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Conto, A sentença do fogo

por Jorge Soares, em 15.01.11

 

Justiça
Imagem de aqui

 

- “Padre: me dê a dissolvição”.
O padre Ludmilo nem corrigiu. Se fosse a corrigir, disse ele mais tarde, teria que corrigir não a frase mas o homem. Pois, o visitante embriaguava a completa mistura da língua, aos tropeços nas rezas: ““patrão nosso que estais no Céu, o pão vosso de cada dia, Deus seja lavado”“.
Era um delituoso, se via pelo aspecto. Se dispunha na sagrada casa de Deus cheio de sem-maneiras, desacatador. Enquanto amolecia conversa, o padre espreitava o confessionista. E reparou a catana presa na botifarra do jovem bandido.
Mas o pecador não estava só. À entrada, em contraluz, se via o contorno de um outro foragido. A pele desse outro parecia ser clara, seus cabelos aparentavam carapinha mas de mulato. O padre Ludmilo não lhe podia enxergar o rosto.
Em contrapartida, distintas eram as façanhudas feições deste que se joelhava à sua frente. Distintos não eram, porém, seus ditos: “Deus é bonito de não lhe vermos, Padre. Mesmo eu estou negar de ir para o Céu para não sofrer desilusão”. Dizia e redizia os díspares disparates. E juntava mais ímpias dicções:
- “Problema de Deus, com devido respeito, é dormir encostado no rabo do Diabo”.
O que queria afinal o mautrapilho, botifarrista? O Padre nem parecia se interessar. Bocejou, fatigado. Aquele homem se resumia num amante da desordem, autor de matanças e massacres. Seu coração nunca fora mobilado, nem seu nome conhecera chamamento carinhoso.
- “A Igreja, antes, me faria medo, Padre. Parecia sítio que dá doença imediata.
- “Doença?
- “Sim, as pessoas entram e logo-logo fraquejam das pernas. Até caem de joelhos”.
Ludmilo somente fingia atenção. Hoje em dia, basta alguém saber escutar para fazer vezes de padre. Afinal e porém, o salteador vinha ali pedir o indevido perdão, nem que fosse à custa de ameaça.
- “Padre: não é ingresso no Céu, não. Quero é ser transferido no inferno”.
Que ali, naquele inferno terrestre, ele já não podia permanecer, familiar dos bichos, num berro sem saída. Pois, nem já se sabia: ele era um fora-da-lei ou um da lei-de-fora?
- “Mesmo eu já fui prometido a aminhistia, ou minitia ou tia de não sei quem. Prometeram, Padre. Bastava eu me entregar com minha arma.
O sacerdote permanecia boquifechado, exemplo de religioso não praticante, servidor de Deus a tempo parcial.
- “Está-me ouvir, senhor Padre?”
Acenou que sim, simplesmente meditava, infeliz contemplado em troca de segredos com Deus. Disse que a ligação com o Paraíso estava difícil, causa das interferências dos disE aros da guerra. O moço que procedesse à devida confissão, sem saltar nenhum tintim.
O bandido avançou então a lista de compridos crimes, em sanguechuva. Nem o Padre imaginava como a maldade pode ser criativa. Por exemplo, como com um só pilão se pode matar toda a família: o velho batido com o pau, a mãe obrigada pilar o próprio filho e, no enfim, a mãe violentada até ao derradeiro desfalecer. No fim da confissão, o Padre estava de cabeça baixa, parecia dormitoso, indiferente.
- “Padre?”
Ludmilo levantou lentamente a cabeça: em seu rosto rebrilhava a lágrima. A voz, quando lhe veio, já tinha subido paredes húmidas:
- “Não te posso perdoar, meu grande cabrão”.
O mautrapilho, primeiro, se admirou. Choveram mais insultos, o sacerdote perdera as estribeiras. O bandido, passada a surpresa, se ofendeu. Levantou-se, espreitou pelo postigo como que a confirmar o Padre. Depois, empurrou a janela do confessionário até fazer saltar as dobradiças.
- “Me chamaste o quê? Repete!”
E as mãos se prendiam à sotaina, levantando o Padre pelos goelos. No ar brilhou a repentina cintilação de uma catana.
- “Vais me perdoar ou eu te separo em postas”.
O Padre balbuciou algum latim. O bandido lhe encostou o hálito ao nariz e perguntou:
- “Disseste o quê?
- “Falei latim, língua dos anjos.
- “Fala outra língua, os anjos são todos brancos, não quero dividir língua com eles.
- “Põe o Padre no chão ou te ferro um tiro!”
Era a voz vinda da porta, o outro bandido falava de arma apontada. O negro abrandou as ameaças, soltando o religioso. Ficaram-se olhando, sem nenhum entendimento. O visitante rodou sobre si, foi saindo com modos lentos, acertando o corpo com o eco de seus próprios passos. De repente, o Padre chamou:
- “Chega aqui, meu filho. Quero-te falar uma coisa”.

O bandido voltou atrás, mão no cinturão. Seu olhar reganhara a arrogancia, ele era, de novo, dono de me-dos alheios.
- “É o quê, senhor Padre?
- “É que temos falta de comida para distribuir aqui na missão. Fazia falta uns sacos de milho, não arranjas por aí nada?”
O bandoleiro estranhou. Depois, largou uma ampla risada: arranja-se, sim senhor. Aproximou-se para que ninguém mais o escutasse:
- “Deixa só passar o primeiro camião. Desses que trazem donativos”.
E saiu, junto com o outro. O Padre, em trejeito risonho, virou os olhos para cima e disse:
- “Desculpa, meu Pai”.
O sacristão que escutara estes últimos diálogos se chegou ao Padre. Seus olhos lhe interrogavam. Como era possível ele se ligar a tal gente, encomendar crimes a um larápio? Ludmilo ignorou explicação e se encaminhou para a sacristia. O sacristão, chorando, lhe segurou pelas vestes:
- “Padre, responda! Como pode encomendar coisas roubadas ao pobre povo?”
Ludmilo parou, rodou para encarar o moço. Parecia querer responder, mas se fechou em silêncio. O Padre prosseguiu o caminho interrompido, passando pelo altar sem deitar ao chão os devotos joelhos.
O sacristão se recolheu atónito, sangrando os mais tristes pensamentos. Como podia o Padre ter solicitado o favor de produtos furtados, frutos do mais hediondo crime? Com certeza, parte daquilo de que ele já se servira na Igreja provinha de iguais indecências. Nos seguintes dias se romoeu: precisava falar com Ludmilo, lhe pedir a fraqueza da franqueza.
Mas o Padre evitava encontrar-se com ele. Uma tarde, o sacristão procedia a suas orações quando o mesmo bandido deu entrada na sacristia. Vinha só, malcheirento. O miúdo estremeceu em impotente ódio. O Padre se encaminhou para o visitante, cumprimentaram-se. O bandido entregou um saco:
- “Estão aqui as coisas. Está ver? Não esqueci!”
O Padre agradeceu e mastigou alguma conversa. O sacristão nada pôde escutar. Certamente, o Padre extravagava, nessa inacreditável cumplicidade com as forças do Mal. O assassino, então, se decidiu retirar. Queria aproveitar o caminho estar deserto, nem vivalma com ele se cruzara. O Padre lhe aconselhou que, antes, prestasse homenagem defronte ao altar. O outro acedeu, a catana roçando o chão em metálicas estridências. Ludmilo se encaminhou para as pesadas portadas e abriu-as de rompante.
Foi um estremecer do mundo. Vozes e alaridos deflagraram, em fracção de nada. Lá fora uma multidão se apinhava reclamando justiça contra o maufeitor. O sacristão se benzeu, desfalecido em medo. O bandido se rebuliu, em terrores. Correu para o Padre, lhe implorou protecção. Nas mãos do povo sua vida se extinguiria em sopro de vela. O Padre pousou as mãos sobre os ombros do desordeiro:
- “Vem comigo, não receies. Eu não deixo que te façam mal!”
E assomando à porta, trazendo o maufeitor pelo braço, o sacerdote levantou um gesto para calar as fúrias. Vazou-se um silêncio. As palavras de Ludmilo se anunciavam a esmorecer os arrebatamentos:
- “Irmãos, lembrai-vos dos ensinamentos de Cristo, nosso redentor!”
E sempre avançando para o interior da concha humana, continuou relembrando a lição de Jesus, seu exemplo de nobre justiça. De súbito, com um empurrão lançou o criminoso para o meio da multidão enquanto clamava, em sumária sentença:
- “Queimai-o!”
A enfurecida gente arremessou contra o condenado, batendo, pontapinhando, espirrando e cuspindo. O Padre entrou na igreja fechando a porta atrás de si.

 

 

Mia Couto,
Contos do nascer da Terra

Retirado de Contos de Aula

publicado às 21:04



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