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A saudade é uma treta

por Jorge Soares, em 22.10.12

A saudade é uma treta

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

 

Os comentários àquele post da Mónica e do Pedro deixaram-me a pensar, talvez porque nunca me senti verdadeiramente de lado nenhum, como dizia há uns tempos, já vivi em tantos sítios que aprendi que as coisas e os lugares são bons enquanto lá estamos e o melhor que temos a fazer é aproveitar para viver porque quem sabe quanto tempo pode durar.

 

Saudade é uma palavra portuguesa que dificilmente tem tradução noutras línguas, de vez em quando dou por mim a pensar que é mesmo só isso, uma palavra,  e as palavras só existem na linguagem quando são necessárias para identificar algo... Ora, se saudade  não existe em mais nenhuma língua deve ser porque mais ninguém sentiu necessidade de a inventar.

 

Digo muitas vezes que só temos saudade do que já vivemos  e acrescentaria  também que só temos saudades do que nos preencheu, do que foi bom.... ter saudades não tem nada de mal, o problema está quando tudo isso em lugar de se tornar algo positivo, se torna numa âncora que nos prende ao passado e nos impede de avançar... e mau mesmo é quando ainda nem estamos a passar pelas coisas e já temos saudades do que ainda nem deixamos para trás... porque por norma isso faz com que nem demos o primeiro passo... e não caminho nenhum que se consiga percorrer se não se dá o primeiro passo.

 

Voltando aos comentários do post e a muitos outros comentários que li por aí, faz-me alguma confusão que as pessoas achem que jovens que estão a iniciar a sua vida possam preferir ficar em Portugal, mesmo que isso signifique muitas vezes ficar a 400 ou 500 Kms de casa e possivelmente desterrados numa qualquer pequena cidade do interior, a aproveitar uma oportunidade de ouro num outro país, onde poderão conhecer outra cultura, outras realidades e outras formas de viver e trabalhar e onde ainda por cima vão ter todas as vantagens e mais alguma a nível salarial e profissional.

 

Há quem argumente que é outro país, não o nosso.. sim, e isso é mau porquê? Qual é mesmo a vantagem de se ficar por cá? Aquele grupo de jovens era todo do norte, há quem argumente que pelo mesmo salário eles prefeririam ficar em Portugal mesmo que fosse longe da família.. A sério? E qual era a vantagem de a ganhar o mesmo ficarem num hospital em Bragança?, ou em Évora?, ou em Almada?, ou na Amadora?  Ou em Sagres, Ou em Vila Real de  Santo António? Qual seria o jovem inteligente que sabendo as condições em que se trabalha em Portugal preferiria ficar por cá a aproveitar uma oportunidade de ir viver noutro mundo?

 

Já sei, a saudade, o nosso país, a nossa gente... tretas, se há coisa que aprendi quando os meus pais emigraram e se fizeram à vida do outro lado do Atlântico é que o nosso país é aquele que nos dá uma hipótese de viver, o que nos deixa ganhar a vida com dignidade, o que nos dá hipótese de querer e de poder... o resto é folclore, uma coisa engraçada mas que dificilmente alimenta alguém.

 

Jorge Soares

publicado às 22:02


5 comentários

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De DyDa/Flordeliz a 23.10.2012 às 01:32

hummm
Deixa ver se te entendo?!...
Falaste de partir (quando eras pequeno: tu e a tua família).
O meu pai regressou de França após três anos como emigrante, antes dos anos 70.
Partiu sozinho, em busca de novas oportunidades, melhorar de vida.
E nós? Nós ficamos para trás!
Não sei qual o nome que ele deu ao sentimento ou à sensação que sentia quando lá estava: solidão? tristeza? melancolia? desânimo? vazio? Ou...aquilo que lhe magoava e apertava o peito - a SAUDADE?!

A minha sobrinha partiu faz um mês para a Alemanha. Partiu sozinha para trabalhar. A filha ficou para trás com os avós, tem dez anos, anda aqui na escola, e como é natural ela ainda não tem condições para a levar. Que pensas que sente quando chega a noite e se deita numa cama fria e vazia de afectos? Num país onde desconhece a língua, um país frio, onde os únicos beijos que recebe são os do telefone? Não têm calor! E o cheiro? Esse vai-o perdendo, ou então chora por ele de tanta: SAUDADE?!

Concordo contigo: Devemos ir para onde possamos ser felizes e viver com dignidade. Mas temos de poder escolher e não sermos empurrados a aceitar - o menor dos castigos.
Há jovens que pretendem sair e aproveitar as oportunidades - força.
Há pessoas com ânsia pela aventura e desejosas de ter mais do que o que oferecem por cá - força.
Mas quando as famílias são obrigadas a quebrar laços que não desejam - é uma pena.
Há pessoas para quem o sol e a terra do nosso país faz toda a diferença - deixem-lhes a opção de escolher sem os empurrar.

Eu respeito a saudade do meus irmãos portugueses, porque acredito que ela existe com outro nome quando os irmãos de outro país partem também.

Cesária Évora falava de SODADE, teria aprendido este lamento com os portugueses?

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Dizem que não Jorge. Foi com "Armando Zeferino Soares (São Nicolau, 1920 — 3 de Abril de 2007), compositor cabo-verdiano, autor da morna Sodade. Armando Soares foi um comerciante em Praia Branca, na ilha de São Nicolau.
Música nos anos 50 do século XX na despedida de um grupo de amigos que ia embarcar para São Tomé e Príncipe, o que era habitual naquela época."

Beijinho com saudade.


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De Jorge Soares a 27.10.2012 às 11:58

Eu percebo o teu ponto de vista, o meu pai também partiu sozinho, mas passados dois ou três meses arranjou forma de mandar ir a minha mãe, que me deixou cá, mas não descansou enquanto não me tinha ao seu lado.

Eram outros tempos, e é de outro tipo de pessoas que estamos a falar.

Quando o teu pai emigrou, quando os meus pais emigravam faziam-no com a ideia fixa de voltar o mais rápido possível, e eram capazes de fazer o que fosse para chegar a esse objectivo, se fosse necessário e muitas vezes era, trabalhavam de sol a sol 7 dias por semana.

Eu conheci pessoas que estavam há 20 anos na Venezuela e não falavam mais que duas ou três palavras de espanhol, porque só trabalhavam, e não conheciam nada mais além do bairro onde viviam.

Estes jovens partem de outra forma, todos falam inglês, a maioria conhece meio mundo, pertence a uma classe média que lhes deu tudo.

Antes partia-se para fugir à miséria ou para garantir que se podia dar educação aos filhos, agora na sua grande maioria parte-se para se manter o estatuto...

Jorge
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De golimix a 23.10.2012 às 19:35

Sabes nem todos têm as mesmas vivências e há quem se sinta melhor aqui a a ganhar menos e com piores condições mas na "sua terrinha". Incompreensível, mas é assim!
A minha terrinha é onde eu e a minha família estivermos, principalmente se nos sentirmos bem. Uma coisa de digo, gostei imenso de viver no Porto e custou-me muito vir para o interior, mas agora, que tenho um filhote acho que porventura aqui será mais calmo para que ela cresça.
O sentimento que se deixa algo para trás deve ser diferente quando se é jovem e não se tem filhos.

Bjx
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De Jorge Soares a 27.10.2012 às 12:00

Já pensaste que os motivos pelos que se partia antes e se parte agora são completamente diferentes?, os meus pais partiram porque eu estava a terminar a quarta classe e ou eles partiam ou eu em lugar de ir para o ciclo ia aprender um oficio qualquer.

Agora quem parte são na sua maioria os filhos da classe média que já conhecem o mundo e que partem para conseguirem continuar a viver bem...

Pensa nisso.

Jorge
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De golimix a 29.10.2012 às 08:33

Pois... e a bandeira é que estava ao contrário...

Bjix

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