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O estigma da adopção em Portugal

por Jorge Soares, em 09.09.10

Não há filhos biológicos e adoptivos, só há filhos

 

 

Público: PJ detém filho adoptivo da médica que foi assassinada em Coimbra

Expresso: Homicídio da médica: Suspeito é filho adoptivo

Ionline: Filho adoptivo da médica de Coimbra confessa homicídio

DN: PJ Prende filho adoptivo de médica assassinada

A Bola: Coimbra: PJ detém filho adoptivo que matou mãe

Correio da Manhã:Filho adoptivo de médica assassinada preso pela PJ

Diario Digital: Filho adoptivo terá encenado assalto depois de degolar a mãe

 

Alguém me explica a relevância da palavra adoptivo para a notícia? o facto de o filho ser adoptivo tem alguma importância para o caso? há muitos filhos que matam os pais, alguma vez leram "Filho biológico matou os pais" numa manchete de um jornal? ou no titulo de uma notícia?

 

O que podemos concluir de tudo isto é que a sociedade portuguesa continua a olhar para as crianças adoptadas de lado, são os coitadinhos que tiveram a sorte de encontrar umas almas caridosas que os aceitaram.. é verdade, eu ouço muitas vezes isso. É o estigma da adopção e é algo muito grave, porque há incluso candidatos a pais adoptivos que pensam assim. Uma vez ouvi uma historia de um casal que na viagem em que ia conhecer o seu futuro filho se viraram para a assistente social e perguntaram:

 

- Mas ele não vai herdar como os outros pois não?

 

Se isto não é estigma e discriminação é o quê?

 

Eu tenho três filhos, dá-se o caso de dois serem adoptados, ambos sabem que são adoptados e cá em casa tentamos que o facto seja levado com a maior naturalidade possível, mas é evidente que para mim são os três meus filhos e a adopção é algo que não existe para além do facto de eles terem a cor da pele diferente da minha e da irmã. Porque de facto, para a lei e a partir do momento em que é decretada a adopção plena, não há absolutamente diferença nenhuma entre um filho biológico e um adoptado.  Se olharmos para os documentos dos meus três filhos o que vemos na parte da filiação é exactamente o mesmo, seja no Bilhete de identidade, no passaporte, nas certidões de nascimento, qualquer documento, a filiação de um filho adoptivo é exactamente a mesma que a de um biológico.. porque para a lei não há filhos adoptivos e biológicos... porque na verdade não há, só há filhos. E nenhum dos meus filhos me tem que agradecer nada, eu é que tenho que lhes agradecer o facto de fazerem da minha vida o que é, com tudo o que tem de bom e de mau.

 

E as pessoas não sabem o que me irrita a conversa dos coitadinhos que tiveram muita sorte e da excelente pessoa que eu sou por os ter adoptado... assim como me irritou profundamente ver os títulos das notícias e a palavra adoptivo a bold nos textos. Os jornalistas deveriam ter vergonha, todos deveríamos ter vergonha de vivermos numa sociedade que é capaz de fazer estas distinções.

 

Não há filhos adoptivos e biológicos, nem filhos e filhos do coração, só há filhos.

 

Update: Editorial do jornal Destak sobre este assunto escrito por Isabel Stilwell: Filho “adoptivo”, o adjectivo assassino (Obrigado Cláudia)

 

Jorge Soares

publicado às 21:12


23 comentários

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De Martense a 09.09.2010 às 22:23

Corcordo com tudo o que disseste.
Aconteceu-me o mesmo quando ouvia a notícia.
Quantos filhos biológicos maltratam os pais?
De certeza que mais que os filhos adoptivos.
O que é que a palavra adoptivo faz no título da notícia, não percebo...
Infelizmente não é só sobre sobre a adopção.
Quem já não ouviu coisas como : o homem x que é gay foi vítima de carjacking (ou qq coisa do género).
O que é que a orientação sexual tem a ver com o caso. Casos semelhantes acontecem com pessoas com grande excesso de peso.
A sociedade parece que cataloga as pessoas, e as que não são "Normais" é mais "normal" que coisas más lhes aconteçam...
É triste...
Mas acredito que a sociedade está a mudar e tenho esperança que as coisas melhorem (preciso dessa esperança)
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:41

Sabes Marta... eu já acreditei mais.

Jorge
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De aespumadosdias a 09.09.2010 às 22:47

Muitos dirão ao ler a notícia "ah, era adoptado". o estigma mantem-se.
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:42

Se os jornalistas não aproveitassem o filão, .. cada país tem o povo que merece... ou não?
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De stiletto a 09.09.2010 às 23:05

Não tinha reparado nesses títulos mas realmente tens toda a razão. Qaundo ouvi a notícia primeiro percebi qie era um filho adoptivo e só muito depois é que percebi que era estudante de medicina. O que será que tem mais relevância para o caso? Há uma ideia pré-concebida que os filhos adoptivos, por haver uma grande probabilidade de virem de famílias desestruturadas, são muito perigosos e que se podem rebelar contra os pais....

Mas não leves tão a peito que a comunicação social pega sempre numa característica que não tem nada a ver para o caso para chamar a atenção. Por exemplo aqui há tempos também vi "Catequista mata pai e madrasta", nunca ouvi dizer "ateu mata pai e madrasta". Enfim...
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:44

Levo a peito porque o estigma mantém-se, e é alimentado, e as crianças continuam a ser olhadas de lado... não há como não levar a peito, é dos meus filhos que estão a falar.. dos filhos dos meus amigos... não há como não levar a peito.
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De stiletto a 09.09.2010 às 23:06

Ah, é verdade, bonita imagem...
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:44

Obrigado...
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De DyDa/Flordeliz a 10.09.2010 às 01:16

Ó rica santinha, Jorgeeeeee.
Não tenhas dúvidas - há biológicos e adoptivos e não é por gritares ainda mais alto que as manchetes dos jornais que vais mudar as mesmas.
Sabemos que são todos filhos, mas apareceram no seio do casal de forma diferente, se assim não fosse, não te preocupavas em contar isso aos teus miúdos.
A única importância para o crime, para mim, é meramente informativa. Então porque não lhe damos o valor que merece?... A INFORMAÇÃO!
Era um filho que viveu e cresceu, ao que parece com a mãe, que por sinal era adoptiva, uma vez que o pai se tinha já separado há muitos anos.
Não vamos empolar...
O mais grave da situação é que alguém tirou a vida de alguém, o resto... até podia ser o primo por afinidade... continuava a ser um crime hediondo e de uma gravidade maior que o título da notícia.
GRITA COMIGO QUE EU DEIXO E ATÉ TE ESCUTO


P.S.- E os TEUS FILHOS são lindos até de costas
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:48

Não... desculpa mas não.. por trás da forma como se dá a noticia há muito mais.. e não há como não ligar... no fundo, o estigma é contra os meus filhos, contra os filhos de muitos dos meus amigos.. contra muita gente que conheço...

Beijinho
Jorge
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De Cláudia Sousa a 10.09.2010 às 09:59

Bom dia Jorge

Hoje no jornal "Destak", a Isabel Stilwell escreveu um editorial com o título "Filho adoptivo, o adjectivo assassino". Está muito interessante. Em súmula a jornalista refere que "os preconceitos servem para nos sossegar perante o que não tem explicação". UM FILHO MATA A MÃE - que horror... Era filho adoptivo - AH! Tinha que haver alguma coisa...

Cumprimentos,
Cláudia Sousa (que por acaso sou mãe e por sorte sou adoptiva)
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:50

Olá Cláudia

Obrigado pela dica.

Jorge

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De Maria João Pereira a 10.09.2010 às 12:31

Ainda ontem comentei o mesmo sobre esta noticia...
Qual é o interesse, para alem do sensacionalismo , de se saber que o rapaz é ou não adoptado?
Será que não se ouve a toda a hora histórias semelhantes referentes a filhos biológicos? (infelizmente... sim)
O meu menino é adoptado... sabe-o, sempre soube e lembra-se de ter vivido na "Ajuda de Berço". Inclusivamente, até ao ano passado íamos lá pelo Natal levar prendas aos meninos. Agora ele já não quer.

Mas claro que, no País de curtas visões em que vivemos, todas as minorias são discriminadas...
Eu sou canhota, toda a vida me deparei com a dificuldade de tudo ser feito à imagem dos dextros... (e isto, de ser canhota, é um assunto insignificante).
Quando falamos de coisas que realmente interessam, aí a discriminação vem um bocadinho mais à tona e ajuda a noticias que procuram ter títulos sensacionalistas como a deste rapaz que matou a mãe.

Para o meu menino eu não sou "mãe adoptiva" sou a "mãe", "mãezinha", "mamã", "mãe João"

Acho que me alonguei um bocadinho....
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Ainda ontem comentei o mesmo sobre esta noticia... <BR>Qual é o interesse, para alem do sensacionalismo , de se saber que o rapaz é ou não adoptado? <BR>Será que não se ouve a toda a hora histórias semelhantes referentes a filhos biológicos? (infelizmente... sim) <BR>O meu menino é adoptado... sabe-o, sempre soube e lembra-se de ter vivido na "Ajuda de Berço". Inclusivamente, até ao ano passado íamos lá pelo Natal levar prendas aos meninos. Agora ele já não quer. <BR><BR>Mas claro que, no País de curtas visões em que vivemos, todas as minorias são discriminadas... <BR>Eu sou canhota, toda a vida me deparei com a dificuldade de tudo ser feito à imagem dos dextros... (e isto, de ser canhota, é um assunto insignificante). <BR>Quando falamos de coisas que realmente interessam, aí a discriminação vem um bocadinho mais à tona e ajuda a noticias que procuram ter títulos sensacionalistas como a deste rapaz que matou a mãe. <BR><BR>Para o meu menino eu não sou "mãe adoptiva" sou a "mãe", "mãezinha", "mamã", "mãe João" <BR><BR>Acho que me alonguei um bocadinho.... <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bjs</A> <BR>Maria João Pereira <BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ otesourinho.blogspot.com
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:52

Olá Maria João

Sabemos que é difícil explicar que para nós eles são os nossos filhos.. iguais a todos os outros filhos.. este tipo de manchetes é o espelho da sociedade em que vivemos.. mas custa.. custa muito.


Beijinho
Jorge
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De Maria a 10.09.2010 às 12:45

Pois é Jorge. Eu percebo a sua indignação. Você está muito à frente da restante sociedade portuguesa, ao nível da mentalidade e na forma como encara determinados factos...

Eu não tinha visto a coisa desse prisma. Tem razão.

E eu (possivelmente) nunca seria uma boa candidata a adoptar uma criança, não porque não ache que os filhos adoptados têm os mesmos direitos dos biológicos (herança inclusive!!), mas porque tenho sempre aquela ideia de que poderia fazer distinção entre um que saiu de dentro de mim e o outro que fui buscar ... Uma estupidez. Uma limitação minha...
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De Jorge Soares a 11.09.2010 às 23:59

Eu percebo esse tipo de receios, mas por incrível que pareça, já o ouvi de uma mãe adoptiva e exactamente ao contrário... ela tem uma filha adoptiva e na altura disse-me que tinha medo de engravidar, porque achava que nunca amaria outro filho como amava aquela filha.. mesmo que esse outro filho nascesse dela.

Já escrevi sobre o assunto, ninguém ama duas pessoas da mesma forma, mesmo que sejam dois filhos biológicos, a forma como os amamos é diferente... mas não quer dizer que não amemos todos.

Falei disto aqui: http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/72751.html

Jorge
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De Fábio Dias a 10.09.2010 às 19:41

Amigo Jorge!


Já não vinha ao blogue há algum tempo, mas voltei:-))

Não poderia estar mais de acordo com este "post", e é devido a textos como este que tornam este bloque uma referência nacional relativamente à adopção e um exemplo de ver o mundo com outros olhos.

A frase não poderia ser mais verdadeira "Não há filhos adoptivos e biológicos, nem filhos e filhos do coração, só há filhos." reflecte a sua sensibilidade e abordagem deste tema complexo , mas infelizmente real.

Filho é filho... sem condição, pretérito passado, presente ou futuro, um filho é e será sempre filho!

Tudo de BOM, para a vossa família!



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De Jorge Soares a 12.09.2010 às 00:00

Olá Fábio

Obrigado por tão simpáticas palavras.. e por favor, passa mais vezes por cá.

Jorge
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De Oficinas RANHA a 10.09.2010 às 21:07

Concordo plenamente contigo.
Ana Cristina
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De Jorge Soares a 12.09.2010 às 00:00

Olá Ana

Obrigado

Jorge

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