Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conto - Olhares Paralelos

por Jorge Soares, em 14.06.14

Olhares Paralelos

EU SABIA QUE ELE PRECISAVA.

 

Na verdade, a necessidade que tínhamos não tinha nome, mas era nossa – não somente dele. Da parte dele talvez isso fosse um simples fato, só que da minha não. Foi ele quem me veio primeira vez falar da namorada, daquele problema que tiveram. Po r que ele achava que eu poderia ser o seu conselheiro, o seu guru? Acaso eu tenho lá cara de compadre Quelemém? Na verdade ninguém do compadre Quelemém soube a cara, mas dele o que sei apenas é a certeza, que hoje faço, de que “o diabo vige no homem”, nada mais.

 

E daí ele me veio. Não é que eu não queria que viesse, mas é que há muito tempo eu estava sem precisar daquilo tudo, a viver num rio de marasmo que desgostava, mas depois de tudo aquilo até passei a de alguma forma apreciar. No entanto, logo que chegou fiz a inferência um pouco falsa de que era algo que de algum modo precisava, daí ele ficou. Na vida tem coisas que nos vem. Há coisas que me vieram e eu não sei nem explicar porque as aceitei tão de bom grado como se fosse um grego recebendo um mendigo com a falsidade da espera de Hermes. E foi assim que ele me veio. E fui assim que eu de algum modo também se me fui a ele.

 

Estávamos naquele piquenique de família de final de semana. A mãe dele, dona Etelvina, parceira de décadas a fio de observatório da vida alheia com minha mãe. Não obstante, nunca havíamos nos visto, senão naquele dia em que descemos juntos do ônibus cheio suspirando, e caminhamos meio paralelamente até atravessarmos a mesma rua e entrarmos em portas paralelas. Olhamos um pro outro de relance com um olhar que de certo modo compreendia que alguma coisa em nossa vida um dia seria paralela. Mas o olhar que trocamos foi bem mais que paralelo e tenho a fraca, mas real impressão de que nosso olhar cansado de todo um dia de estudos longe de casa, e do suor, e do calor do Recife, e da umidade excessiva do ar, e de toda aquela loucura duma cidade que cresce como um adolescente sem a orientação de um adulto e fica assim desordenada, era um pouco do olhar do cão sem dono e vira-lata que vaga por aí meio que pedindo com a vista. Naquele dia entrei em casa com duas certezas que não eram certas, mas eram de algum modo certeiras em mim: finalmente eu conhecera o filho da vizinha e o olhar dele me pedia algo.

 

Naquela “excursão”, como meu pai fazia questão de anunciar, fomos meio que apertados como gado de corte nelore uns em cima dos outros e coube a nós dois ficarmos apertados pela tia Adalgiza que com sua gordura de anos a fio firmada no doce, ocupava dois lugares inteiros. Desculpa te apertar. Ele me disse. Sem problemas, cara. Eu respondi. Tia Adalgiza... – baixei a voz – tem certo medo de morrer de fome. Rimos. E foi aquilo, tínhamos sido amigos a vida toda e não nos dávamos conta. Por vezes descobrimos num amigo recém-achado, esse mistério místico do universo, de sentir nele alguém que já se conhecia há décadas – décadas que nunca foram.

 

 

 

 

Mario Filipe Cavalcanti

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:08

Deus bom, deus mau, que deus?

por Jorge Soares, em 11.06.14

Solidão

 

"Deus existe porque o homem sozinho não consegue existir. Morre. Vive um bocadinho, faz umas coisas e depois morre. Deus existe porque a Arte não é suficiente. Deus existe porque o Amor não chega. Deus existe porque o homem sozinho é pior. É mais mau. É mais triste. É mais só."

 

Miguel Esteves Cardoso

 

 

Na semana passada por motivos de uma pequena cirurgia a uma vista, passei 24 horas na oftalmologia do Hospital Garcia da Horta, a meio da manhã antes de que me levassem para o bloco, para a cama ao lado da minha chegou um homem que manhã cedo tinha tido um acidente de trabalho, um descuido e se calhar a falta de óculos de protecção, fez com que uma vareta de plástico lhe acertasse em cheio numa vista.

 

Brasileiro, com um daqueles nomes que não lembra ao diabo, não se cansava de repetir a história a cada pessoa que se acercava da cama dele:

 

 

- Estava mesmo no fim do turno, já  quase ia para casa e de repente sentiu como aquilo lhe acertava na vista, de repente ficou tudo negro, sentiu sangue e ele só pensava que agora aos 50 anos, ia ficar sem a vista, como é que isso era possível?

 

-Felizmente deus é grande e nas urgências do hospital o médico tinha-lhe dito que era grave, mas não tão grave como parecia, que com um bocado de sorte, ele ia ficar bem... graças a deus, deus tinha sido muito bom com ele e não lhe tinha tirado a vista.

 

E a história era repetida uma e outra vez, a cada doente, enfermeira ou auxiliar que por ali passava... eu fui ouvindo em silêncio e só me apetecia perguntar ao homem, se deus era assim tão bom para ele, porque raios é que tinha permitido que a vareta lhe acertasse na vista, não era muito mais simples ter arranjado modo de  que nada daquilo acontecesse e ter-lhe poupado a ele o sofrimento e ao médico o trabalho de lhe estar a reconstruir uma parte do olho?

 

Finalmente levaram-me para o bloco, quando acordei a meio da tarde também já o tinham operado a ele, com anestesia local, imagino o que o pobre homem terá passado. Felizmente para ele os médicos fizeram um excelente trabalho e conseguiram resolver todas as desgraças que ele tinha sofrido naquela vista.

 

O tempo ia passando e ele ia contando a história agora também via telemóvel, estava feliz porque lhe garantiam que ia ficar bem, graças deus os médicos tinham-lhe conseguido salvar a vista... porque deus era grande e tinha-lhe salvo a vista. Das primeiras pessoas para quem ligou foi para o pastor da igreja, a pedir para fazer uma oração a agradecer que ele estava bem.

 

Não sei se era da anestesia pela que eu tinha passado ou do incómodo da vista operada, mas aquilo já me estava a irritar, o homem não se calava.

 

Chegou a hora das visitas, e com ela a pastora da igreja dele, com roupa, o carregador do telemóvel para ele poder continuar a contar ao mundo como deus é bom e lhe salvou a vista, comida e outras coisas pessoais. Depois chegaram mais pessoas, todas da igreja evangélica... 

 

Dei por mim a pensar que não fosse a igreja e ele não tinha visitas, nem quem lhe viesse trazer as coisas, nem quem o viesse buscar quando tivesse alta.... Um dos amigos que o vieram visitar disse isso mesmo, tinha estado 22 dias num hospital e não teve nem uma visita.. e foi lá, nesse hospital, que ele se virou para deus.

 

A solidão é algo terrível, não me parece que deus tenha tido nada que ver nem com o acidente nem com a cura. Se calhar se estivesse menos cansado depois de trabalhar a madrugada toda e usasse equipamento de protecção adequado, aquilo não tinha acontecido. Quanto à cura, sorte e bons médicos fazem milagres todos os dias.

 

Podemos pensar se deus é bom porque ele não perdeu uma vista, ou que é mau porque permitiu que aquilo acontecesse, mas não deixa de ser verdade que para ele e para muita gente que vive completamente só, a igreja, pelo menos a igreja dele, não deixa de ser uma coisa muito boa.

 

Já o disse aqui mais que uma vez, deus só existe porque falhamos como seres humanos, felizmente ainda há quem, como aquela pastora e aqueles amigos dele,  se agarre a deus para fazer o bem.

 

Dito isto, deus não existe, ponto final

 

Jorge Soares

 

PS: Não tem nada a ver, mas fui muito bem tratado pelo pessoal da oftalmologia do Hospital Garcia da Horta, simpáticos e atenciosos quanto baste e extremamente profissionais.

publicado às 22:20

Pessoas que fazem a diferença

 

 

Imagem do Facebook Senhor da Portagem

 

 

Na cabine da portagem há um homem que sorri, o que faz dele um herói. Basta um simples sorriso, um piropo, uma frase amável, para mudar a indiferença que pauta o corropio dos dias. Do alto de uma cabine da portagem da ponte 25 de Abril, um homem toca a vida de milhares. Que agora lhe agradecem.

 

Há pessoas que nascem para fazer a diferença, ser portageiro deve ser das coisas mais chatas e monótonas que há, passar o dia  a respirar o fumo dos milhares de carros, a dar e receber dinheiro e trocos, não deve ser  a profissão de sonho de muita gente... Nas portagens da ponte 25 de Abril há alguém que mesmo nesta profissão à primeira vista tão chata, consegue fazer a diferença.

 

E nem é preciso muito para fazer uma enorme diferença, são pequenos gestos: um olá, um sorriso, uma palavra alegre, um piropo... tudo pequenas coisas que para quem todos os dias começa o seu dia enfrentando enormes filas de trânsito, podem fazer toda a diferença.

 

Estas pequenas coisas fazem a diferença ao ponto de que há quem se preste a estar mais tempo na fila da portagem, ou a pagar mais só para ter a sorte de passar pela sua cabine e começar o dia com um desses gestos.

 

Há quem vá pelo mundo a fazer grandes coisas que não fazem diferença nenhuma para ninguém e há pessoas, como o senhor da portagem, que com pequenos gestos fazem a diferença e tocam no coração milhares de pessoas todos os dias.

 

Na realidade todos deveríamos ser como o senhor Samuel, numa sociedade cada vez mais fechada e individualista são pessoas como ele que nos recordam que ao contrário do que tantas vezes sentimos, não estamos sós... e que basta um sorriso, um olá, um bom dia, para fazer alegrar o dia a alguém. Pagar a portagem demora alguns segundos, pelos vistos é o tempo suficiente para deixar uma marca perdurável.

 

Como seria melhor o mundo se todos fossemos como ele.

 

Alguém se deu ao trabalho de criar uma página no Facebook sobre ele, é aqui.

 

Jorge Soares

 

 

 

publicado às 22:00

Vila Real

 

Imagem do Público

 

É em Vila Real, mas podia ser em muitas outras cidades, no distrito de Aveiro por exemplo há freguesias inteiras em que não há saneamento e água é só a dos poços e furos.

 

No centro da cidade, a cem metros da câmara municipal  e para maior ironia, mesmo por cima dos tubos que levam o saneamento da cidade para a Etar, que fica mesmo ali ao lado, chama-se Rua do Jazigo e em muita coisas continua a viver como vivia em meados do século XX, quando uma boa parte do país não conhecia o que era a iluminação pública ou o saneamento... já não é a época do "água vai", mas se fosse tenho muitas dúvidas que os responsáveis olhassem para eles de outra forma.

 

Quando vejo noticias destas fico sempre a pensar em como em muitíssimos casos não soubemos aproveitar a época das vacas gordas em que parecia que o dinheiro dava para tudo.

 

Nas traseiras da casa dos meus pais em Oliveira de Azeméis está previsto passar a continuação da A32, a famosa e vazia terceira auto-estrada para Lisboa, as outras duas passam uns dez kms para Oeste. Cada Km desta auto-estrada faraónica completamente inútil e desnecessária, custou muitos Milhões de Euros.

 

Curiosamente a aldeia não tem nem água canalizada nem saneamento básico, sendo que a maioria das casas tem fossas rotas mesmo ao lado dos poços e furos de que se abastecem. Há pessoas que continuam a abastecer-se nas fontes, era interessante que alguém analisasse a água que delas brota... ou a dos furos e poços que abastece todas as casas.

 

Não, não estamos a falar de uma aldeia do interior nem de um concelho rural, estamos a falar do distrito de Aveiro e de um concelho industrial. Da varanda da casa dos meus pais vê-se o mar. E não, o problema não é só nesta aldeia, há muitas outras na mesma situação no distrito e pelo país fora.

 

Voltando a Vila Real é interessante ler coisas como esta:

 

“O presidente disse-nos na cara que não fazia nada porque somos poucos e que ao fazê-lo iria dar azo a outras pessoas virem para cá viver.”

 

ou isto sobre os estados dos muros nas traseiras das casas:

 

“Já veio cá o engenheiro da EMAR (Água e Resíduos de Vila Real), o engenheiro da Protecção Civil, já vieram cá todos. Iam lá ver e diziam que eram muitos encargos”

 

Se calhar estão á espera que o muro caia mesmo, mate todas as pessoas que lá vivem e assim resolva o problema.

 

O maior problema deste país é mesmo a mentalidade dos políticos e responsáveis, que em muitos casos parece que saíram mesmo de outros tempos, quando o que interessava era o poder, não as pessoas....

 

Jorge Soares

publicado às 21:24

Isabel Jonet

 

 

Eu juro que não tenho nada contra a senhora, mas é que ela insiste em pôr-se a jeito... cada vez que abre a boca.

 

“O pior inimigo dos desempregados são as redes sociais”,... e eu que pensei que eram a crise, o encerramento das empresas e o governo que insiste em medidas da austeridade que reduzem o poder de compra e o investimento das empresas.

 

as pessoas ficam desempregadas e ficam dias e dias inteiros agarradas ao Facebook, ou agarradas a jogos, agarradas a amigos que não existem e vivem uma vida que é uma total ilusão”.

 

Ninguém duvida que existirão casos de pessoas que baixam os braços e até desistem de continuar a bater com o nariz nas portas das empresas, mas não há nada pior que a generalização. As redes sociais são não só um escape para muita gente como também uma forma activa de procurar emprego, existem no Facebook e na internet imensas páginas para procura e partilha de anúncios de emprego, há imensa gente que arranja entrevistas e empregos através das redes sociais, já seja através destas páginas ou através d econtactos dos tais amigos que a senhora acha que nem são reais.

 

A Isabel Jonet parece que cada vez que abre a boca sai asneira, as suas palavras são uma enorme falta de respeito pelos milhares de desempregados do país. É caso para dizer... E porque no te callas?

 

 

Jorge Soares

publicado às 19:06

Serviço Público

 

Imagem de aqui

 

Há coisas que são difíceis de explicar, e quando se trata de governantes ou gestores públicos é muito mais difícil ainda, o post da semana passada sobre os salários dos gestores do banco de  fomento deixou muitos comentários, na sua grande maioria parece que as pessoa ou não leram o que eu escrevi, ou simplesmente não querem saber. Quando se trata de dinheiro ou salários públicos todo o mundo critica, na maior parte dos casos sem sequer se parar para pensar, seja quem for, está lá a mais e só pelo dinheiro... e claro, todo o mundo faria melhor por muito menos... 

 

Felizmente há quem pense, o seguinte texto foi escrito por alguém que assina Ricardo Silva e diz exactamente o que eu penso, só que muito melhor escrito:

 

"Deveríamos viver numa sociedade onde deveria reinar a méritocracia mas vivemos numa sociedade de incompetência e compadrio. E a verdade é que muitos dos que criticam, pura e simplesmente fariam exactamente o mesmo daqueles que lá estão.

Ninguém, no seu bom senso, iria sair do privado para ir fazer "caridade" para o público. Sou da opinião que se queremos o melhor, temos que pagar por isso. Uma das lições que aprendi na minha vida profissional foi que o ordenado deve ser proporcional à responsabilidade da função desempenhada! Sim, acho muito bem que um presidente de um banco ganhe um salário que corresponda à responsabilidade que esse mesmo cargo acarreta.

Coloca-se aqui outra pergunta: Será que as pessoas que são nomeadas para estes cargos são as mais competentes? A resposta é simples e directa: Não! Não pela simples razão que quem tem competência, experiência e capacidade para desempenhar estes cargos com elevado nível de qualidade não vai para o sector público, mas sim para o privado e, aliás, muitos até vão para o estrangeiro.

Aos meus olhos, parece-me óbvio que ninguém queira trabalhar para o estado. Porque raio haveriam de se querer misturar com esta corja que governa o nosso país? Já para não falar na questão de, como o nosso grande e maravilhoso ex-primeiro ministro colocou, se sujeitarem à opinião pública. Basta pensar na questão dos swaps, um produto financeiro complexo que poucos conseguem entender, mas todos ficaram muito revoltados apenas porque se falou disso na comunicação social.

Resumindo, este país encontra-se numa espiral descendente onde a incompetência e o compadrio reinam de onde muito dificilmente conseguiremos sair seja por falta de vontade ou por falta de interesse.

O outro é que tinha razão: "Não sejam piegas e toca de emigrar!!"

 

Ricardo Silva

 

É que é mesmo isto, obrigado Ricardo.

 

Jorge Soares

publicado às 22:28

Toma lá o teu Cocó

por Jorge Soares, em 05.03.14

Gostosa Cóco

 

Imagem de aqui 

 

Se há coisa que me irrita profundamente é que as pessoas levem os seus cãezinhos a passear, já seja à rua ou a um qualquer jardim e deixem os presentes do cão ali mesmo onde o animal se alivia. Eu percebo que as pessoas gostem de animais, mas era bom que gostassem tanto deles próprios e das restantes pessoas à sua volta, como gostam dos bichinhos, e está visto que a maioria não faz a menor ideia do que significa a palavra civismo, basta passear por qualquer rua das nossas cidades ou ir dar uma volta a qualquer bocado de relva dentro das cidades para se entender isso.

 

Tudo isto me irrita tanto que por vezes até faz vir o meu mau feitio ao de cima. Há uns 12 anos atrás levamos a R. que na altura teria pouco mais de um ano a passear à Praça do Bocage, na baixa de Setúbal. No meio da muita gente um casalinho passeava um cão enorme, que à falta de melhor, escolheu o meio da praça para deixar um cocó de umas dimensões acordes com o seu tamanho.

 

O casalinho esperou que o animal terminasse de se aliviar e seguiu caminho como se nada fosse... não aguentei e chamei-os de volta. Ficaram indignadíssimos comigo, que me metesse na minha vida, disseram. Não os deixei sair dali, felizmente havia um polícia por perto e os meninos foram obrigados a limpar a imundice.

 

Há uns meses atrás, no jardim da Algodeia, um avô e o seu neto passeavam o seu cachorrinho junto ao parque infantil onde brincavam várias crianças. À falta de melhor, o animal aliviou-se ali mesmo. Evidentemente o senhor fez como se não fosse nada com ele... de novo não me contive:

 

- Desculpe lá, o cão é seu, a limpeza é da sua responsabilidade!

-... - tentou ignorar-me.

-Ouça, é consigo, o cão sujou, o senhor deve limpar!

-Você é fiscal?

-Não, não sou, mas sou cidadão, há imensas crianças aqui, e o senhor é o responsável pelo cão, assim que tem que limpar.

-Quer que eu faça o quê?

-Se não sabe educar o cão para que não faça isto aqui, tem que limpar...

 

Quando eu já estava a ver que a coisa só se ia resolver com a chamada da polícia, mais alguém que andava a passear um cão chegou-se a nós, puxou de um saco do bolso e disse-lhe:

 

- Tome lá, use este saco, e para a próxima traga sacos.

 

O Homem engoliu em seco, pegou no saco e apanhou.

 

Infelizmente há muitos donos de cães que não tem o civismo suficiente para perceber que a responsabilidade pelo que o animal faz é deles e isso nota-se nas nossas ruas, nos nossos jardins... Existem normas e multas para quem não as cumpre, mas parece que não há multas e normas que resolvam a falta de civismo e educação.

 

Ciente de tudo isto a junta de freguesia de Benfica acaba de lançar o seguinte vídeo com a participação do Nuno Markl, que espero se torne rapidamente viral, pode ser que algumas pessoas percebam a mensagem e o nosso ambiente se torne um pouco melhor... 

 

Jorge Soares

publicado às 22:11

Amianto

 

Imagem do Público 

 

As doenças relacionadas com o amianto – utilizado em larga escala na construção civil e noutras aplicações até aos anos 1990 – mataram pelo menos 231 pessoas em Portugal entre 2007 e 2012, segundo dados da Direcção-Geral de Saúde.

 

Há uns dias uma reportagem sobre os temporais mostrava uma escola em que a cobertura com amianto tinha sido levada pelo vento, os alunos foram retirados daquele pavilhão, mas no resto da escola as aulas continuavam como se nada fosse.

 

Entrevistada a directora do agrupamento, esta mostrava estar consciente dos perigos que aquela cobertura degrada representava, estavam previstas obras para se remover os materiais com amianto, não se sabia era para quando.

 

Ainda há coisas que me chocam, a forma descansada como aquelas declarações foram proferidas chocou-me, havia partes da cobertura espalhadas pelo recreio da escola, mas as crianças continuavam por ali, e havia aulas nos outros pavilhões, como se não estivéssemos a falar de uma substancia que comprovadamente mata dezenas de pessoas todos os anos em Portugal.

 

Hoje na RTP uma reportagem falava de novo no assunto, ninguém sabe quantas escolas ou edifícios públicos contém amianto, o levantamento está para ser feito há anos, mas está comprovado que os cancros causados por esta substância matam em média 39 pessoas por ano.

 

Desde há anos que se sabe dos perigos da exposição continua a esta substância para a saúde, assim como se sabe que uma grande parte das escolas tem esta substância nas suas coberturas,  e mesmo assim não se faz nada.

 

Quanto custa ao país o tratamento de um doente com cancro? quanto irá custar ao estado no futuro o tratamento das milhares de crianças, professores e auxiliares que estão expostos todos os dias a esta substância?  Não seria muito mais barato prevenir?, Não seria muito mais barato substituir as coberturas e demais materiais dos edifícios? Seria de certeza, até porque o sofrimento e a perca de vidas humanas não tem preço.

 

Não é obrigação do estado zelar pela saúde dos seus cidadãos? Então porque não o faz?

 

Jorge Soares

publicado às 22:43

Conto - Pequenos Milagres

por Jorge Soares, em 01.02.14

Pequenos Milagres

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Mariana encolheu os ombros:

 

-  Não sei.

João encolheu os seus:

-  Eu também não.

 

Ficaram calados, os olhos fixos no horizonte de casas e carros, cada um deles perdido na sua imensidão de pensamentos.

 

-  Podemos falar com ele.

-  Para quê? Já falámos, ele nem ouve. Vai dizendo que sim, que sim e se lhe perguntares depois o que é que dissemos, ele não sabe responder. Nem ouve.

 

-  Mas não podemos ficar sem fazer nada, ele vai acabar por se matar…

-  Eu sei. Mas não sei o que fazer.

-  Pois, eu também não.

 

Calaram-se novamente.

 

-  E a mãe dele?

-  Morreu o ano passado, não te lembras? Já era velhota.

-  Caramba, ninguém devia ser filho único.

-  Isso não interessa nada, olha a Paula: 3 irmãos e não se falam há milénios, detestam-se. E há mais exemplos, tu sabes. Além disso, que poderiam fazer? Ele não ouve.

-  Pois, é verdade.

 

O silêncio, pesado de impotência, voltou.

 

-  Achas que se ele estivesse 2 semanas inteiras sem beber, curava-se?

-  Não sei… Mas ele não fica nem meia hora, quanto mais 2 semanas!

-  Olha, eu posso tirar 2 semanas de férias, tu também tens férias, não tens?

-  Tenho, acho que na próxima semana posso meter, mas qual é a tua ideia?

 

-  Vamos lá para cima, os três. Tu sabes, a casa daqueles amigos do meu pai, no inverno nunca está lá ninguém. Montamos guarda ao Nené, ele não vai beber nem um pingo por muito que insista. Que é que achas?

 

-  Não sei, Mariana… Ele até é capaz de ir com a gente mas chegando lá vai ser a chatice do costume!

-  Eu sei mas aí nem que a gente tenha de o amarrar, ele não vai beber nem um pingo. Achas que dá? Temos de fazer alguma coisa!

-  Não sei, tu já viste como é, até fica agressivo…

-  Eu sei. Mas tu és maior do que ele e se não for isso, fazemos o quê?

-  Não sei…

-  Sei eu. Vamos meter as férias e falamos com ele. Eu arranjo a casa com o meu pai e na próxima terça-feira estamos lá. E olha que não estava a brincar, João, vou levar corda e aqueles atilhos de plástico – nós vamos ter de dormir de vez em quando.

 

...

 

Quando viu o pai de Mariana, o rapaz reconheceu-o e encolheu-se. O senhor aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro:

 

-  Olha, a culpa não foi tua, está bem? Foi um acidente, um estúpido acidente. Quero que tu saibas que a culpa não foi tua, foi o camião que ficou sem travões e o condutor não conseguiu fazer nada, pobre diabo.

-  A Mariana?...

-  A Mariana morreu, Nené. O João também e o condutor do camião.

-  Todos...?

-  Sim, todos menos tu. E eu tinha de vir cá falar contigo, porque era preciso que tu soubesses que a culpa não foi tua, para não ficares para aí a pensar parvoíces e dar cabo da tua vida sem razão. A Mariana era muito tua amiga, devo-lhe isto.

 

O senhor passou-lhe a mão pela face, sorriu-lhe, virou-se e saiu do quarto com passos pesados de desgosto.

Anos e anos depois, o Nené ainda explicava nas reuniões dos AA como é que tinha sido recuperado para a vida em menos de cinco minutos pelo pai de Mariana.

 

MAC

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:06

Conto - No elevador

por Jorge Soares, em 31.08.13

No elevador

Imagem de aqui

 

Voltar para casa o deprimia. A expectativa de, após um dia de trabalho ouvindo os berros animalescos de seu Djalma tratando-o como um reles vassalo; abrir a porta de casa e topar com a megera, estendida no sofá, devorando bombons e metida em um enorme robe cor-de-rosa era um desajuste para qualquer mortal. Fosse só isto, ele até que poderia tolerar, mas as cobranças, humilhações e o desprezo iam minando, dia após dia, o que ele e a esposa ainda fingiam ser um casamento.

 

         — Bancário! – exclamava a esposa carregando no desprezo, boca marrom de chocolate – Não passas de um medíocre e vil bancário! E pensar que eu podia estar casada com o Deputado! Que triste sina a minha!

No decorrer dos anos, passou  a ter nojo de chocolate. Bastava o cheiro para nauseá-lo.  

 

Sua angústia diária tinha início dentro do elevador do prédio onde morava. Acompanhava o lento passar da cabine pelo andares até chegar àquele palco seu tormento. “Lar, doce lar”, resmungava  em tom irônico.

 

Naquele final de tarde tudo parecia caminhar para a mesma rotina de achincalhes promovidos pela megera. Apertou o botão de chamada do elevador e esperou que ele chegasse até o térreo. Quando fechou a porta ouviu uma súplica.

 

              —   Sobe?

 

Era uma voz adocicada, mansa, suave, em tudo contrastante com o tom estridente e marcial de sua esposa. Curioso e gentil, segurou a porta do elevador. Ela sorriu para ele em sinal de agradecimento. Tratava-se não de uma mulher exuberante, mas alguém que estava elegantemente vestida e denotava alguma sofisticação. Seus gestos eram refinados e um leve perfume agradável exalava de sua pele. Saltou no décimo andar, sacudindo a cabeça em sinal de boa noite.

 

Desde aquela data, a curta viagem de elevador tornou-se o melhor momento do seu dia. A presença daquela mulher e os quase monossilábicos cumprimentos pareciam amenizar todo o peso do cotidiano desprezível de sua existência. Ansiava por aqueles minutos, chegava a fazer uma horinha no hall social do prédio esperando que ela chegasse, forçando a coincidência do encontro. Entristecia-se caso ela não aparecesse e renovava a suas esperanças  para o dia seguinte.

 

Numa tarde, enquanto esperava o elevador já desapontado pela ausência da sua admirada, ela surgiu no hall social. Chorava. As lágrimas inundavam seu rosto, umedecendo os olhos redondos. Não havia ainda prestado atenção na beleza dos seus olhos castanhos. Na verdade, o tempo da viagem era demasiadamente curto para se prender a detalhes.

               —     Posso ajudá-la, moça?

 

Sacudiu negativamente a cabeça.

 

Ele ofereceu um lenço, prontamente aceito. O elevador chegou.

 

               —    Sou feia?

               —    Não.. imagina...

               —     Pareço uma pessoa  sem atrativos?  Me visto como uma freira?

               —     Claro que não!

             —     Ele acha que sim – disse soluçando – que fazer amor comigo é como beber água. Algo sem gosto, sem graça.

                —    Ele deve ter dito isto da boca pra fora – disse ele enquanto entravam no elevador.

 

Assim que a porta fechou, ela inesperadamente o agarrou, beijando-o com volúpia. Entre o correr dos andares, amaram-se de pé, vestidos. Parcos minutos de prazer até o elevador alcançar o décimo andar.

 

Os encontros passaram a ser diários. Quando havia uma ou mais pessoas esperando o elevador, eles aguardavam a oportunidade de subirem sozinhos. Caso um ou outro estivesse com o seu companheiro, fingiam indiferença e desconhecimento, um tanto desapontados pela oportunidade perdida. Amavam-se dentro da cabina, respiração ofegante, um misto de prazer e medo de que os respectivos cônjuges pudessem estar do outro lado da porta, no andar seguinte. Arrumavam-se rapidamente ante a aproximação do andar onde ela morava. Era automático, sem preliminares, sem nomes, curiosidades sobre a vida de cada um. Nada os atrapalhava naqueles breves momentos de paixão. Somente o ato de amor os consumia. 

 

Um dia, um blecaute tomou conta do Rio de Janeiro. A cidade foi invadida por um breu no começo da noite. Tudo parou, inclusive o elevador onde os amantes estavam. Os bombeiros, ao abrirem a cabina, parada entre dois andares, os encontraram risonhos, nus e gargalhantes, suas roupas espalhadas por todo o elevador. Ela agora sabia que ele se chamava Mauro. Ela, Andréa. Tiveram tempo.

 

Zulmar Lopes


Retirado de Revista Samizdat

publicado às 21:07


Ó pra mim!

foto do autor



Queres falar comigo?

Mail: jfreitas.soares@gmail.com






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D