 kms. Em Gaia também há um hospital, em Santa Maria da Feira há um grande Hospital, em Aveiro, em Coimbra estão alguns dos hospitais de referência no país, em Leiria, ....

 

Como é que é possível que seja preciso atravessar meio pais passando por várias capitais de distrito e por alguns dos maiores hospitais do país, para que alguém com suspeita de traumatismo craniano seja atendido?

 

Há algo de errado em tudo isto, felizmente o jovem chegou  com vida, em estado grave mas vivo, a Lisboa e desejo ardentemente que saia sem mazelas de toda esta situação, mas de quem seria a responsabilidade se ele tivesse falecido durante absurdo passeio em ambulância que foi obrigado a fazer?

 

Segundo o que li, todos hospitais teriam as vagas de neurocirurgia ocupadas... isto num dia que não tinha nada de especial e em que não haveria motivos para picos de procura... como será  nos períodos em que há muitas viagens e muitos acidentes? Se não conseguem responder à procura em períodos normais, como conseguem em períodos de grande afluência?

 

Tudo isto não só é incrível como é terrivelmente assustador, eu gosto muito de Portugal, gosto de viajar e de conhecer o meu país, mas será que depois de ouvir uma noticia como esta alguém fica com vontade de ir passear para Chaves? Ou para outra localidade qualquer que fique longe de Lisboa? Porque isto não acontece só aos outros, pode acontecer com qualquer um de nós, com os nossos filhos .... assustador, mesmo!

 

Jorge Soares

publicado às 21:58

Exposição de quadros de MiróImagem do Público

 

Tudo na vida depende do ponto de vista.

 

Hoje uma juíza, muitos funcionários do tribunal e alguns deputados estão a fazer horas extra para ver se ainda é possível evitar a venda dos 85 quadros que o estado herdou na nacionalização do BPN e que estão avaliados em pelo menos 35 milhões de Euros.

 

Os quadros que estão desde há anos à guarda de uma empresa pública, são obras do Pintor catalão Joan Miró e se as providências cautelares dos deputados e do ministério público não forem avante, serão vendidos amanhã em Londres por um valor mínimo de 35 Milhões que no estado actual das contas públicas, seriam uma excelente ajuda.

 

Os 35 milhões dariam por exemplo para devolver as bolsas aos muitos milhares de cientistas e investigadores a quem a Federação para a Ciência e tecnologia deixou de um dia para o outro no desemprego. Daria para ajudar a tapar o buraco na saúde, contratar médicos e enfermeiros que ajudassem a diminuir o tempo de espera nas urgências ou para abrir camas nos hospitais que permitissem o internamento das centenas de pessoas que tem que esperar dias esquecidos em  macas  nos corredores dos hospitais... 35 milhões é muito dinheiro.

 

Por outro lado a cultura sempre foi o parente pobre para o estado português, a verdade é que os quadros estão há anos guardados e longe da vista de todos nós, se tivéssemos um estado decente eles já estariam a enriquecer o espólio do museu nacional de arte contemporânea... sim , ele existe, é no Chiado... ou noutro qualquer dos museus do estado,  já teriam sido feitas exposições com eles ao estilo do que se fez com a obra de Joana Vasconcelos no museu de arte antiga e se calhar até já se tinha ganho mais que os 35 milhões de Euros.

 

Evidentemente os quadros não deveriam ser vendidos, se me perguntassem se achava que o estado deveria gastar 35 milhões em quadros de um pintor Espanhol, eu diria que não, há coisas muito mais importantes para fazer com esse dinheiro.  Mas estando as obras na posse do estado, e tendo em conta que os 35 milhões de Euros são uma gota de água nos 4, 5, 6, ou quem sabe quantos mil milhões de Euros que o BPN nos custou, pelo menos que fiquem a enriquecer a nossa cultura e não as paredes de algum milionário que só os compra para fazer lucro.

 

São 35 milhões de Euros, é verdade, podemos olhar para o número e achar que é muito ou que é pouco, podiam ajudar a resolver algumas coisas, mas não passam de uma pequena gota de água no orçamento de estado e não resolviam nem de perto o problema do BPN ... 

 

Se calhar deveríamos perguntar ao Deputado jotinha do PSD se ele não quer propor um referendo sobre o que se deve fazer aos quadros.

 

Jorge Soares

 

 

publicado às 22:36

Praxe

 

Imagem de aqui 

 

Dos mais de 60 comentarios ao meu post sobre as 24 matriculas do Dux de Coimbra, ler aqui, gostava de destacar este da Dulce:

 

Estudei em Coimbra, Licenciatura, Mestrado, Doutoramento. Junto com vida pessoal somo 3 filhos, um divórcio, 2 casamentos, 5 mudanças de casa, a construção de habitação própria, etc., etc. e trabalho há mais de 20 anos. 

24 anos é muito tempo, tal como o Jorge diz.

Estudei em Coimbra sei do que o José Silva está a falar. É-se obrigado a beber sim, senão a humilhação ou outras punições sobem de tom. Há raparigas violadas na primeira noite em que vão a "jantares de curso" e são embebedadas por um "veterano" qualquer. Somos todos obrigados a obedecer aos mais velhos, a servi-los, a fazermos coisas que não queremos fazer. 

Ser apanhado numa trupe e rapado é uma humilhação. No dia seguinte aparece-se nas aulas com o corte de cabelo que deu para fazer depois do rapanço e as humilhações continuam. A ideia original de manter os caloiros em casa depois de determinadas horas há muito tempo que se perdeu, é uma farsa.

A própria Queima das Fitas é um exagero de alcool e comportamentos impróprios até para uma pessoa sem nenhuma formação, quanto mais para pessoas a finalizarem a sua licenciatura. Não sei como há tolerância a isto a que chamam praxe.

E o que se tem passado nos últimos anos é demasiado grave para agora se vir defender uma prática que é responsável pela morte de várias jovens.

A praxe é um bullying com supostas regras que há primeira cerveja são esquecidas.

 

Para encerrar o assunto e em jeito de conclusão, gostava de dizer o seguinte:

 

Se lermos com atenção os comentários aos meus posts e a todos os outros, podemos tirar as seguintes conclusões:

1 - Em Coimbra, e de resto um pouco por todo o país,  há dois tipos de praxes, as  regulamentadas e supostamente controladas, já lá vamos ao supostamente,  e todas as outras.

2 - Em ambos os casos o objectivo será o mesmo, a integração e o conhecimento da universidade.

3- Para a maioria das pessoas que defende as praxes, só o que acontece de acordo com o regulamento é praxe, os abusos não são praxe, são outra coisa qualquer que deve ser punido não pelas universidades, associações de estudantes ou comissões de praxe, mas pelo estado, é para isso que existem leis.

4 - Em Coimbra supostamente existe um regulamento de praxes que impede os abusos, e até a praxe depois das 23:30, regulamento esse que pelos vistos contempla e permite a existência de algo que se chama Trupe, que mais não é que um bando de energúmenos que durante a noite e valendo-se da superioridade numérica, atacam cobardemente os caloiros aos que cortam o cabelo em contra da vontade destes. Podem ler este artigo de opinião do Público onde alguém relata a coisa em primeira pessoa.

A mim custa-me a entender como depois dos exemplos deixados pela Dulce no comentário acima, pela Golimix neste post, e por tanta outra gente em reportagens de televisão ou nos jornais, ou em outros blogs, continue a existir quem defenda a praxe quase como se de uma questão de fé se tratasse. Está à vista que os regulamentos da UC e das outras faculdades não passam de meras figuras de estilos e a realidade é muito diferente daquilo que se pretende pintar.

Ontem ouvi o DUX da Escola Superior Agrária de Coimbra, de onde supostamente saiu a fotografia do  meu Post e que segundo alguns dos comentários será famosa pelas praxes violentas, dizer numa das televisões que lá não se passa nada, a praxe deles consiste em fazer os caloiros apanhar uvas... eles também tem um regulamento e não há abusos... 


Parece que para a maioria das faculdades o facto das coisas acontecerem fora dos muros da universidade funciona como uma forma de desresponsabilização, como se caloiros e demais alunos deixassem de ser estudantes ao sair da porta da faculdade... além disso, é suposto as praxes serem uma forma de integração na universidade.

Concluindo, há coisas que não tenho duvidas:

Chamem-lhe o que quiserem, o que aconteceu no Meco tem a ver com praxes

As praxes são uma forma de bullying sim e está visto que as universidades não sabem, não querem ou não conseguem lidar com o assunto, pelo que terá que ser alguma entidade externa a faze-lo, já seja regulamentando e fiscalizando ou simplesmente proibindo-as.

 

Jorge Soares

publicado às 22:39

Conto - Pequenos Milagres

por Jorge Soares, em 01.02.14

Pequenos Milagres

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Mariana encolheu os ombros:

 

-  Não sei.

João encolheu os seus:

-  Eu também não.

 

Ficaram calados, os olhos fixos no horizonte de casas e carros, cada um deles perdido na sua imensidão de pensamentos.

 

-  Podemos falar com ele.

-  Para quê? Já falámos, ele nem ouve. Vai dizendo que sim, que sim e se lhe perguntares depois o que é que dissemos, ele não sabe responder. Nem ouve.

 

-  Mas não podemos ficar sem fazer nada, ele vai acabar por se matar…

-  Eu sei. Mas não sei o que fazer.

-  Pois, eu também não.

 

Calaram-se novamente.

 

-  E a mãe dele?

-  Morreu o ano passado, não te lembras? Já era velhota.

-  Caramba, ninguém devia ser filho único.

-  Isso não interessa nada, olha a Paula: 3 irmãos e não se falam há milénios, detestam-se. E há mais exemplos, tu sabes. Além disso, que poderiam fazer? Ele não ouve.

-  Pois, é verdade.

 

O silêncio, pesado de impotência, voltou.

 

-  Achas que se ele estivesse 2 semanas inteiras sem beber, curava-se?

-  Não sei… Mas ele não fica nem meia hora, quanto mais 2 semanas!

-  Olha, eu posso tirar 2 semanas de férias, tu também tens férias, não tens?

-  Tenho, acho que na próxima semana posso meter, mas qual é a tua ideia?

 

-  Vamos lá para cima, os três. Tu sabes, a casa daqueles amigos do meu pai, no inverno nunca está lá ninguém. Montamos guarda ao Nené, ele não vai beber nem um pingo por muito que insista. Que é que achas?

 

-  Não sei, Mariana… Ele até é capaz de ir com a gente mas chegando lá vai ser a chatice do costume!

-  Eu sei mas aí nem que a gente tenha de o amarrar, ele não vai beber nem um pingo. Achas que dá? Temos de fazer alguma coisa!

-  Não sei, tu já viste como é, até fica agressivo…

-  Eu sei. Mas tu és maior do que ele e se não for isso, fazemos o quê?

-  Não sei…

-  Sei eu. Vamos meter as férias e falamos com ele. Eu arranjo a casa com o meu pai e na próxima terça-feira estamos lá. E olha que não estava a brincar, João, vou levar corda e aqueles atilhos de plástico – nós vamos ter de dormir de vez em quando.

 

...

 

Quando viu o pai de Mariana, o rapaz reconheceu-o e encolheu-se. O senhor aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro:

 

-  Olha, a culpa não foi tua, está bem? Foi um acidente, um estúpido acidente. Quero que tu saibas que a culpa não foi tua, foi o camião que ficou sem travões e o condutor não conseguiu fazer nada, pobre diabo.

-  A Mariana?...

-  A Mariana morreu, Nené. O João também e o condutor do camião.

-  Todos...?

-  Sim, todos menos tu. E eu tinha de vir cá falar contigo, porque era preciso que tu soubesses que a culpa não foi tua, para não ficares para aí a pensar parvoíces e dar cabo da tua vida sem razão. A Mariana era muito tua amiga, devo-lhe isto.

 

O senhor passou-lhe a mão pela face, sorriu-lhe, virou-se e saiu do quarto com passos pesados de desgosto.

Anos e anos depois, o Nené ainda explicava nas reuniões dos AA como é que tinha sido recuperado para a vida em menos de cinco minutos pelo pai de Mariana.

 

MAC

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:06

Pág. 3/3



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