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Uma terrorista de trazer por casa

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Imaginem a situação: estão 3 crianças de 5 anos no recreio da escolinha, duas meninas e um menino. Vá lá saber-se porquê decidem brincar às lutas, meninas que gostam de brincar às lutas não é lá muito comum, mas estas gostam. A meio a brincadeira, talvez porque não gosta de lutar com meninas, talvez porque acha que elas estão a levar a melhor, o menino farta-se e diz que não quer brincar mais, mas as duas meninas estão-se a divertir e insistem em continuar... o menino não quer mesmo e desata a chorar... não sei como terminou a coisa, imagino que algum dos adultos que controlam o recreio tenha aparecido, e a brincadeira parou.

 

Este tipo de coisas acontece todos os dias no recreio da escola, crianças a chorar porque não querem brincar mais e outras a insistir para que a brincadeira continue, deve ser o pão nosso de cada dia em todas as escolinhas do mundo... reparem, a brincadeira terminou com o choro do menino, não houve feridos, nem marcas, nem sequelas... nada... bom, quase nada.

 

Estava eu na festa de natal da escolinha quando atrás de mim, uma senhora se começa a referir de uma forma muito pouco simpática sobre a D. De inicio fingi que não ouvia, mas como a coisa continuava e já estava a roçar o racismo e a falta de educação, o meu mau feitio veio ao de cima e não me pude conter.

 

- Olhe, desculpe lá, mas o pai da menina de quem a senhora está a falar está aqui, porque é que não me diz isso directamente?

- O senhor é o pai?

- Sim, sou!

- A sua filha bate no meu filho e a culpa é sua que não lhe dá educação.

 

Não vou repetir aqui a conversa toda, para a senhora, a minha filha é a vilã da escola, bate em tudo o que mexe e a culpa evidentemente só pode ser minha. É claro que o filho dela é um anjinho que nunca bateu em ninguém, é uma vitima da D.

 

A coisa aqueceu e só não passou a vias de facto quando o pai, marido da senhora se vira para mim e diz: "A sua filha não tem educação e se o senhor não lha dá, dou eu!", porque eu me lembrei que estava no meio de uma festa de natal. Decidi sair dali, não sem antes avisar o senhor que se livrasse sequer de chegar perto da minha filha.. porque aí a coisa podia mesmo terminar muito mal.

 

Convém lembrar que estamos a falar de crianças de 5 anos, pelos vistos há pais que acham mesmo que tem em casa os santinhos..e há crianças que para além de mariquinhas, são queixinhas.

 

Imaginem só o que teriam feito estas pobres almas se o filho lhes chegasse a casa com um corte na testa feito por um pião, como me chegou um destes dias a D.?

 

Continuo a achar que isto é um problema da escola e é a escola que tem que resolver, mas há muita gente por aí que vai ter muitos problemas na vida se acha que tem um filho perfeito, e que as brincadeiras de criança se resolvem com discussões de adultos... porque para além de discutir comigo, a senhora fez a mesma cena com a mãe da outra menina. 

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:47

Agora que o mundo não acabou...

por Jorge Soares, em 23.12.12

Vamos fazer do mundo um lugar melhor?

 

... vamos tentar fazer dele um lugar melhor para nós e os nossos filhos?

 

O futuro do mundo está nas mãos de todos nós, veja o seguinte vídeo e reflicta.

 

 

 

 

Bom natal a todos

Jorge Soares

publicado às 21:25

Está preparado para o fim do mundo?

por Jorge Soares, em 07.12.12

O fim do mundo

 

Imagem do Pontos de Vista

 

 

O texto seguinte foi escrito em Abril do ano passado e já por ca´passou... mas dada a proximidade com o suposto dia do fim do mundo.. acho que se justifica o refrito... enjoy.

 

Um destes dias li algures uma noticia onde se explicava como acertar com o dia certo para se fazer um filho que nascesse no dia 11.11.11.. já vão tarde, escusam de começar a treinar. Isso fez-me lembrar a paranóia que foi com as crianças do ano 2000 ... e a quantidade de pessoas que tentou acertar com o 31.12 1999.. ou seria com o 1.1.2000?. Na altura eu andava à uns dois ou três anos a tentar ter um filho e não conseguia, não imaginam a raiva que me davam estas conversas parvas...

 

Entretanto, este post da Sentaqui chamou-me a atenção para a próxima data fetiche, 12.12.2012, dizem os entendidos que estará escrito algures na pedra de um  calendário Maya, que esse é o dia do fim do mundo.

 

Os Mayas eram uma civilização muitíssimo avançada que habitou os territórios da América central mais ou menos entre 3000 antes de Cristo e 1200 depois de Cristo, custa a crer que uma civilização que era capaz de prever o fim do mundo, não foi capaz de prever o seu próprio desaparecimento que ocorreu mais ou menos mil anos antes... mas pronto.

 

Estive a tentar investigar de onde saiu tudo isto e como foram feitos os cálculos que levaram a esta data, não é fácil, a maioria das coisas baseia-se em palavras e datas pouco precisas, não consigo perceber como pode alguém chegar a uma data especifica..se calhar era porque dava jeito.

 

Mas tudo isto tem logo um enorme problema à partida, o calendário gregoriano em que nos baseamos foi criado por Gregório XIII no Século XIV, tem por base uma serie de cálculos que colocam o ano 0 algures há 2000 anos atrás quando supostamente nasceu Cristo. Ora, logo aqui temos um pequeno problema, o nascimento de Cristo foi há 2000 anos mais coisa menos coisa,  ninguém sabe realmente quando foi, há quem diga que foi 5 ou 6 anos depois, há quem diga que foi uns anos antes... e depois há os que dizemos que não foi.. mas esses não contam.

 

Além disso, há muita gente que diz que para além deste problema do ano 0, há inúmeros erros nos cálculos, o que nos leva ao pequeno detalhe de que 2012 tanto pode já ter sido há uns anos atrás, como pode ser daqui a uns anos.. quase certo é que não é este ano.

 

12.12.2012, é só mais um dia, no calendário que utilizamos é em Dezembro do ano que vem, mas não passa disso, de um dia num calendário que até podia ter outro nome qualquer, a probabilidade de bater certo com o que quer que seja que os Mayas previram..estará muito próximo de zero. Mais ,convém recordar que o nosso é só um dos calendários válidos.. e se pensarmos que por exemplo os chineses utilizam outro, nem será o mais utilizado, para além destes existe o judaico, o árabe e alguns mais.. todos com dias e anos diferentes. 

 

De qualquer modo, o mundo começa e acaba todos os dias, começa no preciso momento em que alguém nasce e termina no exacto momento em que alguém morre... muitos mundos, muitas vidas,  muitas coisas para ver e viver.. para que estarmo-nos a preocupar com um simples número?

 

O que tem de especial o dia 12.12.2012? absolutamente nada.... i Hope!!!!!

 

Jorge Soares

publicado às 21:01

Uma terrorista de 5 anos

Imagem do Momentos e Olhares

 

Aos 5 anos a D. é a mais pequena da sala dela da escolinha, a sua melhor amiga é a X. a matulona da sala, também tem 5 anos mas passa facilmente por ter 8 ou 9... dizem as más línguas que é também a mais mimada ... talvez porque quase todos os dias chega de chucha ao colégio.

 

O ano passado não tivemos queixas, se acontecia alguma coisa nós não sabíamos, a educadora experiente sabia controlar as criança e resolver as situações.

 

Este ano com a nova e pouco experiente educadora as coisas mudaram, mal começaram as aulas começaram as queixas, a D. bate nos outros meninos... 

 

Um dia a mãe da X queixou-se à P.:

 

- A sua filha D. bate na minha filha, o pai já a proibiu de brincar com ela.

 

É claro que falamos com a D. explicamos-lhe que não pode bater nos outros meninos, chegou a ficar sem ver televisão um ou dois dias por castigo... mas convém recordar que estamos a falar de uma criança de cinco anos... e assim como a X. não deixou de brincar com a D., apesar da proibição do pai,  esta não deixou de marcar posição quando acha que é necessário.

 

Como as queixas da senhora não paravam, segundo a escola a senhora dizia que a filha dela andava toda pisada e que aquilo era bullying, pedimos que não as deixassem brincar juntas... a resposta da escola é  que elas são  unha e carne e se não estão a brincar juntas ficam tristes...

 

Para mim este é um assunto que cabe à escola resolver, estamos a falar de uma criança de 5 anos, eu posso falar com ela... mas é evidente que não posso estar lá para a vigiar... eles é que estão com ela todo o dia.

 

Entretanto em Outubro a X fez anos e a D. foi convidada para a festinha,  foi e correu tudo bem.

 

Hoje de manhã a mãe da X informou a escola que esta não ia mais... à tarde chegou à escola uma carta da advogada dos senhores, vão processar a escola porque a filha deles desde Dezembro de 2011 que é diariamente agredida violentamente física e psicologicamente pela D. e a escola não faz nada.

 

Reparem, segundo eles isto vem desde há um ano, mas há um mês atrás, convidaram a D., a suposta agressora, para a festa de aniversário da criancinha... mas quem é que convida os agressores para a festa de aniversário dos filhos?

 

Quando a P. me contou eu fiquei sem saber se havia de rir ou chorar, mas que classe de idiotas processam a escola por causa de uma coisa destas?, e se  é verdade que a filha anda toda pisada, porque nunca ninguém da escola reparou? e porque convidam a agressora para o aniversário da miúda se ela há meses que a aterroriza diariamente?

 

É oficial:

 

- Tenho cá em casa uma terrorista demoníaca de 5 anos.. que todo o mundo adora

 

- O mundo enlouqueceu de vez!

 

Jorge Soares

 

PS: Parece que últimamente não há nada que não aconteça por estas bandas... alguém conhece uma bruxa de jeito?

publicado às 22:13

Um não lugar chamado Palestina

por Jorge Soares, em 20.11.12

A palestina

 

Imagem de Pontos de Vista 

 

Segundo a Wikipédia a primeira referência escrita à Palestina é de Heródoto que em 450 antes de Cristo visita o lugar e a ela se refere como Síria Palaestina.

 

Desde então para cá, fez parte dos Impérios de Carlos Magno, Egípcio, Romano, Bizantino. Foi conquistada e libertada dezenas de vezes pelos mais variados povos, foi tomada pelos Cruzados católicos e reconquistada pelos Árabes,  pelos Turcos, pelos Otomanos e de novo pelos Turcos.

 

Durante a primeira guerra mundial os Turcos são de novo derrotados e o território é dividido entre a Grã Bretanha e a França.

 

Em 1946 o seu território, era maioritariamente ocupado pelos palestinos Árabes e Católicos, sendo que os judeus ocupavam uma pequena faixa junto ao mar. A partir de 1947 com o patrocínio da ONU e dos Estados Unidos e num processo que dura até hoje, os palestinos viram o seu território ir encurtando cada vez mais, até um ponto em que apenas restam umas pequenas faixas em que o povo é obrigado a sobreviver em campos de refugiados.

 

Repito, tudo isto foi feito com o patrocínio das nações Unidas e dos Estados unidos e com a cumplicidade de todo o resto do mundo.

 

Neste momento Israel prepara-se para invadir o que resta da faixa de Gaza, todos os dias morrem numa guerra não declarada dezenas de pessoas, das que 60 % são mulheres e crianças.

 

Daqui a uns anos, na fotografia acima haverá um novo mapa com uma faixa completamente branca e a Palestina será só uma pequena nota de rodapé na história reescrita do mundo... um não lugar.

 

Tal como aconteceu durante centenas de anos aconteceu com os judeus, os palestinos que restarem ao massacre andarão pelo mundo, um povo sem pátria, sem lugar....

 

É incrível como a história se repete e a humanidade não aprende nada com ela...

 

Jorge Soares

publicado às 22:00

deixam  filha de dois anos abandonada no aeroporto

Imagem do DN

 

Imagine a situação, depois de todo um ano a sonhar com aquelas férias maravilhosas num lugar paradisíaco, você está com a família no aeroporto, prestes a apanhar o avião para finalmente poder sentir que está de férias. No último momento, mesmo quando o sonho se está a tornar realidade, você descobre que o passaporte da sua filha mais nova de apenas dois anos, não é válido e portanto ela não vai poder embarcar... o que faria?

 

Não há muitas respostas possíveis, assim de repente só me ocorrem duas hipóteses,  ou ninguém apanha o avião e depois vemos o que fazemos, ou a família vai de férias e eu fico com a mais nova para tratar do assunto, deve haver uma forma qualquer de ir ter com a família mais tarde.

 

Bom, na realidade há uma terceira hipótese, quem tem os documentos em dia vai de férias, quem não tem, fica em terra.... pois, há aquele detalhe de estarmos a falar de uma criança de dois anos... mas há quem não veja problema nisso.

 

Segundo o DN, aconteceu na Polónia, numa situação destas ... Uma menina de dois anos foi deixada em lágrimas no aeroporto em Katowice, na Polónia, enquanto o resto da família foi de férias para a Grécia.


Ainda segundo a notícia, a menina estava histérica quando se apercebeu que a família ia de férias e ela ficava ali sozinha, mas isso não demoveu pais e restantes familiares, que apanharam o avião e a deixaram mesmo em terra.

 

Há coisas que são até dificeis de comentar, eu não consigo imaginar que existisse algum motivo que me fizesse deixar um dos meus filhos para trás, muito menos para ir de férias. 

 

Mas que raio se passa com o mundo e com as pessoas, como é que chegamos a um ponto em que uns pais preferem deixar uma criança de dois anos sozinha e abandonada num aeroporto do que abidcar de uma viagem de férias?

 

Jorge Soares

publicado às 21:13

A propósito do Rio+20

por Jorge Soares, em 19.06.12

Aves mortas por ingerirem lixo

 

Um documento com novos princípios para dar impulso ao desenvolvimento sustentável foi aprovado nesta terça-feira, na conferência Rio+20, das Nações Unidas, no Rio de Janeiro. 

 

Há uns três ou 4 anos apanhamos o barco em Troia para atravessar para Setúbal, como sempre saímos do carro e encostamos à amurada para desfrutar da paisagem ou com um pouco de sorte vermos os golfinhos.

 

Ao meu lado a olhar para fim de tarde no rio ia uma senhora de idade acompanhada de uma criança, o miúdo estava a beber água por uma garrafa. Quando terminou de beber virou-se para a senhora e disse:

 

- Olha, bebi toda, o que faço com a garrafa?

- Dá cá.

 

A senhora que estava a meio metro de um caixote do lixo e com o neto ao lado, pegou na garrafa e deitou-a ao rio. Foi um daqueles momentos em que o meu mau feitio veio ao de cima, esqueci a idade da senhora e a presença do neto ao lado, quando dei por mim estava a dar um sermão de todo o tamanho e a perguntar-lhe se ela não tinha vergonha do exemplo que estava a dar ao neto? Se ela gostava de chegar à praia e encontrar a areia imunda com o lixo que pessoas como ela deitavam à água? Se não tinha visto o caixote do lixo mesmo ao seu lado?..

 

No fim de despejar o mau feitio e a raiva que aquilo me causou, tinha o miudo a olhar para mim de olhos arregalados e ela de boca aberta a balbuciar qualquer coisa sem muito nexo...

 

É verdade que conferências como esta do Rio+20, ou Kioto, ou as várias outras são importantes para que se debata a situação ambiental do mundo em que vivemos, mas é triste que passe o tempo e o que vemos é que os países com maior culpa na situação, os que mais poluem e mais influenciam o clima e o meio ambiente, como os Estados Unidos, a China ou a Rússia, ou se negam a assinar os tratados ou simplesmente fazem tábua rasa daquilo que assinam.

 

Por outro lado não é com conferências internacionais que se mudam as mentalidades como a daquela avó que simplesmente achou que o seu caixote do lixo era o rio Sado, é com educação e formação.

 

Muita gente já terá visto, mas eu vou repetir, termos consciência do mal que fazemos ao mundo que nos rodeia nunca está demais.

 

Midway é uma ilha em pleno oceano Pacífico, que fica a 2.000 milhas de qualquer costa continental. Esta ilha é desabitada, os seus únicos habitantes são aves marinhas, no entanto... Vejam o que se passa por lá!

 

 
Jorge Soares

publicado às 22:16

Primeiro Ministro Francês, Jean Marc Jean-Marc Ayrault

Imagem do Público

 

O senhor ali da fotografia chama-se Jean-Marc Ayrault, e é o Primeiro Ministro Francês, a França tem um primeiro ministro?, hoje o senhor foi notícia não pelas qualidades políticas das suas propostas ou por alguma decisão que tenha tomado, mas porque parece que em Árabe a palavra Ayrault significa pénis.

 

Sabendo nós o sensível que os árabes são a estas coisas, principalmente quando elas vem do ocidente, dá para perceber as dores de cabeça que estão a ter neste momento os responsáveis das redacções dos meios de comunicação por esse oriente fora.... cheira-me que o senhor não vai ser notícia muitas vezes . Não é que o Primeiro Ministro Francês seja notícia muitas vezes... mesmo por cá raramente ouvimos falar dele.. chame-se como se chame.

 

Mesmo assim tem mais sorte que Akbar Zeb, diplomata do Paquistão que foi rejeitado em vários países do médio oriente porque em Árabe do médio oriente o seu nome significa “a maior pila”....{#emotions_dlg.amazed}

 

Isto fez-me lembrar uma ex colega da minha meia laranja que é oriunda da Venezuela e é professora na Universidade do Algarve, de vez em quando esquecia que a palavra "Pila" tem significados diferentes em Castelhano e em Português e nas aulas de informática passava a vida a tirar e a colocar coisas na pila, em vez de na pilha....  estão a ver a cara dos alunos? {#emotions_dlg.lol} 

 

Jorge Soares

publicado às 22:50

Mia Couto, Murar o Medo - Texto completo

por Jorge Soares, em 10.03.12

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

 

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

 

Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente.

 

Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.

 

Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

 

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. 

 

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres. A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo.

 

Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Eduardo Galeano escreveu sobre o medo global: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

 

 

Mia Couto

publicado às 21:25

Educar

 

Imagem de aqui

 

Imaginem a cena:

 

Ao fim do dia chegam a casa e encontram a vossa filha de 16 anos metida em alguma alhada, como castigo e depois da obrigatória reprimenda, decidem que durante uns dias e para garantir que ela não repete a asneira, vai ter que ficar em casa, nada de saídas à noite ou de borgas. A menina vai para o quarto, liga à policia e faz queixa da situação. Passado um pouco a polícia bate à porta e de código penal na mão, leva-vos presos por retenção ilegal  da vossa filha ... na sua própria casa.

 

Por muito incrível e inverosímil que possa parecer, isto aconteceu mesmo, foi  aqui ao lado em Jaen, na vizinha Espanha. O resultado foi que o pai passou o fim de semana preso, a mãe mesmo não vivendo com eles já que estavam divorciados, foi acusada de cumplicidade já que apoiou a decisão do pai e a adolescente para já está algures num centro de acolhimento... onde se presume a deixem sair à noite já que não consta que tenha voltado a ligar á policia.

 

Mesmo sendo na Espanha, notícias destas são assustadoras para quem tem filhos, os castigos são quase a última arma que nos resta para conseguirmos manter alguma ordem e decência dentro de nossas casas, se um pai não pode decidir quando a sua filha deve entrar ou sair de sua casa, quem pode?

 

Haverá quem chame a estas coisas a evolução da sociedade em que vivemos, na Espanha, como por cá, passou-se em muito pouco tempo de uma época em que em casa ou na escola a educação se fazia com base nos castigos físicos, para uma outra em que já ninguém sabe muito bem o que fazer para meter as crianças e jovens em ordem.

 

Antes o problema era o que fazer para os vestir, alimentar e garantir a sua educação, agora em muitos casos o problema é: o que fazer para se garantir todos os desejos e caprichos de crianças que desde que nascem se tornam o centro do mundo e se habituam a viver como se em lugar de pais, tivessem súbditos que estão ali para os servir.

 

Não faço ideia o que diz o nosso código penal sobre casos como este, cá em casa faz-se o melhor que podemos e sabemos para conseguir transmitir os valores certos e as noções de educação, há dias piores e dias melhores, que ter filhos pré-adolescentes não é nada fácil, mas no dia em que os meus filhos menores de idade decidam que eu não tenho uma palavra a dizer sobre as horas em que eles podem entrar ou sair de casa e sobre os lugares que eles podem ou não frequentar, eu deixo de ter filhos e eles de ter pai.... e podem ir chamando a polícia.

 

Sim, eu sei, assim de repente parece que virei um velho do Restelo... mas desculpem lá, esta notícia é de deixar os cabelos em pé a quem tem filhos... ou não? 

 

Há quem diga que educar é construir pontes para o futuro, alguém me explica em que parte do caminho se perdeu esta sociedade que teima em construir pontes para o abismo?

 

A notícia é do JN, que refere esta outra do Diário Jaén

 

Jorge Soares

publicado às 21:49


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