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Conto: Desabafo

por Jorge Soares, em 22.01.11

Desabafo

Imagem de aqui

 

Jantar em um restaurante meia boca em algum lugar perto do centro da cidade. Ele, um cinqüentão lento, gordo e advogado sem grandes ambições, sentado de frente para ela, degustando o camarão ao alho que ela tanto detesta. Ela, dona-de-casa cheia de ambições, todas frustradas, sentada de frente para o ser que tem lhe proporcionado intensos momentos de reflexão que cessaram ao mesmo tempo que a atenção dele se desviou do camarão. Olham-se por uns instantes que passaram despercebidos por ele e intermináveis para ela. Ele começa: 

— Querida, eu... 

— Não, Alberto. Eu falo primeiro. 

— Mas... 

— Nada de “mas”, Alberto. Já está mais do que na hora de discutirmos nossa relação, nosso casamento. Nossos filhos já estão encaminhados na vida e está na hora de nós finalmente tentarmos encontrar nossa felicidade. Não sou feliz. Nunca fui. Você e seus camarões. Você e seus processos infindáveis. Você e seu cheiro de suor que beira o insuportável. Você e seu futebol aos domingos, pela televisão, é claro, já que você nunca se importou com sua própria saúde. Você e suas músicas clássicas. Você e suas risadas das Vídeo Cacetadas. Cansei, Alberto. Cansei de você. 

Ele, atônito, olha para ela. Ela continua: 

— Nunca quis me casar com você. Estudamos juntos, fomos namoradinhos nos tempos de colegial, mas jurei pra mim mesma que isso nunca iria adiante. E foi. Minha mãe pode até se remexer no túmulo, mas eu nunca a perdoei por isso. Por fazer minha cabeça, por me influenciar a casar com você. Nunca gostei de seus modos, dos seus amigos e até do seu trabalho. Você nunca quis crescer na vida, nem sei se tem capacidade para tanto. 

Ele estava roxo. Ela acrescenta: 

— Eu te odeio. E odeio essa nossa vida, essa minha vida. 

Ele, cor-de-abóbora: 

— Você quer divórcio? 

Ela, estupefata: 

— Divórcio? A essas alturas dos acontecimentos? Claro que não! O que minhas amigas iriam pensar? O que todos iriam pensar? Prefiro aceitar minha condição de esposa frustrada em todos os sentidos. Até o sexo era péssimo. Por que você não arranjou uma amante, hein? Seria tão mais fácil. Eu faria um escândalo básico e nos separávamos. Mas, não. Você sempre era cem por cento correto em tudo, Sr. Sabichão. Eu te desprezo. 

Ele, com olheiras, afrouxou o nó na gravata. Ela, cheia de si, pergunta: 

— O que você queria mesmo? 

— Quando? 

— Antes desse meu desabafo. 

— Eu gostaria que você me passasse o sal, por favor. 

E ele continuou comendo.

 

 

Maria Luiza Rovaris Cidade

 

Retirado de Releituras

publicado às 21:04


1 comentário

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De Rolando a 22.01.2011 às 23:03

O mínimo que posso dizer... é que adorei a narrativa. Já nem falo do conteúdo, que diz simplesmente que a realidade por vezes... é como o argumento de certos filmes; um começo trepidante, um arrastar até ao intervalo, um suspiro até às legendas finais.

Os actores desta fita? Bem... todos conhecemos alguns, certamente.

Um abraço, Jorge. Um excelente fim de semana para a casa arco-iris. Vai um moscatel ?

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