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Conto - Loba

por Jorge Soares, em 19.01.13

Loba


 “Não importa onde estejamos,

 

a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.”

 

[CLARISSA PINKOLA ESTÉS. Mulheres que correm com os lobos]
Vês como me afasto do sol sem remorsos? Vês como carrego comigo, para longe desse rei enfatuado, as minhas vontades viciadas? É meu espírito imperfeito que anseia pela honestidade de uma sombra, a equilibrada ilusionista que distorce em igualdade mazelas e virtudes.
Ah, como me enfurecem as criaturas mentirosas que se refugiam na luz! Sempre inspirando o mesmo ar com máscaras apropriadas. Como se o excremento dos bichos nas calçadas e o fedor dos mendigos bêbados e o hálito de esperma das prostitutas obreiras não estivessem lá, aqui, em toda a parte, misturando-se, sobrepondo-se a essa cegueira hipócrita que a todos nos é ensinada no ventre!
Olho-te daqui e pergunto-me se acaso a tua alienação, que passeia por essas praças e becos em permanente negação da miséria, não supera a podridão do menor dos meus pensamentos. Esses meus pensamentos que abominas e que, tão diferentes dos teus que condescendem, a mim não permitem alheamento ou trégua.
Acaso basta dizeres que és do bem — façanha que realizas acumpliciando-te com fés irresponsáveis e bênçãos corruptoras — para que sejas do bem?  É mesmo assim tão leviana a tua moral?
Pois que saibas que a mim, criatura de raízes negras, foi-me proibida qualquer complacência ou cegueira moral. O fardo espesso da maldade nunca alivia meus ombros do peso.  E se o carrego sem gemidos é porque mil vezes mais dores eu sentiria em minhas entranhas antes de render-me ao cabresto das benesses que me ofertas, mansamente, apenas para depois me obrigares por meio de cobranças.
Não, eu não me curvo às culpas que não sinto, nem aos perdões que não pedi. Não perco do meu tempo — sorte ou maldição — imaginando o que é certo ou errado, verdade ou fantasia. Incomodam-me as criaturas para as quais tudo carece ser tragicamente do bem. Incomoda-me que o alvorecer e o poente sejam previsíveis divisões em luz e trevas. O sol querendo ser escuridão; a noite invejando as manhãs.  Acomodando-se, ambas, em desejos não cumpridos.
Não percebes que no mundo do bem tudo sempre antagoniza, cobiça, decompõe? Pois eu quero apenas livrar-me de tudo isso! Livrar-me de ser o animal domesticado cujo destino todos querem decidir. Livrar-me do bem espelhado ao feitio dos que o impõem. Livrar-me do que tenho sido até hoje, um cão treinado.
Não mais! Não quero esta saliva viciada que se doa em lambidas por afagos casuais. Não quero o alimento fracionado que recebo apenas quando sou o que se espera de mim.  Quero rosnar e avançar, amassar as flores dos jardins perfeitos, deitar-me sobre a lama imunda das poças frias, revirar os lixos, derrubar as grades... Não, não, não!  O que estou dizendo! Pois que se rosno e avanço — inferno! —, serei sempre um cão! Um cão medroso. Que se submete, troca, negocia. E eu não sou um cão!
Mas devo-te, ao menos, gratidão. Que foi por meio dos teus pontapés, da tua censura, do teu torpe julgamento que matei aquele cão domesticado que se deixava apenas ficar ao sol. Devo-te gratidão por teres apressado a minha entrega à fêmea selvagem que me cortejava. Ah, como te devo tanto por deixar-me ser a loba que antes apenas me aguardava à distância, olhos fixos nos meus. Ela sabia, antes de mim, que éramos uma. Eu, não sabia de nada.
Acabou-se o tempo da separação. Somos, agora, aqui dentro destas veias alteradas, duas feras que não cedem. Uma delas devolve-me, por vezes, o caminhar em dois pés, para que eu possa, fêmea humana, fartar-me da corrupção e dos vícios e das caçadas em meio à alcateia dos homens. A outra reverte-me às patas que marcam terra e mato nos territórios que me consentem seu domínio, para que eu possa estripar e sangrar carnes que alimentem minha fome de besta. Numa e noutra sou o que sou, predadora.
Mas basta de confissões! Que se mais te fizer ouvir, mais exasperação te infligirei. E tu acabarás por enxergar pelo remorso essa tua alma tão vil que acreditas ser boa. Não é minha intenção. Guarda teu zelo de feitor; cessa a tua inveja. Permite que eu mesma declare o que queres ouvir: eu sou o mal! E tu o sabes, pois que os iguais se reconhecem. 
 
É de minha escolha ser fera. A que encontra os rios à noite sem precisar que o sol escreva trilhas. A que toma, sem pedir, comida, sexo, pouso, pradaria. Afinal, não está tudo, sempre, no caminho? A busca, o medo, a posse, a solidão... Fantasmas que me disputam, agora, sob o céu nublado das monções. Vês que nos espreitamos, farejando-nos no ar pesado? Ouves que me convidam, dissimulados, a esconder-me com eles naquela caverna escura e úmida, naquele lugar de breu e de labirintos estreitos que conduzem apenas a si mesmos?
Tolos! Pensam que serei eu a presa na armadilha! Não sabem que aprendi com o mofo a agarrar-me às paredes, às coisas, às pessoas — bem mais escuras e úmidas que as cavernas. Não sabem que sou, por opção, criatura das sombras. Não sabem que mulher e loba seguirão com eles para emboscá-los e matá-los. Para que deixem de ser busca que inquieta, medo que acovarda, posse que aprisiona, solidão que corrompe. Não, não sabem.
Cinthia Kriemler

Retirado de Samizdat

publicado às 20:26



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