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Conto, Onde estás Lolita?

por Jorge Soares, em 16.04.11



Sábado. Há já alguns dias que deixo entreaberta a porta do meu quarto, enquanto escrevo, mas só hoje a armadilha funcionou. Com muito mais nervosismo, evasivas e rapapés do que é habitual - para disfarçar o embaraço que lhe causava visitar-me sem ser convidada -, Lo entrou e, depois de meter o nariz aqui e ali, interessou-se pelos rabiscos de pesadelo que eu acabara de traçar numa folha de papel. Oh, não, não eram obra de um inspirado beleletrista, numa pausa entre dois parágrafos! Eram os horrendos hieróglifos (que ela não podia decifrar) da minha fatal concupiscência. Quando a Lo inclinou os caracóis castanhos para a secretária à qual estava sentado, Humbert, o Rouco, enlaçou-a, numa triste imitação de parentesco consanguíneo. Ainda a observar, com olhos um pouco míopes, a folha de papel que segurava, a minha inocente visitinha deixou-se escorregar para uma posição de meio sentada, no meu joelho.

O seu adorável perfil, os seus lábios entreabertos e o seu cálido cabelo estavam a uns oito centímetros dos meus arreganhados caninos, e eu sentia o calor das suas pernas, através do tecido áspero das roupas de maria-rapaz.

Compreendi, de repente, que lhe podia beijar, com absoluta impunidade, o pescoço ou o canto dos lábios. Sabia que ela consentiria e até fecharia os olhos, como Hollywood ensina. Um sorvete duplo de baunilha com creme quente de chocolate - seria algo pouco mais invulgar do que isso. Não sei dizer ao meu erudito leitor (cujas sobrancelhas desconfio que, nesta altura, já se devem ter arqueado até à nuca da sua cabeça calva), não lhe sei dizer como adquiri tal conhecimento; talvez o meu ouvido de macaco tivesse captado inconscientemente qualquer ligeira modificação no seu ritmo respiratório - pois, entretanto, ela deixara de examinar os meus gatafunhos e aguardava, com curiosidade e compostura - oh, minha transparente ninfita! -, que o seu fascinante hóspede fizesse o que estava mortinho por fazer. Calculei que uma garota moderna, ávida leitora de revistas cinematográficas e perita em close-ups lentos como um sonho, talvez não achasse muito estranho que um amigo adulto, interessante e intensamente viril... Tarde de mais. A casa vibrou subitamente com a voz da gárrula Louise, a comunicar a Mrs. Haze que ela e Leslie Tomson tinham encontrado não sei o quê de morto na cave, e a pequenina Lolita não era pessoa para perder semelhante história.

Domingo. Mutável, mal-humorada, alegre, desajeitada, graciosa com a graciosidade picante da sua subadolescência inexperiente -, dolorosamente apetecível da cabeça aos pés (toda a Nova Inglaterra pela pena de uma escritora!), do laço preto, já feito, e dos ganchos que lhe prendiam os cabelos à pequena cicatriz da parte inferior da barriga da perna perfeita (onde um patinador a atingira em Pisky), uns cinco centímetros acima do grosso soquete branco. Foi com a mãe a casa dos Hamiltons - uma festa de anos ou coisa parecida.

Vestido de saia rodada, de tecido de algodão às riscas. As pombinhas dos seus seios parecem já bem formadas. Precoce armadilha!

 

Segunda feira. Manhã chuvosa. «Ces matins gris si doux...» O meu pijama branco tem um desenho lilás nas costas. Sou como uma dessas pálidas e inchadas aranhas que se costumam ver nos velhos jardins. Instalada no meio de uma teia luminosa e dando puxõezinhos a este ou àquele fio. A minha teia está estendida por toda a casa, enquanto eu escuto na minha cadeira, na qual estou sentado como um manhoso feiticeiro. A Lo estará no seu quarto? Suavemente, puxo a seda da teia. Não está. Ouvi há pouco o porta-papel higiênico emitir o staccato habitual, ao girar; e o meu filamento esticado não captou passos alguns, da casa de banho para o seu quarto.

Ainda estará a lavar os dentes (o único ato de higiene que Lo pratica com verdadeiro interesse)? Não. A porta da casa de banho acaba de bater; portanto, há que auscultar em qualquer outro ponto da casa a presença da bonita presa de cores cálidas. Deixemos um fio de seda descer a escada...

Certifico-me assim de que não está na cozinha - nem a bater com a porta do frigorífico, nem a gritar à sua detestada mamã (que, suponho, saboreia a sua terceira, arrulhadora e reprimidamente jovial conversa telefônica da manhã). Bem, tateemos e esperemos. Como uma aranha, deslizo em pensamento até à sala e encontro o rádio silencioso (e a mamã ainda a conversar com Mrs. Chatfield ou Mrs. Hamilton, em voz muito suave, toda ela corada e sorridente, protegendo o bocal do telefone com a mão livre, negando implicitamente que nega esses boatos divertidos acerca do hóspede, sussurrando em tom muito íntimo, coisa que a bem delineada dama nunca faz numa conversa cara a cara): consequentemente, a minha ninfita não está em casa! Saiu! O que eu supusera uma urdidura prismática mais não é, afinal, do que uma velha teia de aranha cinzenta, a casa está vazia, morta. E, de súbito, ouço o riso suave e doce de Lolita através da minha porta meio aberta: "Não diga nada à minha mãe, mas comi o seu bacon todo!" Já desapareceu de novo, porém, quando saio apressado do meu quarto. Onde estás, Lolita? O tabuleiro do meu pequeno-almoço, preparado com carinho pela minha senhoria, ri-se desdentado e sardonicamente, à espera de ser levado para dentro. Lola, Lolita!

 

Vladimir Nabokov

 

Retirado de Trapiche dos outros

 

publicado às 21:29


6 comentários

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De Anónimo a 17.04.2011 às 00:18

“Beirão”

Portugal é único no mundo
É uma pequeníssima nação
Irá manter-se em recessão
Esquece e bebe um Beirão

Ganha um Porsche amarelo
Nunca vi automóvel tão belo
Põe qualquer um no chinelo
Podes acelerar prego a fundo

Deixas a recessão a milhas
Esqueces este país sem alento
E passeias de cabelos ao vento

Vai por mim sócio que brilhas
O Porsche e o Beirão com gelo
Far-te-ão esquecer tanto camelo.
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De Anónimo a 17.04.2011 às 11:08

Primeiro contacto técnico do FMI

por FERREIRA FERNANDES

Hotel Tivoli? Daqui, do aeroporto, é um tiro... Então o amigo é o camone que vem mandar nisto? A gente bem precisa. Uma cambada de gatunos, sabe? E não é só estes que caíram agora. É tudo igual, querem é tacho. Tá a ver o que é? Tacho, pilim, dólares. Ainda bem que vossemecê vem cá dizer alto e pára o baile... O nome da ponte? Vasco da Gama. A gente chega ao outro lado, vira à direita, outra ponte, e estamos no hotel. Mas, como eu tava a dizer, isto precisa é de um gajo com pulso. Já tivemos um FMI, sabe? Chamava-se Salazar. Nessa altura não era esta pouca-vergonha, todos a mamar. E havia respeito... Ouvi na rádio que amanhã o amigo já está no Ministério a bombar. Se chega cedo, arrisca-se a não encontrar ninguém. É uma corja que não quer fazer nenhum. Se fosse comigo era tudo prà rua. Gente nova é qu'a gente precisa. O meu filho, por exemplo, não é por ser meu filho, mas ele andou em Relações Internacionais e eu gostava de o encaixar. A si dava-lhe um jeitaço, ele sabe inglês e tudo, passa os dias a ver filmes. A minha mais velha também precisa de emprego, tirou Psicologia, mas vou ser sincero consigo: em Junho ela tem as férias marcadas em Punta Cana, com o namorado. Se me deixar o contacto depois ela fala consigo, ai fala, fala, que sou eu que lhe pago as prestações do carro... Bom, cá estamos. Um tirinho, como lhe disse. O quê, factura? Oh diabo, esgotaram-se-me há bocadinho.
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De Anónimo a 17.04.2011 às 20:22

“Paraíso fiscal”

Tenho encontro c’a morte
E com os do fisco também
Assim não me vou dar bem
Era merecedor doutra sorte

Vou para um paraíso fiscal
Que é pr’a lá da vida eterna
Lá qualquer um se governa
Nunca ninguém se deu mal

Não digam à morte e ao fisco
Qual a minha nova morada
Assim não me cobram nada

E se um dia fôr descoberto
Com trezentos anos ou mais
Podem levar-me e aos metais.
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De xana a 17.04.2011 às 23:20

A Lolita está ali na cesta, na cozinha, à espera que eu a leve para a arrecadação para dormir com o Tigre, que aliás é o que vou fazer já de seguida!
bjks
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De Jorge Soares a 17.04.2011 às 23:24



Só tu Xana

Boa semana
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De xana a 18.04.2011 às 22:52

Só eu? Duvido que seja a única pessoa com uma caniche chamada Lolita, e um gato preto chamado Tigre. Não significa que sejam os dois ao mesmo tempo, mas eu tenho uma Lolita branca apaixonada por um Tigre negro.
bjks

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