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Conto: Ester Lucero II

por Jorge Soares, em 19.06.10

Rosa

 

Imagem do Momentos e Olhares

 

Continuação do Conto: Ester Lucero, de isabel Allende, primeira parte aqui

 

Enquanto ele sonhava com moscas gigantescas, ela andava perdida nos pesadelos da sua agonia, e assim se encontraram numa terra de ninguém e no seu sono partilhado ela agarrou-se à mão dele para lhe pedir que não se deixasse vencer pela morte e que não a abandonasse.

 

Angel Sánchez acordou sobressaltado pela recordação nítida do Negro Rivas e do absurdo milagre que lhe devolveu a vida. Saiu a correr e tropeçou no corredor com a avó, que estava enfronhada num murmúrio de intermináveis oraçöes.

 

- Continue a rezar, que eu volto daqui a um quarto de hora! - gritou ao passar.

 

Dez anos antes, quando Angel Sánchez marchava com os seus companheiros pela selva, com a vegetação até aos joelhos e a tortura inconsolável dos mosquitos e do calor, encurralados, atravessando o país em todas as direcçöes para fazer emboscadas aos soldados da ditadura, quando não eram mais que um punhado de loucos visionários com o cinturão carregados de balas, o bornal de poemas e a cabeça de ideias, quando levavam meses sem cheirar mulher ou esfregar sabão pelo corpo, quando a fome e o medo eram uma segunda pele e a única coisa que os mantinha em movimento era o desespero, quando viam inimigos em todo o lado e desconfiavam até das próprias sombras, então o

Negro Rivas caiu por um barranco e rolou oito metros até ao abismo, espalmando-se sem ruído, como um saco de trapos. Os companheiros gastaram vinte minutos a descer por cordas entre pedras aguçadas e troncos retorcidos, até o encontrar enfiado

no matagal, e quase duas horas para o içar, ensopado em sangue.

 

O Negro Rivas, um moreno valente e alegre, com a canção sempre pronta nos lábios e boa disposição para carregar às costas outro combatente mais débil, estava aberto como uma romã, com as costelas à mostra e um golpe profundo que começava no ombro e acabava a meio do peito. Sánchez levava consigo a sua maleta para emergências, mas aquilo estava fora dos seus modestos recursos. Sem a menor esperança suturou a ferida, ligou-a com tiras de gaze e administrou os remédios disponíveis. Colocaram o homem sobre um bocado de lona estendida entre dois paus  e transportaram-no assim, revezando-se para o carregar, até que foi evidente que cada sacudidela era um minuto a menos de vida, porque o Negro Rivas supurava como uma fonte e delirava com iguarias, seios de mulher e furacöes de sal.

 

Estavam planeando acampar para o deixar morrer em paz, quando alguém viu na margem de uma lagoa de água negra, dois índios que brigavam amigavelmente. Um pouco mais à frente, escondida no vapor denso da selva, estava a aldeia. Era uma tribo imobilizada em idade remota, sem mais contacto com este século do que algum missionário atrevido que tivesse ido falar-lhes sem êxito das leis de Deus e, o que é mais grave, sem nunca ter ouvido falar da Insurreição nem ter escrito o grito de Pátria ou Morte. Apesar destas diferenças e da barreira da língua, os índios compreenderam que aqueles homens exaustos não representavam grande perigo e deram-lhe tímidas boas-vindas. Os rebeldes apontaram para o moribundo. O que parecia ser o chefe levou-os a uma cabana na penumbra eterna, onde flutuava uma pestilência de urinas e lodo. Ali deitaram o Negro Rivas sobre uma esteira, rodeado pelos seus companheiros e por toda a tribo. Pouco depois, chegou o bruxo em trajes de

cerimônia. O comandante espantou-se ao ver os seus colares de peonias, os seus olhos de fanático e a crosta de imundície no seu corpo, mas Angel Sánchez explicou que já muito pouco se podia fazer pelo ferido e qualquer coisa que o feiticeiro conseguisse - ainda que fosse só ajudá-lo a morrer - era melhor que nada. O comandante ordenou aos homens que baixassem as armas e fizessem silêncio para aquele estranho sábio meio

nu poder exercer o ofício sem distracçöes.

 

Duas horas mais tarde a febre tinha desaparecido e o Negro Rivas podia beber água. No dia seguinte voltou o curandeiro e repetiu o tratamento. Ao anoitecer, o enfermo estava sentado a comer uma espessa papa de milho e dois dias depois ensaiava os primeiros passos pelos arredores, com a ferida em pleno processo de cura. Enquanto os outros guerrilheiros acompanhavam os progressos do convalescente, Angel Sánchez

percorreu a zona com o bruxo juntando plantas na sua bolsa. Anos depois, o Negro Rivas chegou a ser chefe da Polícia na capital e só se recordava que estivera prestes a morrer ao tirar a camisa para abraçar uma mulher nova, que invariavelmente lhe perguntava o que era aquilo, a grande costura que o partia em dois.

 

- Se um índio em pelota salvou o Negro Rivas, eu vou salvar Ester Lucero, nem que tenha de fazer pacto com o Diabo - concluiu Angel Sánchez enquanto dava volta à casa à procura das ervas que guardara durante todos aqueles anos e que, até àquele momento, esquecera por completo. Encontrou-as embrulhadas em papel de jornal, ressequidas e quebradiças, no fundo de um baú desconjuntado, junto ao seu caderno de versos,

à boina e outras recordaçöes de guerra. O médico regressou ao hospital a correr que nem um perseguido, debaixo do calor de chumbo que derretia o asfalto.

 

Subiu as escadas aos saltos e entrou pelo quarto de Ester Lucero a escorrer suor. A avó e a enfermeira de turno viram-no passar a correr e aproximaram-se para espreitar pelo postigo da porta. Observaram como tirava a bata branca, a camisa de algodão, as calças escuras, as peúgas compradas no contrabando e os sapatos de sola de borracha que costumava calçar. Horrorizadas, viram-no tirar também as cuecas e ficar nu, como um recruta.

 

- Santa Maria, Mãe de Deus! - exclamou a avó. Através do postigo puderam ver o doutor quando empurrava a cama até ao centro do quarto e, depois de pôr ambas as mãos sobre a cabeça de Ester Lucero durante alguns segundos, iniciar um frenético bailado à volta da enferma.

 

Levantava os joelhos até tocar no peito, efectuava profundas inclinaçöes, agitava os braços e fazia grotescas caretas, sem perder por um

único instante o ritmo interior que lhe punha asas nos pés. E durante uma hora não parou de dançar como um louco, esquivando-se das garrafas de oxigénio e dos frascos de soro. Depois tirou umas folhas secas do bolso da bata, colocou-as numa bacia, esmagou-as com o punho até as reduzir a um pó grosso, cuspiu em cima abundantemente, misturou tudo para fazer uma pasta e aproximou-se da moribunda. As mulheres

viram-no tirar as ligaduras e, tal como notificou a enfermeira no seu relatório, untar a ferida com aquela mistura asquerosa, sem a menor consideração pelas leis da higiene nem pelo facto de exibir as suas vergonhas nuas. Terminada a cura, o homem caiu sentado no chão, totalmente exausto, mas iluminado por um sorriso de santo. Se o doutor Angel Sánchez não fosse o director do hospital e um herói indiscutível da Revolução, ter-lhe-iam enfiado um colete de forças e mandado sem mais trâmites para o manicómio.

 

Mas ninguém se atreveu a deitar abaixo a porta que ele trancou com o ferrolho e quando o alcaide resolveu fazê-lo com a ajuda dos bombeiros, já tinham passado catorze horas e Ester Lucero estava sentada na cama, de olhos abertos, contemplando divertida o tio Angel, que tinha voltado a despojar-se da sua roupa e iniciava a segunda etapa do tratamento com novas danças rituais. Dois dias mais tarde, quando chegou a Comissão do Ministério da Saúde enviada especialmente da capital, a doente passeava pelo corredor pelo braço da avó, toda a população desfilava pelo terceiro piso para ver a rapariga ressuscitada e o director do hospital, vestido com impecável correcção, recebia os colegas à sua secretária. A Comissão absteve-se de pedir pormenores sobre as inusitadas danças do médico e dedicou a sua atenção a perguntar sobre as

maravilhosas plantas do bruxo.

 

Passaram anos desde que Ester Lucero caiu da mangueira. A jovem casou-se com um inspector do ambiente e foi viver para a capital, onde deu à luz uma menina com ossos de alabastro e olhos escuros. E Ao tio Angel, manda-lhe de vez em quando nostálgicas cartas salpicadas de horrores ortográficos. O Ministério da Saúde organizou quatro expediçöes para procurar as ervas portentosas na seiva, sem nenhum êxito. A vegetação

engoliu a aldeia indígena e com ela a esperança de um medicamento científico contra os acidentes irremediáveis.

 

O doutor Angel Sánchez ficou sozinho, sem mais companheiros que a imagem de Ester Lucero que o visita no seu quarto à hora da sesta, abrasando a sua alma numa bacanal perpétua. O prestígio do médico aumentou muito em toda a região, porque o ouvem falar com os astros em línguas aborígenes.

 

 

Isabel Allende em Contos de Eva Luna

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publicado às 21:01


2 comentários

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De allungare il pene a 21.06.2010 às 15:14

Olá, estou a estudar Português e eu aconteceram em seu blog que bom!
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De Pedro Rosa de Oliveira a 23.06.2010 às 12:11

Gostei da discrição da situação Indigena e a forma como a ciência muitas vezes tem de ser humilde e ir à mãe Natureza buscar a salvação.
abraço

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