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Conto - Encontro às escuras

por Jorge Soares, em 11.05.13
Encontro às escuras

 

“Então, tá. Amanhã, às duas da tarde, no parque municipal. Vou te esperar sentada num dos bancos...” De pé, em frente ao espelho, ele relembrava as palavras dela, tão bem impressas haviam ficado na sua mente que chegava até mesmo a ver os pontos e as vírgulas. As reticências que teimavam aparecer ao final não chegavam a incomodá-lo, percebera mesmo um pouco de hesitação na sua voz. Mas a certeza inerente aos apaixonados, a do amor inabalável que eles necessitam ter para continuar amando, fazia-o acreditar que ela compareceria ao encontro.

 

O encontro fora marcado depois de eles conversarem por semanas ao telefone. Nunca haviam se visto. Um dia, o telefone tocou, ele atendeu, era engano, mas ele insistiu, queria saber de quem era a voz feminina do outro lado. Sempre fazia isso. Puxava papo até com as moças de tele marketing. Dizia para elas que sabia, que tinha certeza, intuição mesmo, que ele conheceria a mulher de sua vida assim, casualmente, numa conversa de telefone. Nunca convencera moça alguma, até esse dia. A voz feminina do outro lado respondeu seu nome e a conversa rendeu uma amizade provisória, como um ensaio para o grand finale, que não tardou a acontecer, logo estavam prontos para o sentimento que se manifestava. E agora ele estava na frente do espelho pensando num traje para usar no encontro. Mas para além da escolha do traje, uma dúvida o encarcerava. Ele não tinha o braço esquerdo e ela não sabia. Quis contar várias vezes, mas sempre recuava como uma criança travessa diante da mãe castradora. O espelho, impiedoso, acusava sua falta.

Nasceu assim, do ombro não partia nada, acabava ali, sem explicação. A mãe, mortificada com a notícia do defeito do filho, culpou-se durante meses, como era congênito?, vinha dela então? O médico explicou, mas ela só se acalmou depois que buscou conforto na tragédia da vizinha: o filho tão aguardado era autista. “Pelo menos, meu filho me reconhece.”

Olhando para a imagem ausente do braço, lembrou-se do primeiro dia de aula no jardim de infância, também o primeiro dia que se lembra na vida. Chegou de mãos dadas com a mãe ao portão da escola, nem deu tempo de se soltar, um menino apontou gritando: “Olha, ele não tem um braço!”. E a mãe dizendo para ele ser homem e enxugar aquelas lágrimas, que homem não chora. “Mas eu não era um homem, eu era um menino.” E o menino descobriu que era diferente. A mãe lhe dizia que, mesmo sem ter um braço, ele podia ser feliz. “Como, mãe, se eu não posso soltar pipa igual a todo mundo?” A mãe mostrava o filho da vizinha: “Ele não sabe nem o que é pipa.” A comparação com o autista não lhe trazia o mesmo efeito que o provocado na mãe. “Ele tem os dois braços, não solta pipa porque não quer.” Riu do raciocínio infantil, observou os dentes refletidos no espelho como quem nota um pássaro intruso na paisagem; virou-se para o armário e pegou a prótese. O primeiro braço mecânico foi uma doação dos pais de um coleguinha rico, já que sua mãe, e somente ela, pois pai não tinha, não podia arcar com a compra de um. Voltou da escola chorando, carregando o braço na mão direita; disse à mãe que nunca mais ia usá-lo, porque não queria ser o Capitão Gancho da turma. “Bobagem, meu filho.” “Mas eu queria ser O Homem de Seis Milhões de Dólares, o homem biônico da TV.” “O filho da vizinha não pode ser nem a Mulher Biônica!” Não adiantou, o braço ficou esquecido no fundo do armário. Agora, tinha uma prótese moderna, totalmente flexível, mas ainda um corpo estranho. “Como fui bobo em não contar a ela.”

Foi ela quem tomou a iniciativa de se encontrarem. Achou que estava na hora. “Não somos mais tão jovens, sabemos o que queremos, pelo menos de minha parte, e sei que quero ficar com você, pra que então perdermos mais tempo?” Ele, sem olhar para o lado, assentiu e o encontro foi marcado para o dia seguinte. Muito pouco tempo para assimilar a novidade, pensaria ele mais tarde, num misto de arrependimento e covardia. Mas o encontro estava marcado, não ia fugir, “já não basta não ter um braço, não vou ter coragem também?”

Ajustou a prótese, passou o olhar pelo tronco e parou nas pernas. Um dia, assistindo à TV, ficou impressionado quando viu num comercial um garoto que não podia jogar bola porque era para-lítico. Paralítico, foi a mãe que explicou, não pode andar porque não tomou a vacina, teve paralisia. Poliomielite, aprendeu o nome da doença na aula de Ciências. Foi uma reviravolta em sua vida. Descobriu que havia gente em situação pior que a dele, ele pelo menos podia jogar futebol, desde que não ficasse no gol. Começou então a sentir prazer em pensar em quantos meninos como aquele do comercial existiam por aí, sem poder brincar como as outras crianças; ele ainda podia correr, e o outro? preso para sempre na cadeira de rodas. Com o tempo, na adolescência, percebeu que havia outros tipos de defeitos, os escondidos, defeitos de caráter. Passou a procurar nas pessoas qualquer tipo de imperfeição, até mesmo as circunstanciais. “Aquele é pobre, mora na favela, o outro é corno, coitado.” Era como se pegasse uma lanterna e fosse invadindo a vida alheia, esmiuçando as cavernas mais profundas; queria desvendar a podridão escondida nas entranhas. Tornou-se perito nisso. “Esse critica demais, deve ter alguma frustração.” De tanto procurar subterrâneos, resolveu estudar espeleologia. Mas desistiu, quando no dia do vestibular, um sujeito espinhoso, que estava na sua frente, disse-lhe com ar cínico que aquilo não era para qualquer um. “Pra qualquer um, todo mundo, menos o maneta aqui”, pensou. Apesar de o sujeito ter várias espinhas no rosto, que o tornavam um ser repugnante à primeira vista, seu defeito não o impedia de usar os braços numa eventual escalada. Resignou-se diante do óbvio: sem um braço para lhe dar apoio, não teria a segurança necessária. Cogitou uma prótese, mas a idéia, afastada desde a infância pelo episódio do cyborg, teve que ser adiada. Ou a prótese, ou a faculdade particular de alguma coisa. De Direito, resolveu mais tarde. “Não ter o braço esquerdo não me fará falta ao Direito.” Só a mãe achava graça, “um doutor na família”, dizia para a mãe do autista, o qual freqüentava uma escola especial, sabe-se lá o que fazia. Voltou a atenção novamente para o armário, repassou alguns cabides, pensou numa camisa de manga comprida, esconderia a prótese, “bobagem, uma hora ela vai ver.”

Ela demonstrava ser racional e ao mesmo tempo romântica: “Querido, não quero que tenha ilusões quanto a mim, quero que vá ao meu encontro de coração aberto, como eu irei. Se nos amamos de verdade, nada vai se interpor na nossa relação.” Parecia adivinhar seus pensamentos: “Não tenha medo do que vou pensar de você, já conheço sua alma, por isso posso dizer que te amo, mesmo sem jamais tê-lo encontrado pessoalmente.” Apesar de crer no sentimento mútuo, faltava-lhe a mesma determinação. Como um anão diante de Gulliver, sentia-se amedrontado com a confiança dela. Imaginava-a linda e perfeita como uma deusa esculpida com maestria. A dúvida que o encarcerava parecia se avolumar cada vez que a idealizava. Não concebia a perfeição ao lado do mutilado. Sua Vênus era completa.

Vasculhando o armário, reviu a camisa miúda que usou no dia da primeira comunhão. A camisa, de uma manga apenas, foi feita pela mãe, assim como todas as outras, cuidadosamente arrematadas à altura do ombro esquerdo. Uma vez disse na aula de catecismo: “Deus não fez o homem a sua imagem, senão todos tinham que ser iguais, com dois braços.” Os coleguinhas riram escanda-losamente. A professora, abismada, mais com a consciência precoce do menino, do que com seu atrevimento, não achou outra saída para manter a ordem na classe e expulsou-o da sala. A mãe quando soube apenas sorriu, mais de resignação do que de vergonha. O filho da vizinha era pior, muito pior, não podia sequer fazer primeira comunhão. Mas ele não fez a primeira comunhão, não naquela igreja, não voltou mais à aula de catecismo: o riso escandaloso dos colegas não foi nada cristão. Implorou tanto, que a mãe acabou concordando que ele fizesse as aulas na paróquia vizinha. Lá, ele não disse nada, e os colegas nunca riram escandalosamente dele.

A voz da amada, sempre doce a dizer palavras carinhosas, por vezes lhe doía o coração. Sempre esperou algo semelhante de sua mãe, mas ela, apesar de cumprir as funções esperadas, nunca foi afável. Havia sempre o gosto amargo da comparação. Na idade adulta, compreendia melhor a frustração dela e o lenitivo encontrado. Mesmo depois de ir morar sozinho para advogar em outra cidade, a mãe continuava com as referências, até que um dia se calou. A vizinha a convidara para um recital e ela, como quem recebe a notícia da própria morte, descobrira que o autista sabia tocar piano. Desde então, como num pacto de silêncio entre criminosos, mãe e filho nunca mais mencionaram o assunto. A representação da mulher ideal se fortalecia no contraste entre o amargor da mãe e a doçura da amada. No último telefonema trocado, em que combinaram o encontro, ele sentiu mais uma vez a falta de ternura da mãe: “Não tenha medo de se expor, todos nós temos defeitos. O importante é o que carregamos dentro de nós. O essencial é invisível aos olhos, como disse Saint-Exupéry.”

“De perto, ninguém é normal, como disse Caetano Veloso.” A constatação da frase dita, quase que mecanicamente, trouxe-o de volta ao espelho. Aproximou-se até onde podia enxergar com nitidez. De repente, parecia enxergar sua verdadeira imagem, como se a lanterna, antes usada para investigar a vida alheia, agora estivesse voltada para si próprio. A consciência de tudo o que fizera até então manifestava-se em forma de enxurrada, todos os abjetos encontrados, revirados, esmiuçados com prazer; cicatrizes mal fechadas, a dor que nunca sara. Sempre procurando nos outros algo que desculpasse a sensação de imperfeição. Pela primeira vez, olhou para dentro de si, no escuro da alma e viu sua própria escuridão. O podre de suas entranhas exposto, em carne morta, putrefata. Começou a transpirar medos, a expirar angústias. Vomitou julgamentos verminosos, atos purulentos. Perdeu os sentidos por alguns segundos, enquanto o espírito se esvaziava. Acordou em forma de pluma, com sede e frio. Não possuía mais o braço direito, nem as pernas, nem ossos, nem pele; no tronco, somente um órgão pulsando. De sua cabeça, a claridade surgia. Parado em frente ao espelho, temeu pelo atraso. Vestiu a melhor camisa e a melhor calça que julgou encontrar. Antes de sair, contemplou seu reflexo de corpo inteiro.

E ele foi. Viu ao longe a moça que o esperava. Tinha certeza que era ela. Aproximou-se, Suzana?, sim. De imediato, estranhou sua atitude, ela parecia não querer olhá-lo de frente. “Está com medo que eu a ache feia.” Riu para si, enquanto colocava a mão no queixo dela. “Não, espere, eu preciso te falar uma coisa”, disse com a mesma voz hesitante do telefone. Foi então que ele percebeu: ela também tinha um defeito para lhe mostrar. Era cega.


Aline Ponce

Retirado de Bestiario

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