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Conto, Mais esquecido do esquecimento

por Jorge Soares, em 28.05.11

Mais esquecida do esquecimento

 

Ela deixou-se acariciar, silenciosa, gotas de suor na cintura, cheiro a açúcar queimado no corpo quieto, como se adivinhasse que um só o podia mexer nas suas recordações e deitar tudo a perder, esse momento em que ele era uma pessoa como todas, um casual que conheceu de manhã, outro homem sem história pelo seu cabelo de palha, a sua pele sardenta ou a grande chocada das suas pulseiras de cigana, um outro que a abordou na rua e desatou a andar com ela sem rumo preciso, a fazer comentários sobre o tempo ou o tráfego e observando a multidão, com aquela confiança um pouco forçada dos compatriotas em terra estranha, um homem sem tristeza, nem rancores, nem culpas, límpido como o gelo, que desejava simplesmente passar o dia com ela a vaguear por livrarias e parques, tomando café, celebrando a sorte de se terem conhecido, falando de nostalgias antigas, de como era a vida quando ambos cresciam na mesma cidade, no mesmo bairro, quando tinha catorze anos, lembras-te, os Invernos de sapatos molhados pela geada e os aquecedores de petróleo, os Verões de pêssegos, lá no país proibido. Talvez se sentisse um pouco sozinha ou lhe parecesse que era uma oportunidade de fazer amor sem perguntas e por isso, ao fim da tarde, quando já não tinha mais pretextos para continuar a caminhar, ela pegou-lhe na mão e levou-o a casa. Partilhava com os outros exilados um apartamento sórdido, num edifício amarelo no fim de uma ruela cheia de latas de lixo. O seu quarto era estreito, um colchão no chão coberto com uma manta às riscas, prateleiras feitas com tábuas apoiadas em fileiras de tijolos, livros, cartazes, roupa sobre uma cadeira, uma maleta a um canto. Foi ali que ela tirou a roupa sem preâmbulos, com atitude de menina complacente.

 

Ele fez por amá-la. Percorreu-a com paciência, resvalando pelas suas colinas e ribanceiras, abordando sem pressa os seus caminhos, amassando-a, suave argila sobre os lençóis, até que ela se entregou, aberta. Então ele recuou com muda reserva.

 

Ela voltou-se para o procurar, esquecida sobre o ventre do homem, escondendo a cara, como que empenhada no pudor, enquanto o apalpava, o lambia e o fustigava. Ele quis abandonar-se de olhos fechados e deixou-a fazer por um instante, até que a tristeza o venceu, ou a vergonha, e teve de a afastar. Acenderam outro cigarro, já não era cumplicidade, tinha-se perdido a antecipada urgência que os unira durante esse dia, e só ficavam sobre a cama duas pessoas desvalidas, com a memória ausente flutuando no vazio terrível de tantas palavras caladas. Ao conhecerem-se nessa manhã, não ambicio-naram nada de extraordinário, não tinham pretendido muito, apenas um pouco de companhia e um pouco de prazer, nada mais, mas na hora do encontro foram vencidos pelo desconsolo.

 

Estamos cansados, sorriu ela, pedindo desculpa por aquele peso instalado entre os dois. No último esforço de ganhar tempo, ele tomou a cara da mulher entre as mãos e beijou-lhe as pálpebras. Estenderam-se lado a lado, de mão dada, e falaram das suas vidas naquele país onde se encontravam por casualidade, um lugar verde e generoso onde, no entanto, seriam sempre estrangeiros. Ele pensou em vestir-se e dizer-lhe adeus, antes que a tarântula dos seus pesadelos lhes envenenasse o ar, mas vendo-a jovem e vulnerável quis ser seu amigo. Amigo, pensou, não amante, amigo para partilhar alguns momentos de sossego, sem exigências nem compromissos, amigo para não estar sozinho e para combater o medo. Não decidiu partir nem soltar-lhe a mão. Um sentimento cálido e brando, uma tremenda compaixão por si mesmo e por ela fez-lhe arder os olhos. A cortina enfunou como uma vela e ela levantou-se para fechar a janela, imaginando que a obscuridade os podia ajudar a recuperar as forças para estarem juntos e o desejo de se abraçarem. Mas não foi assim, ele necessitava desse reflexo da luz da rua, para não se sentir apanhado de novo no abismo dos noventa centímetros sem tempo da cela, fermentando nos seus próprios excrementos, demente. Deixa a cortina aberta, quero ver-te, mentiu-lhe, porque não se atreveu a confiar-lhe o terror da noite, aquando o venciam de novo a sede, a ligadura apertada na cabeça como uma coroa de espinhos, as visões de cavernas e o assalto de tantos fantasmas. Não podia falar-lhe disso, porque uma coisa leva a outra e acaba por se dizer o que nunca se disse. Ela voltou para a cama, acariciou-o sem entusiasmo, passou-lhe os dedos pelas estranhas marcas, explorando-as. Não te preocupes, não é nada contagioso, são só cicatrizes, riu ele quase num soluço. A rapariga percebeu o seu tom angustiado e deteve-se, o gesto suspenso, alerta.

 

Nesse momento, ele devia dizer-lhe que aquilo não era o começo de um novo amor, nem sequer de uma paixão passageira, era apenas um instante de trégua, um breve momento de Inocência, e que dentro em pouco, quando ela adormecesse, ir-se-ia embora; devia dizer-lhe que não haveria planos para eles, nem telefonemas furtivos, não deambulariam juntos outra vez de mão dada pelas ruas, nem partilhariam jogos de amantes, mas não conseguiu falar, a voz ficou-lhe agarrada ao ventre como uma garra. Soube que se afundava. Quis segurar a realidade que lhe fugia, ancorar o espírito em qualquer coisa, na roupa em desordem em cima da cadeira, nos livros empilhados no chão, no cartaz do Chile na parede, na frescura daquela noite do Caribe, no ruído surdo da rua; tentou concentrar-se naquele corpo oferecido e pensar apenas no cabelo espalhado da jovem, no seu cheiro doce. Suplicou-lhe sem voz que, por favor, o ajudasse a salvar aqueles segundos, enquanto ela o observava da ponta mais afastada da cama, sentada como um faquir, os claros mamilos e o olho do umbigo olhando-o também, registando o seu tremor, o bater dos dentes, o gemido. O homem ouviu o silêncio crescer no seu interior, soube que a alma se lhe partia, como tantas vezes lhe acontecera antes, e deixou de lutar, soltando a última amarra ao presente, caindo a rebolar por um desfiladeiro inacabável. Sentiu as correias enterradas nos tornozelos e nos pulsos, a descarga brutal, os tendões rebentados, as vozes a insultar exigindo nomes, os gritos inesquecíveis de Ana torturada a seu lado e dos outros, pendurados no pátio, pelos braços.

 

Que se passa, meu Deus, que se passa contigo?, chegou-lhe de longe a voz de Ana. Não, Ana ficou atolada nos pantanais do Sul. Julgou ver uma desconhecida nua, que o sacudia e o chamava pelo nome, mas não conseguiu desprender-se das sombras onde se agitavam chicotes e bandeiras. Encolhido, tentou controlar as náuseas. Começou a chorar por Ana e pelos outros.

 

Que se passa contigo?, a rapariga a chamá-lo outra vez, de qualquer parte. Nada, abraça-me!... pediu e ela aproximou-se tímida e envolveu-o nos seus braços, embalou-o como a um menino, beijou-lhe a testa, disse-lhe chora, chora, estendeu-o de costas sobre a cama e deitou-se crucificada sobre ele.

 

Ficaram mil anos assim abraçados, até que lentamente se afastaram as alucinações e ele regressou ao quarto, para se descobrir vivo apesar de tudo, respirando, palpitando com o peso dela a descansar no seu peito, os braços e as pernas dela sobre os seus, dois órfãos apavorados. E, nesse instante, como se soubesse tudo, ela disse-lhe que o medo é mais forte que o desejo, o amor, o ódio, a culpa, a raiva, mais forte que a lealdade. O medo é qualquer coisa total, concluiu, com as lágrimas a escorrer pelos seios. Tudo parou para o homem, tocado na ferida mais oculta. Pressentiu que ela não era apenas uma rapariga disposta a fazer amor por comiseração, que ela conhecia aquilo que se encontrava escondido mais para lá do silêncio, da completa solidão, mais para lá da caixa selada onde ele se tinha escondido do coronel e da sua própria traição, mais para lá da recordação de Ana Díaz e dos outros companheiros denunciados, a quem foram traindo um a um de olhos vendados. Como pode saber ela tudo isto? A mulher endireitou-se. O seu braço magro recortou-se contra a bruma clara da janela, procurando o interruptor às apalpadelas.

 

Acendeu a luz e tirou uma a uma as pulseiras de metal, que caíram sem ruído sobre a cama. O cabelo cobria-lhe metade da cara quando lhe estendeu as mãos. Também a ela, cicatrizes brancas atravessavam os pulsos. Durante um interminável momento, ele observou-as, imóvel, até compreender tudo, amor, e vê-la atada com as correias sobre a grelha eléctrica e então puderam abraçar-se e chorar, famintos de pactos e de confidências, de palavras proibidas, de promessas de amanhãs, partilhando, por fim, o mais recôndito segredo.

 

Isabel Allende in Contos de Eva Luna

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publicado às 19:21



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