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Conto, 11 da noite

por Jorge Soares, em 22.09.12
São 11 da noite, sandálias pretas


São 11 da noite. Eu não sei se pressinto ou se estou mesmo ouvindo os passos que se aproximam novamente da minha porta.


Desde que me mudei para este prédio, escuto as pisadas de todos os moradores com nitidez. O chão de cerâmica dos corredores faz ressoar todos os sapatos, especialmente aqui no meu andar, que é o último. O mais estranho dos passos é que a gente sempre imagina como é o corpo em cima da sola. Depois de um tempo, um esbarrão na entrada do prédio, um encontro na escada confirmam a suspeita de quais passos pertencem a quem. E é quase sempre batata! Existe uma intimidade até promíscua em reconhecer o outro pelos passos.


O edifício não é grande. São três andares com quatro apartamentos em cada um, todos de um quarto só. Apartamentos para solteiros, embora eu tenha certeza de que em vários deles esteja morando mais de uma pessoa, principalmente crianças.


Reconhecer as crianças é mais fácil, porque menino não anda, corre. E grita. Vira tudo um escarcéu que mais parece briga, tropel. Mesmo assim, tem os que andam com um passinho miúdo e rápido, como a menina do primeiro andar que sobe aqui de vez em quando para brincar com o garotinho que mora duas portas depois da minha. Tem minha vizinha da direita, que chega sempre tarde e sobe as escadas de salto alto, fazendo um estrondo que acorda meio mundo. Eu não sei como ela é, nem quantos anos tem, porque nunca a vi, mas escutei sua voz uma vez e me pareceu alguém entre os 25, 30 anos.


É divertido este pretenso controle diário de idas e vindas, de subidas e descidas. Como meu horário de trabalho é variável, fico brincando comigo mesma de identificar os passos da manhã e as pisadas da tarde. Já as passadas da noite são quase sempre as mesmas: um estudante universitário que chega por volta de meia-noite; o senhor do 403, que bebe, cambaleia e faz “psiu” para si mesmo; visitantes ocasionais, parceiros de um sexo também ocasional, e que andam sempre na ponta dos pés; e, é claro, os visitantes habituais, já quase aceitos como moradores — namorados, noivos, amantes fixos.


Quando a gente conhece assim tão bem os passos, fica difícil não se desconcertar com alguma coisa que soa diferente. Como esses passos. Não faz uma semana que dei para escutar esses pés impacientes que param à minha porta. São saltos de mulher, sem dúvida, mas parecem frouxos, perdidos. Ficam um pouco, depois se afastam. Não reconheço a direção de onde vêm ou a que tomam em seguida, mas sei que chegam sempre, sempre às 11 horas. O que fazem esses pés na minha porta?


Sondei se há moradoras novas no prédio. “Não, ninguém se mudou“ — afirmou o porteiro indiferente. Minha segunda pesquisa foi junto às solteiras como eu, com quem acabei travando um tipo corriqueiro de amizade ao longo dos dois anos em que moro aqui. Alguma amiga dormindo em casa? Parente? Não, nenhuma delas tem recebido visitas. Enfim, não tenho a menor pista sobre os passos. Além disso, reclamar com o síndico sobre quem tem ou não as chaves do prédio é bobagem. Em lugar de gente solteira, tudo é cumplicidade.


Hoje, tomei banho mais cedo e fiz um lanche leve. Ando tendo pesadelos quando como demais antes de dormir. Um filme talvez me traga o sono mais rápido. Mas... O que é isso?! Droga, a luz acabou de apagar no prédio todo! O que será? Logo eu que detesto escuridão. E para completar os passos estão aí fora, novamente. Ai que agonia! Preciso realmente fazer alguma coisa a respeito dessa criatura inconveniente! Vamos, coragem, vamos! Abro a porta de supetão e não há ninguém no corredor. Sobre o tapete de entrada, apenas um par de sandálias pretas, elegantes, de saltos altos. Já chega! Amanhã pela manhã vou reclamar com o síndico dessa bagunça! Que cara de pau dessa mulher!, esbravejo, enquanto bato a porta com força.


São apenas 5 da manhã e o alarme chato do celular está tocando. Eu, hein! Na escuridão de ontem, devo ter me distraído e programado errado o horário. Agora, não vou conseguir dormir de novo e o resto do meu dia está arruinado! Mas isto não é... não é o despertador... É a campainha! O síndico ignora os meus olhos quase fechados e pede desculpas pelo incômodo. Apresenta-me rapidamente a um policial de bigode e a dois bombeiros compungidos, e pergunta, sem rodeios: “Você tem visto a sua vizinha de porta?” Não vi. Aliás, vejo pouco. A moça não aparece no trabalho há quase uma semana e alguém deu queixa do sumiço dela. Eles me avisam, então, que vão fazer barulho, porque é preciso arrombar a porta do apartamento dela.


Lá dentro, uma mulher de cabelos pretos, caída no chão da sala, está morta há uma semana, comentam os bombeiros em voz baixa. Nos pés, um par de sandálias pretas. Elegantes. De saltos altos.


CINTHIA KRIEMLER  


Retirado de Samizdat

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publicado às 21:46


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