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Conto: Cama e mesa

por Jorge Soares, em 19.03.11

 

Cama e mesa

 

 

Maria Alice tinha uma maneira muito peculiar de escolher os seus homens. Acreditava que através da observação de como eles se portavam à mesa seria possível identificar os traços mais fortes de suas personalidades.

 
Assim, depois de alguns relacionamentos desfeitos por absoluta incompatibilidade, ela decidiu que seria mais criteriosa na escolha de seu próximo parceiro, mesmo que isso significasse um longo período de solidão. Aprenderia a ficar só.

Fiel a seus propósitos, não aceitava convites para sair que não incluíssem almoço ou jantar. Assim, já havia descartado vários pretendentes. Aqueles que tinham a inspiração de convidá-la para ir a um restaurante, eram contemplados com sua companhia. Vários encontros se sucederam, mas o processo de seleção era rigoroso:

Joel, por exemplo, era muito educado e respeitoso, porém não se demonstrava seguro na hora de escolher o restaurante, nem sequer o prato que pediria no menu. Típico homem que não tem firmeza nas decisões. Foi, então, reprovado nos quesitos segurança e autoconfiança.

Sandro, ao contrário, era extremamente decidido. Servia-se rapidamente e da mesma forma devorava sua refeição. Não se importava com sobras ou qualidade, queria mesmo era acabar logo com aquilo. Típico comportamento egocêntrico. Devia ser essa a maneira que se relacionava com os outros: descartáveis. Este foi descartado por egoísmo e falta de sensibilidade.

Marcos levou-a ao melhor restaurante da cidade, pediu os pratos mais caros e exóticos, reservou a melhor mesa e pediu o vinho mais fino. Veredicto: exibicionista.

Samuel parecia perfeito. Atencioso, havia esperado que ela se servisse, prestou atenção na sua conversa, comeu pouco e não misturou o arroz com o molho ou o purê. Seria o eleito, não fosse ele o marido de Sandra, que se servia sempre antes e invariavelmente ainda pegava o último pedaço de carne da mesa. “Ele não merece a mulher que tem”, concluiu em seus apontamentos.

Jean, vegetariano, foi dispensado sem comentários na porta do restaurante.

Muitos foram os candidatos e os perfis se repetiram. Poucos homens causaram boa impressão, raros foram os que tiveram uma segunda chance, mas nenhum até aquele momento a havia surpreendido.

Até que um dia, num restaurante qualquer, em um almoço qualquer, sentado à mesa ao lado, estava Jacques. Ela ainda não podia ver o seu rosto, da posição em que estava, mas apaixonou-se pelo modo como ele cortava a carne. Seu prato era limpo e organizado, e não havia pressa alguma em seus movimentos. Nada desviava a sua atenção.

Maria Alice, não resistiu e, levantando-se de seu lugar, pediu permissão para sentar-se junto a ele e fazer-lhe companhia durante o almoço. Nesse momento foi que percebeu quão belo ele era.

Jacques, então, colocou-se de pé, e apresentou-se enquanto gentilmente oferecia a cadeira para que a jovem se acomodasse.

Durante a conversa, ele revelou-se encantador e Maria Alice já não continha sua excitação. Estava deslumbrada com aquele homem e a maestria com a qual ele partia seu filé. A precisão dos cortes e o prazer que demonstrava a cada mordida eram fascinantes.

Alguns jantares se seguiram e ela já estava convencida de que finalmente encontrara seu par. Envolvida, a moça entregou-se tão rapidamente a sua paixão que não percebeu ser apenas mais uma conquista, apenas mais uma vitima de sua insanidade. E foi assim que acabou Maria Alice: esquartejada pelo seu amante.

 

Leonardo Colucci

 

Retirado de Recanto das Letras

publicado às 21:04


7 comentários

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De Leonardo Colucci a 19.03.2011 às 18:06

Caro Jorge, obrigado pelo destaque que destes ao conto Cama e Mesa. Pela quantidade que tens de seguidores ser publicado aqui passa a ser uma honra e uma bela oportunidade.
Obrigado e um abraço,
Leonardo Colucci
PS.: Gostei muito da foto que colocaste associada ao conto. Caiu bem.
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De Jorge Soares a 20.03.2011 às 22:48

Olá

Eu é que agradeço, o conto está muito bem escrito e merece todo o meu destaque. Parabéns pela excelente escrita.

Já coloquei o link para o teu blog .. espero que tenhas muito sucesso como escritor.

Jorge Soares
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De Marta M a 19.03.2011 às 21:02

Jorge.
Esta história deprime sob vários ângulos...
E o mundo e a vida já andam tão cinzentos.
A escrita e a trama são interessantes mas, tendo em conta a conjuntura...Pois podia terminar de forma mais positiva.
Mas compreende-se a mensagem que a atravessa.
Bom fim de semana
Marta M
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De Jorge Soares a 20.03.2011 às 22:50

Olá Marta

Eu vejo esta história como uma alegoria à nossa procura constante pela perfeição... procuramos, procuramos, nunca estamos satisfeitos..e terminamos por levar gato por lebre.. iludidos pelas aparências .. julgamos os livros pelas capas, quando temos é que ver o que vai por dentro.

Podia ter outro desfecho, é verdade... mas assim é mais real.

Boa semana
Jorge
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De in-perfeita a 19.03.2011 às 21:06

Li com curiosidade. Pensei que tinha outro desfecho. Mas é um final trágico, contudo realista e que passa uma mensagem sobre a vida.
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De Jorge Soares a 20.03.2011 às 22:51

Olá

É verdade, podia ter outro desfecho, mas a vida é mesmo assim, vivemos na ilusão da perfeição, julgamos tudo pela aparência, quando o que importa é o que vai por dentro..

Eu gostei muito...

Jorge
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De Anónimo a 20.03.2011 às 20:16

“Chouriços”

Tenho pr’a dar e vender
Mas não vendo nem dou
Que isto era do meu avô
Se é que me faço entender

Façam como ele também
Esgatanhem-se a trabalhar
Para alguma coisa juntar
Ele fê-lo como ninguém

Não se deixem enrascar
Levem a água ao moinho
Para os grãos estilhaçar

Faz-se pão bebe-se o vinho
Que isto é só pr’a começar
E por fim um chouricinho.

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