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Conto: O menino que escrevia versos

por Jorge Soares, em 14.04.12
O menino que escrevia Versos

Imagem de aqui

 

- Ele escreve versos!

 

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

 

- Há antecedentes na família ?

 

- Desculpe, doutor ?

 

O médico destrocou-se por tintins, Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

 

- Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

 

Ela hoje até se comove com a comparação. Sim, perfume de igual qualidade qual outra mulher pode sequer sonhar ? Pobres que fossem os dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.

 

Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e a escola do miúdo. Mas eis que começam a aparecer, pelos recantos da casa, papeis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.

 

- São meus versos, sim.

 

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual ? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto ?

 

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.

 

- O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

 

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões, e sobretudo lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era por cobro àquela vergonha familiar.

 

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:

 

- Dói-te alguma coisa ?

 

- Dói-me a vida, doutor.

 

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: está a ver, doutor ? Está ver ? O médico voltou a erguer o olhos e a enfrentar o miúdo:

 

- E o que fazes quando te assaltam essas dores ?

 

- O que melhor sei fazer, excelência, é sonhar.

 

Serafina voltou à carga e sapateou a nuca do filho. Não lembrava o que pai lhe dissera sobre os sonhos ? Que fosse sonhar longe ! Mas o filho reagiu: longe, porquê ? Perto, o sonho aleijaria alguém ? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

 

O médico estranhou o riso. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, já inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:

 

- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.

 

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

 

Na semana seguinte foram os últimos a serem atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos ? O menino não entendeu.

 

- Não continuas a escrever ?

 

- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho esse pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho - quase a meio.

 

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.

 

- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.

 

- Não importa, respondeu o doutor.

 

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.

 

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.

 

Mia Couto

  

Retirado de Lábios de Carmim

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publicado às 21:33

Conto, Silêncio - Edgar Allan Poe

por Jorge Soares, em 03.09.11

Cascata de Leonte, Gerês, Portela do Homem

Imagem Minha do Momentos e Olhares

 

"Escuta - disse o demónio, pousando a mão sobre a minha cabeça. - O país de que te falo é um país lúgubre, na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali não há repouso nem silêncio. As águas do rio, amarelas e insalubres, não correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nenúfares, que suspiram na solidão, erguendo para o céu os longos pescoços espectrais e meneando tristemente as cabeças sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmúrio de uma torrente subterrânea. E os nenúfares, voltados uns para os outros, suspiram na solidão.


E o seu império tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! Lá, - como as vagas em torno das Híbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo não há vento no céu! - e as grandes árvores primitivas oscilam continuamente, com um estrépito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um orvalho eterno. A seus pés contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas - venenosas. E por cima das suas cabeças, com um ruge-ruge retumbante, precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, até rolarem as cataratas para trás da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire há repouso nem silêncio.

Era noite e a chuva caía enquanto caía, era água mas quando chegava ao chão era sangue! E eu estava na planície lodosa, por entre os nenúfares, vendo a chuva que caía sobre mim. E os nenúfares voltados uns para os outros suspira na solenidade da sua desolação.

De repente apareceu a lua através do nevoeiro fúnebre vinha toda carmesim! e o meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire, refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura descomunal!

Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras. Caminhei através dos pântanos de nenúfares, até a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas não pude decifrá-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando outra vez para o rochedo distingui só caracteres. E esses caracteres diziam: desolação.

Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa. Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se até aos pés. Os contornos da sua pessoa não se distinguiam, mas as feições eram as da divindade porque brilhavam através da escuridão da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte alta e pensativa, os olhos profundos e melancólicos. Nas rugas do semblante, liam-se as legendas da desgraça e da fadiga o aborrecimento da humanidade e o amor da solidão. Escondi-me no meio dos nenúfares para ver o que aquele homem fazia ali.

E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabeça sobre a mão e espraiou a vista pela soledade, contemplou os arbustos buliçosos e as grandes árvores primitivas; depois, ergueu os olhos para a céu a para a lua carmesim. Eu observava as ações do homem escondido no meio dos nenúfares e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Então o homem desviou os olhos do céu para o rio lúgubre para as águas amarelas do Zaire, e para as legiões sinistras dos nenúfares; escutou-lhes os suspiros melancólicos e as oscilações murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu esconderijo e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Embrenhei-me na profundezas longínquas do pântano, caminhei sobre e as flores dos nenúfares e chamei os hipopótamos que habitavam a espessura do bosque. E os hipopótamos ouviram o meu chamado e vieram os Behemothes até o pé do rochedo e soltaram um rugido medonho. E eu, escondido por entre os nenúfares, espreitava os movimentos do homem e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Então invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o céu tornou-se lívido pela violência da tempestade e a chuva caía em torrente sobre a cabeça do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os nenúfares suspiravam com mais força, e a floresta debatia-se com o vento, e o trovão ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia.

Irritei-me e amaldiçoei a tempestade, o rio e os nenúfares, o vento e as floresta, o céu e o trovão. E na minha maldição os elementos emudeceram e a lua parou na sua carreira, e o trovão expirou e o raio deixou de faiscar, e as nuvens ficaram imóveis e as águas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as árvores cessaram de se agitar, e os nenúfares não suspiraram mais e na floresta não se tornou a ouvir o mínimo murmúrio, nem a sombra de um som no vasto deserto sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam agora: Silêncio.

Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava pálido de terror. De repente, levantou a cabeça, ergueu-se sobre o rochedo e pôs o ouvido à escuta. Mas não se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado. E os caracteres gravados no rochedo diziam sempre: Silêncio. E o homem estremeceu e fugiu e para tão longe fugiu que jamais o tornei a ver.

Ora, os livros dos magos, os melancólicos livros dos magos encerram belos contos, esplêndidas histórias do céu, da terra e do mar poderosos; dos génios que têm reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o céu sublime. Há muita ciência na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona saíam outrora oráculos profundos.

Mas jamais se ouviu uma história tão espantosa como esta! Foi o demónio que ma contou, assentado ao um lado, na solidão do túmulo. Quando acabou de falar, desatou a rir e como não pudesse rir com ele, amaldiçoou-me. Então o lince, que vive eternamente no túmulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos pés do demónio, olhando-o fixamente nas pupilas."


Edgar Allan Poe
(tradução brasileira)
Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:48

Conto, Caminhantes do Apocalíptico

por Jorge Soares, em 07.05.11
Caminhantes do Apocaliptico


Estava completamente estoirada e satisfeita, e isso, era de tal forma reconfortante que só lhe apetecia ficar ali deitada com aquela lassidão dormente, e o pensamento a deambular pelo que ocorrera e terminara há pouco. 
Olhou o relógio e verificou que tinha passado uma boa meia hora desde que ele a deixara, sorriu de novo e tentou memorizar cada momento, com receio de os perder. Queria lembrar-se de cada segundo, de cada êxtase, de cada vez que se viera. 
Quantas teriam sido? Umas dez, talvez… Fora um verdadeiro apocalipse anarquista. Tinha fodido com muitos gajos, até com mulheres em ocasiões especiais, mas um gajo como aquele era único.
Tinha-lhe dado momentos que nunca pensou serem possíveis de atingir. Sob aquele aspecto gótico, escondia-se um luxuriante rei do sexo, que o servia á la carte.

Com passos lentos, caminhou na direcção das vozes bem dispostas, e enquanto se aproximava, os pensamentos não despregavam daquele macho exemplar. 
Entrou e verificou que os três já lá estavam. Conversavam sobre um filme qualquer até que deram pela sua presença, calaram-se e olharam-na expectantes e inquiridores… 
Mostrou-lhes um sorriso denunciador e aberto, que os fez cumprimentarem-se e motivou a abertura de nova garrafa de champanhe, enquanto Helen subia o volume da música.
Nunca até hoje, Van Der Graaf Generator lhe parecera merecedor de atenção. 
O marido aproximou-se com um sorriso rasgado e confidenciou-lhe: - Estava a ver que não te querias juntar a nós, começava a ficar preocupado. Sorriu-lhe, descansando-o e deixou-se conduzir até ao sofá central onde Juvenal a esperava com uma taça de liquido borbulhante na mão.

Chegaram a casa, já noite cerrada de uma madrugada escaldante e pela primeira vez dirigiu-se ao marido: - Então, que achaste da Helen? - Fabulosa. Respondeu-lhe João de imediato. Acrescentando: Uma mulher extremamente fogosa, algo tímida no início, mas quando se libertou, foi uma experiência fantástica, sem dúvida a melhor parceira desde que nos iniciámos no swing, e só de pensar que esta era a primeira vez deles, deixa antever performances inigualáveis no futuro, talvez os convençamos noutra ocasião a fazermos uma sessão a quatro.
E tu, que dizes do Juvenal? - O mesmo que tu da Helen, começou aparentemente com alguns cuidados, mas com o meu incentivo rapidamente se descontraiu fazendo-me ir às nuvens várias vezes e deixa que te diga, mas o gajo é excepcionalmente dotado.
Muito mais que eu? Perguntou João. - Uns bons cinco centímetros, mas não é só por isso, é pela maneira como os usa… Não esteve ali só a meter-mo, não senhor, ele deu-me o melhor sexo que alguma vez tive.

Ao ver que João tinha parado, pensou que talvez tivesse falado demais, mas a relação deles sempre tinha sido muito aberta e como bons swingers que eram, sempre falavam do desempenho dos seus parceiros abertamente, sentindo-se privilegiados por terem conseguido ultrapassar todas as barreiras e todos os tabus desta sociedade acanhada e hipócrita, além de que, desde que começaram a swingar há quatro anos, a relação entre eles tinha melhorado imenso e por isso perguntou-lhe: - Que se passa? Parece-me que ficaste contrariado com o elogio que fiz ao Juvenal…
- Não foi o elogio em si, foi a forma, o jeito e o brilho nos olhos com que o fizeste, nunca te tinha visto elogiar assim nenhum swinger, nem ninguém, dá ideia, que desta vez te envolveste de forma diferente. 
- E então… devias ficar satisfeito por finalmente ter encontrado um parceiro que me satisfaz plenamente, o que já aconteceu contigo, e pelo que me disseste a Helen também não se saiu nada mal, pois dizes que foi a melhor até agora, por isso, deve ter sido excepcional.

João compreendeu as razões de Marta, mas havia qualquer coisa na forma como ela tinha elogiado o Juvenal, que ultrapassava alguns limites do que era usual, via-se que ela estava diferente, ao contrário de todas as outras vezes, em que depois de se despedirem, se distanciavam mentalmente dos parceiros até novo encontro, desta vez não, e isso era para ele evidente, evidente até demais, já que, Marta não parecia desejá-lo junto a si, parecia satisfeita. Ao contrário do que era costume, hoje parecia não precisar das suas carícias e de saber que ele ainda a amava, e por isso ficou a remoer por alguns instantes em tudo o que se tinha passado. Lembrava-se que quando aceitou a taça de champanhe do Juvenal, esta lhe ter acariciado a mão e os olhares se terem fixado demoradamente, ao ponto de Marta enrubescer, ele tinha levado isso, em conta de alguma timidez que ela por vezes ainda revelava, mas via agora que não, não era timidez, havia ali alguma coisa mais.

Marta, parecia nem dar conta do silêncio preocupado do marido, os seus pensamentos navegavam já em outras águas.
A recordação dos momentos com Juvenal era muito intensa, de tal forma que parecia senti-lo ainda dentro dela, as suas enormes mãos a apalpar-lhe as mamas, intercalando as carícias suaves, com apalpaços viris, enquanto a comia por trás. 
Estes pensamentos foram o suficiente para se sentir de novo molhada, o que a fez sair daquele estado sobressaltada, verificando que o João estava plantado à sua frente a olhá-la, e os seus olhos eram reveladores do que sentia, tinha percebido o seu abandono aos pensamentos e tinha constatado o desejo a dominá-la.

Quando falou, disse: - Acabou! Não o vês mais. 
Marta sentiu um choque dentro de si e o sangue a percorrer-lhe todo o corpo, a sua cara estava agora afogueada e olhava para o João chispando centelhas de ódio e raiva, gritou-lhe: - Não te atrevas, meu cabrão de merda… João levantou a mão com intenção de lhe dar um estalo, que não chegou a surgir, alguém lhe agarrara o braço com uma força tremenda. Espantado olhou-o… Que faria ali o Juvenal? 
Este tinha um sorriso trocista quando falou: - Não te canses, porque nunca irás perceber bem.
Lembras-te do acordo que assinámos no nosso segundo encontro? João lembrava-se mas não via que interesse poderia ter aquele documento no caso, aquilo não tinha ponta por onde se lhe pegasse, não passavam ao que lhe pareceu de desenhos marados e só o assinou por eles terem sido irredutíveis, aliás, ele assinaria qualquer coisa para foder uma mulher com a Helen.

Juvenal olhava-o agora de cima dos seus dois metros de altura que lhe pareciam o dobro devido à posição que a torção de braço o obrigara a tomar. Começou a ter receio daquele homem, antes amável e de extrema simpatia. 
Com um sorriso irónico, Juvenal falou com uma voz sibilosa que o arrepiou: - Somos fragmentos do Uno Mal’ak, enviados do espaço-tempo pela Mãe Impronunciável, com a missão de desviar braços dos Anjos da Esfera Eterna para a Celestial ordem Luciferária, e Ela, construiu com o seu desejo iniciático uma ponte entre o espaço-tempo.

João não sabia o que pensar, aquilo tinha algo de satânico e diabólico, os seus olhos seguiam agora Marta que se aproximava de Helen que ele não tinha percebido antes no fundo da sala. Sentiu que não dominava a situação porque não a percebia, e porque era obrigado por aquele braço de ferro a ajoelhar de tal forma que a sua face esquerda estava espalmada no chão. 
Por fim Juvenal falou de novo: - Tu ficas, sabemos das tuas qualidades como preparador de almas neste decaído universo. 

Tu serás a Minha Palavra!

 

Espreitador 

 

Retirado de Rua dos contos

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publicado às 23:25

Conto: A Traição

por Jorge Soares, em 01.01.11

Conto, a traição

 

Imagem de aqui

 

Sabia que ali tinha coisa! O cheiro estava no ar, era só respirar, nem precisava ser fundo,  que sentia algo entre o sujo e o fedido. Fingiu que não percebeu, assobiou, limpou a gaiola do passarinho, pegou o jornal no quintal, colocou na mesa.  Tudo igual, todo o dia igual, rotina!

Tomou seu café, fraco como água de calcinha, não reclamou, se comportou como o cavalheiro que nunca tinha sido. Esperou ela sair do quarto como fazia sempre, depois era a vez dele.  Banho, troca de roupa e batente, ganhar o pão da vida.

Geralmente quando ele saia ela já tinha entrado no ônibus, casa da madame, faxina, explicava ela. Mas dinheiro que era bom, vindo dela, ele nunca tinha visto a cor. Lugar tão secreto, nem o telefone  nunca deixara para uma emergência. Ela ia segura, sabia que ele ficava preso em suas arrumações,  tinha horário a cumprir.

Esse dia não. Foi só ela bater a porta e ele sair correndo do banheiro, pegar a câmara. Afinal ia querer registo. Saiu pelos fundos, se esgueirando entre varal de roupas, balanço de criança,  carrinho de mão enferrujado.  E lá ia ela no seu andarzinho de passarinha tonta, olhava pros lados como se desconfiasse de alguma coisa.  E ele,  a sombra, seguia cada passo a distância segura.

Passou o ponto do ônibus, ela prosseguiu. Passou a igreja,  a pracinha, o centro comercial, as casas foram rareando   e ela seguindo em frente. Acabou a rua de asfalto.  Agora era um caminho de terra, orlado de flores miúdas,  muitas árvores,  cheiro bom de verde.  Chegou num riacho, ora bolas, nem ele sabia daquele riachinho gramado  nas laterais. Lugar bom pra se fazer sacanagem!

Mas sacanear logo ele já era demais, pensou.

Agora pego ela e o desgraçado e acabo com a raça dos dois.

Ela calmamente, como se pressentisse público, abriu vagarosamente, um a um, os botões do vestido. Deixou escorregar pelos ombros. Desceu as alças do sutiã, rodou o fecho pra frente, soltou e deixou cair,  descuidado no capim. E os mamilos, tão sonegados pra ele, descaradamente a mostra, endurecidos por pensamentos pervertidos que colocava um riso de safadeza na cara inteira. E ele, como um gato na folhagem, quase esquecendo a ira e atacando aquela carne ali, pertinho,  oferecida.


Escutou passos, se encolheu mais ainda, não poderia estragar tudo agora,  melhor ver, ter certeza. E teve!

Os dois corpos se encontraram, ela no afã de desvestir o outro corpo, pressa e sofreguidão. 

E ele com os olhos arregalados, estatelado, preso ao chão.  Mistura de susto e riso.  E alívio!

Mas e agora?

Como poderia mostrar  pro irmão as fotos das duas esposas,  a sua e a dele,  se roçando no capim?

(Elza Fraga)

 

Retirado de Contos in Cantos

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publicado às 21:04

Conto, Isaura para sempre dentro de mim

por Jorge Soares, em 18.12.10

Isaura para sempre dentro de mim

 

Isaura entrou pelo bar como se entrasse pela última porta e nós fôssemos os deuses que a aguardássemos do outro lado. Fora ficava esse céu todo azulzinado, os zunzuns da gente no bazar.
A aparição da mulher fez estancar meu coração, suspenso na rédea do espanto. Escutei íntimos desacordes, sangue para um lado, veias para outro. É que eu não via a Isaurinha há mais de vinte anos, mais de metade do tempo que eu amealhava existências. De repente, me chegaram lembranças como se em meu peito desembarcassem imagens e sons, atropelando-se em desordem.

 

Foi no tempo colonial. Eu e a Isaurinha éramos empregados domésticos na mesma casa. Ela empregada de dentro, eu de fora. Ambos, miúdos, em idade mais de brincar. Aos fins da tarde, quando ela despegava me vinha contar as novidades, segredos da vida dos brancos. Era hora de eu passear a cãozoada. Ela me acompanhava, rodávamos pelos quarteirões enquanto ela me fazia rir, com as suas revelações. Que o patrão a empurrava nos cantos sombrios e a apertava de encontro às paredes. Não havia parede em que ele, de pé, não tivesse deitado.

 

Tudo aquilo lhe dava nojeira, reviragem nas vísceras. Queixar a quem? A Deus? Eu sonhava que me subiam coragens e enfrentava o patrão. Mas adormecia sem ousadia sequer de terminar o sonho.

 

E agora Isaura interrompia o meu tempo de existir, rompante adentro da cervejaria. Estava quase na mesma, o tempo não a redesenhara. Magra, como sempre fora. Olhos acesos como réstias de brasa. Em seus dedos um cigarro me sacudiu lembranças. Como se o centro de minha memória fosse um fumo. Sim, o fumo de cigarro que ela, vinte anos antes, trazia de dentro da casa dos patrões para as traseiras onde eu a esperava. Fazia o seguinte pegava a beata distraída num cinzeiro de salão e chupava umas boas passas. Enchia as bochechas de fumo vinha ter comigo ao pátio. Ganhava um ar apalhaçado, com dupla cara como a coruja. Chegava-se a mim e vizinhávamo-nos, cara com cara. Depois, boca com boca, os lábios meus em concha recebiam os dela. Isaura soprava para dentro de mim esse fumo. Sentia aquecer-me meus interiores, a saliva quase fervendo. Depois, não era só a boca, todo o meu corpo se ia esquentando. Era assim que fumávamos, a meio hálito, boca de um cruzamento e peito do outro.

 

Praticávamos o quê? Fumigação boca-a-boca? Uma coisa era de certeza meu endereço era o céu, nesses instantes. Isaura me exaltava eternidades, lábios vaporosos me roçando o coração. Tudo ali na cubata das traseiras.

 

Simples procedimento aquele, Isaura aparava as unhas dos cigarrinhos, beatas ainda moribundas. Não parecia que Isaura deitasse valor naquele trocar de lábios. Ela gostava mesmo era de tabaco, pouco a pouco se adentrando no vício das fumagens. Eu e a descarga suja em meus pulmões eram simples acidentes sem percurso.

 

Até que, certa vez, o patrão nos surpreendeu naquelas disposições. Choveram insultos, imediatas pancadas. E logo eu, desculpando Isaura, assumi as inteiras culpas. Construí a versão que eu a tinha assaltado, obrigado contra as suas vontades. Nesse mesmo dia, fui expulso, despedido. Nem me despedi de Isaurinha. Levei meus pertences, por baixo de uma lua tristonha. E nunca mais Isaura, nunca mais notícias dela.

 

Vinte anos depois, Isaura desarrumava a tarde, interrompendo o bar. Para mais, ela trazia entre os dedos um cigarro, fumejante.

 

Ela se sentou em minha mesa e, sem me olhar, desatou as falas. Tanta lembrança boa. Mas a favorita é você, Raimundano. Lhe digo esse fumo todo que lhe deitei sabe o que eu queria, só mais nada? Era um beijo.

 

Estremeci. Aquilo era a justa navalha, me lacerando? Mas ela seguia, no avanço de seus ditos. Sim, que ela em tempos, me amara. Nunca mostrara aquele querer dela, por motivo de decências. É que era tão magra que era má educação se exibir. Que ela escolhia para mim suas melhores belezas, como quem tem prendas mas não sabe nem a quem dar.

 

- Porquê, Isaura? Porque nunca me procurou?

 

- Porque lhe deixei de amar. Foi aquele sua mentira para me proteger. Isso me fez muito mal.

 

Desde o momento que eu a defendera, o sentimento tombara, sobra de sombra.

 

Ofensa de quê? Nunca saberei. Isaura, ali sentada, não me explicaria nada. Como se tivesse passado não o tempo, mas a vida inteira. Levantou-se, arrastou a cadeira como se arrumar os móveis fosse mais importante neste mundo. E se dirigiu para a saída, a angústia me resumindo como se, pela segunda vez, minha vida se ecoasse por aquela porta. Minha voz, nem a reconheci.

 

-Sopre-me outra vez um fumo, Isaura. Um fuminho, só.

 

Ela me olhou, os olhos tão longe que parecia nem ter focagem. Aspirou fundo o cigarro, refreou umas tosses e veio em minha renteza. Quando ela colou seus lábios em mim, se fabulou o seguinte, a mulher se converteu em fumo e se desvaneceu. Primeiro no ar e, depois, lento, na aspiração de meu peito. Nessa tarde, eu fumei Isaurinha.

 

Mia Couto

 

Retirado de Trapiche dos outros

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publicado às 21:04

O Nudista Militante

por Jorge Soares, em 23.10.10

Durante vários anos, na década de sessenta, um de meus trabalhos principais foi traduzir e ler Les Actualités Françaises, noticiário cinematográfico que a França distribuía semanalmente para a América Latina. A tradução me tomava apenas alguns minutos, mas me detinha toda tarde de quarta-feira nos estúdios de Génnévilliers, nos arredores de Paris. Havia herdado este trabalho de um locutor uruguaio a quem ocorreu a pior tragédia para um homem de sua profissão: tornar-se afônico. O fazia com gosto, pois era bem pago, e me distraía essa saída semanal da cidade, na qual com freqüência, na ida ou na volta, costumava fazer uma parada no cemitério de cães de Asniéres, lugar onde está enterrado o célebre Rintintin e que realmente é muito bonito.

A gravação consistia em fugazes entradas na cabine de locução, separadas por compridos intervalos que eu matava lendo, espiando a dublagem de outras películas ou, mais amiúde, conversando com meu amigo projecionista, Monsieur Louis. Dizer conversando é um exagero e uma mentira, pois conversar sugere intercâmbio e reciprocidade, e o nosso consistia exclusivamente em eu escutar o que ele dizia e em, de tempos em tempos, me limitar a intercalar em seu monólogo alguma observação banal, para manter a aparência, e dar a ele e a mim mesmo a impressão de que, de fato, conversávamos. Monsieur Louis era um desses homens que não admitem interlocutores: somente ouvintes.

Devia estar beirando os sessenta e era baixo, magro, com uns cabelos brancos que rareavam, uma tez rosada e uns olhinhos azuis muito tranqüilos. Tinha uma voz que nunca se elevava nem endurecia, suave, monótona, persistente, ininterrupta. Vestia sempre um avental branco, imaculado como toda a sua pessoa, e seu rosto ostentava em qualquer ocasião um assomo de sorriso que nunca chegava a materializar-se. Poderia-se tomá-lo por um enfermeiro ou um laboratorista pois seu traje, seu semblante e suas maneiras de algum modo faziam pensar em hospitais, doentes e provetas cheias de química. Mas era projecionista e estava ligado ao cinema desde muito jovem. Alguma vez ouvi que, nos anos trinta, trabalhara como cameraman na filmagem clandestina de curtas pornográficos cujos galãs eram, de preferência, cavalheiros tuberculosos, já que estes, dizia ele, tinham ereções prolongadíssimas que, dada a lentidão da rodagem, facilitavam muito as coisas. Mas Monsieur Louis havia deixado esse trabalho por temor à polícia. Na realidade não gostava de falar sobre isso nem de nada que não fosse o tema de sua vida: o nudismo.

Porque Monsieur Louis era nudista. Passava integralmente seu mês de férias na Île du Levant, uma pequena ilha mediterrânea onde funcionava a única colônia de nudistas autorizada na França nesse tempo. Passava os onze meses restantes economizando, trabalhando e contando as horas que faltavam para, com o sol de agosto, voltar a viver por trinta dias ao ar livre, fotografando mariposas e casulos, acendendo fogueiras, queimando-se sobre as rochas ou molhando-se no mar, nu como uma foca. Andar nu, rodeado de pessoas nuas, lhe produzia uma ilimitada felicidade e, aparentemente, lhe resolvia todos os problemas. O nudismo era para ele uma dedicação permanente. Dez minutos após conhecê-lo, descobria-se que não só era seu único tema de conversação como também de reflexão e de ação. Porque assim como outros dedicam seus dias e suas noites a catequizar os demais e ganhá-los para a verdadeira religião ou para a verdadeira revolução, Monsieur Louis havia consagrado os seus a esse inconcebível apostolado: ganhar adeptos para o nudismo.

Nossa boa relação provinha de que ele me considerava um catecúmeno. E eu encorajava essa crença, escutando com verdadeiro interesse, entre as gravações de Les Actualités Françaises, os discursos com que ia-me iluminando sobre os fundamentos, segredos, lições e virtudes da filosofia nudista. Explicou-me tudo cem vezes, com argumentos e exemplos que se repetiam, obsessivos, em sua vozinha pausada, confiada, e incansável na propagação da fé. Falou-me da Grécia e da beleza dos corpos que se movem e despregam em liberdade, sem coberturas escravizantes; da comunhão do homem com a natureza, a única que pode devolver-nos a saúde física e a paz espiritual que perdemos por renegar covardemente a nossa primeira nudez; da necessidade de vencer os preconceitos, a hipocrisia, a mentira (em outras palavras: o vestuário) e de restabelecer a sinceridade e a frescura que existem nas relações entre, por exemplo, as aves e os pequenos cervos e que no paraíso terreno existiram também entre os humanos (e a que se devia isso?). Incontáveis vezes assegurou-me que, na Île du Levant, ao despojar-se das roupas, os homens e as mulheres tiravam também os maus pensamentos, os complexos de inferioridade, os vícios. Ouvindo-o, chegava-se quase a convencer-se de que o nudismo era aquela panacéia universal, cura de todos os males, que os alquimistas medievais buscaram com tanto desespero.

As lições não eram somente orais. Monsieur Louis me levava folhetos proselitistas e fotografias coloridas da ilha da liberdade. Aí estavam os nudistas, de corpo inteiro, a aí estava ele, rosáceo, helênico, bebendo o néctar das flores ou picando alegremente uns tomates, enquanto uma jovenzinha de lindos seios e púbis encaracolado refrescava umas alfaces. Durante um bom tempo chegaram em minha casa formulários, boletins de subscrição, convites de clubes nudistas, que nunca preenchi nem respondi.

Porque, apesar de seus esforços, Monsieur Louis não me ganhou para o nudismo. Mas, em compensação, me ajudou a identificar uma variedade humana que, sob diferentes roupas e afazeres, encontra-se pavorosamente estendida pelo mundo. O que recordo dele, sobretudo, é seu olhar: tranqüilo, fixo, irredutível, cego para tudo o que não fosse ele mesmo. É um olhar que, em parte graças a ele, reconheço com facilidade e que vi reaparecer, multiplicada, uma e outra vez em religiosos e revolucionários, em intelectuais e em moralistas, sobretudo em ideólogos de toda espécie. É o olhar do que pensa ser dono da verdade, do que não se distrai, do que nunca duvida, do humano mais prejudicial: o fanático.

 

Mário Vargas Llosa

 

Retirado de Tiro de Letra

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publicado às 21:04

Conto: A Minha primeira Morena

por Jorge Soares, em 14.08.10

 

A minha primeira Morena

Imagem da Internet

 

Enfim chegara o grande dia! Minhas mãos magras de menino se retorciam numa ansiedade ainda desconhecida, e suavam com o calor da espera que me ardia no rosto, nos olhos, nas pernas, no pulmão. Era um dia de sol típico dos verões de dezembro. Sentado no canto esquerdo da modesta sala, entre o sofá de couro e a cadeira de balanço do meu avô materno, eu segui religiosamente as instruções do meu pai: — Me espera sentado ali. Não faz arruaça. Veste uma calça comprida — e assim eu estava, sentado ali, sem fazer arruaça e com a melhor calça que eu tinha na época, esperando que meu pai voltasse rápido, ou que o tempo parasse de brincar de esconde-esconde comigo no relógio de madeira da parede. Aqueles 15 minutos demoraram mais de dez horas na minha alucinação infantil. 

Quando ouvi o portão da frente ranger, meu coração disparou feito bola de gude jogada com força, feito boiada estourando no pasto, feito bomba de festa de São João. Eu não sabia se obedecia as ordens do meu pai, invariavelmente severo e carrancudo, ou se cumpria a sina da minha vontade e me destrambelhava porta afora. Com medo de perder o jogo aos 45 do segundo tempo, controlei as pernas bambas e permaneci imóvel no local a mim destinado. 

Os passos mais densos do meu pai, cruzando o alpendre, indicavam que ele trazia consigo mais do que levara quando saiu. A barulheira aturdida da molecada da rua demonstrava que o que ele carregava era de muito valor para os nossos 10, 11, 15 anos. Meus 12 Natais passados pareciam se concentrar naquele instante.

No momento em que meu pai cruzou a porta da frente, estranhamente esqueci o pacote em suas mãos. O olhar daquele homem sério demais para seus poucos cabelos brancos, bravo demais para a minha sensibilidade infantil, longe demais para o amor da minha mãe, que havia morrido pouco antes, mostrava agora qualquer beleza desconhecida, entre o orgulho de satisfazer o filho e o desejo de expressar um amor que não se confessa. E eu o amei infinitamente.

— Toma! Demorou, mas ta aí — disse para mim, disfarçando a humanidade que nos inundava. E foi então que me concentrei no embrulho, quase do meu tamanho. Arranquei o papelão que a cobria com uma quase ira, um desejo incontrolável. Quando a vi, preta como o cabelo da vizinha mais bonita, quase desmaiei. Era linda! Mais linda que a coisa mais linda que eu já havia visto até então (e penso hoje, mais de 30 anos depois, que nunca mais tive tal deslumbre). Com o devido consentimento do meu pai, levei-a pra fora. Passei entre os olhares dos garotos vizinhos sem notar qualquer inveja e sem querer provocá-la. Montei-a com a paixão que nos finge donos e senhores do que é amado, quando somos na verdade meros serviçais. E com a inquietude da minha infância tão cheia de descaminhos, voei pelas ladeiras do bairro, sentindo no rosto o vento que a vida soprava em mim. 

Anos mais tarde, nas aventuras hormonais do meu primeiro amor, senti a mesma incerteza de descoberta, o mesmo atropelamento de sentidos, e quase levei um tapa na cara da namorada quando disse, cheio de orgulho: amo você tanto quanto amei minha primeira bicicleta. Quem entende as mulheres?

 

Giovana Manfredi

 

Retirado de Releituras

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publicado às 21:00

Conto: A menina do Interior

por Jorge Soares, em 10.07.10

La prostituta

 

Ozária morava no Tabuí. De família pobre, como pobre era a cidadezinha. Mas Ozária tinha um sonho e resolveu colocá-lo em prática para mudar de vida. Decidiu ir pra capital. Ganhar a vida como empregada doméstica. Ser doméstica na capital não era coisa pra qualquer uma não. E lá se foi Ozária, vestidinho de chita, precata roda, trança no cabelo preto amarradinho na ponta com palha de milho e uma maletinha de papelão com umas bugigangas variadas.
Ozária batalhou na capital. Passou um ano. Passaram dois. No terceiro, não resistindo às saudades, resolveu voltar à terrinha. Dia marcado, tava Tabuí em peso esperando por ela naquilo que era um arremedo de rodoviária. Um frejo danado. Todo mundo queria ver Ozária que, segundo se dizia a boca pequena, tinha mudado na vida.
Quando chegou a jardineira do Valdino tudo se fez silêncio. Cada um queria ser o primeiro a avistar a Ozária. Parece que a cidade só tinha homens. Cada qual se virava como podia. Os de trás na pontinha dos pés, pescoço esticadinho, mãos apoiando nas costas do companheiro da frente. E ela, só para fazer suspense, foi a última a descer da jardineira. Tão diferente estava a moça! Cabelinho curtinho tingido de amarelo. Ruge no rosto. Batom vermelhão nos beiços. Brincos com argolões nas orelhas. Pinta pintada bem grandona na bochecha esquerda. Vestidinho decotado, deixando livre mais da metade da peitaria e, curtinho, quase mostrando as coisas de baixo. Alguns da platéia depois juraram que a roupa de baixo era vermelha. Nas costas um ziper, daqueles que de cima a baixo rapidinho. No peito esquerdo o desenho de um coração com uma setinha e uma frase estranha, desconhecida daqueles olhos gulosos: "I love you". E para completar, Ozária usava uns sapatos com saltos dessa altura. E aquele bumbum empinado, que tinha já provocado muitos sonhos entre a machaiada de Tabuí, estava mais arrebitadinho ainda. Era outra Ozária. Pelo jeito, tinha mesmo mudado de vida... abrem
O povão começou a gungunar baixinho, uns a olhar para ela com olhos de fome, outros com um risinho de gaiato brotando no canto da boca até que um mais animadinho resolveu, sob o olhar curioso e angustiado de todos, num suspense danado, perguntar o que queriam saber, mas não tinham coragem para dirigir a palavra a uma donzelice tão distinta:
- Oi Ozária, cê tá tão diferente, né?
E ela, candidamente, dando uma empinadinha, ajeitando a bolsinha no ombro e olhando pro alto, com desdém para todos os machões, respondeu:
- Hã! Hã!... Emputeci!...

*Eurico de Andrade*

 

Retirado de Malambas

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publicado às 21:09

Conto: As Moiras

por Jorge Soares, em 15.05.10

Luna de Abril

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Este caso contava-se na minha terra, terra de mar. Havia quem nele acreditasse. A minha terra é banhada por um rio, a que ninguém dá nome, e pelo mar. Creio que já se lhe não conhece a origem: é muito antiga. Tanto que as ruas velhas, quase todas elas o são, cobertas de areia, aos altos e aos baixos, quando sofrem conserto mostram buracas que antes abriam para subterrâneos, caminhos escondidos, do tempo dos moiros, a que chamam fojos...

Mas não é dos moiros que ainda hoje lá se fala. É das moiras. Há tanta memória delas! Ditos e receios... Até os pescadores quando traziam do mar os covos vazios se queixavam delas: não fossem as moiras! Marfadas! Condenadas!

Quem vinha a desoras para o povo também espalhava medos:

À meia-noite é que elas aparecem. Põem-se a pentear e a cantar, têm uns cabelos muito compridos! sentadas nas rochas... Vê-las é a nossa perdição.

Mas vossemecê viu? - perguntavam.

Ninguém tinha visto, porém todos sabiam que era verdade. E que em certas ocasiões as badaladas da meia-noite soavam por toda a banda, por cima das alfarrobeiras e das amendoeiras, no chão e no ar. Alguma estava para acontecer! E por culpa das moiras. À meia-noite era certo...ah! lá isso era! virem elas de corrida pelo rio abaixo até o mar. E até havia quem dissesse que ao dar do meio-dia era o mesmo. E acre ditavam, mas ninguém vira. Sabia-se apenas que elas eram muito belas e que cantavam. Quem lhes quebrasse o encanto ficava a poder mais que um rei. Que elas ainda possuíam riquezas fabulosas! Ou então... ficaria um seu escravo.

Isto era o que se dizia. Até que de uma vez aparece um rapaz desconhecido a correr pela praia fora, com os cabelos muito bastos e soltos, o olhar vago e a sorrir. Quem seria quem não seria... Foi-se juntando povo à roda dele e as perguntas a chover. Mas ele só dava às mãos, abanava a cabeça e sorria. Por fim deixaram-no fugir e ficaram murmurando: é um desgraçado.

No outro dia e nos mais que se seguiram aconteceu o mesmo. O rapaz aparecia do lado do rio, a correr, com aqueles cabelos tão compridos e lisos como uma seda, de mãos no ar, com um ar de riso... Nada pedia, nada aceitava...

É um aventureiro! É mas é um infeliz! As opiniões dividiam-se. O povo andava alvoroçado.

É um louco, é um zorro, é um perdido!

As mãos tremem-lhe, aventavam algumas mulheres, vê-se que quer falar e não pode. E foi, afinal, um carvoeiro da serra que veio a deslindar o caso. Aquele rapaz era rico. Tinha noiva, uma grande casa, cavalos e prédios como poucos. Mas tudo abandonara por causa delas. Numa certa noite, fazia uma lua como um sol, ao darem as doze badaladas... ele viu-as e foi atrás delas... Perdeu-se. Mas não lhes pôde quebrar o encanto. Elas é que lhe tiraram a fala. Deixou tudo e agora era certo, na verga do dia e ao dar a meia-noite, passar a correr do rio para o mar. Podia o sol tornar a areia em brasa, podia a lua gelar, podia a maré varrer tudo, que ele nunca parava, e sempre com aquele ar de riso.

Alguns homens lembraram-se de levar ao encontro dele as moças mais bonitas da terra, mas ele dava às mãos, sem as ver sequer, e continuava na sua carreira. Houve quem lhe oferecesse figos secos e papas, que era o comer da terra. Mas ele tudo recusava...

Pudera, se as moiras o sustentavam...

Até que um dia, já toda a gente se habituara a ele, um dia muito triste, muito escuro, com os pássaros do mar em terra e um levante de fazer arrepiar os mortos, se viu o mais triste espectáculo... quem terá forças para o contar?

Começaram a estalar as faíscas, que até pareciam um fogo de vistas, e os trovões a ribombar. O mar subia. As mulheres vinham às portas clamar que era o fim do mundo. Um frio, como nunca se sentira assim, picava-as na boca, mas elas não se calavam. As crianças choravam.

Nisto passa o louco, de estoiro.

Ele aí vai! Ele aí vai! - gritavam elas. É um perdido! Vai ter com as moiras.

O triste, mais pálido que uma rosa branca, com os cabelos a voar, corria como o vento ou como os raios trémulos. Chega à orla do mar e estaca. Abre os braços. Abre-os tanto que parece abranger a massa toda da água, e mete-se nela, desaparece.

O povo, que o estava vendo de longe, dá um grande soluço. E não faltou depois quem afirmasse que do mar outros soluços lhe responderam. O pobre perdera a sua alma! E tudo por causa das moiras.

Sabido é que o temporal abrandou.

Era um infeliz. Cumpria o seu fadário. Marfadas, condenadas...

Estas vozes e outras corriam depois acerca do louco e das moiras. E aos serões, enquanto os rolos da empreita tremiam e reviravam suspensos dos dedos activos das mulheres, sentadas nas capachinhas, repassavam-se as graças do suicida: era tão delgado como um junco, como um junco novo... e o olhar dele? mas nunca via ninguém! pudera, se ele as tinha visto a elas... formosura igual? nunca houve! e os cabelos, e as mãos dele, tão finas? sempre a virar, sempre a virar... tinha o rosto moreno... pois tinha, mas já fora mais claro que a água, o sol e o vento é que o haviam crestado, e o que ele corria, léguas, sempre no mesmo passo? aquilo nem era correr, era voar, como os pássaros, nunca se soube de onde vinha, que era louco, que era louco? andava mas era a cumprir um fado! agora acabaram-se os perigos do mar, agora está ele enterrado com elas, lá bem no fundo...

Mas quando os homens tornavam a vir da pesca, de ombros derreados e a praguejar, nunca deixavam de intercalar nas suas queixas: marfadas, condenadas, não fossem elas!

 

Irene Lisboa, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

 

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 19:55

Conto: A fogueira

por Jorge Soares, em 08.05.10
Vozes Anoitecidas - A Fogueira - Óleo S/ Tela - 80x80

A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem sadio no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados.
A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
“Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra”.
Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
- Estou a pensar.
- E o quê, marido?
- Se tu morres como que eu, sozinho, doente e sem as foras, como que eu vou-lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
- Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. E melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
A mulher, comovida, sorriu:
- Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida.
O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
- Vou ver se encontro uma pá.
- Onde podes levar uma pá?
- Vou ver na cantina.
- Vais daqui até na cantina? É uma distância.
- Hei-de vir da parte da noite.
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
- Então, marido?
- Foi muito caríssima - e levantou a pá para melhor a acusar.
- Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
E deitaram-se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu-lhe o adormecer:
- Mas, marido...
- Diz lá.
- Eu nem estou doente.
- Deve ser que estás. Você és muito velha.
- Pode ser - concordou ela. E adormeceram.
Ao outro dia, de manhã, ele olhava-a intensamente.
- Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
- Nada, sou pequena.
Ela foi lenha e arrancou alguns toros.
- A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
- Vai, mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
- Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
- Queres o quê?
- Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
- Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
Durante duas semanas o velho dedicou-se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
- Não fala asneiras, vai ser dado o castigo - aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
- Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
- Não barulha, mulher - ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
No dia seguinte, o velho foi acordado pelos seus próprios ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
- Estou a doer-me, mulher. Já não aguento levantar.
A mulher virou-se para ele e limpou-lhe o suor do rosto.
- Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
- Não mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
- Qual fogueira?
Ele respondeu um gemido. A velha assustou-se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
Levantou-se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou-se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
- Marido, não vai assim. Come primeiro.
Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
- Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
Ele estava já dentro do buraco e preparava-se para retomar a obra. A febre castigava-lhe a teimosia, as tonturas danando com os lados do mundo. De repente, gritou-se num desespero:
- Mulher, ajuda-me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
- Estás muito doente.
Puxando-o pelos braos ela trouxe-o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
- Mulher - disse ele com voz desaparecida. - Não lhe posso deixar assim.
- Estás a pensar o quê?
- Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar-te.
- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. E uma pena ficar assim.
- Sim, hei-de matar você; hoje no, falta-me o corpo.
Ela ajudou-o a erguer-se e serviu-lhe uma chávena de chá.
- Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou-se porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou-se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu-se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram-na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho. Pediu à noite que ficasse para demorar o sonho, pediu com tanta devoção como pedira vida que não lhe roubasse os filhos.
Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar fora naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que ele estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.

 

Mia Coutoem Vozes Anoitecidas

 

Retirado de Contos de Aula

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