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Conto: Sade, o Lata de Água

por Jorge Soares, em 09.10.10

Sade O Lata de Água

 

Imagem da Internet

 

Tarde de madeira e zinco. Com telhados pendurados, a cacimba a raspar-lhes. Molhadas, as pálpebras da tarde parecem soltar morcegos.
No bairro de caniço a paisagem beijada só pela morte. Sade regressa a casa, tropeçando pragas. É rasteirado pela cerveja, toda a tarde entornada no seu desespero.
- Amigos? Caraças, são os primeiros a lixarem um gajo!
Estoiram risos nos umbrais das portas.
- Riam, cabrões.
Remexe os bolsos. Cigarros: nada. Fósforos: nada. As mãos impacientes interrogam o vestuário. Apetecia-lhe o fumo, precisava da força de um cigarro, da segurança dos gestos já feitos.
- Olha o Lata de Água. A mulher nem sai da casa, desde que ele meteu-se na bebida.
Não era verdade. As mulheres sempre recebem o prémio de se ter pena delas. Sacanas dos vizinhos. Só estão perto quando querem espreltar desgraças. No resto ninguém lhes conhece.
Entrou em casa e fechou a porta. A mão ficou no trinco, distraída, enquanto ele passeava os olhos naquele vazio. Lembrou-se dos tempos em que a encontrou: foram bonitos os dias de Júlia Timane!
Tinha havido muito tempo. Estava sentado numa paragem à espera de nada, dessa maneira que só os bêbados esperam. Ela chegou e sentou-se ao lado. A capulana que trazia sobre os ombros parecia pouca para um frio tão comprido. Começaram de falar.
- Sou Júlia, natural de Macia.
- Não tens marido?
- Já tive. Por enquanto não tenho.
- Foram quantos os maridos?
- Muitos. Tenho os filhos, também.
- Onde estão esses filhos?
- Não estão comigo. Os pais levaram.
Ele ofereceu o casaco para a cobrir do frio. Ela ajudou-o a encontrar o caminho para casa. Mas acabou por ficar aquela noite. E as outras noites também.
Quando souberam que andava com ela, condenaram-no. Ela estava muito usada. Devia escolher uma intacta, para ser estreada com seu corpo. Ele não quis ouvir. Foi então que passaram a chamá-lo de Lata de Água. Em toda a parte, alcunha substituiu o nome. A água aceita a forma de qualquer coisa, não tem a própria personalidade.
Com o tempo foi-se apercebendo de uma coisa grave: ela não lhe dava filhos. Isto ninguém podia saber. Um homem pode ter barba, não-barba. Agora filhos tem que tirar: um documento exigido pelos respeitos.
Um dia disse-lhe:
- Temos que ter um filho.
- Não podemos, você sabe.
- Temos que arranjar maneira.
- Maneira, como? Se eu não tenho a culpa? O hospital explicou o problema: você que não tira os filhos.
- Não estou a falar de culpa. Já estudei o problema, a solução já descobri: abastece-se lá fora, mulher.
- Não estou perceber.
- Estou-te dizer: dorme com outro. Eu não vou zangar. Só quero um filho mais nada.
A noite ela saiu. Voltou muito tarde. As noites seguintes ela fez o mesmo. Foram muitas noites.
Ele perguntou:
- Uma vez não chega?
- Não quer um filho? É bom garantir.
- Faça lá maneira que vocês sabem. Mas rápido, não quero falta de respeito.
Júlia engravidou-se. Ele festejou a notícia. Aquelas primeiras semanas foram muito felizes. Até que uma vez ele acordou-a no meio da noite:
- Júlia, quero saber: quem o dono da grávida?

 

.... Continua

 

Mia Couto in Vozes anoitecidas

 

Retirado de: Contos de Aula

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publicado às 21:05



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