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Conto - O tempo dos rebuçados

por Jorge Soares, em 13.02.16

Aniki_Bóbó.JPG

 

 
O primeiro encontro foi como uma caixa de rebuçados. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. Mas também de uma das primeiras responsabilidades: a escola.
 
Nos dias de primavera, Orlando, de botas com sola de borracha feitas no sapateiro, palmilhava bem cedo os três quilómetros do caminho entre muros que separava a queijeira, onde morava com a avó, da escola da aldeia, cruzando-se com carros de bois, grupos de mulheres a caminho das hortas, um rebanho a atravessar de um terreno para outro. Se estava frio, apressava o passo a contornar uma ou outra poça de água, mala com cadernos a tiracolo, uma mão a aquecer-se no bolso, a outra a pegar no cabazinho da merenda. Daí a pouco, as letras, as contas, as brincadeiras de recreio e o almoço debaixo de uma olaia, com os outros dois miúdos que também vinham dos campos.
 
No regresso, o conforto do calor e da falta de pressa convidavam-no a alongar-se em observações da natureza: o lagarto verde esparramado ao sol que, não conseguindo intimidá-lo abrindo a boca vermelha, se esgueirava para um buraco das paredes; o rendilhado de alguns penedos; as poupas, os cucos, os pintassilgos. E a estranheza do mundo do tic-tic-tic ritmado dos canteiros, alguns bem jovens, em alguma das pedreiras adjacentes ao caminho. Um mundo que não era de rebuçados.
 
Um dia encontrou vinte e cinco tostões no recinto da romaria que o caminho atravessava. Rapidamente se esfumaram em rebuçados embrulhados em estampas de jogadores de futebol.
 
De inverno, a ida para a escola era mais monótona e mais simples. Era só atravessar o casario, desde a casa da avó, na aldeia. No regresso, a brincadeira com a restante criançada nos quintais e nos casarões familiares. Ao domingo, catequese à tarde e talvez apanhar moedas pretas e rebuçados lançados de alguma janela ou varanda no fim de um batizado. Os dias corriam sem preocupações, com pouca relação uns com os outros. E, de repente…
 
O primeiro encontro com ela foi como receber uma caixa de rebuçados. A festa era de carnes, da matança do porco e respetiva comezaina. A família alargada habitual estava reunida em casa de um tio por este motivo. Segurar, matar, limpar e desmanchar um porco exigia o concurso de vários homens. E o trabalho de lavar as tripas, preparar os recheios e encher com eles as farinheiras, as morcelas e as chouriças exigia o concurso de várias mulheres. Para também prepararem o banquete para todos aqueles adultos e respetiva miudagem.
 
 
 

 

Joaquim Bispo

 

Retirado de Samizdat

 

publicado às 21:13

Carol

por Jorge Soares, em 11.02.16

carol.jpg

 

Imagem de aqui 

 

A minha filha mais velha levou-me com ela ao cinema, está-se a tornar um hábito, porque antes deste tinha ido ver o Star Wars com o meu filho...  ok, ela tem melhores gostos para escolher filmes.

 

Carol é um filme com poucas personagens, com pouca história e com pouca acção, poderíamos dizer que é um filme simples com uma história muito complicada.... mas não deve ser nada disso porque está nomeado para o Óscar em nada menos que seis categorias... não há filmes simples com seis nomeações para o Óscar... ou será que há?

 

Algures a  meio do século passado Carol conhece Therese por mero acaso. Carol é uma mulher de classe alta e de meia idade que está prestes a divorciar-se. Therese é uma jovem de classe baixa que trabalha na secção de brinquedos num grande armazém, gosta de fotografia e procura um sentido para a vida.

 

Não é a primeira vez que Carol se relaciona com uma mulher, Thereze vai pouco a pouco ao longo do filme descobrindo que o amor não tem que ser entre um homem e uma mulher e que também pode ser entre dois homens ou duas mulheres....

 

E a história é isto, pelo caminho ficam o namorado de Tereze e a família de Carol, não sem alguns dramas e sofrimento pelo meio.

 

A trama baseada num livro de  Patricia Highsmith desenrola-se algures nos conservadores meados do século XX americanos. A meio do filme dei por mim a pensar que se tivessem escrito a mesma história num contexto actual nada seria muito diferente... em algumas coisas o mundo não mudou assim tanto nos últimos 50 ou 60 anos... O amor entre duas pessoas é e continuará a ser o amor, todos ... bom, uma grande parte de nós, gostaria que o preconceito não continuasse a ser o preconceito, infelizmente isso demora a acontecer.

 

Cate Blanchett é Carol, Rooney Mara é Thereze, ambas são lindas e estão nomeadas para o Óscar como actriz principal e secundária, respectivamente.... não vi os outros filmes nomeados, mas por mim já ganharam as duas, as actuações são soberbas. As outras nomeações são: Melhor fotografia, Melhor Guarda roupa, Melhor banda sonora  original e  Melhor guião adaptado.

 

Não liguem àquela  parte de ser  um filme simples, não deixem de ir ver, aposto que não dão o tempo por perdido.

 

Já combinei com a minha filha,  na primeira oportunidade vamos comprar o livro.

 

Jorge Soares

publicado às 22:12

Tony quer morrer e não o deixam

Imagem do Público 

 

A Eutanásia ou a morte assistida são assuntos recorrentes cá no blog, cada certo tempo aparecem,  não porque sejam assuntos que estejam na ordem do dia em Portugal, mas sim porque algures encontrei mais um testemunho de alguém que se recusa a passar por uma morte dolorosa e sem dignidade.  Primeiro foi a Eluana, depois foi o caso do Tony Nicklinson, depois foi o da Britanny, pelo meio houve um caso na Bélgica em que foi aprovada uma lei que permitiu a morte assistida de crianças.

 

Em Portugal o assunto veio agora à baila a partir de um manifesto a favor da morte assistida apresentado por uma serie de personalidades e porque o Bloco de Esquerda diz que vai avançar com uma iniciativa legislativa que permita a legalização da Eutanásia.

 

Nada como o exemplo para tentarmos perceber, o texto abaixo foi escrito por mim em Junho de 2012, para ler e reflectir:

 

Não vos posso dizer a paz de espírito que teria só por saber que eu posso decidir sobre a minha vida, em vez de ser o Estado a dizer-me o que eu devo fazer – nomeadamente continuar vivo, independentemente da minha vontade”.

“Não posso coçar-me se tiver comichões, não posso assoar-me e só posso comer se for alimentado como um bebé – só que nunca irei passar a comer sozinho, ao contrário do bebé (Tony Nicklinson)

 

Tentemos imaginar que de um dia para o outro ficamos literalmente presos dentro do nosso corpo, o mundo à nossa volta, as pessoas que que amamos, as coisas de que gostamos, tudo continua lá, mas nós não conseguimos mais que olhar, não podemos tocar, não podemos comer, não conseguimos sequer sentir, só olhar e pensar.

 

É esta a situação do Tony desde que em 2005 sofreu um AVC, está completamente paralisado sem sequer conseguir falar, só consegue comunicar com o mundo graças a um software especial que consegue ler os seus olhos. Depende completamente das pessoas à sua volta para conseguir continuar a viver. 

 

Tony simplesmente decidiu que isso não é vida, que  o seu estado actual e o sofrimento que este lhe causa não é justo nem digno, portanto o Tony quer morrer, exige que o deixem morrer.

 

Tal como na maioria dos países, no reino Unido a eutanásia e o suicídio assistido são ilegais, no seu estado  o Tony sozinho não consegue por fim à sua vida, portanto ele decidiu levar o caso até ao supremo tribunal e implora que o deixem morrer com a dignidade que ele já não tem em vida.

 

De toda a noticia, para além do estado e da lucidez do Tony chamou-me a atenção a seguinte frase do médico que lhe salvou a vida quando ele teve o AVC:

 

"...quando fui informado que ele estava vivo, fiquei surpreendido mas também triste. Não desejaria ao meu pior inimigo que ele ficasse vivo nestas circunstâncias durante tantos anos"

 

Só pensar na situação deste homem é aterrador, eu não me consigo imaginar a viver assim, o direito à vida há muito que está consagrado e é um dado adquirido, mas será que aquilo que o Tony tem é realmente vida? Será que como sociedade e como seres humanos temos o direito de obrigar alguém a passar assim o resto dos seus dias? Será que em casos como este a morte digna e sem sofrimento não deveria também ser um direito?

 

Jorge Soares

publicado às 21:36

Onde nasceu o Carnaval?

por Jorge Soares, em 08.02.16

Carnaval

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Ao contrario do que muita gente possa pensar, o Carnaval não é uma festa inventada pelas mulatas esculturais no Brasil, também não é uma tradição católica e não tem nada a ver com a Quaresma e o jejum, que são invenções bem mais recentes.

 

A origem da tradição do Carnaval remonta à Grécia antiga, por volta de 600 antes de Cristo com o aparecimento da agricultura, os antigos gregos festejavam mais ou menos nesta altura a fertilidade e produtividade dos solos. Desde o século VII antes de Cristo, quando se festejava o culto a Dionísio e até ao ano 590 d. c., festejava-se o Carnaval pagão.

 

O festejo com folias e máscaras tem origem no antigo Egipto, onde os foliões se juntavam à volta da fogueira. Do Egipto a tradição espalha-se pela Grécia e  Roma antigas e é nesta altura em que o sexo e as bebidas se incluem na tradição. A festa funcionava como uma válvula de escape para a intensa luta entre classes sociais.

 

No Ano 590 depois de Cristo, a igreja católica decide incorporar a festa como um evento religioso numa tentativa de a controlar, já que era considerada um evento libertino e pecaminoso.  Em 1545, o Concilio de Trento reconhece o Carnaval como um evento de rua e popular e define a data em que se deve festejar. Isto para evitar que coincida com a Páscoa.

 

O Carnaval ocorre sempre 40 dias antes do Domingo de Ramos, que se festeja na semana anterior à Pascoa. A Pascoa católica por sua vez, ocorre sempre no primeiro fim de semana a seguir à primeira lua nova da Primavera.

 

O Carnaval foi levado para o Brasil pelos Portugueses, ainda que quem der uma olhadela pela maioria dos Carnavais que por cá se festejam, fique com a certeza que foi ao contrário... e este ano com o frio que está, causa arrepios só de olhar.

 

Jorge Soares

publicado às 23:20

A MEO e a falta de respeito pelos clientes

por Jorge Soares, em 07.02.16

queixa.jpg

 

Imagem de aqui 

 

Sou cliente da MEO com o pacote M40, com um telemóvel extra pelo que pago 7.5 Euros por mês. No dia 23 de Dezembro roubaram o telemóvel ao meu filho, como tínhamos decidido passar o número dele para pré-pago, aproveitei a ligação para bloquear o número e pedi para retirarem o número do pacote. A pessoa que me atendeu garantiu-me que tinha bloqueado o número e a retirada do mesmo do pacote, inclusivamente ofereceu-se para o passar de imediato para um pacote de pré-pago, coisa que não aceitei (parvo!)

 

No inicio de Janeiro a minha meia laranja foi à loja da Meo no Alegro de Setúbal para tratar de um pré-pago para o miúdo, para nosso grande espanto na loja informam que o numero estava bloqueado mas que continuava ligado ao pacote e que teria que ser eu (o titular do contrato) a lá ir para passar o número para pré pago.

 

Fui à loja e ouvi o mesmo, como é habitual naquela loja, ali não tratam de nada que não sejam vendas, pelo que a menina que me atendeu ligou para o 19200 e passou-me o telefone, lá me voltei a explicar, e de novo me garantiram que tinham retirado o número. Como eu não ia pagar os sete Euros e meio por algo que tinha pedido no mês anterior, foi apresentada uma reclamação e foi-me garantido por quem me atendeu, que esta vez o assunto iria ser resolvido.

 

Passados dois ou três dias e como resposta à reclamação, recebo um telefonema em que me explicaram que tinha havido um erro informático e que efectivamente o número estaria retirado, que não me iriam cobrar os sete Euros e meio na factura de Janeiro e que me seria enviada uma nota de crédito pela diferença dos dias que já estavam facturados do mês de Dezembro. Nota de crédito que eu recebi em casa por correio.

 

Ontem liguei para a linha de apoio a pedir um esclarecimento sobre a factura e para meu grande espanto verifico que o número continua associado ao pacote, isto depois de 3 pessoas diferentes, uma delas em resposta à reclamação, me terem garantido que o número teria sido retirado do pacote.

 

De novo pedi que retirassem o número e de novo a menina do outro lado do telefone garantiu que estava feito, evidentemente fiz uma nova reclamação já que não quero pagar os sete euros e meio de algo que pedi para retirarem em Dezembro.

 

Hoje tive a resposta à reclamação, afinal tudo o que me tinham dito desde 23 de Dezembro para cá é mentira, porque supostamente não é possível retirar o número do pacote e queira ou não queira, vou ter que continuar a pagar os sete euros e meio para sempre.

 

Evidentemente o meu mau feitio veio ao de cima e fartei-me de barafustar, para nada, porque a senhora que me ligou não quer saber do que aconteceu antes ou do que me tinham dito as outra pessoas, ela só me ligou para dizer aquilo, o resto não era com ela... Também não me dá a resposta por escrito... eu é que tenho que voltar a reclamar por escrito. Quanto à resposta à reclamação e à nota de crédito que me enviaram, ela não sabe nada nem é da sua responsabilidade... 

 

Evidentemente a conversa descambou e ela chegou a pôr em causa que me tivessem dito o que quer que fosse, mesmo quando eu lhe lembrei que todas as chamadas são gravadas... é claro que eles não tem nada que ir ouvir, se me disseram que era possível o que agora não é é porque se enganaram.... quer dizer, me enganaram a mim.

 

Há muito que não me sentia tão enganado e até roubado, nunca ninguém me disse que não podia retirar o número extra, mas várias vezes me disseram que era possível e que o iam fazer, inclusivamente na resposta á primeira queixa foi-me garantido que o número já estaria retirado.

 

Se não podem retirar o número como é que me enviaram a nota de crédito do valor dos dias que eu teria pago a mais? É um mistério que evidentemente a senhora que me ligou hoje não tinha porque saber nem estava para averiguar.

 

Se isto não é uma enorme falta de respeito o que é?

 

Demais está dizer que se não for antes, quando terminar a fidelização vou passar para o que na altura for mais barato, afinal se na atenção ao cliente são todos iguais, pelo menos vou ficar a pagar o menos possível.

 

Jorge Soares

publicado às 22:00

Conto - As Vitalinas

por Jorge Soares, em 06.02.16

vitalinas.jpg

Cícera acordou sobressaltada e agarrou o peito como quem segura um pássaro ferido. Marilda, deitada na cama ao lado, riu do desassossego da irmã e fingiu pouco interesse ao perguntar se havia sido o mesmo sonho. Sentando-se com dificuldade no gasto colchão de estopa, Cícera confirmou a suspeita fraterna com um aceno de cabeça. O pesadelo que perturbava suas poucas horas de sono havia se repetido.

         ― Ciça, um dia tu me conta que diacho de sonho é esse? ― quis saber a mais jovem das idosas, enquanto calçava as sandálias que mal enxergava com seus olhos miudinhos.

         ― Te preocupa com o manto da santa, Dindinha. Depois do café, vou preparar o altar. Pirru já chegou pra varrer a casa e passar o pano? ― perguntou incomodada, certa de que o rapaz que lhes ajudava nos afazeres domésticos havia se atrasado.

         ― Sei não ― respondeu Marilda esfregando as pernas. ― Acordei com teus bodejo. Anda, te sacode que o dia hoje vai ser comprido.

         Na pequena Cabo Amaro, todos conheciam e respeitavam as irmãs Alvarenga, últimas descentes de uma família que emprestava o nome à pracinha da cidade. Cícera e Marilda eram tão velhas quanto as lendas locais, amalgamavam-se ao folclore e causos transmitidos às novas gerações de contadores de história. Muito se falava sobre a natureza dócil e solteirice de ambas, mas poucos sabiam a verdade.

 

 

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:13

trump.gif

Imagem de aqui

Donald Trump está entre os candidatos ao Nóbel da Paz, segundo a agência AFP, Trump está entre nomes como Angela Merkel, o papa Francisco, Edward Snowden ou os habitantes das ilhas gregas que receberam milhares de refugiados. ...foi indicado por um nomeador dos EUA, “pela sua ideologia para a paz através da força”

 

Ideologia para a paz através da força .... um destes dias à hora do almoço e em tom de brincadeira, alguém dizia que se o homem ganhar as eleições nos Estados Unidos o problema dos refugiados resolve-se num instantinho, uma bomba atómica nas zonas controladas pelo estado islâmico na Síria e outra nas do Iraque e já ninguém precisa de fugir para a Europa.

 

Vocês querem ver que alguém nos estava a ouvir e achou que aquilo era a sério?

 

É nestas alturas que percebemos como a humanidade está mesmo louca.

 

Jorge Soares

publicado às 22:56

Pontualidade (1).jpg

 

Imagem de aqui

 

Por vezes dou por mim a pensar que nasci no país errado, sou sempre o primeiro a chegar a qualquer reunião de trabalho, chego sempre pelo menos 10 minutos antes a qualquer consulta, quando vou de viagem e para desespero da minha meia laranja, chego sempre duas horas antes ao aeroporto.... mesmo que o voo seja de madrugada.

 

Chego sempre cedo a qualquer jantar de amigos ou a qualquer encontro seja pessoal ou profissional, estou sempre em qualquer sitio a horas.

 

Quando vou de carro a qualquer sitio pela primeira vez tenho sempre o cuidado de na véspera, ir ao google maps para ver não só o percurso como os arredores, não vá ser que seja num beco perdido e/ou não haja onde estacionar. É claro que por norma sou o único que faz isso, e depois os outros tem sempre a desculpa que não conseguiam encontrar o sitio e por isso chegaram atrasados... É claro que sair de casa com tempo para os imponderáveis também ajudava...mas quem se preocupa com isso?

 

Tudo isto resulta sempre em que:

 

1 - Como chego antes e os outros chegam sempre atrasados, seja o que for começa atrasado, tenho sempre que esperar muito tempo.

 

2 - A minha família odeia a minha pontualidade, já seja porque estou sempre a apressar todo o mundo para sair, ou porque depois a espera no destino é sempre uma seca... ou ambas as coisas.

 

Já me perguntei mais que uma vez porque sou assim, não consigo explicar e se há coisa que me custa mesmo muito, é que apesar de todos os meus esforços, não consigo educar os meus filhos para que sejam assim... Não sei se haverá um gene para a pontualidade ou não, mas se há, a minha filha mais velha definitivamente não o herdou.

 

Educar os filhos é uma ciência complexa, pela amostra cá de casa, educar adolescentes para a pontualidade e os horários é uma missão impossível, eu já tentei tudo, desde os gritos até sair porta fora sem eles, para nada, porque na vez seguinte volta tudo a acontecer.

 

Está visto que não é uma questão de educação, se fosse eu já tinha conseguido a bem ou a mal.

 

A falta de pontualidade é mesmo um problema da cultura portuguesa, lembro-me de estar no último ano da faculdade e ter assistido a uma palestra de dois dias com um senhor que veio especialmente da Alemanha patra o efeito... a seguir aos intervalos por norma à  hora marcada estávamos sempre presentes eu e ele, o resto, professores incluídos, ia aparecendo com um sorriso amarelo e pedidos de desculpa entre dentes.

 

No encerramento o senhor não evitou um comentário sarcástico sobre a pontualidade portuguesa, que imagem terá ele levado da nossa forma de trabalhar?

 

E que dizer das pessoas que vão a entrevistas para empregos e chegam atrasados como já vi acontecer muitas vezes? Já para não falar nos casos  vergonhosos dos médicos que para além de levarem uma fortuna pelas consultas, numa clara falta de respeito pelos doentes marcam sempre mais consultas que aquelas que podem fazer e depois estão horas atrasados.

 

Depois queixamos-nos que este país é um atraso de alma, pudera, se ninguém chega a horas para nada como pode o país andar certo?

 

Jorge Soares

publicado às 22:14

refugiado3.jpg

 

Imagem de aqui

 

Li algures que "o ser humano é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra", esta semana lembrei-me desta frase mais que  uma vez, primeiro quando vi nas noticias a forma que a Dinamarca está a utilizar para manter os refugiados longe, o roubo descarado.

 

Hoje voltei a lembrar-me quando li aqui, que no país de Gales os refugiados são obrigados a utilizar uma pulseira vermelha que serve para os identificar e terem acesso a comida. Em Middlesbrough, no Reino Unido, as portas das casas que lhes são entregues são pintadas de cor vermelha. Ambas as medidas terminam por facilitar a identificação dos recem chegados e os ataques racistas contra eles.

 

Junto com a frase vieram-me à lembrança outras coisas e outras épocas. Na Europa do Século XX milhões foram primeiro obrigados a utilizar uma estrela amarela na lapela, depois espoliados de todos os seus bens, marcados e enviados como gado para campos de morte.... 

 

A julgar pelas coisas que leio nos meios de comunicação e nas redes sociais, não me estranharia nada que um destes dias surja a noticia que algures foi criado um campo de trabalho para juntar todos os que agora chegam.

 

Em Dezembro estive em Berlim, entre as muitas coisas que aprendi da história e da forma de viver dos alemães, está o facto de todas as crianças alemãs terem que fazer pelo menos uma visita em cada um dos ciclos escolares a um campo de concentração. O objectivo é que nenhuma geração esqueça o que se passou na Europa do século XX e assim tentar evitar que se cometam os mesmos erros.

 

Não sei até que  ponto não será esta a explicação para a forma,  tão diferente do resto da Europa,  como os alemães estão a tratar o problema dos refugiados. Quer-me parecer que há muita gente por essa Europa fora que tem a memória curta e a quem não faria mal uma visita aos campos de concentração, talvez assim ficassem mais humanos, mais humildes, menos racistas, menos  preconceituosos... e não ouvíssemos falar de mais medidas como as agora tomadas na Dinamarca e no Reino Unido.

 

Já agora, para quem não percebeu ou não quer perceber, o que aconteceu no século XX na Europa tem um nome, chama-se holocausto e os que o causaram chamavam-se nazis.

 

Jorge Soares

publicado às 22:50

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