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Discriminação e  racismo

 

Imagem do Tangas Lésbicas

 

É de Albert Memmi a seguinte definição de racismo: “O Racismo é a valorização generalizada e definitiva, de diferenças reais ou imagináveis, em proveito do acusador e em detrimento da sua vítima, a fim de justificar os seus privilégios ou a sua agressão”.

Pretende Memmi deixar claro que “não se nega a diferença, condena-se é a sua utilização contra alguém”.

 

As frases acima foram-me deixadas pela Abigai no post da passada quarta feira, ando desde esse dia para voltar ao assunto, a constipação que entretanto me deitou abaixo e algumas dúvidas sobre a melhor forma de dizer o que me vai por dentro fizeram que fosse adiando... bom, é hoje...

 

Algures no início dos anos noventa era Domingo, devia ser perto da meia noite e como tantos Domingos, o autocarro deixou-me no Campo das Cebolas, coloquei o saco ao ombro  e meti-me a caminho da Rua do Poço dos Negros .. a pé. Ainda na Rua da Alfândega antes de chegar  à praça do comércio sou abordado por um fulano:

 

- Não me dás um cigarro?

- Não fumo - é claro que continuo a andar

- Arranja-me lá uma moeda .. - Aqui o fulano tenta colocar-me a mão no braço, coisa que impedi com um safanão.

- Também não tenho moedas

 

O fulano chateou-se, não gostou, eu segui em frente, ele disse qualquer coisa em voz alta e do outro lado da rua alguém lhe respondeu... eram ambos ciganos... eu continuei a andar, ele ficou a olhar para mim e a resmungar entre dentes, mas não me seguiu.

 

No dia a seguir contei isto a alguém, a pessoa virou-se para mim e disse:

 

- Tás tramado, ele nunca mais esquece a tua cara..e se te apanha..

 

Na sexta feira seguinte quando fui apanhar o autocarro de volta para a terra ao mesmo Campo das Cebolas, ele andava por lá.. não sei se me viu ou não, eu não me escondi.. se calhar aquele não era um dos da memória prodigiosa.

 

Do que tenho lido por aí, meio país tem histórias com ciganos, cada uma pior que a outra, eu só tenho esta.. não me acobardei, não dei a moeda e não me chateei....

 

Vou ter a ousadia de copiar aqui uma parte de este post do Arteocioso

 

" Na sala existem três cartazes bem visíveis a pedir SILÊNCIO.

As ciganas conversam animadamente, em voz alta, como se estivessem num casamento, ou qualquer outra festa, e os miúdos (cinco) fazem piruetas pelos corredores e cadeiras.

O mal-estar respira-se no ar mas ninguém se atreve a protestar, até que um doente pede silêncio porque ninguém ouve as chamadas para as consultas e como as ciganas não lhe ligasse dirigiu-se à segurança.

Esta com delicadeza, quase a pedir desculpa, solicitou às ciganas que conversasse em voz baixa. Obteve o resultado inverso, o barulho aumentou e a matriarca, como quem saca uma pistola, pegou no telemóvel e simulou uma chamada falando mais alto – Ó Maria estão a chamar-nos ciganas e peixeiras (mentira), são racistas, temos boca é para falar! Uma clara provocação.

Estou no corredor ao lado do grupo e aponto à segunda mais velha o cartaz que pede SILÊNCIO. Responde-me – Não sei ler.

A «festa» continuou até ao final das consultas. Por duas vezes tive de ir à Secretaria perguntar se já me tinham chamado para a consulta e aproveitei para informar que estava uma «orquestra» na sala. Com ar resignado a emprega respondeu-me que sabia. Certamente, os cerca de 50 ou 60 doentes que aguardavam a sua consulta, não ficaram a simpatizar com as ciganas."

 

Para além da atitude das ciganas, o que está errado aqui?... muitas coisas.

 

Em primeiro lugar, tenho a certeza absoluta que se em lugar de ciganas fossem outras pessoas a fazer barulho os outros utentes não teriam aceite a situação com tanta calma. Em segundo lugar, para que servem os seguranças nos hospitais?, para que está lá um segurança se depois não é capaz de fazer o seu trabalho?... tem medo das ciganas?.. desculpem lá, mas quem tem medo não é segurança.. E os funcionários do Hospital?, porque não exigem que se cumpram as regras? Não se querem chatear?. é isso? Ora aí está o problema principal, ninguém se quer chatear, são os brandos costumes.. somos um país de brandos costumes...

 

Estes dias alguém me contava que os funcionários da segurança social são ameaçados para que não verifiquem os dados e atribuam sempre o valor máximo dos subsídios.. o que fazem eles?, denunciam a situação?, fazem queixa das ameaças?... não, claro que não, não estão para se chatear... e afinal o dinheiro nem é deles. Pois não, o dinheiro não é deles.. é de todos nós.

 

Pelos vistos meio mundo tem queixas dos ciganos, a verdade é que ninguém está para se chatear, são os brandos costumes.. e as coisas passam impunes.. porque as pessoas não se querem chatear... e depois generalizam.. e de algumas pessoas mal formadas que se aproveitam da cobardia dos outros, passam a ser todos iguais.

 

A culpa é dos brandos costumes, do não me quero chatear, de o dinheiro nem é meu, de até a policia tem medo deles... ora...façam favor de meter os brandos costumes por onde bem entenderem.. OK?

 

Jorge

publicado às 21:23


13 comentários

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De Kruzes Kanhoto a 26.09.2010 às 23:04

É precisamente esse o problema, ninguém se querer chatear. Até porque é politicamente pouco correcto.
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De Jorge Soares a 28.09.2010 às 22:51

Pois, esse é outro problema... o politicamente correcto... mas eu nestes casos aposto mais por cobardia mesmo.
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De Ribatejana a 27.09.2010 às 08:56

Este é um assunto que a mim me diz muito pois fui colega de turma de um cigano na universidade (por acaso ele vem na capa do Dn Gente, artigo "Ciganos Doutores") e graças a ele mudei muito a minha visão acerca dos ciganos. São uma cultura interessantíssima e nem todos obedecem ao estereótipo cigano, feira, carroça, droga... No entanto ele é o primeiro a dizer que quando a geração do pai dele se for, a cultura cigana vai começar a desaparecer pois os jovens ciganos começam a identificar-se pouco com a cultura cigana e já perceberam que precisam de se envolver mais no mundo não cigano. Mas é um pena se isso implicar que aquilo que a cultura deles tem de bom, venha a desaparecer. Mas que existe um grande racismo com relação a eles, lá isso existe. Um dia destes li um comentário de um tipo que dizia que está farto desta "invasão" dos ciganos... Invasão??? que falta de cultura. Eles são tão portugueses como nós. Enfim..
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De Jorge Soares a 28.09.2010 às 22:54

Olá

Estou de acordo, são tão portugueses como nós, e como em todas as minorias, há pessoas boas e más... há que aceitar isso.

Jorge
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De Diana a 20.12.2013 às 16:58

Fala porque teve a sorte de encontrar uma EXCEPÇÃO!
Onde vivo assaltam as pessoas, vão às lojas para roubar, se se tentar defender chamam a cambada toda para ir direitinho para o jardim das tabuletas, a polícia nada faz (também são apenas meia dúzia deles)...
São pagos para viver, já que, não pagam água, luz ou gás, no entanto recebem subsídios para gastar e dão-lhes casa... e ainda exigem obras e sabe que mais? As obras são feitas enquanto que eu, eu até podia estar a dormir no meio da rua que ninguém me ia estender a mão, não sou cigana e não tenho 20 ou 30 para me defender.
Falo por experiência própria do que se passa nesta miserável terra onde qualquer dia eles mandam em tudo.
Pergunto eu, o que eles fazem com os habitantes não é racismo e coisas bem piores?
Pois é, defender o coitadinho que de coitadinho não tem nada, apenas nos dias em que vai receber os subsídios pagos com o meu dinheiro e de outros contribuintes que se esforçam uma vida inteira para ganhar a migalhinha para comer enquanto outros recebem tudo de mão beijada!
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De Abigai a 27.09.2010 às 14:51

Olá Jorge,
Por acaso até fui eu que deixei esse comentário, mas, para o caso, não interessa. O que interessa sim, é o que escreveste e bem. Se nunca leste o livro o Racismo de Albert Memmi, aconselho-te vivamente, é uma análise por vezes um pouco repetitiva mas muito interessante e o Racismo é isso mesmo. É como dizes, as pessoas não se querem chatear e é muito mais fácil marginalizar do que enfrentar. E, como acontece frequentemente com os ciganos, as minorias marginalizadas e vítimas de racismo, aproveitam-se também do medo que gerem à sua volta para se fazer valer, o que também não está certo, e entra-se num ciclo vicioso de onde é difícil sair. Não tenho mesmo nada contra os ciganos e até conheço alguns, mas não posso negar que quando vejo um grupo de ciganos próximo, nem sempre me sinto à vontade, mas nunca tive qualquer tipo de problema. O meu G. tinha o ano passado, na escola, 2 miudos ciganos. Eu até conheço os pais de vista, foram meus clientes, e são pessoas impecáveis, integradas, mas que mantêm as suas tradições. Um dia o G. chegou a casa e começou a fazer comentários racistas em relação a esses miudos, porque é o que todos na escola dizem, porque são ciganos e deve ter medo deles, etc...
Passei-me completamente! Sempre tentei incutir nele a tolerância, a ideia de que somos todos iguais e todos temos direitos iguais, que ser diferente, deficiente ou de outra nacionalidade ou etnia, não faz de nós melhores ou piores, mas mesmo assim, chegou a pensar que eram inferiores ou aterrorizadores por serem ciganos! O que quero dizer, é que ninguém quer saber, ninguém se quer chatear, mas todos ensinam ideia pre-concebidas, e assim, o Racismo nunca irá acabar, é completamento utópico pensar que podemos lutar contra isso, o que também explica, de certa forma, o não querer chatear-se... o que não é o meu caso, porque tenho muita dificuldade em calar-me quando são assuntos destes, que me tocam profundamente, até porque também já fui vítima de racismo e ideias pré-concebidas quando viva em França!
Abraço,
Anabela
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De Jorge Soares a 28.09.2010 às 22:56

Olá Anabela,...desculpa.. mal li o teu comentário emendei o post.

De resto, estou completamente de acordo contigo... e é desde pequenino que se torce o pepino, temos que fazer com que a geração dos nossos filhos seja melhor que a nossa, e isso só se consegue educando

Jorge
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De Pedro Rosa de Oliveira a 27.09.2010 às 17:53

Isso mesmo. A um desses uma vez só tinha uma moeda de 5 cêntimos e o gajo reclamou, eu obriguei-o a devolver-me a moeda.Devolveu a custo e avisei-o que se acontecesse alguma coisa ao carro ele é que ia ver quem era o mau da fita.Nem o carro pareceu danificado,nem nunca mais refilou com a "gorjeta" comigo, vai o que eu quiser,até posso não querer dá nada,como acontece muitas vezes.Era o que faltava.
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De Jorge Soares a 28.09.2010 às 22:59

Olá Pedro

Se todos agíssemos assim, de certeza que haveria muito menos problemas..

Jorge
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De artesaoocioso a 29.09.2010 às 00:28

Agradeço a transcrição ... e a discordância.
Fosse que fosse que estivesse na sala, aquele comportamento era um falta de respeito por 50 doentes com doenças e traumas complicados.
Assisti a uma cena semelhante no Hospital da Luz e os seguranças (agora homens) fingiam que não viam. Arranjar sarilhos com ciganos não costuma acabar bem.
No caso do amigo, acho que simplesmente teve sorte.
Editei hoje outro post sobre o tema.
Cumprimentos.
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De Anónimo a 23.05.2011 às 16:21

Toda a gente tem histórias com cigano é incrível, vivemos num pais que acolhe tantas outras "raças" e nao a qualquer tipo de problema,quando chega aos ciganos é o que se ve.Sim a policia nao faz nada,são claramente cobardes...
Assisti a uns dias uma historia hilariante, uma senhora de meia idade a estacionar o carro da um pequeno toque numa carrinha de ciganos,a senhora sai do carro,vai ter com os ciganos e pede desculpa,sabem uqe aconteceu?a senhora foi ali espancada, mais tarde chego as autoridades que dizerem nada poder fazer,é uma historia entre tantas outras que ja assisti...
a locais da cidade que ninguém frequenta,bares,cafes a fechar,porque ninguém esta para ir beber um cafe descansado e estar sempre a assistir a este tipo de coisas,para nao falar na falta de educação.é incrível como pode haver uma raça como esta...devem ser uma espécie difrente ék so pode...
e quem os defende é porque so os ve bem longe,se formos a ver nao a um unico pais no mundo que aceite os ciganos,loool no minimo é algo muito estranho.
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De Anónimo a 25.05.2011 às 12:37

Ès mesmo tótó. Tu é que deverias ser o segurança de que falas para fazeres o que dizes. È claro que não ficarias inteiro para voltar a fazer o mesmo, pois a tribo esperava-te na rua ou ia mesmo ao teu local de trabalho mostrar-te que não podias ser «racista». Depois se fizeres queixa. Ficavas a saber que afinal a policia tinha mesmo mede deles, pois estão de mãos atadas pela lei.
Informa te ou pratica as tuas ideias para veres a realidade. Boa sorte.
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De Jorge Soares a 25.05.2011 às 13:23

Quem não tem tomates ou não os tem no sitio não escolhe como profissão ser segurança. estas coisas acontecem mesmo porque´a mairia é mesmo como tu.... e depois os outros é que são totós.

Jorge Soares

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