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Conto: Ester Lucero

por Jorge Soares, em 12.06.10

Rosa

 

Levaram Ester Lucero numa maca improvisada, sangrando que nem um boi, os olhos escuros abertos de terror. Ao vê-la, o doutor Angel Sánchez perdeu pela primeira vez a sua calma proverbial e não era para menos, pois estava apaixonado por ela desde o dia em que a viu, quando era ainda uma menina. Nesse tempo ela ainda não largara as bonecas e ele, por seu lado, regressava envelhecido mil anos da sua última Campanha Gloriosa. Chegou à povoação à frente da sua coluna, sentado no tejadilho de uma camioneta, com uma espingarda sobre os joelhos, uma barba de meses e uma bala alojada para sempre na virilha, mas tão feliz como nunca estivera antes nem depois. Viu a rapariga agitando uma bandeira de papel vermelho, no meio da multidão que aclamava os libertadores. Naquele momento ele tinha trinta anos e ela andava pelos doze, mas Angel Sánchez adivinhou pelos firmes ossos de alabastro e pela profundidade do olhar da menina, a beleza que em segredo se estava a desenvolver.

 

Observou-a do alto do seu veículo convencido que era uma visão provocada pelo calor dos pântanos e pelo entusiasmo da vitória, mas como nessa noite não encontrou consolo nos braços da noiva de ocasião que lhe coube por turno, compreendeu que devia sair para buscar aquela criança, pelo menos para comprovar a sua condição de miragem. No dia seguinte, quando se acalmaram os tumultos da rua pela celebração e começou o trabalho de ordenar as coisas e varrer os escombros da ditadura, Sánchez saiu da aldeia a correr. A sua primeira ideia foi visitar as escolas, mas verificou que estavam fechadas desde a última batalha, de maneira que teve de bater às portas uma por uma. Ao fim de vários dias de paciente peregrinação e quando já pensava que a rapariga tinha sido um engano do seu coração extenuado, chegou a uma casa minúscula,

pintada de azul e com a frontaria perfurada pelas balas, cuja única janela se abria para a rua sem mais protecção do que umas cortinas de flores.

 

Chamou várias vezes sem obter resposta, então decidiu entrar. O interior era um único aposento, pobremente mobilado, fresco e na penumbra.

Atravessou a sala, abriu uma porta e encontrou-se num amplo pátio atulhado de móveis e ferro-velho com uma rede pendurada debaixo de uma mangueira, um tanque para lavar roupa, um galinheiro ao fundo e uma quantidade de latas e potes de barro, onde cresciam ervas, verduras e flores. Encontrou-se ali, por fim, com quem julgava ter sonhado. Ester Lucero estava descalça, com um vestido de linho ordinário, a sua floresta de cabelo atada na nuca com um atacador de sapatos, ajudando a avó a estender roupa ao sol. Ao vê-lo, ambas recuaram num gesto instintivo, porque tinham aprendido a desconfiar de quem calçava botas.

 

- Não se assustem, sou um companheiro - apresentou-se ele com a boina sebenta na mão.

 

A partir desse dia, Angel Sánchez limitou-se a desejar Ester Lucero em silêncio, envergonhado daquela paixão inconfessável por uma rapariguinha impúbere. Por ela recusou ir para a capital quando se repartiu o bolo do poder, e preferiu tomar a seu cargo o único hospital daquela povoação esquecida. Não aspirava a consumar o amor mais para lá da sua imaginação.

 

Vivia de ínfimas satisfaçöes: vê-la passar a caminho da escola, cuidar dela quando apanhou sarampo, dar-lhe vitaminas nos anos em que o leite, os ovos e a carne só se conseguiam para os mais pequenos e os outros tinham de conformar-se com banana e milho, visitá-la no seu pátio onde se sentava numa cadeira a ensinar-lhe a tabuada sob o olhar vigilante da avó.

 

Ester Lucero acabou por lhe chamar tio à falta de nome mais apropriado, e a velha foi aceitando a sua presença como outro dos inexplicáveis mistérios da Revolução.

 

- Que interesse pode ter um homem instruído, doutor, chefe do hospital e herói da pátria na conversa de uma velha e nos silêncios da neta? - perguntavam as comadres da aldeia.

 

Nos anos seguintes, a rapariga cresceu como sucede quase sempre, mas Angel Sánchez julgou que no seu caso era uma espécie de milagre e que só ele podia ver a beleza que amadurecia escondida debaixo dos vestidos inocentes confeccionados pela avó na sua máquina de coser. Tinha a certeza que à sua passagem se excitavam os sentidos de quem a via, tal como acontecia com os seus, por isso achava estranho não encontrar um torvelinho de pretendentes à volta de Ester Lucero. Vivia atormentado por sentimentos enrolados: receios naturais de todos os homens, uma constante melancolia - fruto do desespero - e a febre do inferno que o atacava à hora da sesta, quando imaginava a menina nua e húmida chamando-o da sombra do quarto com gestos obscenos. Ninguém soube dos seus atormentados estados de ânimo. O controlo que exercia sobre si mesmo tornou-se uma segunda natureza e assim adquiriu fama de homem bom. Finalmente, as matronas da aldeia cansaram-se de procurar noiva para ele e acabaram por aceitar que o médico era um pouco esquisito.

 

- Não parece maricas - cochicharam -, mas talvez a malária ou a bala que tem no entrepernas lhe tenha tirado para sempre o

gosto pelas mulheres.

 

Angel Sánchez amaldiçoava sua mãe, que o tinha trazido ao mundo vinte anos mais cedo, e ao seu destino, que lhe semeara o corpo e a alma com tantas cicatrizes. Pedia que algum capricho da natureza alterasse a harmonia e apagasse a luz de Ester Lucero, para que ninguém suspeitasse que era a mulher mais formosa deste mundo e de qualquer outro. Por isso, na quinta-feira fatídica, quando a levaram para o hospital numa maca com a avó a caminhar à frente e uma procissão de curiosos atrás, o doutor deu um grito visceral, quando tirou o lençol e viu a jovem trespassada por uma ferida horrível, julgou que de tanto desejar que ela nunca pertencesse a nenhum homem tinha provocado aquela catástrofe.

 

- Trepou à mangueira do pátio, escorregou e caiu espetada na estaca onde atamos o ganso - explicou a avó.

- Pobrezinha, ficou atravessada como um vampiro. Não foi nada fácil descravá-la - esclareceu um vizinho que ajudava a transportar a maca.

 

Ester Lucero fechou os olhos e queixou-se muito ao de leve. Desde esse instante, Angel Sánchez bateu-se em duelo pessoal contra a morte. Fez tudo para salvar a jovem.

 

Operou-a, deu-lhe injecçöes, fez-lhe transfusöes, deu-lhe o seu próprio sangue, encheu-a de antibióticos, mas dois dias passados era evidente que a vida escapava pela ferida como uma corrente imparável. Sentado numa cadeira junto da moribunda, esmagado pela tensão e pela tristeza, apoiou a cabeça aos pés da cama e por alguns minutos dormiu que nem um recém-nascido.

 

Continua

 

Isabel Allende in Contos de Eva Luna

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publicado às 21:00


2 comentários

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De Pedro Oliveira a 14.06.2010 às 10:53

Espero pela continuação.
abr
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De Jorge Soares a 14.06.2010 às 22:44

Sábado, à mesma hora neste mesmo canal :-)

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