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O mito da crise da Islândia

por Jorge Soares, em 21.10.12

Na Islândia

 

Ando há meses a ouvir falar da Islândia, segundo a crença popular, quando deram pela crise os Islandeses mandaram os políticos para a prisão, fizeram um referendo onde decidiram que não iam pagar as dividas dos bancos e com isto deram a volta por cima e agora são um país próspero.

 

Como não acredito em milagres, dei-me ao trabalho de investigar e é claro que o que descobri é que o único de verdade no que as pessoas dizem é o facto de realmente eles terem dado a volta à crise, o resto são mitos.

 

Vejamos, a Islândia é um pequeno país, tem 320 mil habitantes, até 2008 tinha uma economia próspera, todo o mundo tinha um nível de vida muito elevado e uma enorme facilidade de chegar ao crédito. Com muito dinheiro disponível, os bancos investiram no imobiliário americano e na divida de países terceiros. Com a crise americana de 2008, os bancos foram ao fundo e com eles a economia do país.

 

Aqui está a primeira diferença com a nossa crise, a da Islândia é puramente financeira, os bancos tem problemas mas o estado é sólido, a nossa crise é basicamente ao contrário, exceptuando o BPN, os nossos bancos são mais ou menos sólidos, ao contrario do estado que tem graves problemas estruturais.

 

O que fez a Islândia para atacar a crise? Nacionalizou os bancos e pediu dinheiro ao FMI e à China para os refinanciar. Depois desvalorizou a moeda em 50%. É claro que uma desvalorização da moeda levou a que muita gente tivesse problemas para pagar os créditos, as prestações duplicaram e os bens aumentaram 50%, mas como o nível de vida era muito elevado, as pessoas passaram a ter menos dinheiro, mas continuaram a conseguir pagar e continuar a comprar as coisas, o que fez com que a economia continuasse a funcionar e até a crescer.

 

Por cá também se nacionalizou um banco, mas acho que todos estamos de acordo em que em lugar de resolver o que quer que fosse, isso contribuiu e muito para aumentar o buraco nas contas do estado.

 

A nossa crise é completamente estrutural, não tem nada a ver com a crise da Islândia, e não há receitas iguais para crises diferentes, aliás, nem para crises iguais. Além disso, é muito diferente tratar das contas de um país de 320 mil habitantes ou de um de 10 milhões... 

 

Por fim, é verdade que na Islândia levaram o ex primeiro ministro ao banco dos réus, mas o que não se diz por cá é que  este foi ilibado de todas as acusações. Também é verdade que fizeram um referendo sobre pagarem ou não algumas dívidas dos bancos... mas ninguém tem dúvidas que o dinheiro que a China e o FMI injectaram nos bancos nacionalizados é para se pagar.

 

Há quem ache que uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade, mas comparar a crise da Islândia e o que por lá se passou com o que se passa por cá é ou ignorância ou pura demagogia.

 

Na passada sexta na RTP o programa Sexta às 9 falaram do milagre Islandês.. podem ver o vídeo aqui:

 

 
Jorge Soares

publicado às 22:06


12 comentários

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De Sandra Cunha a 21.10.2012 às 23:33

O banco, por cá, não foi nacionalizado. Foi capitalizado o que é diferente e faz toda a diferença.
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De Jorge Soares a 21.10.2012 às 23:36

Na verdade foi nacionalizado, recapitalizado e depois entregue... mas na Islândia os bancos também foram recapitalizados...


Sandra, a questão é se no caso do BPN havia alguma alternativa, por acaso não sei se já alguém fez as contas de quanto custaria ao País deixar o BPN falir e mandar quem lá tinha dinheiro para o fundo de garantia...

Jorge
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De Alvaro a 22.10.2012 às 13:06

A não ser que o BPN tivesse mais de 30 mil clientes (ou até mais) com depósitos de valores até 100 mil euros, recapitalizá-lo foi, evidentemente, mais caro do que ativar o fundo de garantia. É claro que quem andou a fazer negócios com valores muito acima de 100 mil euros e que não têm nada a ver com depósitos, ficou a perder menos do que se o banco falisse. E nós já sabemos um pouco de quem andou a fazer esses negócios. Será que alguma vez se vai saber toda a história? Duvido.
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De Jorge Soares a 23.10.2012 às 21:54

Se bem me lembro, o valor máximo a reembolsar pelo fundo de garantia está nos 50 mil Euros por conta bancária... mas o fundo teria que reembolsar todos os depositantes independentemente do valor que eles tivessem... qual seria o valor de depósitos no BPN quando ele foi nacionalizado?

Jorge Soares
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De sentaqui a 22.10.2012 às 00:14

Gostei da maneira como explicaste o caso Islandês, sabes que já tinha escrito sobre isto, através de um mail que recebi, mas a tua análise é mais esclarecedora e bem fundamentada.
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De Jorge Soares a 23.10.2012 às 21:55

Há quem ache que nós somos a Islândia, não somos, não sei se feliz ou infelizmente... eu só tentei explicar porque é que eles não são exemplo para nós.

Jorge
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De António Manuel Dias a 22.10.2012 às 20:24

"Depois desvalorizou a moeda em 50%. É claro que uma desvalorização da moeda levou a que muita gente tivesse problemas para pagar os créditos, as prestações duplicaram e os bens aumentaram 50%."

Se fosse assim não valeria a pena desvalorizar a moeda. Quando uma moeda desvaloriza, todos os valores nessa moeda continuam os mesmos, apenas o seu valor em relação às outras moedas fica menor. Assim, se um Euro valia, antes da desvalorização, 75 coroas islandesas, passou a valer 150 depois da desvalorização, mas uma coroa islandesa continuou a valer uma coroa islandesa. Todo o dinheiro que as pessoas tinham nos bancos continuou lá e os empréstimos que tinham feito, desde que em coroas islandesas, continuaram os mesmos e com as mesmas prestações (ressalvando a variação das taxas de juro). O que se passa é que externamente o dinheiro passou a valer menos e, portanto, se antes compravam um telemóvel por 7500 coroas, passaram a ter de pagar 15000 pelo mesmo modelo, se um carro custava 750 000 coroas, passou a valer 1 500 000. Por outro lado, tornaram-se mais competitivos no mercado externo, porque se antes vendiam um quilo de peixe 75 coroas -- 1 Euro -- ao vendê-lo pelo mesmo preço, 75 coroas, passou a ser comprado por apenas 0,50 Euro.

Qual a desvantagem então? Tudo o que vem de fora fica mais caro e, dependendo da dependência do país de produtos externos, isso pode ser muito complicado para as famílias. As vantagens são a diminuição das importações, o possível aumento de exportações, desde que a economia interna continue a funcionar e haja procura externa para os seus produtos. Principalmente, evita-se muita da destruição de emprego que é resultado de medidas de austeridade (a não ser em sectores que dependam fortemente de produtos externos e cujo mercado seja maioritariamente interno -- ex: venda de automóveis, tecnologia, etc.).
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De Jorge Soares a 23.10.2012 às 21:56

Obrigado pelo esclarecimento, eu não quis entrar em tanto detalhe.

Jorge
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De António Manuel Dias a 23.10.2012 às 22:17

A questão é que dizes que as prestações duplicaram, o que não é verdade: ficaram como estavam. Também não é verdade que os bens aumentaram 50% devido à desvalorização da moeda -- apenas os provenientes do estrangeiro devem ter aumentado (cerca de 100%, se a desvalorização foi de 50%).
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De Jorge Soares a 23.10.2012 às 22:20

Por acaso viste o vídeo?

É que as pessoas dizem que as prestações duplicaram, e os preços aumentaram 50%

Normalmente com a desvalorização vem a inflação e com a inflação vem o aumento dos juros... talvez isso explique o aumento das prestações, não?
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De golimix a 23.10.2012 às 19:48

Mitos ou não, souberam dar a volta de forma diferente E acho que isso é verdade, ou não?
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De Jorge Soares a 23.10.2012 às 20:16

Isso é verdade.. mas convém que as pessoas percebam que o que se passou por lá não é exemplo para cá... há muita gente que já deu a volta à crise antes, Portugal até já deu a volta duas vezes antes, mas não há panaceias universais..

Jorge

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