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Requiem por uma máquina de escrever

por Jorge Soares, em 11.05.11

Requiem por uma máquina de escrever

 

Aposto que a maioria não se lembra quando foi a última vez que viu alguém a escrever à máquina, se calhar uma grande parte nem terá visto tal coisa. Eu lembro, há um ano atrás em Cabo Verde fui pagar uma conta da Meninos do Mundo a um despachante, após explicar ao que ia e ter entregue o dinheiro, o senhor pediu a um dos funcionários que me entregasse o recibo. Para meu espanto, este sentou-se em frente a uma máquina de escrever, colocou as folhas entre os rolos: original, papel químico preto e duplicados, acertou-as e após perguntar em nome de quem era... bateu o recibo à máquina.

 

Podem não acreditar, mas ouvir aquele som das teclas no papel foi como ouvir uma velha e conhecida melodia... e o meu espanto por aquilo que estava a presenciar passou para segundo plano quando a minha mente começou a viajar no tempo... anos, muitos anos para trás.

 

A minha era verde azeitona como aquela, mas muito mais pequena e portátil, completamente manual, escrevia muito bem, acompanhou-me durante os anos do liceu e  eu adorava escrever.  Por norma os meus trabalhos escritos eram sempre volumosos, lembro-me de um trabalho de história contemporânea sobre os partidos políticos com mais de 20 páginas.... alguém faz ideia o que era escrever 20 páginas à máquina? É claro que não dava uma décima parte dos erros que dou agora, e a escrita tinha que ser pensada, nas máquinas não há como voltar atrás, só há voltar a escrever desde o início da página.

 

Teria eu 16 ou 17 anos e escrevi uns artigos para uma revista, eram sobre a presença de Portugal nos mundiais de Futebol, no fim da segunda página descobri que tinha saltado um nome a meio... toca a escrever de novo, ia tão embalado que voltei a fazer o mesmo... e recomecei, e voltei a fazer o mesmo... aí decidi que já estava bom, dei a volta ao texto e fiz o senhor aparecer no fim da página. Num computador não tinha demorado mais de 5 segundos a corrigir o erro, ali levei de certeza mais de uma hora.

 

As máquinas de escrever tiveram a sua época, os computadores mudaram o mundo de muitas formas, uma delas foi na forma de escrever, mas não deixa de ser com alguma nostalgia que hoje li no El Mundo que fechou a última fábrica de máquinas de escrever que ainda existia. É difícil entender como mais de 20 anos depois da massificação do computador, dos processadores de texto e das impressoras, ainda existia esta fábrica na Índia, chamava-se Godrej & Boyce... Assim de repente, senti que perdi uma velha amiga, cúmplice de tantas coisas e de tantas ideias.... sabem uma coisa?, estou a ficar velho.

 

Já agora, se puderem leiam este conto : A Máquina, é fantástico.

 

Jorge Soares

publicado às 22:25


16 comentários

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De Sandra Cunha a 11.05.2011 às 23:23

Jorge, não és assim TÃO velho!

Eu também me lembro das máquinas de escrever. Mais precisamente, de escrever numa, durante a minha adolescências, textos e capítulos de livros que submeti depois à apreciação da Isabel Alçada (Se eu soubesse!!) :)

Ou serei eu que estou a ficar tão velha quanto tu? ;)
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:28

Sandra, estive a pensar, a última vez que utilizei a minha terá sido em 1986 ....já passaram 25 anos... ora, isso é muito tempo.. qualquer um fica velho num período assim.

Jorge
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De Existe um Olhar a 11.05.2011 às 23:44

Hoje também me fizeste lembrar a máquina pequena e cinzenta lá de casa. Nunca tive de fazer trabalhos com ela, mas divertia-me a escrever textos e o maior desafio era tentar escrever com os dedos todos, coisa que nunca consegui. Lembro-me também que naquela altura era uma coisa importante uma senhora ser dactilógrafa.
Como tu dizes fica uma certa nostalgia quando nos lembramos do tic tac das teclas muito diferente deste silêncio com que estou a escrever este comentário.
Bjs
Manu
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:32

Parece que há muita gente a ficar velha :-).. todo o mundo que comentou teve uma máquina ...e todos tem saudades... :-)

Jorge
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De xana a 12.05.2011 às 00:11

A minha vive enclausurada na sua mala há bastantes anos, já deve estar cheia de ferrugem, agora que me lembro... Não a utilisei por aí além, mas foi daquelas coisas que fiz questão de ser eu a comprar, por achar que a ia utilizar mais na escola e trabalhei um mês nas vindimas para a comprar. Já lá vão vinte e tal anos, e de vez em quando penso que a deveria vender num site de leilões, mas depois resolvo que fica de recordação para relembrar que nem sempre existiram computadores...
bjks
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:36

Ola Xana

Parece que todo o mundo teve uma,... e todos tem saudades...

Beijinho
Jorge
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De in-perfeita a 12.05.2011 às 00:42

Maravilhoso o conto a Máquina.
Passaram anos, ainda tenho a minha cinzenta que durante uns tempos foi usada pelo meu pai como hobby. Hoje até ele a colocou de lado. Porque não havia fitas. Agora encontrou no chinês, mas diz que as teclas fazem doer os dedos. Impressionante no computador basta tocar com a ponta da unha e nas máquinas era preciso mesmo carregar nas teclas.
O mundo evolui e é desejável que assim seja, mas é saudável recordar estes momentos que afinal foram vivenciados por todos nós. E como éramos felizes com aquelas máquinas pesadas ... relativamente à leveza dos portáteis hoje.
Às vezes penso que hoje somos todos tecnologia, mas no meio de uma catástrofe como sobrevivemos? Quantos se lembrariam que ainda tem uma máquina de escrever? Quantos conseguiam voltar a escrever cartas em vez de mails ou sms no telemóvel. Um dia pode acontecer... por isso é útil falar destes temas.
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:41

Olá amiga

Acho que o mundo evoluiu o suficiente como para não ter que voltar tão atrás... mas recordar é sempre bom, é sinal que já vivemos. escrever à ma´quina ensinou-me a ser cuidadoso com a forma como colocava as palavras.. o computador fez com que ficasse desleixado, é tão fácil que simplesmente nem reparamos.... mas a vida segue.. e a tecnologia evolui.. felizmente.

Beijinho
Jorge
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De Oficinas RANHA a 12.05.2011 às 01:06

Eu tinha uma especial apetencia para me enganar mesmo no final da página e para passar "horas" a passar de novo tudo o que tinha escrito. Não gostava muito de escrever à máquina por isso. Mas ainda a usei bastante, nem que fosse porque os trabalhos escolares eram todos passados à máquina de escrever. E eu terminei o curso "só" há 20 anos.
Afinal eu é que estou a ficar velha...
Ana Cristina

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De Ivete a 12.05.2011 às 01:30

Velhos,nós? Pois se a minha filha de vinte e quatro anos ainda usou a nossa velhinha Olivetti. Nã,nã... o mundo é que evoluiu demais nos últimos vinte anos.Pena que, em muitos aspectos parece que involuiu.
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De Kok a 12.05.2011 às 16:14

Ele há coisas...
Durante o fim de semana da Páscoa estive a "fazer umas arrumações" ( ao que a minha mulher chama outra coisa), e tive nas mãos a minha Olympia, portátil, de cor verde azeitona.
Já há muito tempo que a não via e nem sei quando foi a última vez que dela me servi.
Ainda tem a fita preta/vermelha (muito seca) mas ainda trabalha. Não resisti a experimentá-la!
Mudam-se os tempos, mudam-se os instrumentos (salvo seja...).

1 abraço pah!
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:57

Olá

Passa o tempo mas as recordações ficam... e pelos vistos a máquina de escrever é uma boa recordação para todos os bloguers .... o gosto pela escrita vem de longe para muita gente.

Mudam-se os tempos... mudam-se as coisas.. há gostos que ficam..e recordações.

Jorge
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De stiletto a 12.05.2011 às 22:42

Que saudades da minha velhinha máquina de escrever manual. Eu até fiz práticas administrativas na escola (no tempo em que havia trabalhos oficinais no 3º ciclo). Embora no 7º ano não tenha tido grande nota mas depois de comprar a máquina melhorou bastante. Serviu para trabalhos escolares e para escrever projectos de romances e poemas. A minha mãe ainda a guarda no meu antigo quarto. Qualquer dia vou experimentá-la Adorava escrever à máquina. E o som da mudança de linha?! Fantástico!
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:58

Hummm olha que a ti não-te dava idade de teres tido máquina de escrever :-)
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De Maria Eugénia Pinto a 12.05.2011 às 23:12

Ah pois é meu amigo... Estamos mesmo a ficar velhos!!! Das coisas que tu te lembras! Eu fartei-me de escrever com máquina, aliás, tirei um curso de dactilografia! E, tive na escola, salvo o erro no 9º Ano, uma disciplina que se chanáva "Práticas Administrativas" em que uma das coisas que tinhamos que fazer era aprender a escrever á máquina!
Mas, falando em "velharias" um dia destes estáva com uns amigos a recordar quando faziamos o "nosso" jornal em "stencil". Alguém sabe o que isso é?
Beijinhos
Eugénia
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De Jorge Soares a 12.05.2011 às 23:58

Olá Eugénia.. estamos mesmo .... mas uma coisa é certa,.. tudo isto são boas recordações ..e o sinal que vivemos a vida.

Beijinho
Jorge

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