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Mães que matam, de quem é a culpa?

por Jorge Soares, em 30.01.13

Eliana Sanches

Imagem do Facebook 

 

Ontem, na sequência de mais um caso em que duas crianças apareceram mortas presumivelmente envenenadas pela mãe, a RTP passou em revista os casos que no último ano levaram à morte de pelo menos sete crianças, todas às mãos da mãe.

 

Durante o fim de semana passado discutia-se aqui, aqui e no Facebook, se naquele caso em que a mãe se recusou a laquear as trompas após o nascimento do seu décimo filho, seria ou não justa a institucionalização das crianças. A maioria das pessoas terá visto a reportagem na televisão e ficou com a sensação de que haveria condições para que as crianças continuassem com a mãe, e que as crianças seriam inclusive bem tratadas.

 

Apesar das explicações da protecção de menores e dos relatórios da segurança social que diziam que não havia condições de higiene, que as crianças estariam muitas vezes sozinhas e que a mãe se recusava a cumprir com os acordos que fazia de modo a promover a melhoria de vida das crianças, as pessoas continuavam na maior parte dos casos a insistir no injusto da situação... sendo mais importante para elas o que aparecia na comunicação social que o facto de haver relatórios das entidades responsáveis que iam em sentido contrário. 

 

Segundo o que li em várias noticias, as duas crianças que agora apareceram mortas estariam sinalizadas pela segurança social devido à violência familiar e à instabilidade psicológica da mãe. As fotografias que vimos mostravam duas crianças bem alimentadas, bem vestidas e que apareciam sorridentes e felizes junto à mãe, à primeira vista uma família feliz... 

 

Havia uma ordem de entrega imediata das crianças ao pai que nunca foi cumprida, havia a ideia clara que as crianças estariam em perigo, a situação estava sinalizada pela polícia e pela segurança social, mas o certo é que hoje as duas crianças estão mortas e a culpa pelos vistos é só da mãe, então e o resto?

 

Porque morrem tantas crianças no nosso país vitimas de quem as deveria proteger?

 

Numa série de workshops sobre institucionalização de crianças em que participei, quando se falava do número exagerado de crianças institucionalizadas que existem em Portugal, um dos comentários mais comuns é sobre o facto de se dar muita importância ao biológico, os técnicos e os responsáveis dos centros de acolhimento referem quase sempre que se dão oportunidades a mais aos pais, que as decisões são sempre proteladas, isto faz com que a maioria das crianças passem a sua vida institucionalizadas.

 

Estando algumas das crianças de que agora falamos sinalizadas pela protecção de menores e pela segurança social, será que um pouco mais de zelo em alguns casos não faria com que algumas delas estivessem vivas?

 

Já perguntei no outro dia e hoje volto a repetir, o que é que é preferível?, que juízes e segurança social pequem por excesso e retirem as crianças às famílias mesmo que depois se prove que estas conseguem mudar e as possam receber de volta, ou que pequem por defeito e depois as crianças apareçam mortas muitas vezes às mãos de pais e familiares próximos?


Jorge Soares

publicado às 21:46


3 comentários

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De Fatima Araújo a 30.01.2013 às 22:29

Uma coisa é deixar sozinhas as crianças e passo a explicar: Eu e mais 4 irmãos ficávamos muitas vezes aos cuidado do mais velho que, de mim, tem diferença de 10 anos (era também criança). Tinha 5 filhos para criar e tinha de trabalhar; as escolas funcionavam apenas no período da manhã ou da tarde e não haviam ATLs ou coisa similar. Outra, bem diferente, é a violência e a falta de cuidados básicos como a higiene e a falta de alimentação. Nestes casos, acho bem que a Assistência Social intervenha. Beijinhos Jorge.
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De energia-a-mais a 31.01.2013 às 00:07

Olá Jorge
É uma questão tão complexa...mas não concordo contigo em tudo. Acho que muito deve ser feito, sim. Mas grande parte do que deve ser feito tem a ver com a formação das pessoas, dos técnicos - segurança social, tribunais, comissões. Porque na verdade a resposta à tua pergunta: «Porque morrem tantas crianças no nosso país vitimas de quem as deveria proteger?» eu encontro-a nos muitos erros, na má tomada de decisão de quem avalia esses casos - muitas crianças são retiradas e não o deveriam ser e muitas não o são e acaba tudo em tragédia. Mas o ponto em comum é que quase todos estes tristes casos, estavam a ser «acompanhados» por comissões, segurança social, sinalizados, enfim.. Não concordo que seja preferível pecar por excesso de zelo como dizes, porque as instituições não são modelos de altruísmo e amor...muito pelo contrário. Muitas das crianças institucionalizadas sofrem horrores. Acho que deve haver sim, muita ponderação por parte de quem decide. E nem sempre estamos a falar da retirada de crianças por motivos de más condições económicas, financeiras ou sócio-afectivas, negligência ou maus tratos. Por vezes retiram-se crianças por lutas de adultos em tribunais, regulações de poder paternal, levadas ao extremo por um dos lados. São casos como este de que falas no teu post em que a retirada das crianças à mãe, decidida numa única audiência em tribunal, não tendo em conta a fragilidade emocional daquela mulher e muito provavelmente sem uma forma adequada de lhe dar essa notícia, potenciou este desfecho. Podemos sempre ter a dúvida - e se o tribunal não tivesse ordenado a retirada da mãe? pois...não sabemos. O que sei é que isto doi como mãe, assusta como cidadã porque mostra que o «superior interesse da criança» continua a ser algo muito «burocrático», muito no papel...pouco na prática.

Teresa
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De Jorge Soares a 03.02.2013 às 21:25

Teresa, para este último caso até pode ser verdade, mas pensa lá um pouco naquele outro caso em que a mãe matou as duas crianças no Carregado...

A verdade é que não podemos colocar um policia ou um assistente social em casa de cada família sinalizada, assim como o estado não pode arranjar emprego para todas as mães que não o tem, nem pode obrigar quem não se esforça..

Jorge

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