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Conto, A visita da minha avó violante

por Jorge Soares, em 20.07.13

a minha avó violante

 

Eu que fui gerada depois da rádio, vi a televisão dar os primeiros passos, e uso com relativa desenvoltura este colosso da moderna comunicação que é a internet. Eu recebi a visita da minha avó Violante.

 

Podia ter sido assim, mas não foi.

 

Eu apenas imagino.  

 

Se não fosse minha avó Violante ter morrido nos seus frescos vinte e sete anos, seria hoje uma madura senhora de cento e muitos anos, e eu ponho-me a imaginar como seria se ela me visitasse um destes dias e pedisse, assim como se despercebendo de como o mundo tinha mudado:

 

– Pões-me água ao lume para um banho, minha filha?

 

Isto, se ela viesse passar comigo uma tarde, uns poucos de dias.

 

Imagino e falo-lhe, e imagino de novo como seria.

 

Para que ela fosse entendendo, ou porque, tanto quanto ela, eu estaria temerosa do que via através de seus olhos, dir-lhe-ia:

 

– Somos os filhos dos seus filhos e os netos de seus netos. Somos, como a Senhora, minha avó, descendentes daquele que ousou o sonho sentado nas galeras, preso nas grilhetas ou escrevendo com penas de bichos em praias ignotas. O que desvendou esse mistério que é o céu não ter presas em si estrelas como se fora bordado, mas ser afinal um vazio imenso onde as estrelas estão dependuradas a par de planetas e buracos negros e galáxias.

 

Um imenso campo de forças é onde nos somos uns e outros, havia de afirmar-lhe a provocar-lhe o espanto.

 

A minha avó Violante como seria outro que viesse com o conhecimento com que um dia se tivesse ido de doença, do coice de um cavalo, de um disparo ou de um mau parto; ou apenas pela degradação que é concomitante com o passar do tempo.

 

Como a minha avó, cada um deles ficaria pasmado e temeroso de ver gentes falando sem interlocutor, uns fones dependurados no ouvido, ou nem isso, que mesmo eu ainda os cuido de loucos falando sozinhos por todo o lado. E eu dir-lhes-ia, como me imagino a dizer a minha avó Violante:

 

– Avó, eles falam ao telemóvel.

 

E ela nem perguntaria: que é isso, filha?! que já minha avó se espantaria que eu tomasse para mim o dinheiro em notas, outras que não aquelas com que tinha comprado aquele tecido, o vestido verde que ela mesma costurou para levar ao baile. A minha avó a olhar as notas a saírem em buracos na parede. Seria legítimo o seu alvoroço e o seu espanto, e seria igual se fosse outro que tivesse vindo dos primórdios da revolução do carvão e dos barcos movidos a vapor, que já era espanto que chegasse esse fazer-se o ar quente em vez de braços de escravo ou alimária.

 

Tivesse minha avó vindo do tempo de onde veio, ou tivesse ela vindo do fulgor das campanhas de Bonaparte, e eu lhe diria de igual modo:

 

– Não digais de loucos aos que vieram depois que vós vos fostes, que cada uma dessas incomensuráveis, inimagináveis descobertas que fazeis e que tanto transtornam vosso sentir de outros tempos, estava já inscrita em cada um dos vossos sonhos.

 

E estou certa que ela me havia de sorrir e aquiescer que sim senhora.

 

Mas ainda assim lhe seria estranho, e mereceria crítica severa, o ruído e o movimento, e os carros, e as luzes que a deixariam tonta. E seria com mal-estar que veria frutas fora de época. E muito a desgostaria que fosse Verão em meses de ser o pico do Inverno, que se dessem por desapreciadas as estações do ano e desreguladas as colheitas.

 

Mas creio que, logo que lhe fosse dado esconjurar o medo, ela acometeria na rádio, na televisão e no telefone, seu humor de antanho como o faria na internet. E para isso, a levaria eu, de manso, passo a passo, a ver de cada um o encanto, mais que o susto que sempre se gera no homem face ao desconhecido.

 

Ela estranharia tanta novidade. É evidente que ficaria em desassossego, mas, sobretudo, lhe seria incongruente a pressa, a correria de vida, de cada ser humano. E sei que a veria a implorar aos céus que acalmasse os seus descendentes acometidos do pecado de querer controlar o tempo.

Sabedora do silêncio e da serenidade, sei que minha avó havia de pedir ao deus a quem tantas vezes implorou uma graça, que a salvasse desta grande provação que era ver o homem alienado numa corrida insana contra o tempo.

 

Minha avó Violante habituada à calma e ao raciocínio lento, como reagiria ela no mundo do telemóvel e do GPS, ela cujos olhos se teriam habituado à incomensurabilidade do Universo, deixaria que, curiosos, eles se passeassem pelas telas de um monitor ou de um tablet, e perguntaria, incrédula: que é issoe aquilo para que serve?

 

A minha avó Violante como se fora criança.

 

Sentar-nos-íamos numa sombra e, juntas, havíamos de recordar que estrelas e planetas e sóis e estrelas se regem de igual modo que a bola que cada um de nós, criança, atirou ao vidro da janela. E eu falar-lhe-ia de átomos e electrões, e da física quântica, e sei que a faria chorar quando dissesse que o homem que busca o como e onde do início dos mundos, também arrasa cidades com a cisão do átomo.

 

E, para sossega-la, iria passear com ela na margem de um rio, e falaríamos com gentes da poesia e da arte. E havíamos de escutar canções que ela acharia em tudo semelhantes às que um dia terá cantado. E, depois que tivéssemos percorrido a cidade grande, depois de cada novidade lhe ser apresentada, ou nem todas, mas as suficientes para que sentisse o temor e a grandeza, e a pequenez do homem a querer ser deus. Depois que ela me dissesse, e eu me espantasse disso, que tudo é relativo, tudo depende do ponto de vista. Depois que ela se apercebesse o que foi o futuro, com o cuidado que lhe viria de ter vivido cada um dos minutos de cozer o pão ou esperar um filho. Depois, ela havia de dizer-me do cuidado para que do sonho não resulte pesadelo. E eu havia de escutá-la.

 

A minha avó habituada a que lhe preparassem um banho morno numa banheira com pés em forma das patas de um bicho grande. Ou numa celha de madeira e lata situada, uma ou outra, mesmo no meio de uma sala.

 

Ela beberricando um chá de menta ficaria espantada que eu lhe tivesse o banho pronto no justo momento em que mo pedia, ou quase. E os olhos que, sei, seriam de um azul violeta quando os abria de espanto, ela os volveria para mim perguntando:

 

– Filha, a menina acha que vou meter-me aí dentro sujeitando-me a que reverbere mais água da parede e eu me afogue e queime?!

 

A minha avó Violante com o corpo ossudo coberto com uma capa de burel bordado com um largo capuz, havia de obrigar-me:

 

– Ora acabe com isso e vá buscar água ao poço e depois aqueça-a no lume. Faça como lhe peço, minha filha.

 

E eu havia de rir-me e ficaria agradecida que alguém me obrigasse a rolar o tempo a um ritmo tão lasso.

 

Se a minha avó Violante me visitasse.

 

Maria de Fátima

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:39



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