Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conto - O reverso da crisálida

por Jorge Soares, em 14.05.16

crisalida.jpg

 

 

E então um dia a Natureza condoeu-se daquela fraca borboleta.

 

De asas mutiladas por homens repletos de altruísmo, resolveu retornar ao purgatório casulo a fim de tornar-se magra, mas tolerável lagarta. Ainda hoje mastiga, autômata, seu insosso maço de folhas secas.

 

 

Odiava o modo como meu pai me olhava. Aquele pestanejar de pálpebras e o quase imperceptível balançar de cabeça ― que oscilava entre a compaixão e o desapontamento ― eram o meu regime. Ele me condenava por eu não ter herdado a macheza atávica que me havia sido destinada. Meus gestos tornavam os corredores de nossa casa escorregadios, pegajosos, imundos. Nada que eu fizesse para agradá-lo surtia efeito. Meus irmãos eram os varões. Eu a varíola.

 

Desdenhosos lacaios da aversão que papai me dirigia, os espelhos condenavam meus olhos, o som de minha voz e os pensamentos que eu havia alcunhado secretamente de sombrios. O eu refletido era de um sarcasmo aterrador, ria de mim com uma paixão violenta. Por ser meu oposto, era o desejado filho, aquele que não possuía pensamentos sombrios.

 

Eu sofria. E minha dor era um minotauro que me perseguia por infinitos corredores de dúvida, culpa e negação. Sempre que eu cedia aos meus proibidos impulsos, mais próxima espreitava a fera mitológica. Seu espectro grotesco afugentava os corpos nus e de masculinidade hiperbólica que vagavam por meus deslizes. Na equivocada matemática de meu corpo, cabeça, tronco e membros resultaram em um somatório obtuso. A aritmética de minha identidade adicionou-me, subtraiu-me, multiplicou-me, dividiu-me, potencializou-me e extraiu minhas raízes. E, no final, resultei em um total estéril.

Descobri ainda em minha juventude que eu não era nada. Por isso meu pai quase não me via, e os espelhos tampouco me enxergavam sem desdém.

 

Leprosos, diabéticos, hemofílicos, todos os mazelados despertavam uma mórbida inveja em mim, o anseio de ser um deles. Eu amava os pontos cardeais esculpidos sobre a topografia da dor. A convalescença contínua permite que os doentes sejam tratados com misericórdia. Mas, ninguém cuidaria de mim. Pessoa alguma se apiedaria das pústulas assintomáticas de minha vergonhosa doença, meu desequilíbrio secreto, meu mal sombrio.

 

Quantas tentativas infelizes, tantas investidas em inúmeras religiões. E nenhuma foi capaz de adormecer minhas madrugadas em claro. Eu era a serpente, carregada de peçonha, que secretava muco diante da serena pureza de meus bons pregadores. As orações misturavam-se ao meu execrável orgasmo, e Deus não permitia que eu pensasse em amor.   

 

Prostrado diante da humilhante condição de ser quem ― contra o meu próprio arbítrio ― eu era, resolvi tornar-me outro. Um outro ao qual a óptica paterna pudesse encarar, sem constrangimentos. Um outro que mimetizasse aquele que vivia no interior do espelho.

 

Arquitetei uma nova identidade. Adquiri o método que, biologicamente, não me havia sido transmitido. Não sei bem se resultei em um ser humano feliz. Mas, ora! De que vale a felicidade quando ela chega dentro de uma garrafa, solta no remoinho? A felicidade é privilégio daqueles que não temem as moléstias da alma. Eu temo.

 

Ajoelhada ao meu lado, diante do altar, exibo a mulher que sitiará meus vícios e me parirá filhos saudáveis. Enquanto meu pai me observa com ares de absolvição, sou acometido por um irrefreável pensamento sombrio. Nego-me a abater-me diante dele. Mas, o que importa agora? O pensamento é uma mácula que os olhos não veem. Venci-me. Derrotei-me. Logo estarei casado.

 

Que moço simpático, que rapaz gostoso é esse padre!

 

Troquem-se as alianças. Amém.

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:26

Conto - O Cavalo que queria ser famoso

por Jorge Soares, em 07.05.16

cavalo.jpg

 Era uma vez um cavalo que vivia em Pádua. Servia como montada de um capitão de soldados do exército de Veneza, porque o que se vai contar passou-se há muitos anos, quando as guerras eram feitas com cavalos e espadas.

 
Certo dia, quando o cavalo estava no tronco para ser ferrado, entrou um ladrão no recinto. O meliante, que vinha armado, levantou um ferro para bater na cabeça do ferrador. O cavalo assustou-se, e, como ainda não estava com as patas presas, pregou um valente coice no assaltante, que foi abater-se contra o muro. O ferrador ficou muito agradecido e disse ao cavalo:
 
— Vou cravar-te, no casco da mão direita, uma ferradura, que me deu um génio, há muitos anos, por serviços prestados. Quando estiveres em perigo, raspa com ela no chão e diz três vezes: Hihihipoho.
 
O cavalo foi-se embora e quase que se esqueceu do assunto, mas um dia, em grande galope numa batalha, tropeçou e estatelou-se com uma pata partida. Lembrou-se logo da ferradura mágica do ferrador; escarvou o chão e disse três vezes “Hihihipoho”. Encontrou-se, de repente, numa clareira duma floresta de carvalhos e viu um génio, que era homem da cintura para cima e cavalo da cintura para baixo, que lhe disse:
 
— Que ajuda precisas, cavalo?
— Parti uma pata e quero que me salves de ser abatido — um cavalo de pata partida já não serve para montada de ninguém.
O génio deu três sacudidelas com a cauda e o cavalo ficou curado.
— Ainda tens dois pedidos — disse o génio esfumando-se. — Usa-os bem!
 
 
 
 
Joaquim Bispo
 
* * *
Imagem: Leonardo da Vinci, Estudo de cavalo, c. 1493–94. Royal Library, Windsor.

 

 

Retirado de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:23

Conto - O reverso da crisálida

por Jorge Soares, em 30.04.16

magritte-la-reproduction-interdite.jpg

 

E então um dia a Natureza condoeu-se daquela fraca borboleta.

 

De asas mutiladas por homens repletos de altruísmo, resolveu retornar ao purgatório casulo a fim de tornar-se magra, mas tolerável lagarta. Ainda hoje mastiga, autômata, seu insosso maço de folhas secas.

 

Odiava o modo como meu pai me olhava. Aquele pestanejar de pálpebras e o quase imperceptível balançar de cabeça ― que oscilava entre a compaixão e o desapontamento ― eram o meu regime. Ele me condenava por eu não ter herdado a macheza atávica que me havia sido destinada. Meus gestos tornavam os corredores de nossa casa escorregadios, pegajosos, imundos. Nada que eu fizesse para agradá-lo surtia efeito. Meus irmãos eram os varões. Eu a varíola.

 

Desdenhosos lacaios da aversão que papai me dirigia, os espelhos condenavam meus olhos, o som de minha voz e os pensamentos que eu havia alcunhado secretamente de sombrios. O eu refletido era de um sarcasmo aterrador, ria de mim com uma paixão violenta. Por ser meu oposto, era o desejado filho, aquele que não possuía pensamentos sombrios.

 

Eu sofria. E minha dor era um minotauro que me perseguia por infinitos corredores de dúvida, culpa e negação. Sempre que eu cedia aos meus proibidos impulsos, mais próxima espreitava a fera mitológica. Seu espectro grotesco afugentava os corpos nus e de masculinidade hiperbólica que vagavam por meus deslizes. Na equivocada matemática de meu corpo, cabeça, tronco e membros resultaram em um somatório obtuso. A aritmética de minha identidade adicionou-me, subtraiu-me, multiplicou-me, dividiu-me, potencializou-me e extraiu minhas raízes. E, no final, resultei em um total estéril.

Descobri ainda em minha juventude que eu não era nada. Por isso meu pai quase não me via, e os espelhos tampouco me enxergavam sem desdém.

 

Leprosos, diabéticos, hemofílicos, todos os mazelados despertavam uma mórbida inveja em mim, o anseio de ser um deles. Eu amava os pontos cardeais esculpidos sobre a topografia da dor. A convalescença contínua permite que os doentes sejam tratados com misericórdia. Mas, ninguém cuidaria de mim. Pessoa alguma se apiedaria das pústulas assintomáticas de minha vergonhosa doença, meu desequilíbrio secreto, meu mal sombrio.

 

Quantas tentativas infelizes, tantas investidas em inúmeras religiões. E nenhuma foi capaz de adormecer minhas madrugadas em claro. Eu era a serpente, carregada de peçonha, que secretava muco diante da serena pureza de meus bons pregadores. As orações misturavam-se ao meu execrável orgasmo, e Deus não permitia que eu pensasse em amor.   

 

Prostrado diante da humilhante condição de ser quem ― contra o meu próprio arbítrio ― eu era, resolvi tornar-me outro. Um outro ao qual a óptica paterna pudesse encarar, sem constrangimentos. Um outro que mimetizasse aquele que vivia no interior do espelho.

 

Arquitetei uma nova identidade. Adquiri o método que, biologicamente, não me havia sido transmitido. Não sei bem se resultei em um ser humano feliz. Mas, ora! De que vale a felicidade quando ela chega dentro de uma garrafa, solta no remoinho? A felicidade é privilégio daqueles que não temem as moléstias da alma. Eu temo.

 

Ajoelhada ao meu lado, diante do altar, exibo a mulher que sitiará meus vícios e me parirá filhos saudáveis. Enquanto meu pai me observa com ares de absolvição, sou acometido por um irrefreável pensamento sombrio. Nego-me a abater-me diante dele. Mas, o que importa agora? O pensamento é uma mácula que os olhos não veem. Venci-me. Derrotei-me. Logo estarei casado.

 

Que moço simpático, que rapaz gostoso é esse padre!

 

Troquem-se as alianças. Amém.

 

Emerson Braga

 

retirado de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:20

Conto - O Primeiro Passo

por Jorge Soares, em 23.04.16

kouros_kroisos.jpg

 

— Não vês que estás a ir por maus caminhos, meu filho? — O anjo adotava uma postura paternal, a face preocupada, o gesto complacente.
— Eu nem sei se quero ir por bons caminhos! — retorqui, desafiador.
 
Quando ele se materializara no meu quarto de solteiro, com ares de arcanjo Gabriel, passava das três da manhã. Estranhei, mais do que me assustei. Tinha estado na comissão de autogestão da fábrica a tratar de problemas deixados pelo patrão fugido e, proposta puxa discussão, tinha bebido umas três ou quatro cervejas. O verão de 75 ia quente em todos os sentidos, a Revolução avançava com autogestões nas fábricas e nos campos e auto-organização das populações em todos os domínios. Havia um sentimento no ar de que, finalmente, tudo era possível. E tanto que havia para fazer! O mais difícil era a mudança das mentalidades. Todos tínhamos sido condicionados para ser engrenagens de uma sociedade de obedientes, castos e tementes. De repente, tinham-se rompido as comportas que mantiveram a multidão calada e quieta, e esta inalava, impertinente, os primeiros aromas da liberdade.
 
Agora, até de replicar a um anjo eu me sentia capaz:
— E, além do mais, o que é que tens com isso?
— Não penses que podes viver como queres: lascivo, descrente e subversivo. Tudo está determinado e o teu lugar está muito bem definido.
 
— Eu posso fazer o que quiser! Desde que não restrinja a liberdade de ninguém.
— E não achas que roubar a fábrica de alguém é atentar contra a sua liberdade?
— Não é roubar, é pôr ao serviço da comunidade — a começar pelos que lá gastaram o seu esforço, o seu tempo, as suas vidas —, o que alguém explorou e abandonou. Não é a sua fábrica, era a sua máquina privada de sacar mais-valias.
 
— Não vês que tudo isto é apenas um remoinho passageiro!? Não vês qual é a ordem natural das coisas? Quando a poeira assentar, volta tudo ao que era. E então, tu estarás perdido.
— Não me vão prender por tentar ajudar a pôr a fábrica a funcionar outra vez, está descansado!
— Não é dessa perdição que eu estou a falar. — E continuou a pôr água na fervura revolucionária: — Quem me mandou não gosta de rebeldes. Gosta que a hierarquia esteja muito bem definida e que o de baixo não desobedeça ao de cima. Gosta que a moral e a religião sejam o guia das nações e que os seus dirigentes sejam austeros, mas bondosos, como os pais são para os filhos. Agora, tu és um filho pródigo que não respeita o seu pai.
 
 
 
Joaquim Bispo
 
Imagem: “Kouros” de Kroisos, Anavyssos, c. 530 a.C., Museu arqueológico de Atenas.
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:33

Conto - O rapto de Hélade

por Jorge Soares, em 09.04.16

nikolai burdykin.jpg

 

 
Na pátria dos Aqueus, em tempos de ninfas e faunos, a vida decorria airosa e prazenteira. Vivia-se ao sabor das estações, aproveitando as benesses que a Natureza generosa estendia aos habitantes daquela ampla península sulcada por múltiplas enseadas abertas ao Mar Egeu.
 
Hélade, jovem e bela helena na flor da idade, tinha crescido, muito tempo depois, nesse mesmo benévolo ambiente, e instruíra-se na cultura do seu país, pelo que nenhuma das principais antigas mitologias lhe era estranha. Por isto, estando um dia em folguedos com as amigas, na almargem litoral das terras de seu pai, não estranhou, quando um boi muito branco se separou da manada e se aproximou das donzelas, manso e sedutor. Imediatamente lhe acudiu ao pensamento a história pitoresca da sua antepassada Europa, que, por via da mansidão encantadora de um boi resplandecentemente branco, fora raptada, levada para Creta e seduzida.
 
O relato mitológico não era completamente inquietante, porque o boi que raptara Europa não fora outro senão Zeus disfarçado, querendo aproximar-se da formosa mortal sem suscitar os ciúmes mais do que justificados de sua mulher, Hera, e também porque o desenvolvimento da história não tinha terminado completamente mal: Europa tinha tido três filhos de Zeus, que foram homens importantes do seu tempo. Os chifres do boi que se acercou do grupo de Hélade tinham a mesma forma de duas luas em quarto crescente e, como na lenda, deitou-se aos pés da jovem. Assim, foi quase natural acariciar-lhe o lombo e a cornadura e, pouco depois, enfeitá-la com grinaldas de malmequeres e outras flores silvestres. O pelo macio e resplandecente do boi, a sua mansidão, a euforia juvenil do grupo e ― não o escondamos ― a expectativa ainda que inverosímil de uma grande e excitante aventura levaram a donzela a arriscar subir para o dorso do belo animal. Como ela temia ― ou desejava? ― o boi levantou-se e em passo ligeiro dirigiu-se para a praia, atravessou a areia e entrou no mar, sob os gestos animados e os risos divertidos do grupo de jovens.
 
 
 
 
Joaquim Bispo
* * *
Imagem de Nikolai Burdykin, na net.

 

Retirado de Samizdathttp://www.revistasamizdat.com/2015/07/o-rapto-de-helade.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:42

Conto - A mulher e o gorila

por Jorge Soares, em 12.03.16

Monga-a-mulher-gorila-parque-guanabara-04.jpg

 

Imagem de aqui

 
 
... e o segredo é a sincronização. A mulher e o gorila têm que estar em marcações certinhas, para que a imagem de um sobreponha a do outro no reflexo do vidro. Só não é um truque mais velho do que o circo porque a lâmpada foi inventada por Thomas Edson somente no século 19, meu camarada. Mas é claro que é necessário ter luz! Eu te explico o funcionamento: em um cubículo fica a garota, trajes sumários, bem sensual, em outro, num ângulo de 90 graus e de frente para a plateia fica o cara fantasiado de gorila. No meio, perfazendo um ângulo de 45 graus, um vidro. No mais, basta um bom iluminador. No início, o público vê a imagem da mocinha de biquíni refletida no vidro. Quando a luz vai se apagando e simultaneamente vai se acendendo a do cubículo do gorila tem-se a impressão que a menina está se transformando no primata. É... primata. Um lance de escala zoológica, não estudou isso na escola? Desculpe, não quis ofendê-lo. Mas, onde é que eu estava? Ah... depois que o público está vendo só o gorila, remove-se o vidro, ele rompe o cadeado da jaula, sai correndo atrás dos expectadores, é contido pelo domador e o número acaba. Acho que essa gente que mora no cu do mundo — quando aparece um cirquinho mequetrefe é um acontecimento para a cidade — acredita realmente na mulher-gorila. Povinho ingênuo, hein? Como é que eu sei tudo isso? Fui o gorila durante anos em um espetáculo circense, ora.
 
 
Calor aqui, né? Que espelunca. Bebida horrível, música mais brega que Reginaldo Rossi. Mais uma branquinha? Por minha conta. Obrigado por me ouvir. As pessoas perderam a paciência de escutarem umas as outras. Sim, sou novo na cidade, difícil de me enturmar. Como eu ia dizendo, fiz o gorila durante um tempo no Circo Irmãos Graziani cujos proprietários na verdade eram dois paraguaios que usavam o nome de um atacante perna-de-pau da seleção italiana de 82. Vida boa, comida mais ou menos, trailer para dormir e um salariozinho para gastar na zona de cada cidade onde parávamos. Trabalho fácil. Bastava fazer uns ruídos de gorila, socar o peito e correr atrás dos idiotas. O que estragou foi quando a Giovana deu um chilique, deixou o circo e contrataram uma nova mulher-gorila. Mulherão, altona, cabelão descendo em cascata pelas costas, pele de marfim, peitões de americana de filme pornô e uma bunda incomensurável, bunda brasileira, carnuda, redonda, algo divinal. Gamei na hora. Foi uma merda. Todo dia ela de biquíni rebolando na câmara ao lado e eu de fantasia de gorila, transbordando tesão por todos os poros. Ela era safada, me dava trela e depois fugia, escorregadia feito um peixe ensaboado. Não sei por que esse negócio de peixe ensaboado. É verdade, fico divagando, fugindo da narrativa. Bom, fiquei meses nessa lenga-lenga, me declarei, disse estar apaixonado, o diabo a quatro. O máximo que ela me deixava era tocar naquelas mamonas assassinas, mas por cima do sutiã do biquíni antes da apresentação e mesmo assim tinha que pagar vinte contos para a ordinária. Isso, uma grandíssima piranha, você tem razão.
 
 
Meu mundo ruiu quando eu descobri que ela era amante de um dos Irmãos Graziani, o Paquito, se eu não me engano. Eram gêmeos idênticos. Envenenado de ciúmes, julgando-me traído toquei fogo no circo, literalmente. Um prejuízo enorme. Não, não morreu ninguém. Apenas dois pôneis e a pombinha do mágico. Do circo, não sobrou nada para contar história. Julgado, peguei cinco anos de tranca. Saí com dois. Réu primário, bom comportamento. O processo civil ainda corre na justiça. Temo pagar milhões de indenização para aqueles italianos de araque com sotaque espanhol.
 
 
Agora, estou aqui, dentro desse cabaré infame, com a infeliz ali, razão da minha perdição, ex-mulher-gorila dos infernos, pendurada no poste, se rebolando para os clientes. Se chama pole dance? Esquisito. É inglês? Qual é o nome de guerra da vagabunda? Gigi? No circo se chamava Laurinda. Sei lá se esse é o nome verdadeiro da desgraçada. Soube que ela está de rabicho com um mágico, um tal de Mondrique, de um circo mais chinfrim que o Irmãos Graziani armado por estas bandas. Quer saber? Pego mais trinta anos mas me vingo desta mulher. Dizem que o novo macho dela tem poderes sobrenaturais? Pago pra ver!
 
Zulmar Lopes
 
 
Obs: terceiro conto publicado na antologia "Respeitável Público - Histórias de Circo e Outras  Tragédias" - Editora Penalux

 

Retirado de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:13

Conto - Dois meninos

por Jorge Soares, em 05.03.16

velho.jpg

 

 

Quando eu era criança, minha mãe adotou um velho. Ele não era diferente das bruxas que assombravam meus sonhos e muito menos de como eu imaginava o homem que havia ― em minhas inventivas crenças pueris ― carregado em um saco os amigos dos amigos de meus amigos.

 

Conviver com ele, ao menos nos primeiros dias, foi como dividir a casa com um defunto. De carnes engelhadas e estrutura óssea comprometida, o homem não apresentava nenhuma ameaça, e mesmo assim eu o temia. Vê-lo dormir de olhos semiabertos e boca enviesada era como assistir sozinho a um filme de assombração. Sob a pele sem viço de meu assustador irmão adotivo moravam todos os lobisomens, vampiros e fantasmas que passeavam por minha imaginação de menino do interior, nascido em uma cidade que levava o mesmo nome de seu único cemitério: Assunção.

 

Eu nunca havia convivido com alguém tão parecido com a morte até mamãe recolhê-lo da rua, depois de encontrá-lo perdido na praça, sem saber quem era ou de onde vinha. Ninguém o conhecia ou sabia dizer como ele havia chegado ali. De roupa alinhada e aspecto bem cuidado, não parecia um mendigo. Surgira da noite para o dia, como uma aparição. Não trazia bagagem, identidade ou lembrança capaz de revelar sua origem.

 

Mamãe resolveu levá-lo à nossa casa para livrá-lo do assédio dos curiosos e oferecer-lhe o desjejum.

 

― Eu não quero ser comido! ― orei, sob a máquina de costura, agarrado ao burrinho de gesso do presépio. ― Só te devolvo pra Jesus quando esse papão for embora.

 

Mas o velho tudo recusou. Não quis mingau de farinha de milho e muito menos roer meus frágeis ossinhos. Apenas chorava e queixava-se de saudades, sem saber do quê ou de quem.

 

Os dias passaram. Papai e mamãe, órfãos desde muito jovens, afeiçoaram-se àquele senhor que havia roubado minha paz de menino. O velho, apesar de quase não falar, procurava a companhia dos adultos e recusava a minha. Já parecia acostumado à rotina da casa, sempre tão silenciosa e estagnada, submersa na ausência do tempo. Enquanto mamãe bordava toalhas e papai cuidava da lavoura, eu me distraía fugindo do velho que se arrastava da sala à cozinha feito um caramujo. Lentidão. Viscosidade.

 

Com o tempo, meu temor transformou-se em curiosidade. Gostava de vê-lo mastigar fumo, enquanto espiava pela janela do quintal como se buscasse a mais completa cegueira. O velho esvaziava-se através dos olhos compridos e, como suas lembranças, aos poucos deixava de existir.

 

Uma tarde, tomei coragem e dele me aproximei com meu burrico de gesso, que ofereci em um gesto de paz. O velho esfregou os dedos calejados sobre a imagem e arregalou os olhos como se algo em sua alma se iluminasse. Perguntei:

 

― O senhor se lembrou de alguma coisa? Sabe de onde veio?

 

― Não. E você? Sabe de onde veio? ― respondeu-me com a mesma pergunta, enquanto cavalgava o burrinho sobre meus cabelos.

 

Não. Eu não sabia.

 

Enfim, percebi que não éramos tão diferentes. Sem pedir licença, sentei-me em seu colo e dormimos juntos a tarde inteira, no balanço da cadeira que ia e vinha, mas que não nos levava a lugar algum, preguiçosa. Creio que foi naquele mesmo dia que o velho se esqueceu de se esquecer e também se tornou menino.  

 

Emerson Braga

 

Retirdo de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:07

Conto - Podias ser minha vizinha

por Jorge Soares, em 27.02.16

vidro-aramado-e1404181806534.jpg

 

 

Não sabias ainda o que ia suceder.

Não podias prever.

Preparavas um caldo de osso de borrego com nabiça e tinhas ouvido a porta de entrada e, já nem davas por isso, tinha-se-te descompassado o modo de sorver o ar que respiravas.

O corpo dele ficou a ocupar a porta que da cozinha levava à salinha de entrada que servia também de sala de jantar e sala de ver televisão, e que era onde deitavas a mais velhinha que, quando tinham alugado o T1, nem tinham pensado em fazer família, que a bem dizer nem tu nem ele nunca tinham pensado coisa nenhuma, apaixonados, doidos de quererem o corpo um do outro, e casaram poucos meses depois da noite em que se tinham visto pela primeira vez e tu nunca tinhas ouvido dizer dele, e havia tantos outros no grupo de colegas de trabalho e amigos, mas ou seria o destino a comandar-te ou terá sido o modo de ele te ter olhado, ou terás sido tu insinuante e ele nem mais te deixou, que assim to repetiria: “essas mamas redondas deram comigo em doido”; e tu embevecida do seu porte atlético, do cabelo já a ficar grisalho nas fontes apesar de tão jovem; ou terá sido o modo como te colocou a mão no ombro a pedir, soprando-te desasossegos em cada sílaba, a boca bem chegada ao lóbulo da tua orelha esquerda: “passas-me esse copo, por favor”. Ficaram nesse transe de estar apaixonados, ainda, e ainda mais, depois de terem passado juntos o início desse dia e o dia inteiro que era um dia de trabalho e ele terá dito: ”que se lixe” e disseste também tu, ou nenhum disse, ficaram sem sequer dar acordo do nascer do sol nem do cair da noite, tu e ele a rebolar desejos no tugúrio que era o quarto onde ele vivia emigrante de uma outra zona do país a fazer um serviço para a empresa onde era soldador.

E depois passaram a encontrar-se, a viver juntos quase sempre, até ao dia em que disseram um ao outro: “e se juntássemos os haveres que não temos?” e a rirem alto para o ar quente dum final de Maio. E tu terás olhado as casas que assomavam na outra margem a esconderem o bairro em que tinhas vivido até seres a namorada dele: tu a querer esquecer, a querer lembrar apenas que agora serias tu a comandar a tua vida.

Casaram sem cerimónia nem padrinhos nem convidados: “apenas eu e tu” tinhas dito, e em casa participaste que não voltavas num bilhete que deixaste na sala, e nenhum deles, mãe e padrasto, terá acreditado, tanto que nunca te procuraram, nem quando deixaste uma mensagem em que dizias: nasceu uma menina, nem quando escreveste num SMS: nasceu outra menina.

 

 

 

Fátima Santos

 

Retirado de Sanizdat

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:13

Conto - O tempo dos rebuçados

por Jorge Soares, em 13.02.16

Aniki_Bóbó.JPG

 

 
O primeiro encontro foi como uma caixa de rebuçados. Era o tempo dos rebuçados e dos berlindes. Mas também de uma das primeiras responsabilidades: a escola.
 
Nos dias de primavera, Orlando, de botas com sola de borracha feitas no sapateiro, palmilhava bem cedo os três quilómetros do caminho entre muros que separava a queijeira, onde morava com a avó, da escola da aldeia, cruzando-se com carros de bois, grupos de mulheres a caminho das hortas, um rebanho a atravessar de um terreno para outro. Se estava frio, apressava o passo a contornar uma ou outra poça de água, mala com cadernos a tiracolo, uma mão a aquecer-se no bolso, a outra a pegar no cabazinho da merenda. Daí a pouco, as letras, as contas, as brincadeiras de recreio e o almoço debaixo de uma olaia, com os outros dois miúdos que também vinham dos campos.
 
No regresso, o conforto do calor e da falta de pressa convidavam-no a alongar-se em observações da natureza: o lagarto verde esparramado ao sol que, não conseguindo intimidá-lo abrindo a boca vermelha, se esgueirava para um buraco das paredes; o rendilhado de alguns penedos; as poupas, os cucos, os pintassilgos. E a estranheza do mundo do tic-tic-tic ritmado dos canteiros, alguns bem jovens, em alguma das pedreiras adjacentes ao caminho. Um mundo que não era de rebuçados.
 
Um dia encontrou vinte e cinco tostões no recinto da romaria que o caminho atravessava. Rapidamente se esfumaram em rebuçados embrulhados em estampas de jogadores de futebol.
 
De inverno, a ida para a escola era mais monótona e mais simples. Era só atravessar o casario, desde a casa da avó, na aldeia. No regresso, a brincadeira com a restante criançada nos quintais e nos casarões familiares. Ao domingo, catequese à tarde e talvez apanhar moedas pretas e rebuçados lançados de alguma janela ou varanda no fim de um batizado. Os dias corriam sem preocupações, com pouca relação uns com os outros. E, de repente…
 
O primeiro encontro com ela foi como receber uma caixa de rebuçados. A festa era de carnes, da matança do porco e respetiva comezaina. A família alargada habitual estava reunida em casa de um tio por este motivo. Segurar, matar, limpar e desmanchar um porco exigia o concurso de vários homens. E o trabalho de lavar as tripas, preparar os recheios e encher com eles as farinheiras, as morcelas e as chouriças exigia o concurso de várias mulheres. Para também prepararem o banquete para todos aqueles adultos e respetiva miudagem.
 
 
 

 

Joaquim Bispo

 

Retirado de Samizdat

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:13

Conto - As Vitalinas

por Jorge Soares, em 06.02.16

vitalinas.jpg

Cícera acordou sobressaltada e agarrou o peito como quem segura um pássaro ferido. Marilda, deitada na cama ao lado, riu do desassossego da irmã e fingiu pouco interesse ao perguntar se havia sido o mesmo sonho. Sentando-se com dificuldade no gasto colchão de estopa, Cícera confirmou a suspeita fraterna com um aceno de cabeça. O pesadelo que perturbava suas poucas horas de sono havia se repetido.

         ― Ciça, um dia tu me conta que diacho de sonho é esse? ― quis saber a mais jovem das idosas, enquanto calçava as sandálias que mal enxergava com seus olhos miudinhos.

         ― Te preocupa com o manto da santa, Dindinha. Depois do café, vou preparar o altar. Pirru já chegou pra varrer a casa e passar o pano? ― perguntou incomodada, certa de que o rapaz que lhes ajudava nos afazeres domésticos havia se atrasado.

         ― Sei não ― respondeu Marilda esfregando as pernas. ― Acordei com teus bodejo. Anda, te sacode que o dia hoje vai ser comprido.

         Na pequena Cabo Amaro, todos conheciam e respeitavam as irmãs Alvarenga, últimas descentes de uma família que emprestava o nome à pracinha da cidade. Cícera e Marilda eram tão velhas quanto as lendas locais, amalgamavam-se ao folclore e causos transmitidos às novas gerações de contadores de história. Muito se falava sobre a natureza dócil e solteirice de ambas, mas poucos sabiam a verdade.

 

 

 

Emerson Braga

 

Retirado de Samizdat

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:13


Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D