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O rastro do teu sangue na neve

por Jorge Soares, em 13.12.08

 

Rosa triste
 
Um dia, teria eu 13 ou 14 anos, descobri este conto publicado nas páginas centrais de um jornal, comecei a ler e já não consegui parar, a seguir ao conto veio um livro, e depois desse, muitos outros livros, o conto fez-me descobrir o autor, um grande escritor, um dos maiores. Gabriel Garcia Marquez. 
 
O rastro do teu sangue na neve.

Ao anoitecer, quando chegaram à fronteira, Nena Daconte notou que o dedo com a aliança de casamento continuava sangrando. O guarda-civil com a manta de lã sobre o chapéu de três pontas e verniz-charão examinou os passaportes à luz de uma lanterna de carbureto, fazendo um grande esforço para não ser derrubado pela pressão do vento que soprava dos Pireneus. Embora fossem dois passaportes diplomáticos em regra, o guarda levantou a lanterna para comprovar que os retratos se pareciam às caras. Nena Daconte era quase uma menina, com uns olhos de pássaro feliz e uma pele de melaço que ainda irradiava o sol do Caribe no lúgubre anoitecer de janeiro, e estava agasalhada até o pescoço com um abrigo de nucas de visom que não poderia ser comprado com o salário de um ano da guarnição inteira da fronteira. Billy Sánchez de Ávila, seu marido, que dirigia o automóvel, era um ano mais jovem que ela, quase tão belo, e usava um paletó escocês e um boné de jogador de beisebol. Ao contrário de sua esposa, era alto e atlético e tinha as mandíbulas de ferro dos valentões tímidos. Mas o que revelava melhor a condição de ambos era o automóvel platinado cujo interior exalava um hálito de animal vivo, como não se havia visto outro por aquela fronteira de pobres. Os assentos traseiros iam atopetados de maletas demasiado novas e muitas caixas de presentes que ainda não tinham sido abertas. Lá estavam, além disso, o sax-tenor que tinha sido a paixão dominante de Nena Daconte antes que sucumbisse ao amor contrariado de seu doce bandoleiro de balneário.
 
Quando o guarda devolveu seus passaportes carimbados, Billy Sánchez perguntou-lhe onde poderiam encontrar uma farmácia para fazer um curativo no dedo da sua mulher, e o guarda gritou-lhe contra o vento que perguntassem em Hendaya, do lado francês. Mas os guardas de Hendaya estavam sentados à mesa em mangas de camisa, jogando baralho enquanto comiam pão molhado em canecas de vinho dentro de uma guarita de vidro cálida e bem iluminada, e foi só olhar o tamanho e o tipo do automóvel para indicar-lhes com gestos que entrassem na França. Billy Sánchez buzinou várias vezes, mas os guardas não entenderam que os chamavam, e um deles abriu o vidro e gritou com mais raiva que o vento:
- Merde! Allez-vous-en! 

Então Nena Daconte saiu do automóvel embrulhada no agasalho até as orelhas e perguntou ao guarda num francês perfeito onde havia uma farmácia. O guarda respondeu por costume com a boca cheia de pão que aquilo não era assunto dele, e menos com semelhante borrasca, e fechou a janela. Mas depois reparou com atenção na menina que chupava o dedo ferido embrulhada no resplendor dos visons naturais, e deve tê-la confundido com uma aparição mágica naquela noite de assombrações, porque no mesmo instante mudou de humor. Explicou que a cidade mais próxima era Biarritz, mas que em pleno inverno e com aquele vento de lobos talvez não houvesse uma farmácia aberta antes de Bayonne, um pouco mais adiante.

- É alguma coisa grave? - perguntou.
- Nada - sorriu Nena Daconte, mostrando o dedo com a aliança de diamantes em cuja ponta era levemente perceptível a ferida da rosa.
 
- É só um espinho.
 
 
Continua.... no próximo sabado.
 
Jorge
PS:Fotografia minha... há mais aqui:Momentos e Olhares

 

publicado às 21:17


14 comentários

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De smootha a 13.12.2008 às 21:59

O meu escritor preferido desde sempre :D
Belissimo conto. Quero o resto
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De Maria João a 13.12.2008 às 22:47

Um grande escritor, daqueles que se eterniza em nós e que viverá muito para lá da sua existência.

Mais uma bela escolha.

Maria João
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De Jorge Soares a 14.12.2008 às 01:04

Olá João

Sem dúvida um homem que tem o lugar marcado na historia das artes.. para a etrnidade.

Beijinho
Jorge
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De Jorge Soares a 14.12.2008 às 01:03

Olá

A seguir ao conto eu li "La Hojarasca".. acho que e,m Português é A revoada e a seguir a esse li Cem Anos de Solidão, depois disso foram todos.. mesmo alguns de contos que só há em espanhol.

O resto... vai vir... mas tens aqui o link: http://conselheiroacacio.wordpress.com/2008/09/26/o-rastro-do-teu-sangue-na-neve-g-g-marquez/
Beijinho
Jorge
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De MH-Words a 14.12.2008 às 00:17

Olá,

Confesso que conheço muito pouco deste escritor.
Por tudo o que se fala dele, começo a sentir vontade de ler e fazer o meu próprio juízo.
Não gosto ler determinado escritor ou obra só porque possam estar na moda.

Fico a aguardar pela continuação, sempre dá para desvendar um pouco mais da sua escrita.

Abraço
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De Jorge Soares a 14.12.2008 às 01:08

Olá

Já faz mais de 25 anos que li este conto pela primeira vez, e acho que já fez 20 anos que ele foi prémio Nobel, ele está na moda há muito e vai estar por muito mais tempo.

Não, definitivamente não é um escritor que se leia por moda, quer ler um bom livro?, leia Cem Anos de Solidão, ou conversas da Catedral, ou O amor nos tempos de cólera, ou memórias de mis putas tristes ou... poderia dar uma longa lista...

Por agora, deixo o link de onde tirei o conto:
http://conselheiroacacio.wordpress.com/2008/09/26/o-rastro-do-teu-sangue-na-neve-g-g-marquez/

Abraço
Jorge
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De Maria Eugenia Pinto a 14.12.2008 às 22:17

Ou ´Crónicas de uma Morte Anunciada" que foi o primriro livro que li dele e não ma deixou parar mais...
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De Patricia a 14.12.2008 às 14:04

Para quem gosta das obras de Garcia Marques, sugiro que leiam "Aroma de Goiaba", que é um livro escrito em conjunto com Plinio Apuleyo Mendoza e que não é mais que uma longa conversa entre o jornalista e Garcia Marques. Neste livro encontra-se a descrição do processo criador e criativo de muitas das obras do escritor. É um livro extraordinário .que nos permite perceber que por trás de cada obra deste autor, existe tanto de inspiração como de transpiração. Um livro obrigatório para os admiradores da obra de Garcia Marques.
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De susana Rodrigues a 14.12.2008 às 16:55

:) Fotografia bonita! Biarritz foi onde Eça foi passar os ultimos tempos da sua vida. :)Fico à espera do resto do conto.
Um beijinho
Su
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De Jorge Soares a 15.12.2008 às 23:15

Olá

Obrigado :-)

O resto do conto.... virá a seguir :-)

Beijinho
Jorge
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De Branca a 14.12.2008 às 20:29

Olá Jorge !!
Parabéns pelas fotos , já lá espreitei !
O conto é lindo um dos meus autores favoritos, aliás um dos livros da minha vida é o Cem anos de Solidão , é o autor que recomendo sempre a toda a gente .
Já vou espreitar o resto do conto
Beijinho
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De Jorge Soares a 15.12.2008 às 23:16

Olá

Sim, o conto é lindo, mas é um pouco triste. Garcia Marquez é um escritor fantástico.

beijinho
Jorge
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De Maria Eugenia Pinto a 14.12.2008 às 22:22

Olá Jorge
Muito bem, conhecia a fotonovela, a rádio-novela (alguém se lembra da "Simplesmente Maria?), a telenovela e, agora em grande estilo surge ..... a blogo-novela.
Adoro Gabriel Garcia Marquez.
Beijinho
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De Jorge Soares a 15.12.2008 às 23:18

Olá

O conto é muito comprido, seria impensável colocar aqui todo de uma vez... além disso, assim tem mais piada.... e fideliza leitores....

espero que gostes.

beijinho
Jorge

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