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Perdido

por Jorge Soares, em 07.11.10

Perdido

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Tive uma semana complicada, há coisas que de um momento para o outro fazem com que nos questionemos sobre a vida, a forma como a encaramos e a vivemos.. coisas que nos deixam a pensar sobre o que somos e o que deixamos aos nossos filhos.

 

Na terça ao fim do dia comentávamos cá em casa o facto de uma colega da R. ter colocado a mãe no hospital com cancro de mama porque uma professora insistia em escrever na caderneta escolar os seus consecutivos esquecimentos. Longe de nós imaginar o que viria a seguir..e o que veio a seguir para mim funcionou com um gigantesco balde de água fria que consegui abalar completamente as minhas certezas como pai e como participe na educação dos meus filhos.

 

No dia a seguir encontramos a caderneta do N. que desde a semana anterior tinha um pedido para os pais irem à escola devido a um assunto disciplinar. A mãe tentou apertar com ele e ele lá contou que durante o almoço em conjunto com dois colegas tinham entrado na sala e rasgado alguns dos livros dos colegas.

 

O mais curioso é que ele tinha referido o episódio cá em casa e pasme-se, até se tinha queixado que por culpa de quem tinha feito tal coisa, estavam todos sem recreio até descobrirem os culpados. Pelos vistos a professora tinha sido capaz de encontrar os culpados. É claro que é uma situação grave, mas é daquelas coisas que fazem parte de ter uma criança impulsiva e muito permeável às companhias. O problema é que a coisa não ficou por aqui.

 

No dia a seguir minha meia laranja foi falar com a professora.. o que ouviu não foi uma historia de doenças e hospitais, mas foi algo que fez com que a escola ponderasse chamar a comissão de protecção de menores. Como desculpa para o facto de os pais não aparecerem na escola, ele inventou uma historia que metia sovas com cintos que o deixaram marcado e quase sem conseguir andar...

 

Vamos por partes, o N. é uma criança impulsiva e que age sem pensar, é claro que de vez em quando leva umas palmadas, principalmente quando nos cansamos de repetir uma e outra vez a mesma coisa, houve uma vez há dois ou três anos em que o episódio foi mesmo grave e em que saquei o cinto e o ameacei com ele.. mas é evidente que nunca levou uma sova que deixasse marcas ou que passasse do que é realmente razoável.

 

Perceber que a escola esteve prestes a chamar a Protecção de menores devido à mentira contada por uma criança de 10 anos, deixou-me de rastos.. principalmente porque a mesma escola não se dignou a falar connosco, foi falar com as professoras do ano passado na outra escola, a averiguar da existência de indícios ou marcas de maus tratos, mas não se dignou a falar com os pais.

 

Eu sei que não sou um pai brando, sou especialmente exigente com ele, porque é uma criança impulsiva e influenciável, se calhar podia ser de outra forma, se calhar podia ter outro tipo de relação com ele, claro que sim... mas olhando para trás, só posso pensar que dadas as circunstâncias, duvido que as coisas fossem melhores se fossemos menos duros com ele.

 

Esta semana e ainda a propósito do livro o Fim da inocência, a Eugénia dizia o seguinte por email:

 


... Fez-me crescer e fazer escolhas. Mas, o respeito, a admiração e a consciência que eu tinha daquilo que os meus pais queriam e representavam para mim sempre falou mais alto e hoje, não tenho dúvida nenhuma que aquilo que sou é fruto da educação que tive e das escolhas que fiz baseadas nessa mesma educação e nos princípios e valores que me foram incutidos.

 

Depois dos episódios desta semana, depois dos vários episódios com o fogo, depois de tudo isto, a verdade é que eu já não sei nada, o exemplo que tentamos dar cá em casa é que os colegas devem ser respeitados, que não aceitamos mentiras, que as coisas que não são nossas devem ser respeitadas.. mas a verdade é que neste momento me sinto de mãos atadas. Não quero educar os meus filhos pelo medo, não quero que eles façam ou deixem de fazer as coisas porque têm medo das consequências.. mas por outro lado, já não sei até que ponto o mundo actual e tudo o que rodeia pais e filhos permite que eles se centrem nos exemplos e nos princípios que damos em casa... principalmente quando temos filhos que fazem tudo para agradar ao grupinho.. mesmo que isso implique a destruição de material dos colegas.

 

Sinto-me perdido... como pessoa e como pai, se calhar a minha meia laranja tem razão, eu deveria ler mais vezes o que aqui escrevo.. coisas como esta:

 

"Infelizmente muitas pessoas pensam que disciplina é sinónimo de castigos. No entanto disciplina vem do termo latino Discere que significa aprender"

 

Perder

 

Perder é começar. A minha vida 
foi movimento em cerne opaco e frígido... 
E quando sei que este momento eterno 
em mim percorre sulcos, veias, sonhos, 
outro momento abraça-me o porvir — 
e desconheço a margem onde navegar, 
onde aportar o peso do caminho. 

Perder é começar. Por isso a ténue sombra 
desenha no sigilo os abismais instantes 
onde existiu, uma vez, qualquer destino exacto.

 

António Salvado, in "Na Margem das Horas"

 

Jorge Soares

publicado às 22:12


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