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Conto - O amanhecer em quarto estranho

por Jorge Soares, em 07.06.14
O amanhecer em quarto estranho
Acordei e logo, percebi que meu corpo estava dolorido. Pensei que tinha apanhado. Então abri os olhos. Olhei ao redor e tentei reconhecer onde eu estava. Aquele quarto não me era familiar. Com certeza não era o meu. As estantes brancas, organizadas com livrões e enfeites e alguns bichinhos. Não era de alguém muito próximo. Eu conhecia o quarto das pessoas próximas a mim.
Não caí em desespero. Permaneci calmo. Afinal, não era a primeira vez que acordava em lugar estranho, e tampouco seria a última. Além disso o quarto era limpo e eu estava bem confortável. Uma cama excelente.  Diferente de acordar na rua, com o corpo gelado e sujo.
Fechei os olhos novamente. Esforçava-me para tentar lembrar o que tinha acontecido na noite anterior. Aos poucos algumas imagens surgiam.
Lembro-me que saímos para comer alguma coisa, mas era apenas uma desculpa para bebermos. Assim que chegamos no restaurante, pedimos algumas cervejas. Jantamos e continuamos bebendo. Acho que era próximo da  meia-noite, quando uma das meninas, que nos acompanhava, a mais bonitinha, disse que queria dançar. Eu não queria dançar. Não gosto de dançar. Mas ela era bem bonitinha e eu já tinha bebido algumas, achei que fosse uma boa ideia.
Cara, como ela era bem bonitinha. Bonita mesmo. Seu nome era Amanda. No fundo, eu sabia que não tinha nenhuma chance com ela, mas diabos um trago faz a gente pensar que pode tudo; faz acreditar que sonhos impossíveis são possíveis. Era certo, que em estado sóbrio ela nunca ficaria com um cara tímido e gordo, com uma barba de meses no rosto. Não sou muito propenso a fazer barba. Acho que os pelos em nossos corpos são naturais. Não gosto dessa estética plástica que nos impõem uma limpeza total dos pelos no corpo, com um esforço em tentar esconder a sujeira da humanidade. Às vezes, me pergunto, onde esta a sujeira da humanidade? Também não gosto de textos limpos demais, não me refiro só a linguagem, me refiro àqueles com um mundo cor de rosa, onde tudo se encaixa, tudo é perfeitinho. Menininho se apaixona pela menininha, se casam tem filhos e nunca falta dinheiro ou comida. Sempre estão felizes. Fico pensando que porra é isso!!?? Fico indignado. Talvez, por isso que eu gosto mesmo, é de acordar com do velho Johnnie e um texto do Bukowski.

 

Carlos Carreiro

 

Retirado de Samizdat

publicado às 20:36

Dono de casa

 

Imagem da Internet

 

 

Conversa entre duas das minhas colegas um destes dias algures num dos escritórios lá da empresa.

 

-....

- As mulheres deviam ter direito a reformar-se antes dos homens

- Como assim?

- Devíamos poder reformar-nos prái aos 50 anos!

 

Eu estava mesmo ao lado a ver um problema com um dos meus colegas, não havia forma de não ouvir.... nem de deixar passar.

 

- Espera aí, explica lá isso mais devagar!

- Então, devíamos poder reformar-nos muito antes dos homens!

- A sério? Então e porquê? Que eu saiba todos trabalhamos igual, ganhamos igual e descontamos o mesmo!

- Pois, mas eu saio daqui e ainda vou tratar dos filhos, do jantar, limpar, arrumar....

- Olha lá, e tu achas que eu faço o quê quando saio daqui?

- Não me digas que fazes essas coisas todas?

- Claro, lá em casa por exemplo sou sempre eu que cozinho.

- E pões a louça na máquina, estendes a roupa a secar?

- Se for preciso.. e varro e limpo a cozinha.. e vou buscar as crianças.. e dou banho à mais pequena..

- Mas o meu marido não faz nada dessas coisas.

- Então e o resto do mundo tem culpa que tu o tenhas educado mal?

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- Tu não sabes que generalizar é mau?

 

Evidentemente a todas estas já o resto do pessoal ria às gargalhadas... por vezes pergunto-me como é que em pleno século XXI ainda há pessoas, relativamente novas,  que ainda vivem algures nos tempos da outra senhora.

 

Jorge Soares

publicado às 22:46

Conto - Ao seu dispor

por Jorge Soares, em 03.05.14

Quarto

 

 

Encontrar um hotel daqueles justamente quando estavam perdidos havia sido um golpe de sorte. As recusas dele em pedir informações fizeram com que eles saíssem da estrada principal. E ali, no meio do nada, depois de pegarem uma estradinha de terra, acidentada, e de uma chuva torrencial que dificultara ainda mais as coisas, surgia, como um oásis, aquele hotelzinho aconchegante.

 

Nem parecia que estavam em lua-de-mel. Não que não fossem apaixonados, mas a sucessão de episódios ruins desde que saíram do trajeto original os havia estressado a tal ponto que ambos só desejavam agora um local decente para tomar um banho e dormir. Ela, pateticamente trajando um vestido de noiva, queria manter a tradição e ser carregada no colo pelo noivo, o que agora, com o coque desfeito e o vestido amarrotado, parecia totalmente ridículo.

 

Ângela foi a primeira a entrar. Tocou insistentemente a campainha em cima do balcão, mas ninguém apareceu. Carlos entrou em seguida, carregando as malas e depositando-as no hall de entrada.

 

– Olha só que gracinha de hotel! – ela parecia deslumbrada.

 

– Estou tão cansado que dormiria até neste sofá – ele declarou, desanimado, indicando, com os olhos, um sofá no outro canto do saguão.

 

– Acho que não tem ninguém aqui. O que a gente faz agora?

 

– Se ninguém aparecer, pegamos uma chave, e...

 

– O quarto oito é perfeito para vocês – Carlos foi interrompido.

 

Ambos olharam para o ponto de onde viera a voz. Um homem de meia-idade, levemente antipático, surgira na recepção.

 

– São recém-casados. – afirmou, tentando parecer simpático, enquanto olhava o vestido dela. – Que ótimo! Sempre temos o que o cliente deseja. A suíte oito é uma das mais procuradas, e passou por uma reforma recentemente – dizendo isso, o homem pegou as malas e começou a carregá-las em direção ao quarto.

 

Carlos e Ângela entreolharam-se.

 

– Espere. Nem preenchemos a ficha ainda.

 

– Não faltará tempo. Agora podem subir – o funcionário respondeu secamente.

 

O quarto era de fato belíssimo. Quem visse o hotel pelo lado de fora não poderia imaginar uma decoração tão esmerada. Era simples, mas possuía um inegável toque de classe. Uma decoração em tons florais conferia um ar romântico ao cômodo.

 

– Não é exatamente o resort para onde iríamos, mas até que é simpático, não é? – ele perguntou, passando os braços em torno dela. A tensão dissipara-se.

 

– Você está brincando? Isso aqui é maravilhoso! Eu poderia passar o resto da minha vida aqui – disse Ângela, com os olhos brilhando.

 

– Acho que desconhecem o conceito de serviço de quarto por aqui – a voz dela denotou impaciência ao perceber que o telefone estava mudo.

 

– Vou descer e tentar conseguir algo para comer.

 

– Devíamos ter trazido um pedaço do bolo. Dizem que os noivos nunca aproveitam a festa.

 

Ela entrou no banheiro e despiu o vestido de noiva, ligando a água da banheira. Um relaxante banho era tudo de que precisavam. Se a comida fosse ruim, partiriam de manhã rumo ao hotel reservado.

 

Os minutos se passavam e Carlos não retornava. Vestindo-se novamente, ela desceu as escadas, procurando algum sinal de vida. Nem o rabugento homem da recepção estava mais ali.

 

Todos os quartos, à exceção da suíte em que estavam alojados, pareciam vazios e trancados. A cozinha, modesta porém ampla, estava igualmente vazia. Lançou mão de uma garrafa e saiu rapidamente, percorrendo toda a ala daquele andar. Aturdida, correu até o lugar onde haviam estacionado o carro, e constatou que ele permanecia no mesmo lugar, e era o único ali.

 

Amedrontada, começou a chamar pelo marido, sem resposta. Sua voz, que ficava um tanto esganiçada quando ela ficava nervosa, estava agora irreconhecível. Percorrendo toda a extensão do hotel, gritava, agora realmente desesperada.

 

Após refazer o percurso, certificando-se de que não se esquecera de nada, esquadrinhou novamente o hall e o saguão, que lhe pareceram um tanto diferentes.

 

Exausta, retornou ao quarto, munida de uma bebida forte que encontrara na cozinha. Soluçando, encolheu-se ao pé da cama, quase em posição fetal. Os longos cabelos negros estavam agora totalmente desgrenhados, e a maquiagem borrara-se por completo. Nesse momento, a porta abriu-se e o antipático funcionário sorriu-lhe.

 

– Onde está meu marido? O que fizeram com ele? – o tom histérico em sua voz não pareceu perturbar o homem, que se limitou a estender-lhe a mão.

 

– Cuidado com o que deseja, minha cara.

 

...

 

Uma semana depois, um homem encontrava um hotel que não constava do mapa. Perfeito para sumir por uns dias, até que ninguém o pudesse ligar ao roubo do dinheiro do cofre. O hotel era pequeno, rústico, e, o melhor de tudo: discreto. Parecia quase invisível aos olhos de quem passasse por aquela estradinha pouco usada.

 

Ao entrar, foi atendido por uma simpática jovem, de longos cabelos negros. Seu olhar avivou-se quando ele perguntou se havia algum quarto disponível.

 

– Eu preciso de um lugar sossegado, pois não quero ser importunado. O lugar aqui é tranquilo?

 

– Temos exatamente aquilo que o senhor quer – respondeu ela, com um sorriso. – Sempre temos o que os clientes desejam.

 

Tatiana

 

Retirado de Samizdat

 

publicado às 21:34

Conto - O homem perfeito

por Jorge Soares, em 22.02.14

O Homem Perfeito

 

A decisão estava tomada. Ele se mataria naquela noite. Estava orgulhoso de si mesmo. Afinal, ia se matar pelo motivo certo. Pensou nos homens que conhecera e que haviam decidido tirar a própria vida. Motivo: falência, chifre, doença terminal. Não, ele não era um desses que se matam por dinheiro. Ou porque são cornos. Ou ainda porque não aguentam sentir dor. Ele era, por assim dizer, completamente normal.

 

Não deixaria um bilhete. Homens que deixam bilhetes são todos uns dramáticos. Morrem querendo deixar para trás uma dezena de culpados. A mãe que devia ter entendido os sinais; a esposa que não devia ter gastado tanto; a amante que não devia tê-lo trocado pelo garotão mais novo; os amigos que deviam ter oferecido um ombro em vez de deboche. Não, homens que escrevem palavras de adeus são vingativos. Sempre querendo semear o remorso, infernizar os vivos.

 

Ele morreria de forma muito digna. Morte com planejamento. Já tinha pagado até pelo caixão e pela cremação. E por uma corbeille grande, com faixa escrita e tudo. Uma corbeille... Mas afinal o que era a porra de uma corbeille? Não sabia. Alguma coisa que se usa em enterros, com certeza. E que é chique. Senão a mocinha da funerária não teria lhe vendido com tanto orgulho o pacote 3C Primeira Classe, ou 3C-PC, como era carinhosamente chamado. Bem, isso ele sabia explicar o que era. Um pacote 3C-PC significava caixão-corbeille-cremação. Aliás, essa tinha sido uma das razões que o haviam levado a escolher entre ser enterrado ou  virar cinzas. Explica-se. É que havia dois pacotes 3C disponíveis. O de Primeira Classe, composto por caixão-corbeille-cremação, como já se disse. E o Executivo, ou 3C-E, oferecido com caixão-corbeille-cova. A propaganda impactante feita pela Boutique do Último Leito (sim, mortais, funerária é coisa do passado) contribuiu decididamente para a escolha. Do pó vieste, ao pó retornarás. Mas tu decides como,  dizia o folheto com letra em negrito. Embaixo dos dizeres, duas fotos: em uma delas, um caixão sendo baixado à terra por homens circunspectos; na outra, uma urna de porcelana magnífica, nas mãos de uma pessoa sorridente. Na verdade, ele havia achado o sorriso um tanto excessivo. Mas a mocinha das vendas logo o fizera mudar de ideia. "Veja bem que é o sorriso de alguém feliz por poder levar consigo as cinzas da pessoa amada." Como é que ele não tinha pensado nisso? De um lado o chão frio e úmido dos vermes, de outro o frescor da porcelana acolhendo as suas cinzas. Tudo bem que essa frase também era da mocinha, mas serviu bem naquele momento de decisão. 

 

Fez tudo sozinho. Não podia envolver no processo as secretárias, nem a família, nem os amigos. Não se imaginava dizendo "Eu gostaria da sua ajuda para organizar a minha morte". Não, eles não entenderiam. Como explicar que se mataria porque era feliz? Que não havia nada que já não tivesse feito na vida? Que tinha alcançado o que todos os homens desejam: a plena realização — e que, exatamente por isso, estava na hora de morrer?

 

Tudo em sua vida era perfeito. Tinha sido uma criança feliz, sem traumas. Um adolescente bem sucedido, bom aluno, cheio de amigos e namoradas. Adulto, tinha ficado rico. Muito rico. De um tipo de rico que não se vê, só se ouve falar. Antes dos 40 anos, já conhecia 24 países. Em 10 deles comprou propriedades luxuosas e estabeleceu-se em negócios diversificados. Casou-se com uma mulher linda e gostosa. Deus, como era gostosa! Mas não o bastante para impedi-lo de ter todas as amantes que quis, loiras, morenas, roliças, magras, negras, asiáticas. Mulheres discretas que sabiam como chegar e quando ir embora. Teve dois filhos. Lindos como a mãe. Inteligentes como ele. E até mesmo o divórcio foi feito sem mágoas. Separou-se da esposa enquanto ainda a achava bonita e excitante. Porque não queria permitir a si mesmo vê-la definhar com a idade. Porque não deixaria que ela se fosse quando já não a desejasse, ou quando não houvesse mais homens para cortejá-la. Ele a amava demais para esperar ao seu lado o desgaste da relação.

 

Tinha saúde. E como tinha. Os médicos repetiam a todo instante que ele era um exemplo de homem no cuidado consigo mesmo. Um dos filhos já estava ao seu lado nos negócios e o outro fizera sua própria fortuna. Eles o amavam e respeitavam. E haviam lhe dados netos. Crianças educadas, rosadas e bonitas. 

 

Sem pendências, portanto. Vida perfeita. Podia morrer pelo motivo certo: plenitude. E na noite certa. Estrelada, silenciosa, cheia de uma brisa fresca com cheiro de bos... Bosta?! De onde vinha aquele cheiro de merda insuportável? Aquele fedor de embrulhar o estômago? Alarmado, pensou que nada, nada podia quebrar o clima perfeito da noite da sua morte. 

 

Descendo as escadas com rapidez, saiu correndo, transtornado, pelo jardim meio escuro, buscando a fonte do cheiro fétido. Na pressa, tropeçou nos instrumentos deixados na grama pelos homens que haviam trabalhado à tarde na abertura do buraco da nova piscina. Uma piscina olímpica longa e funda. A topada o jogou para a frente com força e ele se sentiu voando até que estatelou-se em alguma coisa malcheirosa e gosmenta. E nada teria acontecido não fosse o azar de ter batido a cabeça em outro objeto qualquer deixado ali por descuido. Maldito objeto.

 

Enquanto morria, sentindo o cheiro de merda que, agora percebia, vinha da lama úmida que servia de chão ao buraco, e sem conseguir mover nem um único membro do corpo grande, lembrou-se de que não tivera tempo de escrever as instruções sobre o pacote 3C-PC para deixar sobre a cômoda. Lembrou-se também de que não havia escrito cartas ou bilhetes se despedindo, porque isso era coisa de homens dramáticos. Por fim, lembrou-se de que dissera à mocinha da Boutique do Último Leito para esperar até ser procurada por alguém com instruções. Não seria. E ele não seria cremado. E os vermes lhe fariam companhia. E ele ficaria na terra fria, ossos amontoados, distante de tudo o que amava, sem o frescor da urna de porcelana envolvendo suas cinzas.

 

Enquanto o sereno descia sobre o seu corpo imóvel, pensou em como gostaria de processar aquela empresa maldita, aqueles operários relapsos. Se ele não morresse, talvez ficasse paralítico. E teria que depender das pessoas e contratar enfermeiras e reformar a casa. Todas as casas. Em 10 países. Se ele não morresse, e ficasse paralítico, se tornaria incapaz para o trabalho, para o sexo. Se ele não morresse, veria, em poucas horas, aquele jardim repleto de policiais colhendo evidências, confiscando os objetos malditos. Se ele não morresse...

 

Ainda pensava nas possibilidades quando policiais e paramédicos chegaram para salvá-lo, na manhã seguinte. Agora sim. Infeliz, miserável, incompleto, não tinha mais nenhum motivo para querer morrer. Era, finalmente, dono de uma vida imperfeita.

 

Cinthia Kriemler

 

Imagem: O Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci

 

Retirado de Samizdat

 

publicado às 21:21

Conto - O homem que amei

por Jorge Soares, em 15.02.14

O HOMEM QUE AMEI
                                                                     

Houve uma época em minha vida que pensei ter voltado à terra para ir em busca do homem que amo. Era jovem e acreditava nessas coisas de outras vidas, retornos, enfim... Essas coisas que tornam mais digerível a existência. Então, procurei por ele. Procurei, procurei, até que, finalmente, o encontrei. E como o amei! Ainda hoje, em minha memória, parece que o vejo.
   
O homem que amei tinha olhos que guardavam o mar em tarde de chuva.

O homem que amei tinha passos firmes e gestos largos. Por vezes assumia um ar arrogante que tentava disfarçar sua timidez e insegurança. Mas, embora tímido e inseguro, o homem que amei era extremamente arrojado em seus sonhos, projetos e realizações.

O homem que amei tinha a voz aveludada que nada dissimulava e um semblante melancólico. Sua voz e semblante revelavam as emoções que sentia: da mais doce ternura à raiva mal contida; da pureza quase infantil à ironia mais sutil; da profunda tristeza à alegria que contagia. Por falar em emoções – é espantoso – mas o homem que amei conseguia vivê-las todas num mesmo dia.

O homem que amei tinha extremos loucos. Aproximava-me de Deus com a mesma facilidade com que me fazia conhecer o demônio. Com a mesma facilidade dizia impropérios ou revelava pensamentos sublimes. Por vezes agia e reagia como criança e, quase sempre, com a grandeza do homem vivido e sofrido.

O homem que amei conseguia me fazer curvar de tristeza ou explodir de alegria porque, como ninguém, ele sabia chorar quando era preciso e rir quando era o momento.

O homem que amei desabava diante das mazelas do mundo, mas crescia ao defender suas ideias com contundência.

O homem que amei tinha sonhos lindos, desejos simples e gosto sofisticado. Existia um ponto de interrogação no semblante meigo e forte do homem que amei, tipo, por que complicar o que é simples? A bem da verdade, o homem que amei era uma confusão e, por isso mesmo, me confundia e conseguia me surpreender sempre.

O homem que amei deslocava-se feito peixe fora d’água em meio à parafernália moderna, mas era rei em meio à natureza e no mundo das palavras. Era perspicaz e observador. Escrevia o dia a dia e comovia. Transformava asfalto em poesia.

O homem que amei era sedutor. Tinha paixões e provocava paixões.

O homem que amei era fascinante e delirante.

O homem que amei era intenso e raro.

Eu o conheci em seu reino, o das Palavras, o da Poesia, diante de uma máquina de escrever, e o amei desde então. Encontrei nele reflexos da minha alma. Nele havia o amor que tanto buscara. Torcia para que aquele homem conservasse a mágica do primeiro instante. Torcia porque, se perdesse a magia, ele perderia sua alma. Se perdesse a alma, não seria mais um homem raro. Se não fosse mais um homem raro, não seria mais o homem que eu amava. E daí, bem, daí minha vida teria perdido o sentido da volta.

Mas tudo isso foi há muitos e muitos anos. Perdi o homem que amei no tempo e no silêncio. Enviei um telegrama, não obtive resposta. Mandei um livro, não obtive resposta. O silêncio foi enorme, brutal. Há silêncios que são eloquentes, mas o silêncio ditado pelo homem que amei eu não soube interpretar. Afinal, se até Inês – aquela do Adoniram - deixara um recado pro Mané, ainda que num papel jogado no chão perto do fogão, por que eu não mereceria qualquer explicação?

Vida que vem, vida que vai, vida que leva... E a vida me levou até que aquele amor se desfizesse no tempo, tempo que se alongou, fazendo-me pensar, volta ou outra, se o homem que amei existira mesmo ou se eu o inventara.
 
Foi então que, hoje, ao abrir minha caixa de recados, encontro uma mensagem do homem que amei. De repente, assim, do nada. E foi como se ouvisse sua voz macia, chegando de algum pedaço remoto do passado.

Contou de sua vida, de seus amores e dores, de sua saudade e de utopias.

“Somos utopias. Utopias não deveriam falar, olhar, dizer, se expressar, se mostrar. Utopias deveriam apenas ser utópicas. Sonhadas, imaginadas, desenhadas, pintadas ao gosto de cada um. Nós dois nascemos utopias. Vivemos todo o tempo como utopia. Toda uma vida. Utopia é coisa linda para se levar na alma. Porque coração vai embora, a alma não. Utopia quando você ouve uma música, um som, um tom, um grilo. Utopias quando você, dentro de um avião, vê lá embaixo um belo horizonte e lembra que ali tem utopia. Quando você lê um verso, um conto, um livro, a biblioteca inteira e lembra utopias. Quando você passa num lugar e é atropelado por um utópico pensamento. Talvez a utopia venha num ônibus elétrico com letreiros apagados de um imortal Machado de Assis...”  A essa altura, as letras já embaçadas embaralhavam-se, parecendo dançar numa poça d’água. Bateu um cansaço infinito. Então desisti de ir até o final e deletei a mensagem.

Tirei os óculos, pensando nessa catarata que insiste em me lacrimejar os olhos. A velhice tem cada coisa... Preciso consultar um neurologista para saber a causa desse repentino tremor nas mãos. E um cardiologista também porque esta batida descompassada não é normal. Mas, antes, tenho que ver outro especialista, vai que esse nó na garganta seja coisa ruim...

 

Cecília Maria De Luca

Retirado de Samizdat

publicado às 21:17

E se os homens fossem tratados como tratam as mulheres?

 

Imagem do Público

 

 

Num dia qualquer, um homem está em cima de uma bicicleta parado num sinal vermelho. Desde  passeio uma mulher dirige-se a ele aos gritos, oferecendo-lhe favores sexuais enquanto o ofende. A tentativa de negação é recebida com uma reacção violenta da mulher  que continua com os insultos. Seria assim um mundo dominado pelas mulheres, segundo a realizadora e actriz francesa Eléonore Pourriat. Não é bem o espelho da sociedade em que vivemos mas é uma aproximação bastante credível.

 

Chama-se Maioria Oprimida e é uma curta metragem que pretende mostrar como seria o mundo se em lugar de pelos machistas fosse dominado pelas feministas, ou seja, como seria o mundo se os homens fossem tratados como costumam tratar as mulheres.

 

O filme mostra-nos  um dia na vida de um homem anónimo que se depara com várias situações de opressão e violência de género. Enquanto percorre as ruas para ir ter com um amigo cuja mulher o obrigou a usar um véu, é alvo de todo o tipo de piropos de grupos de mulheres com ar ameaçador.

 

É uma perspectiva bastante interessante sobre a forma como uma mulher de hoje em dia vê o mundo e a forma como uma grande parte das mulheres é tratada no dia a dia.

 

Um filme a ver, a rever e que nos deve fazer pensar.

 

 

Jorge Soares

publicado às 22:04

Conto - Desejo

por Jorge Soares, em 18.01.14

desejo

 

Olhou-a pelo canto do olho. Timidamente. Nada. Nenhum gesto, nenhum sinal de que ela o percebia ali tão próximo. Tossiu, esperando que o barulho a fizesse virar-se. Ao contrário. Ela abaixou ainda mais a cabeça na direção da revista que a entretinha. Podia jurar que a tinha irritado. Será?

Era assim já havia um tempo. Ele se consumindo de paixão e de tesão a cada vez que entrava naquela sala apertada. Se esta sala fosse maior...

 

Se pelo menos as nossas mesas fossem mais afastadas... Tolice. Consumia-se dia após dia entre os batimentos acelerados e a vontade que crescia dentro das calças. E agradecia a Deus e ao diabo pela mesa de trabalho que encobria os seus desejos. Talvez se eu tivesse coragem de conversar com ela, se eu pudesse mostrar que sou um cara legal... Ilusão. Só os dois naquela sala apertada; e ele travado. Rotina. Ele, com seus documentos e processos. Ela, sempre ao telefone, no computador ou na sala do chefe.

 

No fim do ano, na festa da empresa, esbarrara nela uma ou duas vezes. De propósito. Só para pedir desculpas e obrigá-la a dar-se conta de que ele existia. Mas nem um muxoxo. Enquanto ainda dizia “desculpe”, ela já tinha sumido. Um inseto. Uma mosca. Era o que ele era. Não. Uma mosca chamaria a atenção pelo barulho irritante, mas chamaria a atenção. Ele, não. Não era mosca. Nem isso.

 

Naquela manhã, entrou na sala com ares de “hoje vai”. Perfume francês que só colocava para ir a festas ou a motéis baratos, das raras vezes em que aparecia uma mulher para transar. Roupa de missa; sapatos de Ano Novo; cabelos de boate — com topetinho feito a gel. "Topa sair comigo hoje?". Não, não estava bom. “E aí, gata, que tal um barzinho hoje?”. Que droga! Nem que tivesse 15 anos. “Escuta, tem tempo que ando querendo convidar você pra sair...”. Assim estava melhor, com reticências. Afinal, o máximo que podia acontecer era levar um fora. Um fora, esse era o problema. Não pela rejeição, à qual estava acostumado, mas por antever como seria a sua vida naquela sala apertada depois do fora. Convivência impossível, vergonha, frustração.

 

Desistiu, mais uma vez. Até a hora do almoço. Certo de que precisava dar um jeito no que sentia no coração e dentro das calças, tomou duas cervejas e um copinho de pinga durante a refeição. De comida mesmo, só umas três garfadas para forrar o estômago. Almoço de boteco: comida ruim, pinga barata. Que pena que não tenho grana pra mais um copinho, pensou, recontando o dinheiro. Conferiu o relógio de pulso e viu que ainda tinha uns trinta minutos, mas preferiu voltar para o escritório assim mesmo. Queria treinar o convite que faria a ela, antes de colocar na boca as balas de menta que comprara com o troco do almoço. Ah, hoje vai!, pensou, animado pelo álcool.

 

Assim que chegou, viu que o escritório ainda estava todo apagado. Dirigiu-se, então, à sala do chefe para fazer o que era de costume: quem chegasse primeiro, pela manhã ou depois do almoço, tinha a tarefa de ligar seu ar condicionado, arrumar sua mesa e recolher o lixo do cesto.

 

Entreabriu a porta. Silencioso e lento como sempre. E aí ouviu os gemidos. Parado na soleira, acostumou a vista à penumbra até conseguir enxergar os dois corpos contorcendo-se em sexo sobre a mesa de reuniões que ficava mais à direita, ao fundo. Macho e fêmea em sexo irrestrito. Sexo de braços, pernas, bocas e suor. Sexo com sons que ele nunca ouvira.

 

Pensou em sair bem devagar, pé ante pé. Depois, em sair e voltar para bater à porta. Por último, em sair e esquecer o que vira. No entanto, continuou ali, na porta, no escuro, consumindo a beleza daquelas nádegas que cavalgavam um corpo que bem podia ser o seu. Mas não era.

 

Ele e um medo súbito de ser visto. Ele e um medo covarde de que sua respiração entrecortada pudesse ser ouvida. Ele e um medo horrível de ser despedido e de ter que passar a viver sem ela, sem a sala apertada, sem o tesão embaixo da mesa. Foi quando lembrou que não era inseto. Não era mosca. Não fazia barulho. Nem isso. E seus olhos mergulharam novamente naquelas nádegas galopantes.

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:50

Conto - Desfaz o Jogo

por Jorge Soares, em 07.09.13
Desfaz o jogo
Fim de tarde na grande metrópole. Um acidente envolvendo um caminhão causava retenção no trânsito, gerando um engarrafamento que parecia dar um nó na cidade. Além do monóxido de carbono, a briga das buzinas tornava tudo ainda mais irritante. E, como diz um velho amigo niilista, filósofo de botequim, tudo sempre pode piorar. E foi aí que o carro morreu.
– #$@%*@!!!!!! O carro morreu. – o sujeito foi mais categórico do que médico desenganando paciente terminal.
– Por quê? Como assim, morreu? – ela, que de carro só conhecia volante e rodas, perguntou, mais assustada pela fatalidade do termo do que propriamente por perceber o transtorno criado.
– Não sei. – a voz dele denotava impaciência, e tinha o tom irascível que ele manifestava em situações de estresse.  – Acho que não pode ser a bateria. Troquei no mês passado. Também não é falta de combustível. Acabei de abastecer. Deve ser o motor de arranque. Bem que o Alemão me avisou. Devia ter trocado. – a cada frase, o tom de voz ia subindo, assim como o carro fizera antes de falecer, digo, morrer.
– #@#%*&##@!!!!!!!!!
– O que é que a gente vai fazer agora? – perguntou ela, arrependendo-se na hora por ter proferido uma questão tão complexa.
– Eu não mereço!#+*$*#@! Não é justo! Que @#$@#!!!!!! – vociferava ele, enquanto batia com as duas mãos no painel. Praticamente um Incrível Hulk em versão motorizada. A cada tentativa de ressuscitar o motor, todas as luzes do painel se acendiam para, imediatamente, se apagarem, frenesi dos estertores de um motor fatigado. Os ruídos emitidos pelo veículo tinham um ritmo de agonia moribunda que chegava a ser engraçado. Um lamento triplo, como uma tosse seca, e um suspiro. Um lamento triplo, e outro suspiro.
– Não é melhor ligar para o reboque? – sugeriu ela, tentando ajudar.
– Liga, #@$%#! – bradou ele, jogando a carteira com os telefones no colo dela, que, nervosa diante do caos que se formava, teve um histérico acesso de riso.
– Para de rir! PARA DE RIR! Qual é a graça?

Ela, tentando inutilmente conter a crise que a acometia nos momentos mais difíceis, emendou com choro, que se tornava grotesco porque se intercalava com as gargalhadas.
Um carro enguiçado na subida de uma ponte, uma mulher em crise nervosa, um homem impaciente aos berros e um trânsito caótico. Isso para não mencionar os comentários dos carros que passavam por eles:
– Brincadeira, hein?!
– Parou mal pra caramba, amigo... – e, em meio ao burburinho, as palavras encorajadoras do marido:
– Para de chorar, que você está me irritando.
Enquanto tentava ligar para o serviço de assistência a fim de solicitar o reboque, ouvia a sinfonia nada harmônica de buzinas, paralela à mensagem-padrão de atendimento.
– E aí, atenderam?
–  vão atender – dizia ela, agora uma Amélia pós-moderna, capaz de concordar com tudo o que ele dissesse, só para acalmá-lo.
– Boa-noite, senhora. Qual o seu nome?
– Olha. O carro morreu aqui na subida da ponte, e eu preciso solicitar um reboque... Estamos no meio do trânsito, e...
– Qual seu nome e CPF, por favor? – a atendente não a deixou terminar a frase.
– Vão mandar a @#$# do reboque ou não vão? – gritava ele, acrescentando um tenor em dó maior às buzinas, que faziam coro aos seus berros e ecoavam lá e cá.
– Fulana de tal, número tal. Olha só: nós estamos em lugar perigoso, e...
– Entendo, senhora, mas eu tenho de preencher o formulário de solicitação.
 E aí? – novo grito.
– Vão mandar, sim – dizia ela ao marido, agora uma espécie de mediadora entre a atendente e ele, irracional pela raiva.
– Senhora, não estou conseguindo ouvi-la. A senhora pode acalmar o cavalheiro, por favor?
Estou tentando, pensava ela. Como estou!...
– Senhora – prosseguiu a atendente – o que a senhora é do titular do seguro?  – Taí! Boa pergunta, pensou ela, ainda mais àquela altura... – Eu sou mulher dele. O carro está no meu nome.
 – Senhora, vou estar transferindo a sua ligação, e...
– Não! Pelo amor de Deus, não sai da linha! – o tom da mulher beirava o desespero.
– Senhora, o procedimento...
– Eu não quero “procedimento”, moça, eu quero ajuda – ela implorava, clamando que aquela tábua-de-salvação-telefônica lhe trouxesse alguma saída.
 – Qual o número do chassi do veículo, senhora? – ela pareceu se comover.
 – Hã? Chassis? – será que as atendentes agora falavam Francês? Não. Se fosse Francês, ela entenderia. Até Grego. Talvez aquilo fosse Aramaico. Ou alguma linguagem de outra dimensão.
Essa não! Enquanto ela se perdia em considerações linguístico-automobilísticas, a ligação havia caído. Talvez a ET-atendente tivesse desistido dela, afinal.
 – Caiu a ligação, – informou ela, com o ar de quem carregará mais uma culpa pela eternidade.
 – Caiu???Como assim, caiu?! – berrava o sujeito.
 – Não sei, dizia ela, examinando o telefone, que estava desligado. – Acho que a bateria acabou, informou, temendo acrescentar mais essa falta grave aos pecados que havia cometido. Algo cármico, de encarnações pregressas, talvez pudesse explicar aquele inferno dantesco em que o seu dia se havia transformado.
  – Liga de novo – o sujeito jogou o celular em seu colo. – Usa o meu.
 – Ahnnn. Moça, eu liguei ainda agora...
...
Ligação feita, reboque agendado. A paz começava a querer retornar. E foi então que ele proferiu a frase lapidar, solene como um oráculo das tragédias gregas:
– Você vai ter que encostar o carro.
– Hã? Eu?! – ela não acreditava no que ouvia. Ela, que precisava de copiloto em pista de parques de diversões; ela, que ficava atolada naqueles carrinhos que batem uns nos outros, e que às vezes tinha pesadelos homéricos em que se via ao volante de um carro, sem saber conduzi-lo. Mas isso era muito pior do que os seus pesadelos mais tenebrosos. – Mas eu não sei nem ligar o carro.
– É isso ou empurrar, aqui na subida. Se você errar, o carro vai descer, e a gente vai bater no carro de trás. Vou contar até três. No “três”,  você solta o freio de mão, e joga o carro pra direita.
– Mas eu...
 1, 2..3!!!! Solta o freio de mão!!!
– Não consigo. – dizia ela, não sabendo se era para cima, para baixo ou para trás que deveria fazer força.
– Você não sabe soltar o freio???@#%&#!!
– Não! Como é? Ah, consegui.
– Vira o volante pra direita ao mesmo tempo.
– Tá... – ela tremia e suava, desesperada.
– Vai! Continua! – gritava ele.
– O volante não vai mais... – não podia chorar, e muito menos rir.
– Tá. Agora desfaz o jogo – gritou ele, enquanto empurrava.
– Ahnn???
 Desfaz o jogo, #@@#%$!
 O que é isso?  – perguntou, desesperada. Ela sabia o que era jogo-duro, jogo sujo, jogo marcado, e até jogo fechado. Mas como desfazer um jogo que ela não sabia ter feito?
– Vira pro outro lado. Você virou pra direita, agora vira pra esquerda! @##@!!!!
– Tá. – obedeceu ela, que nunca pensara que um volante pudesse ser tão pesado.
– Agora bota reto.

Como se bota um volante reto, meu Deus? – mas isso ela não teve coragem de perguntar. Não devia ter matado aula de geometria. Volante reto. Volante reto. Quase um mantra.
– Eu disse RETO!!!
 – Eu não sei como se faz isso!
Os curiosos olhavam e riam, e ele gritava, defendendo-se:
 – Ela não sabe dirigir!

Isso era tudo o que ela precisava: parecia que eles estavam naquela situação por alguma incompetência ou erro dela, o que agora vinha se tornando muito comum. Quando irritado, ele agia de um modo que fazia parecer que a culpa era sempre dela, até em relação a coisas imponderáveis ou aleatórias. Não preciso passar por isso! Não preciso passar por isso!, bradava a voz interior, liberta do caos circundante.
Do meio do apocalipse em que aquele trecho se transformara, surgiu um ambulante-faz-de-tudo cheirando a bebida. Como aqueles maltrapilhos dos contos de fadas, aquele eremita contemporâneo prontificou-se a fazer o carro pegar no trancoOutra expressão para checar no Aurélio, pensou ela, antes de perceber, com os sucessivos trancos, aquilo a que ele se referia. O sujeito trazia mais quinquilharias dependuradas do que militar em festa de gala. Carregadores de celular, guarda-chuvas e biscoitos de polvilho adornavam-no do pescoço à cintura.
 – Fica calma, dona, que eu vou dar um jeito nisso. – o mau-hálito do sujeito deixou-a embriagada. É bom que eu relaxo, pensou ela, enquanto catava o Lexotan no fundo da bolsa.
            – É só mais um pouquinho, dona. Dick, para com isso.
            – SLURP! O vira-lata do Bigode acabara de lamber-lhe a boca.
            – Ele adora fazer isso. Dick, deixa a moça!....
– Não, moço. Tudo bem. – se ele fizesse o carro pegar, ela até beijaria de bom-grado aquele cachorro morrinhento. O pensamento desencadeou nela nova crise de riso. A cada tranco, Dick – que era, na verdade, Richard, numa pronúncia irreconhecível – pulava e continuava no seu colo. Vou evitar contato visual, senão o cachorro me lambe de novo.
  – Pronto. Agora é deixar solto, e descer de ré.
 – Daqui eu levo, obrigado. – o marido era só gentilezas com o homem-bafo. Deu-lhe uns trocados para a cervejinha, como se ele precisasse de mais uma.
 – Valeu, sangue! Até a próxima. – agradeceu o faz-tudo, com Dick pulando ao fundo, saudoso do perfume dela.
 – Próxima?! Como assim, próxima? – por ela, nunca mais passaria por aquele caminho amaldiçoado.  vou de barca. Isso se voltar lá.

 – Que beleza, né? Voltou a funcionar. – o doce de marido agora puxava conversa. Depois que o tsunami urbano estourou, uma calmaria cabralina apossou-se dele. Tentou até desanuviar o clima, ensaiando uma brincadeira, que ficou sem resposta. Para ela, não havia mais brincadeira possível. Agora se tratava de aprender a guiar, fosse um carro, fosse a vida. Mesmo que para isso precisasse desfazer o jogo.
Tatiana

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:39

Há um dia para o sexo?

por Jorge Soares, em 06.09.13

 dia do sexo

 

Tudo começou com uma campanha de marketing da marca de preservativos brasileira, que sugeria a implementação do Dia Mundial do Sexo a 6 de Setembro  de 2008. O dia, que remete para um trocadilho entre o dia 6 e o mês 9, é agora um sucesso que pelos vistos veio para ficar.

 

Na realidade oficialmente não se comemora nada, mas na internet e especialmente no Facebook, isso não interessa nada, alguém disse que hoje é o dia do sexo?... pois, passa a ser, mesmo que não esteja escrito em lado nenhum.

 

"Dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, dia dos namorados. No meio de tantas datas comemorativas no nosso calendário oficial, por que não criarmos um dia em homenagem àquilo que deu origem a tudo: o Sexo?", lê-se no manifesto que foi lançado pela marca de preservativos.

 

Com tudo isto, no Facebook e no Twitter, o "Dia do Sexo" virou trending tópic, viral mesmo, centenas de comentários e a moda hoje, pelo menos entre os meus contactos femininos no Facebook, foram os locais preferidos... e viva a imaginação... agora é só mandar os maridos lerem os facebooks.

 

Fiquei na dúvida, o dia do sexo não devia ser como o natal, não digo todos os dias, mas pelo menos quando a malta quiser?

 

Jorge Soares

publicado às 22:31

Conto - No elevador

por Jorge Soares, em 31.08.13

No elevador

Imagem de aqui

 

Voltar para casa o deprimia. A expectativa de, após um dia de trabalho ouvindo os berros animalescos de seu Djalma tratando-o como um reles vassalo; abrir a porta de casa e topar com a megera, estendida no sofá, devorando bombons e metida em um enorme robe cor-de-rosa era um desajuste para qualquer mortal. Fosse só isto, ele até que poderia tolerar, mas as cobranças, humilhações e o desprezo iam minando, dia após dia, o que ele e a esposa ainda fingiam ser um casamento.

 

         — Bancário! – exclamava a esposa carregando no desprezo, boca marrom de chocolate – Não passas de um medíocre e vil bancário! E pensar que eu podia estar casada com o Deputado! Que triste sina a minha!

No decorrer dos anos, passou  a ter nojo de chocolate. Bastava o cheiro para nauseá-lo.  

 

Sua angústia diária tinha início dentro do elevador do prédio onde morava. Acompanhava o lento passar da cabine pelo andares até chegar àquele palco seu tormento. “Lar, doce lar”, resmungava  em tom irônico.

 

Naquele final de tarde tudo parecia caminhar para a mesma rotina de achincalhes promovidos pela megera. Apertou o botão de chamada do elevador e esperou que ele chegasse até o térreo. Quando fechou a porta ouviu uma súplica.

 

              —   Sobe?

 

Era uma voz adocicada, mansa, suave, em tudo contrastante com o tom estridente e marcial de sua esposa. Curioso e gentil, segurou a porta do elevador. Ela sorriu para ele em sinal de agradecimento. Tratava-se não de uma mulher exuberante, mas alguém que estava elegantemente vestida e denotava alguma sofisticação. Seus gestos eram refinados e um leve perfume agradável exalava de sua pele. Saltou no décimo andar, sacudindo a cabeça em sinal de boa noite.

 

Desde aquela data, a curta viagem de elevador tornou-se o melhor momento do seu dia. A presença daquela mulher e os quase monossilábicos cumprimentos pareciam amenizar todo o peso do cotidiano desprezível de sua existência. Ansiava por aqueles minutos, chegava a fazer uma horinha no hall social do prédio esperando que ela chegasse, forçando a coincidência do encontro. Entristecia-se caso ela não aparecesse e renovava a suas esperanças  para o dia seguinte.

 

Numa tarde, enquanto esperava o elevador já desapontado pela ausência da sua admirada, ela surgiu no hall social. Chorava. As lágrimas inundavam seu rosto, umedecendo os olhos redondos. Não havia ainda prestado atenção na beleza dos seus olhos castanhos. Na verdade, o tempo da viagem era demasiadamente curto para se prender a detalhes.

               —     Posso ajudá-la, moça?

 

Sacudiu negativamente a cabeça.

 

Ele ofereceu um lenço, prontamente aceito. O elevador chegou.

 

               —    Sou feia?

               —    Não.. imagina...

               —     Pareço uma pessoa  sem atrativos?  Me visto como uma freira?

               —     Claro que não!

             —     Ele acha que sim – disse soluçando – que fazer amor comigo é como beber água. Algo sem gosto, sem graça.

                —    Ele deve ter dito isto da boca pra fora – disse ele enquanto entravam no elevador.

 

Assim que a porta fechou, ela inesperadamente o agarrou, beijando-o com volúpia. Entre o correr dos andares, amaram-se de pé, vestidos. Parcos minutos de prazer até o elevador alcançar o décimo andar.

 

Os encontros passaram a ser diários. Quando havia uma ou mais pessoas esperando o elevador, eles aguardavam a oportunidade de subirem sozinhos. Caso um ou outro estivesse com o seu companheiro, fingiam indiferença e desconhecimento, um tanto desapontados pela oportunidade perdida. Amavam-se dentro da cabina, respiração ofegante, um misto de prazer e medo de que os respectivos cônjuges pudessem estar do outro lado da porta, no andar seguinte. Arrumavam-se rapidamente ante a aproximação do andar onde ela morava. Era automático, sem preliminares, sem nomes, curiosidades sobre a vida de cada um. Nada os atrapalhava naqueles breves momentos de paixão. Somente o ato de amor os consumia. 

 

Um dia, um blecaute tomou conta do Rio de Janeiro. A cidade foi invadida por um breu no começo da noite. Tudo parou, inclusive o elevador onde os amantes estavam. Os bombeiros, ao abrirem a cabina, parada entre dois andares, os encontraram risonhos, nus e gargalhantes, suas roupas espalhadas por todo o elevador. Ela agora sabia que ele se chamava Mauro. Ela, Andréa. Tiveram tempo.

 

Zulmar Lopes


Retirado de Revista Samizdat

publicado às 21:07


Ó pra mim!

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