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Vi maiores e mais firmes ....

por Jorge Soares, em 20.12.08

 

Uma rosa

 

Continuação do conto O Rastro do teu Sangue na neve, de Gabriel Garcia Marquez, primeira parte aqui

.....

-É só um espinho


Antes de Bayonne voltou a nevar. Não eram mais que sete da noite, mas encontraram as ruas desertas e as casas fechadas pela fúria da borrasca, e após muitas voltas sem encontrar uma farmácia decidiram continuar em frente. Billy Sánchez alegrou-se com a decisão. Tinha uma paixão insaciável pelos automóveis raros e um papai com demasiados sentimentos de culpa e recursos de sobra para agradá-lo, e nunca havia dirigido nada igual àquele Bentley conversível de presente de casamento. Era tanta a sua embriaguez ao volante que quanto mais andava menos cansado se sentia. Estava disposto a chegar naquela noite a Bordeaux, onde tinham reservado a suíte nupcial do hotel Splendid, e não haveria ventos contrários nem neve suficiente no céu para impedi-lo. Nena Daconte, por sua vez, estava esgotada, sobretudo por causa do último trecho da estrada de Madri, que era uma pirambeira de cabras açoitada pelo granizo. Assim, depois de Bayonne enrolou um lenço no dedo, apertando bem para deter o sangue que continuava fluindo, e dormiu.

Billy Sánchez não notou a não ser por volta da meia-noite, depois que acabou de nevar e o vento parou de repente entre os pinheiros e o céu das charnecas encheu-se de estrelas glaciais. Havia passado diante das luzes adormecidas de Bordeaux, mas só parou para encher o tanque num posto da estrada, pois ainda lhe restava ânimo para chegar até Paris sem parar e retomar fôlego. Estava tão feliz com seu brinquedo grande de 25.000 libras esterlinas que nem mesmo se perguntou se também estaria a criatura radiosa que dormia ao seu lado, com a atadura do dedo empapada de sangue, e cujo sonho de adolescente, pela primeira vez, estava atravessado por rajadas de incerteza.

Haviam se casado três dias antes, a dez mil quilômetros dali, em Cartagena de Indias, com o assombro dos pais dele e a desilusão dos dela, e a bênção pessoal do arcebispo primaz. Ninguém, a não ser eles mesmos, entendia o fundamento real nem conheceu a origem daquele amor imprevisível. Havia começado três meses antes do casamento, num domingo de mar em que a quadrilha de Billy Sánchez tomou de assalto os vestiários de mulheres no balneário de Marbella. Nena Daconte havia acabado de fazer dezoito anos, acabava de regressar do internato de la Châtellenie, em Saint-Blaise, Suíça, falando quatro idiomas sem sotaque e com um domínio magistral do sax-tenor, e aquele era seu primeiro domingo de mar desde o regresso. Havia se despido por completo para vestir o maiô quando começou a debandada de pânico e os gritos de abordagem nas cabines vizinhas, mas não entendeu o que estava acontecendo até que a tranca de sua porta saltou aos pedaços e viu parado na sua frente o bandoleiro mais belo que alguém podia imaginar. A única coisa que vestia era uma cueca exígua de falsa pele de leopardo, e tinha o corpo agradável e elástico e a cor dourada das pessoas do mar. No pulso direito, onde tinha uma pulseira metálica de gladiador romano, trazia enrolada uma corrente de ferro que lhe servia de arma mortal, e tinha pendurada no pescoço uma medalha sem santo que palpitava em silêncio com o susto do coração. Haviam estado juntos na escola primária e quebrado muitas jarras no jogo de cabra-cega das festas de aniversário, pois ambos pertenciam à estirpe provinciana que manejava ao seu arbítrio o destino da cidade desde os tempos da colônia, mas haviam deixado de se ver tantos anos que não se reconheceram à primeira vista. Nena Daconte permaneceu de pé, imóvel, sem fazer nada para ocultar sua nudez intensa. Billy Sánchez cumpriu então seu ritual pueril: baixou a cueca de leopardo e mostrou-lhe seu respeitável animal erguido. Ela olhou-o de frente e sem assombro.

- Vi maiores e mais firmes - disse, dominando o terror. - Portanto, pense bem no que você vai fazer, porque comigo vai ter de se comportar melhor que um negro.
..... 

Continua
 
Jorge
PS:Imagem minha, retirada do Momentos e Olhares

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:46


2 comentários

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De Maria Eugenia Pinto a 21.12.2008 às 16:03

E cá temos nós mais um capítulo da nossa blogo-novela,,, com bolinha vermelha no canto superior direito...
Beijinhos

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