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O regresso da roda dos bebés enjeitados

por Jorge Soares, em 14.06.12

rodadosenjeitados.jpg

 

Imagem de aqui

 

A roda dos enjeitados apareceu em Portugal na idade média, era um dispositivo onde os filhos ilegítimos e indesejados eram deixados em segredo para serem criados na casa da roda. Era um sistema oficial que na maior parte dos casos servia para lavar as desonras sem que existisse forma de se identificar a mãe ou qualquer familiar.

 

Este sistema esteve em vigor no nosso país até ao ano de 1867 quando as rodas foram extintas por decreto, actualmente em Portugal, e tal como expliquei neste post, as crianças devem ser entregues no hospital no momento do nascimento e só vão para adopção após verificação por parte do tribunal de família e menores que não há familiares directos que os queiram receber.

 

Em Portugal é assim, mas por incrível que pareça, há países na Europa em que em pleno século XXI, existem versões modernas da roda dos enjeitados. Segundo noticia do Público, este dispositivo da idade média voltou a aparecer nos seguintes países: Alemanha, Áustria, Suíça, Polónia, República Checa e Letónia, sendo que desde o ano 2000 mais de 400 crianças foram abandonadas desta forma.

 

É verdade que é sempre preferível  a existência de sistemas deste tipo à morte do bebé à nascença ou o abandono no lixo, mas por outro lado, é um incentivo a que se escondam as gravidezes, a que estas não sejam seguidas e à existência de partos em segredo, sem apoio e sem assistência médica. Ninguém que está a pensar deixar um bebé em segredo vai contar ao seu médico que está grávida ou irá ter o bebé no hospital, onde mãe e criança são identificadas.

 

Na maioria dos casos quem está por trás das rodas são instituições ligadas à igreja e/ou a grupos de pressão contra o aborto, entendo o principio, mas não me parece que seja esta  a melhor forma de lutar contra o aborto. A diminuição do número de abortos e bebés abandonados terá sempre que passar por educar e formar as mulheres para uma vida sexual responsável  que evite as gravidezes, e não por facilitar o abandono dos seus filhos à nascença.

 

A idade média foi a época das trevas, muito mal deve ir a nossa sociedade para que se revivam estas coisas.

 

Jorge Soares

publicado às 22:35


2 comentários

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De Ricardo Sant'Anna a 15.06.2012 às 01:40

Boa noite Sr. Jorge.

Desculpe o comentário, mas não quis deixar passar esta oportunidade.

A tão falada Roda, não é nem nunca foi "um dispositivo onde os filhos ilegítimos e indesejados eram deixados em segredo". A Roda, como qualquer pessoa ligada à igreja ou que tenha conhecimentos de história lhe poderá explicar, é um meio de passar objectos (comida, livros, roupa, etc ) do exterior para o interior (ou no sentido contrário) de um convento através de um cilindro rotatório em madeira, principalmente em conventos de clausura.

Em muitos conventos, principalmente de Freiras de clausura, vendiam-se os produtos da horta conventual, doces, hóstias ou roupa as pessoas no exterior, de modo a poderem angariar dinheiro para a congregação e poderem dar dinheiro à igreja. Naturalmente, não podiam negociar directamente com as pessoas, pelo que, de maneira a poder efectuar as vendas, criaram-se uns cilindros giratórios de madeira com bandejas, que não permitem a comunicação visual. Os objectos eram colocados na bandeja interior, rodando-se depois o cilindro de madeira, permitindo a recolha do lado oposto.

Só com o passar do tempo, e não existem registos rigorosos de quando se terá iniciado esta prática, é que as crianças "mal nascidas" começaram a ser deixadas nestes locais, pois garantiam a perfeita confidencialidade de quem abandonava a criança e garantiam (???) que a criança seria recolhida e seria educada em ambiente cristão. Mesmo que a criança morresse, pensava-se que ao estar em solo consagrado, poderia obter o perdão divino e "seguir" para o Purgatório.

A Roda nunca teve este propósito, como muitas pessoas julgam. Hoje em dia ainda se podem encontrar em muitos locais do pais estas Rodas, por exemplo, nos conventos das Irmãs Carmelitas, e continuam a funcionar. Aqui em Braga, para dar um exemplo, quando me desloco ao Carmelo do Bom Jesus entregar encomendas, todos os bens são colocados na Roda e entram dessa maneira no Convento.

Na minha cidade natal de Cáceres, em Espanha, existem vários Conventos de Clausura que continuam a funcionar com este sistema, sendo uma atracção turística, pois vendem doçaria conventual conhecida em toda a Espanha.

A extinção das rodas que fala não deve ser entendido literalmente. Foi proibido e penalizado o abandono de crianças através deste método, embora haja casos conhecidos e registados até à década de 50 (pelo menos). Existem instruções e normas bem claras no seio da igreja católica que devem ser seguidas nestes casos. Muitas rodas, tanto em Portugal como no estrangeiro continuam a funcionar e assim continuarão durante muito tempo.

Deixo-lhe como curiosidade um link onde poderá ver imagens de uma roda no Convento Carmelita dos Cardaes , em Lisboa e onde poderá ficar mais esclarecido sobre os abandonados e os enjeitados.

Um abraço;

Ricardo sant'Anna

http://lisboasos.blogspot.pt/2009/10/roda-dos-expostos.html
Imagem de perfil

De Jorge Soares a 17.06.2012 às 22:59

Ricardo, muito obrigado pela lição de história... eu sempre ouvi o termo roda dos enjeitados e nunca o tinha associado a outro tipo de entregas.

estamos sempre a aprender.

Jorge Soares

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