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Adopção:Direito a ser pais

por Jorge Soares, em 01.07.08

 

A propósito deste post da Sónia no seu blog  Os livros que ninguém quis dar a a ler de que sou habitual leitor, e dos posteriores comentários ao mesmo, recordei uma parte do debate no ultimo encontro sobre adopção.

 

Nesse encontro, e ante uma questão que coloquei sobre adopção singular, rapidamente a discussão passou de adopção singular para adopção por homossexuais, porque algumas das  pessoas que estavam na mesa claramente identificavam os adoptantes singulares com a homossexualidade, uma associação completamente injusta e disparatada, e que pelos vistos é muito habitual entre as assistentes sociais.

 

No debate participavam entre outros, O Dr. Eduardo Sá, claramente a favor, o Dr. Luís Vilas Boas e a Drª Helena Simões, ambos completamente contra. A esta distância é difícil recordar os argumentos utilizados - de para a parte, mas recordo que no fim, e tal como nos comentários ao post da Sónia, a discussão terminou com a eterna questão, será melhor para as crianças estarem num centro de acolhimento a crescer sem o carinho e amor, ou no seio de uma família, seja ela de que tipo for.

 

Eu sou pai adoptivo e biológico e do meu ponto de vista, qualquer criança estará sempre melhor no seio de uma família que num centro de acolhimento, onde é mais um e vive na eterna esperança, já seja de ser adoptado, ou de voltar para a sua família biológica. Quanto a isso não há duvidas, e acho que não haverá duvidas para ninguém.

 

O problema deverá ser colocado então ao nível do que é considerada a uma família. Desde o ponto de vista católico o conceito de família está muito claro, pai, mãe e filhos, e quem se divorcia deixa de ter direito até à comunhão. Felizmente vamos vivendo numa sociedade em que essa imagem está cada vez mais ultrapassada, o numero de pais solteiros ou divorciados aumenta dia a dia e cada vez mais deixam de ser olhados de lado.

 

Seremos uma sociedade em que duas pessoas do mesmo sexo podem constituir uma família?, para mim sim, infelizmente para a grande maioria das pessoas, a resposta é não. Duas pessoas do mesmo sexo podem até viver juntas e ter os mesmos direitos que qualquer união de facto, mas em Portugal não podem casar e muito menos adoptar.

 

Confesso que não consigo perceber a lógica por trás desta prática, se um homossexual não pode adoptar, quer dizer que segundo a segurança social, não está apto para ter filhos, nesse caso, estará apto a ter filhos biológicos?

 

A homossexualidade é algo que existe, algo real e de certeza que existem em Portugal milhares e milhares de pais com orientações sexuais desse tipo, será que todos os seus filhos irão ser crianças traumatizadas e com as mesmas orientações sexuais dos seus pais? É claro que não, até porque como dizia a Sónia, todos esses homossexuais nasceram de casais heterossexuais e isso não fez deles heterossexuais.

 

Do meu ponto de vista, a orientação sexual de alguém não deveria em caso nenhum ser tida em conta para o que quer que fosse, até porque como definimos uma orientação sexual normal?  O que é ser normal?

 

Já agora, o problema da adopção em Portugal, e da longa espera pela que temos que passar todos os candidatos, não está tanto na morosidade do processo, mas sim no facto de que ao contrario da ideia comum, não existem em Portugal muitas crianças à espera de ser adoptadas, na realidade existem muito poucas, existe sim é muitas crianças entregues ao estado e para as quais esse mesmo estado não se encarrega de criar projectos de vida que passem pela adopção.

 

Jorge Soares

PS:imagem retirada do Blog da Sónia

 

 

publicado às 21:54


16 comentários

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De cigana a 01.07.2008 às 23:57

Adorei este post! Lembrou-me aquela série "Sete palmos de terra", onde esta questão era abordada de forma brilhante e desmistificava muitos preconceitos.
É importante ter coragem para debater estes assuntos e afastar os fantasmas...
Tanta criança para adoptar e tanta gente sem conseguir!
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:02

Olá

Sim, falta sobretudo coragem para enfrentar estes assuntos de frente, somos um país de tabus, de assuntos escondidos debaixo dos tapetes... porque é mais fácil ignorar, olhar para o lado, e é isso que muitos fazem, felizmente ainda há pessoas de valor.. como podemos constatar se olharmos para os comentários a este post.

Não, não há muitas crianças para adoptar, há sim, muitas crianças sozinhas neste país, mas infelizmente a maior parte delas, nunca irá para a dopção.

Jorge
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De xana a 02.07.2008 às 00:03

Eu NÃO me recordo de ter lido/visto nas notícias que algum(a) homosexual tenha maltratado uma criança, ou que seja pedófilo... enquanto as pessoas ditas "normais" são capazes das maiores atrocidades contra crianças, na maior parte dos casos até são os próprios familiares. Somos um país preconceituoso, e continuaremos a ser enquanto se continuar a respeitar a doutrina da igreja, e enquanto a memória continuar a ser curta. Se duas pessoas mesmo heterosexuais resolverem viver juntas, por motivos de amizade ou económicos serão logo rotuladas de homosexuais, mesmo não sendo, e isto só mostra que o tuga tem mentalidade pequenina, e que não tem capacidade para perceber que duas pessoas do mesmo sexo podem partilhar uma casa, sem partilharem a cama. Se não entendem isto, muito menos entendem o amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Onde é que está a "norma" que diz que o normal é que o amor tem de ser entre pessoas de sexo diferente? Isso é tal e qual como o amor entre pessoas de "raças" diferentes. O amor não tem sexo, não tem raça, sente-se e mais nada. O amor que se quer dar a uma criança não deveria ser questionado por questões de raça ou orientação sexual, até porque aparentemente sendo pessoas "normais", os progenitores a abandonaram ( sim, sei que muitas vezes não é este o caso, o abandono).
São de lamentar que para a sociedade as pessoas com orientação sexual diferente da maioria continuem a ser descriminadas, mas que sejam pessoas normais para serem taxadas nos descontos e impostos como os restantes... Só são consideradas normais para o que interessa a este Estado desgovernado.
Muito mais poderia dizer, mas quem sou eu para comentar um tema assim...
beijinho
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:08

Olá Xana

Como sempre, este teu comentário vale um post

Sim, preconceito, intolerância, injustiça, somos um país hipócrita.Um pais donde importa é viver a aparência, o dfaz de conta.....é triste.

Beijinho
Jorge

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De rosacuriosa a 02.07.2008 às 12:17

esse último parágrafo é totalmente verdade. estagiei num centro de acolhimento e poucas eram as crianças que podiam ser adptadas, isto também porque muitos pais biológicos (que às vezes vão visitar os filhos à instituição) não dão autorização. não os culpo porque considero que eles acreditam que um dia vão ter condições para educar os filhos... mas até lá os miúdos estão ali... sem família :/ *
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:11

Olá

Pois, sei isso, mas acho uma enorme injustiça, para que manter as crianças assim?, não era muito mais justo que elas pudessem ter o carinho e o calor de uma família?, uma casa, um quarto...uma vida normal?

É claro que era!

Jorge
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De duas ideias a 02.07.2008 às 14:44

Jorge esta tua frase "não existem em Portugal muitas crianças à espera de ser adoptadas" diz muito, mas o termo certo será- não estão autorizadas a ser adoptadas ( digo eu).Infelizmente o estado é demasiado burocrático e descriminatório em relação aos adoptantes e benévolo em excesso com os pais biológicos , deixando as crianças no impasse do nada.
Excelente post. Cometa
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:13

Olá

Pois, é mesmo isso, o estado preocupa-se muito com a "família" e pouco com as crianças, e depois estas passam a vida inteira à espera.....

Não é justo, nem para as crianças, nem para quem espera e desespera por um filho.

Beijinho
Jorge
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De nasnuvens29 a 02.07.2008 às 15:44

Felizmente nunca passei por essa realidade, ter de estar á espera que alguem nos queira adoptar, a espera , a decepção de ser rejeitado... a demora...., Sim porque em Portugal há tantas crianças que deviam ter uma familia que lhe pudesse dar o amor e carinho que as familias biologicas muitas vezes não dão, umas porque não podem financeiramente suportar o l" luxo" de ter mais um filho... Outras porque emocionalmente não lhes dão o devido valor...
Deviam ser criados lares de acolhimento, onde as crianças pudessem ter laços com pessoas que realmente se preocupam em vez de serem "mais uma" num sistema sobrelado. E porque não nos lares homosexuais ou de pessoas que não querem um companheiro, mas sim só a criança.... Claro que há que avaliar as competencias necessarias, mas isso também com os outros candidatos....Haja amor para dar...
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:23

Olá

Nem mais, o que interessa é que as crianças sejam felizes, que sintam o calor de uma família, que cresçam rodeadas de carinho e não esquecidas.

Gostei muito do teu comentário, obrigado
Jorge
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De Miss Pepper a 02.07.2008 às 19:55

Como sempre este tema dá pano para mangas. Obviamente que uma pessoa singular não tem de ser homossexual e, do meu ponto de vista, não é a orientação sexual que vai condicionar o amor que essa criança vai receber do adoptante. Afinal, muitas familias ditas "normais" não são capazes de amoar e tratar uma criança como ela merece. E nemvale a pena enumerar casos, pois há imesnsos sobejamente conhecidos de todos. enfim!

xinhus
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:28

É verdade, um assunto que poderia dar muito que falar, mas um assunto importante, que deve ser debatido e falado, porque há muita gente a ser descriminada injustamente e muitas crianças a amar.

Beijinho
Jorge
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De Perfeito Estranho a 02.07.2008 às 21:22

Bem Jorge que posso dizer , já disseste tudo ...
Sou homossexual apesar disso levo uma vida perfeitamente normal , a minha sexualidade só a mim diz respeito. Em relação à adopção Portugal apesar de ser um país que já tem muitas mentes progressistas e que vêem o óbvio ainda existem meia dúzia de camelos que mantêm este Estado num tempo retrógrado e discriminatório em todos os sentidos , acima de tudo está a felicidade e boa formação de uma criança para que possa ser um adulto saudável um dia mais tarde. Não importa se os pais são pretos , brancos , azuis , homossexuais , bissexuais ou assexuais . O que realmente importa são os principios , o Amor e educação ... Mas pelos vistos isso não é necessário na perspectiva dos nossos dirigentes ...
Importante é existir o que existe .... (nada)
Importante é crianças em instituições estarem sózinhas porque seus pais biológicos que até são drogados querem um dia ir buscá-las , até um drogado tem direito ao benefício da dúvida no nosso país e um homem ou uma mulher só porque é homossexual não tem esse direito tão pouco ... pois ainda estou para perceber onde está a normalidade da heterossexualidade em relação à homossexualidade ..

Abraço bom post , assunto delicado (mas já o sabes com toda a certeza)
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:45

Olá

Completamente de acordo com tudo o que dizes, e deixa-me dizer que admiro a forma como encaras a vida..pelo menos aqui na blogosfera, de frente e sem problemas, como todos a deveríamos encarar.

Sei que é um assunto delicado, mas é um assunto que tem que ser abordado e tratado, apesar de não trazer simpatias....

Abraço
Jorge
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De José Coelho a 02.07.2008 às 22:03

Olá boa noite. Concordo contigo e espero que num futuro muito próximo dois homossexuais consigam casar e adoptar crianças. Em relação à adopção, não é justo que 2 lésbicas formem uma família só porque são mulheres e podem ter filhos biológicos e 2 homens como não podem adoptar têm de se contentar com um cão ou gato (como se fosse a mesma coisa), a não ser que engravidem uma amiga ou assim (como na série Queer as Folk). Todos diferentes, todos iguais. A ver se este país anda pra frente e evolui com a nossa vizinha Espanha. Abraços deste amigo sapense.
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De Jorge Soares a 03.07.2008 às 00:52

Olá

Todo o mundo tem direito a fazer as suas escolhas, sejam de que tipo forem, e evidentemente as opções sexuais de cada um não deveriam ser tidas nem achadas na hora de se avaliarem candidatos à adopção. As pessoas devem ser avaliadas pela sua capacidade de amar e de educar, não pelas suas opções sexuais.

Abraço e obrigado pela visita
Jorge

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