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Adopção:Então e os genes?

por Jorge Soares, em 23.01.09

 

Não sei se alguém se lembra do post em que falava dos genes e das duas mulheres cá de casa?... certo certo é que desde então o clima de guerra está instalado, e os dois homens já estamos a pensar pedir asilo algures... mas disso já falarei outro dia

 

Por estes dias recebi um mail em que alguém dizia o seguinte:

 

Acho que a maior dificuldade é não sermos um casal infértil e ninguém perceber porque é que podendo ter filhos biológicos alguém se propõe adoptar uma ou mais crianças. è recorrente a questão mas não queres ver os teus traços na criança, mas e os genes perdem-se e blá blá blá...

 

Não é uma conversa que não tenha escutado antes, eu e todas as pessoas que optaram por adoptar mesmo podendo ter os seus filhos biológicos. Não consigo perceber porque é que as pessoas acham que os genes do meu filho adoptado não são melhores que os meus, ou porque é que eu haveria de preferir os meus genes a outros qualquer... mas deve haver alguma razão lógica..... aliás, atendendo ao post que referi no inicio... bem que tínhamos dispensado alguns dos genes da R... que o N.  é bem menos reivindicativo.

 

Mas voltando ao mail, vou de novo socorrer-me da resposta da Sandra:

 

tal como vocês também nós não somos inférteis (que saibamos, porque nunca tentámos engravidar nem queremos!). A recepção por parte da nossa família e amigos até foi bastante boa, mas a verdade é que já estavam preparados para tal. A mim desde sempre me ouviram dizer que não queria ter filhos (por uma multitude de razões que vão muito além das questões da adopção, da protecção à infância e que se prendem com formas específicas de '"ver" o mundo). Todas essas razões, levaram a que a adopção de uma criança (quando a vontade de sermos pais surgiu) fosse a escolha mais óbvia e lógica.

Apesar da desilusão da mãe do meu companheiro e também da minha, a aceitação foi muito boa e a minha filha hoje (e desde o início) está perfeitamente integrada na família. 

Mas é claro que também tivemos de responder a algumas questões como as que indicaste. Essa dos genes então tira-me do sério. Normalmente, a minha resposta é "quem lhes disse a eles que os seus (e meus) genes eram melhores do que os de outra pessoa qualquer no mundo?!". Tentei sempre explicar também porque é que os genes, a biologia, o sangue e a carne não significam nada para mim. O que me importa são os afectos. E exemplos de como isto é verdade não faltam à nossa volta. Na sociedade, no nosso círculo de amigos, no seio da nossa própria família! 

Esses impulsos de transmitir os genes, deixar descendência biológica, etc..., funcionava em tempos muito, muito remotos, em que o objectivo humano era, como o de qualquer outra espécie a sobrevivência e a evolução. Não quer dizer que hoje, esses impulsos não existam, mas existem também uma série de outros factores com um peso enorme e o facto de, enquanto seres racionais que somos, podermos e termos o dever de ponderar todos os condicionantes.

No seguimento disto e em relação às dúvidas das pessoas, sobre o porquê de não querer ter filhos biológicos, a resposta é também, para mim, óbvia:

- O planeta está sobrelotado. 
- Os recursos, por mais que as pessoas teimem em ignorar esse facto, são finitos. 
- Toda a ideologia política, económica e social na qual se baseiam as sociedades actuais, aniquila-me qualquer ponta de optimismo em relação a «esta» humanidade. 

Considerando tudo isto (e muito mais, mas se começo nunca mais paro!), porque razão é que eu quereria pôr mais um ser humano cá?! Para mim isso simplesmente não faz sentido.

- Depois, também acresce a questão da prioridade: já cá estão crianças sem família. Neste mundo. Já existem. Estão primeiro do que as que ainda não existem! Parece-me lógico, não? Então primeiro há que tratar destas. É tão simples quanto isso. 

Esgotados todos os argumento lógicos, resta-nos o inestimável direito de decidirmos sobre a nossa própria vida: "É assim que vai ser porque eu quero. É a minha/nossa vida e eu/nós é que decidimos. Se querem apoiar, muito bem. Se não querem, olhem, vão dar banho ao cão!"

 

Sandra..... tu és demais!

 

Jorge

PS:imagem retirdada da internet

publicado às 21:46


5 comentários

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De Maria Eugénia Pinto a 23.01.2009 às 22:53

Olá
Pois parece que a questão dos genes, o facto de se ser fértil, etc., etc., etc., confunde muita gente... Eu, no meu caso a maior parte das vezes já nem explico, é porque sim e pronto!
Concordo contigo Jorge:
Sandra és demais...
Beijinhos
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De Rosana a 23.01.2009 às 23:35

Também deixei de explicar o que quer que seja. Ninguém me perguntou porquê quando decidi engravidar, porque haviam de fazer perguntas quando decidi adoptar?
A questão dos genes não se compreende...
bj
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De susana Rodrigues a 23.01.2009 às 23:47

a sandra é mesmo demais:) de facto acho que é muita pretensão nossa acharmos que não há nada como os nosso genes!!:) enfim...
su
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De Miepeee a 24.01.2009 às 17:41

Este post lembrou-me uma conversa que ha uns anos , que o imbecil do homem (desculpa mas so he posso chamar isto) diz, eu nunca adoptava uma crianca, sei la se nao estaria a adoptar um futuro marginal, nao sabemos quem sao os pais.
Como deves imaginar olhei para ele e disse-lhe, tens razao, olha para mim, quando sair daqui vou assaltar uns quantos carros e casas, e escusas de me visitar na prisao porque eu ia sentir-me muito envorgonhada com a tua presenca.
Sabes o que me choca e que a maioria das pessoas que faz este tipo de comentarios sao pessoas com educacao superior, que na minha opiniao tem o dever de se informarem antes de dizer disparates.
Jorge eu sou o que sou nao pelos genes que me foram transmitidos (com exepcao da parte fisica), mas pela educacao , carinho e muito amor que recebi desde o dia em que fui adoptada.
Beijinhos.
Beijinhos.
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De Zaka a 01.02.2009 às 04:00

Oh... como me revejo nestas palavras...
Ainda há dias, ao contar a uma ex-colega de escola que reencontrei ao fim de mais de uma dezena de anos, que tinha adoptado porque nunca quis engravidar... bem que vi a expressão dela a ocultar mal uma centena de perguntas e de opiniões que silenciei com o meu olhar mais inibidor.
Mas que raios... eu sempre que olho para a KuKa sinto a convicção que nem que eu e o gajo muito tivéssemos trabalhado para isso, alguma vez teríamos feito uma menina mais linda, inteligente e preciosa como ela é!

Genes... que é isso? Comem-se ao pequeno almoço com leite morno?

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