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Na estrada que vai da Bemposta para Oliveira de Azemeis e que passa por Palmaz, antes de chegar ao cruzamento para Alviães, há uma quinta com castanheiros, disse há, porque ela ainda lá está, é um lugar de uma beleza rara com uma vista incrível sobre a Ria de Aveiro, que vai desde o farol da Barra até o Furadouro.  Uns metros mais acima havia um terreno com dois castanheiros de melhor qualidade, as castanhas eram maiores, assim como o muro que era necessário subir para lá chegar.

 

Não consigo precisar que idade teria na altura, imagino que 7 ou 8 anos, a minha idade da liberdade. Tínhamos aulas de manhã  e tirando uma ou outra ajuda no amanho dos campos, a tarde era por nossa conta, andávamos livres por ali. No Outono era certo e sabido que as incursões aos castanheiros eram obrigatórias.

 

O grupo era o do costume, o Quim Faianca, o meu primo Rogério e eu, a estratégia também era mais ou menos a do costume e já utilizada muitas vezes por outros reguilas de ocasião. Alguém levou os sacos plásticos no bolso, entramos pela parte de trás, onde está a capela do São Gonçalo, fizemos uma surtida pelos ouriços espalhados pelo chão e saímos pela parte da frente, directamente para a estrada, sacos na mão bem pesados das castanhas.

 

Correu bem a coisa, entramos e saímos sem que ninguém desse por nós. Já na estrada passamos pelos outros castanheiros, como a coisa estava a correr bem, decidimos brincar com a sorte, afinal ali as castanhas eram maiores.... com maior (eu) ou menor dificuldade (eles), lá subimos mais um muro e toca a apanhar mais castanhas.

 

Estávamos tão concentrados na apanha e nos ouriços que nem demos pela chegada do Mário dos pés tortos, o caseiro do terreno, que de repente desata a gritar connosco, larápios de ocasião. O homem tinha os pés tortos, mas ou porque estava muito perto, ou porque estávamos mesmo distraídos, quando demos por ele estava em cima de nós, arrancamos a correr..... eu sempre fui lento, e com o saco na mão ainda mais, parece que me estou a ver, quando achei que estava quase a ser caçado, larguei o saco e as castanhas e só parei em casa, nem me lembro como saltei o alto muro.

 

O homem ficou com as castanhas e passado um ou dois dias já a minha mãe sabia a historia, à custa de que as castanhas não eram todas dali lá me safei da coça... mas ainda hoje não posso ver o raio do homem dos pés tortos, que não tinha nada que ficar com as castanhas que eram da outra quinta.

 

Jorge

PS:Fotografia minha, vista do são Gonçalo para a Ria, do lado direito estão os castanheiros... que ainda existem

publicado às 22:04

O menino valente

por Jorge Soares, em 17.11.08

Castanhas

 

As couves para o jantar do natal são plantadas mais ou menos pelo São Martinho, a minha mãe semeava o leirão no fim de Setembro, se o ano fosse bom e a geada não as queimasse, para o São Martinho estavam em condições de serem colhidas e plantadas na horta. Ela semeava sempre um leirão  a mais com a ideia de as ir vender.

 

De Alviães a Telhadela é mais ou menos uma hora de caminho a pé, por entre pinheiros e eucaliptos, o velho caminho de terra segue a encosta do rio Caima até que já à vista das primeiras casas o atravessa pela  velha ponte.

 

Eu devia ter uns 5 anos, a minha mãe acordou-me de madrugada, muito antes do sol nascer, o velho cesto com as couves arrancadas à terra na tarde anterior estava pronto. Um pouco de agua para que arrebitassem, cesto à cabeça, e fizemos-nos ao caminho. Noite escura como breu por entre os montes, sem luz nem lanterna,  lá fomos andando, sem medos que eram outros tempos. 

 

A seguir à ponte e antes das primeiras casas havia um bosque de castanheiros, estávamos quase a chegar, de repente por entre o mato ouvimos um ruído, o meu coração acelerou mas não dei parte de fraco:

 

-Mãe, não tenhas medo, eu estou aqui contigo!

 

Chegamos às primeiras casas com a aurora, em menos de nada todas as couves estavam vendidas e um punhado de escudos estava bem guardado, quando voltamos a passar pelos castanheiros já o sol se levantara e as castanhas eram visíveis dentro dos ouriços. Nessa altura o cesto que havia sido das couves molhadas, passou a ser das castanhas para o magusto.

 

Agora ninguém vai a Telhadela a pé, imagino que o caminho terá sido invadido pelas silvas e o mato, já ninguém vende couves num cesto à cabeça e já não restam meninos valentes.

 

Jorge

PS:Imagem retirada da internet

 

publicado às 22:05

As memórias do meu avô ferreiro

por Jorge Soares, em 27.10.08

Ferreiro

 

 

Parece que o post de ontem deixou muita gente a salivar por morangos, como dizia a Mieepe, falta muito para a primavera, e para os morangos, mas eu vou continuar com as minhas memórias...e com a casa dos meus avós.

 

Por debaixo do quarto onde nasci ficava a oficina do meu avô, uma forja, uma bigorna, muitos martelos, barras de aço e uma pia com água onde era arrefecido o ferro incandescente. O meu avô era ferreiro. Não sei se alguma vez terá feito ferraduras, imagino que sim, mas não foi no meu tempo. Lembro-me sim de que fazia foucinhas, podões, machados, e que reparava enxadas partidas, forquilhas sem dentes e  panelas de ferro. Aquelas panelas de três pés que vemos nos desenhos animados e nos filmes, o meu avô reparava-as.

 

A oficina era um lugar luminoso, tinha uma janela enorme, e lembro-me de ir lá muitas vezes, o meu avô deixava-me dar ar à forja, eu pegava nas duas pontas de madeira, apertava com força e ficava feliz por ver a chama subir e os carvões ficarem vermelhos incandescentes. O metal era colocado ao fogo até que ficava num vermelho vivo, colocado sobre a bigorna e martelado, de novo colocado no calor da forja e de novo martelado,até que ganhava a forma desejada.

 

Tenho a certeza que se procurar bem, em casa dos meus pais ainda há alguma foucinha com a marca do meu avô, e que o podão que me deixou a cicatriz na mão há trinta anos atrás e que continua a servir para cortar a lenha para a lareira, tem essa marca.

 

O tempo passa e com as pessoas morrem as profissões, ferreiros, carvoeiros, tanoeiros, barqueiros, amoladores, aguadeiros, cesteiros, moleiros, sapateiros, cantoneiros, caldeireiros, cadeireiros,.... são tudo profissões que já existiram, que foram úteis, e que morreram. O meu pai é mecânico...será que os meus netos vão saber o que era um mecânico?

 

Jorge

PS:imagem retirada da internet

PS2:Tudo isto vem a propósito deste post da Perfume e do seu avô carvoeiro.

 

 

publicado às 22:13

Memórias de morangos

por Jorge Soares, em 26.10.08

Morangos Silvestres

 

Imagem de aqui

 

Estes dias dei por mim a pensar que os meus filhos nunca viram um morango silvestre, na verdade eu também não me lembro de quando vi ou provei o ultimo, mas é um daqueles sabores que nos ficam na memória. Doces e a saber a morango, porque para mim o sabor a morango é aquele, podem-me trazer os melhores morangos de Palmela, ou do Algarve, a mim não me sabem a morango... porque na realidade não sabem a morango.

 

Acho que é a minha primeira memória de infância, devia ter 4 anos, antes disso não me lembro de nada, sei que era o dia da festa,  a Senhora da Piedade, devia ser a manhã de Domingo, eu e o meu pai saímos da casa da minha avó pelas traseiras e fomos calcorreando os terrenos agrícolas das redondezas. Íamos andando e colhendo os morangos dos combros e das bermas dos regos da rega comunitária. O meu pai conhecia todos os recantos e os locais dos melhores morangos. Os morangueiros desenvolvem uns fios compridos que saem da pequena planta e que com o tempo servem para que se desenvolva uma nova planta na outra extremidade. A meio do passeio já eu fazia colares de morangos maduros com os fios, escolhia os mais vermelhos, maduros mas não muito para que não se desfizessem e fazia colares com morangos a fazer de contas.

 

Demos a volta ao lugar, passamos pela pequena capela enfeitada para a festa, as pessoas cobiçavam os meus colares de morangos doces e maduros, mas eu não dei, aqueles eram para a minha mãe.

 

Não tenho muitas recordações de coisas que fiz com o meu pai, mas esta perdurou, talvez por ser  a primeira.... os morangos eram doces.... a minha relação com o meu pai nunca foi muito doce... até hoje.

 

Falta muito para a Primavera?..... Está na altura de que os meus filhos conheçam os verdadeiros morangos..e a pequena capela de Nespereira de Cima.

 

Jorge

publicado às 20:47

Amoras e viraventos....

por Jorge Soares, em 12.10.08

Amoras

Imagem retirada da Internet

 

Este post com perfume de verão fez acordar mais umas memórias de infância.....  para quem cresceu no campo as silvas são omnipresentes, estão por todos lados e com elas as amoras. Curiosamente as minhas memórias não tem a ver com doces, nem me lembro de alguma vez ter sido grande apreciador deste fruto silvestre, lembro-me sim daquela lenga-lenga:

 
-Gostas de amoras?
-Sim!
-vou dizer ao teu pai que já namoras!
 
Deve ser por isso que não me lembro de gostar muito dos frutos negros e doces, com 5 ou 6 anos ninguém quer ter namorada... lembro-me sim de outras coisas que tem a ver com amoras.
 
Lá no lugar de Alviães, lá para os lados de Oliveira de Azeméis, no largo da fonte há um enorme carvalho, por debaixo da sua enorme copa havia uma fonte, uma presa de água que servia para regar os campos de milho das redondezas e um tanque de lavar a roupa. No verão passávamos os dias por ali, debaixo da sombra protectora da gigantesca árvore. No pino do verão quando as amoras estavam maduras brincávamos aos índios e cobóis, evidentemente utilizávamos os frutos para fazer as pinturas de guerra... mas a recordação mais nítida que tenho é a dos viraventos. Íamos ao monte próximo, retirávamos a fina casca seca  dos eucaliptos, com algum cuidado cortávamos duas ou três tiras rectangulares, fazíamos um furo no centro, utilizávamos um pauzinho para as segurar e voilá, lá tínhamos o nosso viravento... que pintávamos com as amoras maduras de modo que ao girar fizesse efeitos bonitos.... e lá andávamos, pintados de guerreiros e a correr de um lado para o outro a fazer girar o viravento.
 
Era o tempo em que a maioria dos brinquedos saíam da nossa imaginação e das nossas mãos, o tempo em que éramos livres para andar por aí..... agora os meus filhos tem muitos brinquedos, puxam pela imaginação para ver qual o estratagema que os fará ter mais um, o brinquedo de moda. Um de estes dias levo-os a conhecer o velho carvalho e ensino como se faz um viravento.....

Pelo direito a uma família

 
 

Amanhã é o dia de voltar ao hospital, o blog vai estar parado uns dias......a todos os meus amigos e amigas dos blogs, se ainda não foram vão assinar a petição para o dia da Adopção e se possivel divulguem esta iniciativa, há 11000 crianças que merecem ter uma familia e que agradecerão de todo o coração.

 

 

Boa semana a todos.

Jorge

 

publicado às 21:03


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