Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Conto - O Acaso é passageiro

por Jorge Soares, em 13.04.13



Sou um esbaforido crônico. Amarrotado, mal ajambrado, três envelopes pardos embolados entre jornais dobrados debaixo do braço, corro pela rua. Nos dedos, um saco politicamente incorreto de padaria com suco de mamão com laranja, sem açúcar, por favor, tomara que a garçonete cara de entojo tenha fechado o copo direito. Na mesma mão, uma sacola de papelão.


Tênis, meião, short, camiseta amarfanhada. Fazendo do mindinho um gancho, enrosco um laço delicado de um pacotinho mimoso estampado de rosas sobre um fundo lilás. Acordei tarde, não posso perder a hora, o minuto, o instante.  Nesta condição infame e atabalhoada, mergulho num taxi que, talvez por piedade, para ao meu aflito e troncho sinal: a mão que sobra, segurando dois livros que leio simultaneamente, acena como um náufrago ao escaler.


E me jogo ao banco de trás do carro, agradecendo à inventiva humana pelo ar condicionado, relegando a segundo plano a penicilina, o astrolábio, o caminho marítimo para as Índias, o inconsciente, o quanta, os óculos, a camisinha, a vacina Sabin - agora peguei pesado - , o vinho, a combinação mágica e inebriante das sete notas musicais, a fita crepe, a roda, o cortador de unha, a anestesia, sim, nada criado pelo homem pode ser mais importante que a brisa gélida que me acolhe agora.

 

É o analgésico dos males do bafo de Lúcifer, vulgarmente chamado pelos otimistas que ostentam corpos dourados de verão carioca. E suspiro.


Digo para onde quero ir e me deparo com uma voz suave e delicada. Mais pausa para respiração. Trata-se de uma motorista, mulher com todas as letras e charmes, uma chauffeuse, como dizia minha avó, empinando as narinas, embicando os lábios prenunciando o botox, espargindo perdigotos. Minha adrenalina se curva à circunstância.


Ajeito as tralhas cuidadosamente no banco e me estico ao lado oposto para contemplar Sonia, como diz o crachá colado ao para brisa. Tudo se acalma. Gosto de mulheres me conduzindo. E que mulher bonita. E que sorriso bonito. E que gestos bonitos ao passar a marcha e comandar o volante.


Tentamos um diálogo minimalista. O trânsito. O calor. A cidade. A selvageria dos ônibus. O abuso dos motoqueiros. A fragilidade ousada dos ciclistas. A indolência dos guardas municipais. Imagina na Copa. Não dá para contemplar a dona totalmente de frente, mas seu sorriso de perfil e seus olhos no retrovisor me bastam. Acho que estou carente.  Acho, não: estou. O diagnóstico é óbvio. Um amálgama de melancolia, autoestima no pé, chifres na cabeça. Mas do resíduo que sou, faço o adubo da minha coragem. Tão pensando o quê? Vou jogar tudo pro alto, vou mudar o destino da vida e deste taxi. Por favor, Sonia, vamos pela praia e dê uma paradinha para uma água de coco. Quero conhecer essa mulher em pé, andando a esmo pelo calçadão de Ipanema, as pernas que vislumbro intuem um caminhar gostoso, num doce balanço, o balanço do mar, que alguém á decantou diante daquele mesmo céu, dessa gente feliz. Sou piegas, sou clichê, e daí? Ela merece.


Ela não é nenhuma garotote, nem carcomida pela vida. Travessa, esbanja veneno. Madura, focada, conversa de olho no carro da frente sorrindo para mim, eu sei que é para mim. Suas unhas são bem feitas, suas mãos decididas. Não usa aliança, não tem retratinho de criança no painel. Mas, o que importa? Neste exato momento na rua que não anda, ando eu com meus pensamentos incandescentes. E puxo assunto. Fecham os cruzamentos, gente mal educada e sem respeito. Tudo está parado. Só a conversa acelera. Cidadania, trabalho, passageiros, saúde, solteirice, homens canalhas, mulheres desfrutáveis, vida a dois, traição, Martinha me largou, sabia? Edvaldo aprontou comigo também, aquele patife! Sexo sem compromisso, não precisa mandar flores, ah, eu gosto de mandar flores, dia seguinte é tudo. Como pode? Num engarrafamento de hora e vinte e cinco com uma chauffese encantadora pode tudo. Um sonho, um desejo, uma viagem de estourar o taxímetro.


Pena que chegamos.


Aqui está, Sonia, pode ficar com o troco, digo eu. Divertido, gentil, muito gente boa, diz ela.


Foi um prazer, abro um sorriso, olhos nos olhos. Aqui está o cartão da cooperativa, me entrega, devolvendo a flechada com o olhar. Quando precisar, é só ligar. E se não precisar? Arrisco timidamente. Ah... liga assim mesmo, responde dengosa. Bingo. Não saio do carro. Espreguiço em direção à calçada. Ainda dá tempo para um cretino e derradeiro provérbio que invento na hora, atribuído a um sábio qualquer do Nepal: que os deuses do acaso lhe aprontem surpresas felizes.


Ela sorri, piscando os olhos lentamente. Acertei fundo, penso eu. Ela não dá partida no taxi.


Acertei fundo, tenho certeza. Ela acompanha meu caminhar atolado de tralhas até o entra e sai do edifício majestoso de vidro fumée e entrada de aço escovado. Não entro. Vigio a sua saída, demorada, involuntária. O trânsito buzina insensível, impaciente, invejoso. Trocamos palavras mudas de rabo de olho. E segue a vida.


Subo as escadas como um Fred Astaire, canto como a Noviça Rebelde. Em três andares repasso a minha existência. Lépido, zombo das desditas.


Tantas e tantas nesses 46 anos de carne, osso e algum espírito. Morro de rir da desgraça mais fresca: Martinha me trocando pelo psicanalista do gato, de nome Escaldado, bicho esquisito temente à própria sombra, sempre apavorado com Dr. Raphael De Pomposo Sobre Nome De Encher a Boca Neto, acho que com razão e perspicácia, já que o doutor em behaviorismo de felinos e outros pets acabou por roubar minha mulher. Diabo de gato visionário. Sempre me olhou como se eu fosse um idiota, o adjetivo que mais ouvi de Martinha, entre os tantos que ela me desfiou com sua voz anasalada salpicados de palavras da língua inglesa, para justificar com seu estilo sua saída de banda: seu tijucano mal ajambrado, seu troncho, seu gauche, seu asshole, seu good for nothing, seu metido a intelectual de boteco, seu chicken, seu traste, seu fucker looser, seu isso, seu aquilo. Ouvi tudo calado, chorei baixinho e agora acho a maior graça.


Ah, Martinha, você é uma dondoca vagabunda. Vagabunda, dondoca, besta e burra. Muito da burra.


Tem gente com alma de gente, jeito de gente, sorriso de gente, que acha que eu sou gente. Sou gentil, divertido e gente boa, não foi isso que a Sonia disse? Ah, Martinha, a vida é um moinho -  de novo o clichê, a ausência de originalidade, a pieguice rasteira. Dane-se. Agora é cada um na sua. Você com seu Freud de bichano cuidando da sua patricice e eu com minha taxista tesuda, charmosa, simples, guerreira, me levando aos píncaros dos paraísos. E com essas palavras no coração e cara de freira possuída, chego secretamente feliz ao meu destino.


A sala está cheia. A recepcionista vem ao meu encontro, apontando para o relógio. Em cima da hora, diz ela. Peguei um belo trânsito, digo eu. E que trânsito, que trânsito, que trânsito, repito, repito, repito sorridente, sentando na cadeira em frente à escrivaninha. Começa o confere. Trouxe roupa apropriada para o teste ergométrico? Claro. Os resultados das radiografias anteriores? Tudo aqui. Jejum de 12 horas? Sim, sim. Ela baixa o tom de voz: ejaculação nas últimas 48 horas? Nem por conta própria, minha filha. Ela ruboriza, se apruma e vai: medicamentos frequentes? Poucos: controle de pressão, colesterol, gastrite, vitaminas C e E. Coleta para o exame parasitário? Como? Arregalo os óculos. Ela, discreta, cochicha professoral ao meu ouvido: as-fe-zes-no-po-ti-nho. Pronto. Todas as tralhas desabam no chão da ante sala do laboratório. Sinto que as pessoas param de ler Caras, Capricho, futucar celular, tablets, essas coisas.  Respiro fundo, tranco os olhos e vejo o pacotinho mimoso estampado de rosas sobre lilás, tão disfarçadamente embrulhado, solitário e delicado, repousando prosaico no banco traseiro do taxi de Sonia.


Virei estátua. Martinha é sábia. Escaldado, o gato visionário. Só me restam um silêncio infinito e um olhar profundo para o nada.  Minha mão sai do controle. Mato mil moscas na minha testa, pulo súbito sobre a escrivaninha. Quero fazer harakiri com uma caneta Bic.


José Guilherme Vereza


Retirado de Samizdat

publicado às 21:16



Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D