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Há pessoas que não deviam morrer nunca

por Jorge Soares, em 23.08.11

Imagem do Existe Um olhar 

 

 

Acho que há muito não me custava tanto iniciar um post.... faltam-me as palavras, há coisas que são muito difíceis de colocar por palavras... porque há coisas que simplesmente não deveriam acontecer, posts que não devíamos ter que escrever.

 

Estava em Londres quando me fizeram chegar a noticia, o SMS apanhou-me a meio do dia.. liguei o telemóvel por acaso... e fiquei parvo a olhar para as palavras... O Rolando morreu no Brasil....  fiquei sem reacção.. não pode ser.... porra, e agora como vamos beber aquela garrafa de tinto alentejano?, como te vou explicar que naquele texto que me escreveste e que me deixou de lágrimas no olhos havia mais verdades que aquelas que podias saber ou adivinhar? 

 

A blogosfera tem-me deixado uma mão cheia de amigos, pessoas que dia a dia se vão tornando mais próximas, o Rolando era para além de um excelente escritor, uma excelente pessoa e um daqueles amigos que se instalam e são para sempre.... Morreu, teve o valor para enfrentar a vida e construir a sua felicidade, infelizmente esta não lhe deu a oportunidade de a gozar como merecia... o mundo, todos nós ficamos mais pobres ... perdemos um amigo, o mundo perdeu um excelente escritor... eu perdi a oportunidade de pagar uma promessa...... não é justo... 

 

O Rolando morreu, mas as suas palavras são eternas nos seus blogs e  nos nossos corações.

 

No SAPO: Entremares  no Blogspot : Entremares

 

A cor do coração

 

 - Mãe...

- Tu gostas muito de mim, não gostas?

- Se gosto? Mas isso nem se pergunta, meu amor... eu adoro-te.

- E a Joana?

- Também a adoro... muito, muito, muito...

- Mas eu cheguei primeiro... devias gostar mais de mim...

- Oh, Luisinha... como seria possível? Eu adoro as duas, vocês as duas são as coisas mais especiais da minha vida...

- Então... gostas o mesmo... de nós as duas?

- Gosto... gosto muito... e gosto o mesmo das duas...

 

( Silêncio )

 

- Sabes, mãe... lá na escola às vezes perguntam-me coisas... que não consigo responder...

- Sim, Luisinha? E que coisas?

- Tantas coisas... mas há sempre uma coisa que perguntam mais do que todas as outras...

- Sim, meu amor? E o que é?

- Querem sempre saber... porque é que eu sou de uma cor e a mana é de outra cor... não deveríamos ser ambas da mesma cor?

 

( Silêncio )

 

- Luisinha... chega aqui...

- Sim, mãe?

- Queria só mostrar-te uma coisa... estás a ver isto?

- Estou ... são aquelas duas blusas novas que tu compraste ontem... a branca e a preta...

- Sim... essas mesmas... fecha os olhos, quero que descubras uma coisa...

 

(...)

 

- Estás a sentir? Consegues senti-lo?

- Claro que sim, mãe... é o teu coração a bater... já me tinhas mostrado antes...

- Sim... mas agora é outra coisa que te quero mostrar... não abras os olhos, deixa-me só trocar...

 

(...)

 

- E agora? Continuas a senti-lo?

- Sim... está igual. É outra vez o teu coração.

- E não notaste nenhuma diferença, nem um pedacinho?

- Não... porquê? Já posso abrir os olhos?

- Já, querida, já podes...

 

(...)

 

- Mãe... trocaste de camisa? Para quê?

- Nada de especial, meu amor... foi só para ter a certeza que reconhecias o bater do meu coração...

- Mas o teu coração... é sempre o mesmo, mãe...

- Pois é... A cor da blusa é como a cor da pele, não é? Como é que eu não hei-de gostar de vocês as duas por igual? O coração é o mesmo...

 

( Silêncio )

 

- Mãe...

- Sim, meu amor?

- Estavas a falar da Joana, é isso? Da cor da pele dela, é isso?

A mãe sorriu.

 

- Não meu amor...da cor da pele, não... da cor do coração.

 

 

Rolando Palma 

 

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publicado às 22:30


4 comentários

Sem imagem de perfil

De lagoa_azul a 23.08.2011 às 23:51

Jorge,

Ao ler o seu post de hoje, pela primeira vez em tantos anos de bogosfera chorei.

Eu sou uma criatura que gosta de passar calmamente pela vida, sem grandes desassossegos, contudo estas ultimas semanas têm sido difíceis.

Fazer uma homenagem a um amigo mesmo que virtual já custa, custa muito mais pela violência da sua morte, alguém que tira os sonhos de outrem, quem tudo fez apenas para ser feliz, e passados poucos dias enfrentar outra violência de uma familiar que tira os seus próprios sonhos e a vida.

Difícil esta condição de ser humana, e não importa nada mesmo a cor da camisola.


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De Existe um Olhar a 24.08.2011 às 10:42

Eu continuo sem palavras e triste, muito triste
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De DyDa/Flordeliz a 25.08.2011 às 15:56

Impossível passar indiferente.
Custa acreditar e aceitar.
Continua a sorrir-nos em cada foto, no facebook, por aí e chegam até nós as suas palavras.
Como se fosse mais uma das suas histórias, mais um conto...
- Uma paragem, apenas um interregno...

Bela escolha a tua.
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De Kok a 26.08.2011 às 17:49

Conheci-o! Nunca o olhei nos olhos, mas conheci-o.
Nas suas palavras escritas
que transmitiam emoções
lutas, fantasias e pensamentos,
amor, alegria e também lamentos!

Também fiquei sem palavras e também, como tu, disse-as escrevendo o que senti.

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