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Professor

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Ontem foi dia reunião de pais cá em Setúbal, e posso assegurar que foi das coisas mais surreais em que já me calhou participar.

 

Mal me sentei reparei que duas das alunas da turma estavam na primeira fila, fiquei a pensar o que estariam elas ali a fazer, mal sabia eu que aquelas duas crianças devido à sua inocência e sinceridade, iam ser as protagonistas principais da reunião. Mas seu eu já estava espantado por elas ali estarem, fiquei de boca aberta quando a directora de turma em lugar de dar inicio à reunião, as chama ao quadro e lhes ordena que expliquem aos pais quais tinham sido as actividades do período.

 

Ou seja, senhora professora que estava ali para ter a reunião com os pais, delegou nas delegadas de turma, estamos a falar do sétimo ano, as informações aos pais. As pobres crianças lá fizeram o seu trabalho e a coisa nem estava a correr muito mal, até que quando elas se iam sentar, a professora lhes diz:

 

-Falta falarem sobre como tem sido o comportamento disciplinar.

-Pois.. o comportamento neste período, foi mau

-Mau como? - pergunta um dos pais.

-Mau, ... há um grupo de alunos que fala muito nas aulas

-Mas isso é em todas as aulas?

-Não, há aulas em que se portam bem.... outras em que se portam mais ou menos..e outras em que se portam mal e interrompem.

 

Aqui a coisa começou a aquecer, há pais que perguntam sobre o comportamento dos seus filhos e gera-se algum diálogo com as pobres miúdas.. até que se chega ao caso especifico da aula de matemática, e que alguém pergunta:

 

-Mas afinal como é que é na aula de matemática?

- A aula de matemática é onde se portam pior

-Mas é pior como? quem é que manda na aula de matemática?

-Muitas vezes quem manda são os alunos.

 

Aqui a professora deve ter percebido que a coisa tinha chegado longe demais, mandou sentar as miúdas e tentou mudar de assunto, mas o mal estava feito e  com os pais a tentarem perceber o que se passava, gerou-se um diálogo, com a professora sempre numa atitude de sobranceria evidente e a não disfarçar nada que ter pais preocupados e a questionar, era uma chatice.

 

Eu não sei os outros, mas eu não percebi nada, ante a questão sobre o que se estava a fazer para melhorar a situação, a resposta foi:

-Nós mudamos o mapa da sala várias vezes, os pais em casa tem que educar os seus filhos.

 

Ora muito bem, eles tem uma turma com problemas de disciplina.. e a solução é mudar o mapa da sala...

 

Eu tinha ideia que o papel da directora de turma é entre outras coisas, o de servir de ponte entre a escola e os pais, pelos vistos esta senhora acha que só ali está para distribuir as folhas com as notas, os problemas, a indisciplina dos alunos, o mau aproveitamento, os conflitos entre os colegas dela e os alunos, as questões dos pais, é tudo uma enorme chatice e ela não está para se chatear, quem tem que resolver as coisas é a direcção da escola, não ela....

 

Depois de uma discussão acalorada com um dos pais que tentou perceber porque é que o filho tem pouco aproveitamento quando sempre foi bom aluno, a senhora lá conseguiu prosseguir a reunião, passou uns cinco minutos a ler a acta da reunião de turma e distribuiu as fichas dos alunos

 

No fim, quando a senhora já se preparava para nos mandar embora, a questão do comportamento voltou, eu e vários outros pais a mostramos a nossa preocupação com a situação do comportamento nas aulas de matemática e a professora voltou a adoptar uma atitude de sobranceria, a responder com maus modos e a descartar-se completamente do problema.

 

Quando lhe fizemos notar que se os alunos se portavam bem nas aulas dela e de outros professores, talvez o problema não fosse só das crianças, a resposta foi: Eu não tenho nada com isso, é um problema entre a direcção da escola e a colega! ... quando eu questionei o que se estava a fazer para resolver a situação, a reposta foi, "Eu não sei , a direcção é que sabe!".

 

Ora, uma das principais queixas dos professores é que os pais não se interessam, esta apanhou com uma turma inteira de pais interessados... e hoje no rescaldo da reunião, disse aos alunos que isso era uma chatice, que para o ano não quer ser directora desta turma, só da outra em que os pais não questionam nem dão chatices.

 

Resta dizer que estamos a falar da escola com melhor ranking do distrito de Setúbal... soubessem as vezes que já nos arrependemos de ter mandado para lá a pobre miúda. Esta é a escola que temos.

 

Jorge Soares

 

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publicado às 22:25


17 comentários

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De Susana Carvalho a 17.04.2012 às 23:41

Portugal e os portugueses... está tudo a descambar.
Já ninguém assume responsabilidades, já ninguém se interessa em ajudar ou resolver ou educar...
Como é que é possível educar em condições a próxima geração? Eu assim não sei... fazer o melhor que se pode e esperar pelo melhor? Isso infelizmente não chega, se à nossa volta é só gente demente...
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:30

É muito mau quando estas coisas acontecem na escola, porque se já não podemos confiar na escola e nos professores, o que nos resta?

Jorge
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De Spawn a 17.04.2012 às 23:42

Pois é... esta escola que temos tem que ser construída por todos e para todos. Não é só para os que não dão problemas.
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:39

Ora lá está.. tocou na ferida, há muita gente nas escolas que acham que as crianças deviam ser todas formatadas, iguais, sem problemas... felizmente a natureza é muito mais sábia que isso e elas são todas diferentes.

Jorge
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De Maria Eugénia Pinto a 17.04.2012 às 23:52

Olá
Por acaso nesse aspecto acho que o meu filho teve sorte. A DT é uma excelente pessoa, uma óptima professora e muito interessada em resolver os problemas. O grande problema ali é mesmo a Direcção de Escola! Aquele Director é de bradar aos Céus... tem umas teorias e umas politicas que consegue deixar tudo em estado de sitio! Por enquanto as coisas não estão a correr muito mal embora tivessem piorado este período, mas, cheira-me que ste estado de semi-graça não vai durar muito tempo... A ver vamos!!!
É a Educação que temos nos País que temos
Beijinhos
Eugénia
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:40

Olá Eugénia

É triste que a educação dos nossos filhos dependa da sorte ... não é?

Jorge
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De aespumadosdias a 18.04.2012 às 00:53

Uma história estranha passada numa escola portuguesa.
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:43

É mesmo estranho... não fosse eu ser um dos protagonistas e também tinha dificuldade em acreditar
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De Sofia a 18.04.2012 às 12:06

Infelizmente isso não é só em Setúbal espalha-se um pouco por todo o lado.
Eu tenho uma escola em que o problema é nas aulas de inglês...Mas a quem compete solucionar o problema não está pra grandes chatices.
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:45

Olá Sofia

Parece que agora ninguém está para se chatear.. se o professor é mau, se não consegue impor respeito disciplina, se os alunos se portam bem ou mal.. já nada importa... é essa a imagem com que cada vez mais fico.

É triste, porque os nossos filhos é que pagam.. com o seu futuro.

Jorge
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De Ladrão de Açucar a 18.04.2012 às 14:30

Olá Jorge. Só por mera coincidência ; ontem também ouvi da boca da DT da minha filha que " a direcção da escola tem conhecimento de uma situação de bulling na turma e qualquer coisa que surja para falar com eles".
Quanto ao comportamento dos miudos acho que os profs só conhecem a "doença do falanço"; desde o 1º ano que oiço sitemáticamente que os miudos quer tenham bom ou mau aproveitamento falam sempre muito e portam-se mal. e que os pais tem de corrigir esta situação em casa. Poucos são os prof que tentam dar a volta á situação.
A sensação que tenho neste momento é que a escola não promove a participação dos pais na vida dos alunos porque isso dá trabalho e chatices. Já basta ter de aturar os miudos, quanto mais os pais!
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:47

Olá

Acho que há muita gente que já não está para se chatear... e quem paga são os nossos filhos... e assim se hipoteca o futuro.

Jorge
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De Portuga Sofredor a 18.04.2012 às 15:42

Pelos comentários que aqui são editados, parece que é só ao nível das escolas e dos miúdos que a frequentam e não é assim.
É a todos os níveis da vida nacional.
Senão vejamos:
Já repararam no que se passa na maioria dos condomínios ? Puuuuffff... e aqui, não são os miúdos, são os graúdos.
Já repararam no estacionamento abusivo, nas nossas ruas, passeios etc...?
Já viram as claques de futebol...?
Já estiveram num guiché a pedir informações e chegar um(a) utente e dizer com licença que estou com pressa !

Já ? Então, a Escola, não é mais que um pálido reflexo de toda esta gentuça !
Por isso, os Profs., estão a marimbar-se para o tempo gasto em "educar" a animalada, é que não funciona.
Atenção, não sou e nunca fui Prof., (felizmente) sou só um observador.
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:49

É verdade.. o problema é cada vez mais transversal... mas é nas escolas que tudo começa... e é ali que se deve ensinar civismo... infelizmente parece que há muita gente que simplesmente abdica dessa responsabilidade.. temo pelo futuro da nossa sociedade.

Jorge
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De lagoa_azul a 18.04.2012 às 16:30

Olá Jorge,

Coitadas das miúdas, então agora elas é que vão ter que explicar comportamentos dos colegas?! Como se cada um dos pais presentes não soubesse o que a casa gasta.

E a professora estava a achar bem ter que ser as miúdas a desenvolver o assunto com os pais?! A perspetiva das colegas é sempre diferente daquela que tem os professores.

Essa reunião não teve ponto de ordem de trabalhos, e segundo contas nem teve (quase) ponta por onde se pegasse.

Recordo as reuniões na escola do meu filho e desde sempre estavam presentes, quase todos os encarregados de educação, e mesmo já no final do secundário, só não compareciam à reunião os encarregados de educação que por algum impedimento não conseguissem estar naquele dia aquela hora, e eram bem poucos.

Não tenho muitas queixas dos professores que passaram pela vida escolar do meu filho, nem tao pouco da parte da direção escolar, provavelmente prende-se com o facto se ter sido sempre a representante de pais e encarregados de educação da turma, foi do género de uma herança desde a escola básica e prolongou-se pelo secundário pois basicamente a turma era constituída pelos mesmos alunos.

No entanto recordo-me de duas ou três histórias mais graves. Uma delas envolveu o meu filho A. Foi acusado pelo professor de português no 8º ano de terrorista, dizia ele que o A incitava os colegas de turma a revoltarem-se contra ele porque repetidamente dizia que não percebia o que estava a ser dado.

O A. explicou-me que o método de ensino dele era tao à frente que ele não conseguia apanhar a matéria, pois o professor dava a aula através de slides projetados na parede, explicava a matéria e perguntava por dúvidas na hora, e avançava.

Só o meu filho se queixava ao professor que não entendia a matéria e achava que isso se devia à forma como era dada, o resto da turma mantinha-se em silêncio, mas quando terminava a aula todos assumiam que não percebiam o que estava a ser ensinado.

Isto passou-se perto do final do primeiro período. Depois de reunião com a diretora de turma, o professor de português, eu própria e o meu filho, obriguei-o a fazer um esforço para aceitar o novo método, acompanhar a matéria e tirar comigo dúvidas para ver se levava a bom porto a disciplina de português.

O surreal desta história, é que na reunião do terceiro período, ouvi de viva voz, por quase todos os outros encarregados de educação a queixarem-se do método de ensino do professor de português junto da diretora de turma, pena é já ter sido tao tarde que apresentaram as queixas que os seus educandos desde o início comentavam com eles em casa.

Se os encarregados de educação tivessem falado na reunião do final do primeiro período as coisas teriam sido bem diferentes.

Ainda hoje e à distância de alguns anos rimos lá em casa, em tom de brincadeira o A. vai-me lembrando que é um terrorista perigoso e incitador à revolta contra professores, isto porque no local, momento e hora certa assumiu que aquele método de ensino não estava a funcionar com ele.
Pessoalmente penso que o A. sai à mãe nesse aspecto

Perdoa o testamento, o meu comentário ficou maior que o teu post.
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De Jorge Soares a 19.04.2012 às 22:51

A ideia com que fiquei é que a professora nem ao trabalho de falar com os pais se quis dar... só que a coisa saiu-lhe mal... e o caldo ia entornando mesmo.

Ainda bem que há crianças como o A e pessoas como a mãe dele.

Jorge
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De golimix a 20.04.2012 às 15:46

Olá Jorge!
Estas reuniões com professores são sempre muito instrutivas...
O surrealismo parece pairar nas nossas Escolas. A diretora de turma do meu filho tem exatamente (com exceção do uso das coitadas das delegadas de turma) a mesma atitude, diria que seria a mesma se não estivesses ai em Setúbal e eu aqui.
Acho imensa piada quando dizem que os pais não se envolvem e depois quando eles o fazem se queixam, assim como me "escaco" a rir sempre que se escapa com "não sei, não sou eu que resolvo", "a direcção é que sabe"... "o colega é que sabe"..., e quando queremos falar com o colega que sabe, temos que falar com a diretora de turma porque ela é a ponte. E TODAS as turmas se portam mal e falam muito. Mas não! As turmas de 28 alunos são pequenas e vamos aumentar para 30, a ver se há melhor comportamento e aulas mais produtivas...

Bjs

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