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Falemos de chumbos..e da nossa escola

por Jorge Soares, em 02.08.10

O N. a fazer salto mortal

 

Ouvi a noticia no Sábado, estava a ver televisão com o N.,  ele mal ouviu falar do assunto saltou e foi contar à mãe, "Vão acabar com os chumbos", não percebo quem escolhe os timings para dizer estas coisas, mas uma ministra da educação a falar de um assunto destes no dia 1 de Agosto quando está tudo a pensar nas viagens de férias e o que há pela frente é um mês com o país a banhos.... a mim deixa-me a pensar.

 

Por muito que o N. possa pensar no assunto, esta é uma medida que já não o vai afectar, como contei neste post, deu muito trabalho. Primeiro foi preciso convencer a professora, depois a professora de apoio. Foram necessários  relatórios da pedo-psiquiatra que segue a hiperactividade, da psicóloga do centro de apoio ao estudo e que  ambas falassem com as professoras pessoalmente.

 

Mas convencer as professoras não é suficiente, foi necessário preencher inquéritos e pedidos especiais... e aceitar as ameaças da falta de horários, de turmas e até vagas nas escolas,.... foram necessárias muitas coisas até que finalmente convencemos a escola e o agrupamento. Tantas coisas que acredito que a maioria dos pais não teria capacidade psicológica e até financeira (pedo.psiquiatras e psicólogos fazem-se pagar caro) para conseguir o que nós conseguimos, que o N. ficasse retido.

 

A verdade é que este anúncio da ministra não faz o mínimo sentido, há muito que se acabaram os chumbos, porque os professores não estão para ter trabalho, os pais ficam mais felizes fingindo que têm uns filhos perfeitos, a ministra pode mostrar uns gráficos muito bonitos como se fossemos um modelo de educação... é claro que na verdade estamos cada vez mais a criar um país de analfabetos funcionais e de frustrados.. mas ficamos muito bonitinhos nas estatísticas.. que parece que é o que interessa.

 

Olhando para trás, e mesmo que o N. ainda tenha algumas dificuldades em aceitar o assunto, cada vez mais sinto que fizemos o mais correcto, ele não está preparado, não tem conhecimentos suficientes e ir nesta altura para o quinto ano era criar um enorme problema. Mas foi uma luta complicada, existiram momentos em que me senti atado de pés e mãos e com um enorme sentido de frustração, porque achava que a minha opinião de pai não servia para nada, era como se o futuro do meu filho estivesse completamente fora das minhas mãos ,.. acreditem, descobrir que as coisas possam ser assim é um sentimento para além de frustrante, bastante estranho.. e houve um dia em que dei por mim desesperado.. porque quando achava que a professora estava finalmente convencida, apareceu a professora de apoio a dizer que ele tinha cumprido os objectivos... ainda estou para perceber como é que uma criança que tem não satisfaz em mais de 80% das avaliações, pode ter cumprido algum objectivo... juro que pensei em enfrentar a senhora e exigir uma explicação.

 

Diz a senhora ministra que se vão substituir os chumbos com mais acompanhamento e atenção mais personalizada, bom, se o apoio extra for como o que o N. teve na escola  nos dois últimos anos.... bem que pode a senhora ministra ficar sentada à espera que algo mude...

 

Antes de tomar decisões destas há que olhar para a realidade das nossas escolas, para as nossas  crianças e os seus problemas e pensar. Nós não somos a Finlândia ou a Suécia, não vivemos como eles, não pensamos como eles, temos muito pouco a ver com eles, porque raio é que os modelos deles se haveriam de aplicar por cá?

 

Dito isto, acho esta medida de acabar com os chumbos um completo disparate, algo que não faz o mínimo sentido... chumbar não é desprestígio nenhum, por vezes temos que parar para pensar.... e isso é válido em qualquer altura na vida.. e se dúvidas houvesse que chumbar nem sempre é sinal de menos capacidade, basta ler este artigo do ionline

 

Chumbar na escola não os impediu de ter sucesso

 

Jorge Soares

publicado às 22:14


5 comentários

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De Existe um Olhar a 03.08.2010 às 13:53

Falemos de chumbos? Eu se pudesse chumbava já a ministra... mais não digo, porque a minha indignação e tristeza é tal que podia exceder-me e deixar aqui uma série de impropérios, contra a aventureira da Srª Ministra.

Beijos
Manu
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De DyDa/Flordeliz a 03.08.2010 às 15:40

Passamos da ministra "8" para a do "80".
Será???

Uma andava sempre de trombas. A outra anda sempre de dentolas à mostra.

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De DyDa/Flordeliz a 03.08.2010 às 15:43

Depois de tudo o que passaste...
Dá vontade mesmo de marcar uma "consulta" não com uma psicóloga mas com a ministra da educação.
Não tarda o teu "N" ainda acha que a culpa de ele reprovar é tua. Sim porque a ministra quer que ele passe, tu é que não deixaste.
Pai ruim!
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De Ribatejana a 04.08.2010 às 00:31

Eu passei uma fase complicada... más companhias... chumbei e foi o melhor que me podia acontecer.

Agora até se passa gente com 6 negativas, como já vi acontecer no ano passado. Somos um país que se nivela por baixo, que vive para o (mau) assistencialismo, que nas aulas manda os alunos "espertos" baixar o braço porque tem que se dar sempre a vez a quem não sabe. Tratam os alunos fracos como coitadinhos em vez de lhes darem autonomia e ajudam a disseminar o senso de injustiça nas escolas. Conheço casos de miúdos que nunca conseguiram participar uma única vez numa aula porque a prof não os deixava, pois "tinham boas notas". Estamos a criar um país de gente frustrada, damos prémios a quem não os merece, criamos numa certa faixa da sociedade a ideia de que as coisas vão cair do céu e que se não caírem o Estado vai trazê-las até nós. Por outro lado não valorizamos os nossos melhores alunos... tanto que depois de terminarem a faculdade cada vez mais os jovens emigram. E fazem eles muito bem!

Quanto aos chumbos tb vejo como uma forma de disfarçar as estatísticas. E arrisco dizer que muitos que ainda se esforçavam para ter positiva vão começar pura e simplesmente a baldar-se porque agora não se chumba. Ao mesmo tempo vão ser criadas mais injustiças pois um aluno que se esforce minimamente obtém o mesmo que um que andou a passear os livros. É o país que temos.
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De Cristina a 04.08.2010 às 20:50

Olá,

Nao sei se será bem assim. Conheço mais casos de crianças que são colocadas à margem por não serem bons alunos.

Tenho também ouvido pais queixarem-se da competição desmedida entre crianças do 1º ciclo, incentivada ou pelos professores ou pelos outros pais.

Talvez haja agora um olhar diferente e um maior esforço de acompanhamento das crianças com dificuldades de aprendizagem, mas não considero que tal seja tratar como coitadinhos ou nivelar por baixo.

Talvez a proposta da ministra faça sentido noutro país, com outro tipo de escola e de ensino. O mal é esse, tentar aplicar modelos desajustados à nossa realidade.

Cristina

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