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Disputa p+elos filhos

 

Nada justifica uma morte, nada justifica que se tire uma vida a alguém, mas quando lemos uma noticia que diz "dois anos à espera para morrer por uma filha" o que pensar?

 

Já aqui falei do assunto, foi num post que tinha por titulo "O filho não é do pai e não é da mãe, o filho é livre é da vida", infelizmente no nosso país ainda há muita gente que para além  que pensar que tem a propriedade dos filhos, se atribui o direito a dizer que o filho é só seu. Li há pouco tempo as estatisticas de casos como este e são às centenas todos os anos. Há quem contra tudo e contra todos pegue nos filhos e vá para o estrangeiro com eles. Há quem apesar das ordens do tribunal se negue a partilhar, quem faça tábua rasa de leis,  das disposições dos tribunais, há de tudo. E o pior é que a sensação com que ficamos é que o crime compensa, porque a verdade é que ninguém faz nada para fazer cumprir as normas e compensa mesmo, ou já alguém ouviu falar de um pai ou uma mãe que tenham sido condenados por desobedecer ao tribunal? Alguém que tenha levado os filhos para o estrangeiro para que eles não vejam o pai ou a mãe e que seja condenado por isso?

 

No caso deste pai que foi barbaramente assassinado há uma agravante, porque a mãe e ex mulher, é uma juíza, alguém que deveria em primeiro lugar respeitar a lei que é encarregada de fazer cumprir. Como é que esta senhora que andou dois anos a brincar com a lei pode ter moral para julgar outras pessoas?

 

Mas há muitas formas de morrer no nosso país, há quem morra de solidão e na maior solidão. Hoje foi encontrada morta num apartamento da Rianchoa uma idosa que que estava desaparecida desde 2002. 9 anos foi o tempo que demorou a ser encontrada, ali, num apartamento, rodeada de outros apartamentos e de pessoas.

 

E só foi encontrada porque o estado que apesar das denuncia dos vizinhos não foi capaz de fazer nada para tentar perceber o que lhe tinha acontecido, conseguiu mover um processo à senhora por falta de pagamento de impostos, e apesar de ela nunca ter aparecido, o processo correu e o apartamento onde a senhora estava morta foi vendido em hasta pública.. sem nunca ninguém lá entrar a ver o que lá estava... sem nunca ninguém tentar ver onde estava a senhora ou  os seus familiares... como é possível?

 

«Morrer é só não ser visto.»

 

A morte é a curva da estrada,

Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

 

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

 

Fernando Pessoa

 

Jorge Soares

publicado às 21:46

Em Portugal há quem morra de solidão

por Jorge Soares, em 07.01.10

Em Portugal há quem morra de solidão

Imagem minha

 

Amanhã discute-se na assembleia da República a alteração da lei dos casamentos, há quem ache que se discute o casamento, há quem ache que se discute a família, há até quem tenha feito da adopção um cavalo de batalha.... eu continuo a achar que se discute a discriminação e o direito a ser diferente.

 

Entretanto a vida segue, e há tantas outras coisas mais importantes com que nos deviamos preocupar, andou um batalhão de pessoas a recolher assinaturas nas igrejas, no futebol, nos centros comerciais, tanta energia que se podia ter gasto de alguma forma bem mais útil.. porque todos sabemos que as assinaturas não vão servir para nada.

 

No DN online podemos ler o seguinte

 

Entre  as 10.00 e as 22.00 de domingo  foram encontrados mortos nove idosos, sete homens e duas mulheres, que viviam sós.


"Janeiro e Fevereiro levam e o velho e o cordeiro", diz o adágio popular a admitir que aqueles meses são os mais ameaçadores para a vida dos idosos. Mas as nove mortes, sete homens e duas mulheres, que a PSP registou entre as 10.00 e as 22.00 de domingo apresentam características que violam a ordem natural da existência humana. Uns morreram abandonados, outros em situação de solidão, outros provavelmente às mãos de gente criminosa, e outros porque os desespero ditou o fim da linha.

 

Enquanto o país monta um circo em volta de algo que nem devia ser tema de discussão, há quem morra de solidão..... 

 

«Morrer é só não ser visto.»

 

A morte é a curva da estrada,

Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

 

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

 

Fernando Pessoa

 


Jorge Soares

publicado às 21:26

O São Martinho, as castanhas e as lendas

por Jorge Soares, em 11.11.09

castanhas.jpg

 

Hoje é dia de São Martinho, dia de comer castanhas e de provar o vinho, não guardo grande memória de magustos, na Venezuela não havia castanhas e num país em que é verão o ano inteiro, nunca ninguém ouviu falar do verão de São Martinho.

 

Na verdade, para mim este dia recorda-me uma enorme solidão, estava em Lisboa, vivia num quarto, lembro-me de ser dia de São Martinho e ir do IST para São Bento a pé. Não sei porquê,  mas recordo-me de uma Rua de São Bento completamente deserta, talvez por isso dei por mim a pensar que naquele momento os meus pais estariam em casa a festejar o dia e a comer castanhas. Senti uma enorme solidão, uma sensação de não ser de ali, nem de lá, de não ser de lado nenhum.

 

Este é um dia de lendas, há a lenda do Santo, que no inicio era soldado e que um dia de Novembro, muito frio e chuvoso, estando em França ao serviço do Imperador, ia Martinho no seu cavalo a caminho da cidade de Amiens quando, de repente, começou uma terrível tempestade. A certa altura surgiu à beira da estrada um pobre homem a pedir esmola.


Como nada tivesse, Martinho, sem hesitar, pegou na espada e cortou a sua capa de soldado ao meio, dando uma das metades ao pobre para que este se protegesse do frio. Nessa altura a chuva parou e o Sol começou a brilhar, ficando, inexplicavelmente, um tempo quase de Verão.

 
A origem do magusto não é muito clara, mas há quem acredite  que é o vestígio dum antigo sacrifício em honra dos mortos e refere que em Barqueiros era tradição preparar, à meia-noite, uma mesa com castanhas para os mortos da família irem comer; ninguém mais tocava nas castanhas porque se dizia que estavam “babada dos defuntos”. .... felizmente já ninguém se lembra desta ultima parte, é muito mais lógico serem os vivos a comer as castanhas.
 
Quanto ao já famoso verão de São Martinho que é suposto instalar-se por estes dias, lembro-me de algures ter visto um metereologista explicar que mais ou menos por esta altura o nosso anticiclone costuma deslocar-se e permanecer uns dias de forma a impedir a entrada de massas de ar, o que nos costuma trazer um inicio de Novembro soleado, cruriosamente em França, lugar de origem do Santo, costuma chover e até nevar, o que só prova que ninguém é profeta na sua terra.... isso ou o anticiclone não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo
 
Fonte Municipio de Mirandela
 
Jorge Soares

publicado às 21:18

No dia da criança:Os olhos do nosso filho

por Jorge Soares, em 01.06.09

Os olhos do meu filho

 

Os olhos do nosso filho

 
Os olhos do nosso filho
São ainda de cor incerta
Não sei sequer se existem
Vão ser de Deus uma oferta
 
Existem na minha alma
Cravados no meu semblante
Os olhos do nosso filho
Que teve nascer errante
 
Foste esculpido a preceito
Nas entranhas de outro ser
Não vais sorver do meu peito
Este meu longo querer
 
E nestas voltas da vida
Cuidou-te Deus sem saber
Para que não herdes no sangue
Este meu estéril sofrer
 
Não vais nascer de mim
De outro ventre virás
Mas filho da minha alma
Tão amado serás!
 
E nesta triste incerteza
Me pergunto em desalento
Já nascente de alguém?
Ou é Deus que te traz?
 
Ala dos Reis

 

 

Não vou à bola com os dias, nem com este nem com nenhum.... feitio... porque este é um dia de prendas, de consumo..deveria ser um dia para reflectirmos, pensar em todas as crianças que não tem família, que não tem que comer, que não tem onde dormir...e são tantas, tantas.

 

Jorge

PS:Fotografia minha.. poema de alguém que anseia por dar amor.

publicado às 21:48

Estamos a ficar mais sós ou mais acompanhados?

por Jorge Soares, em 25.03.09

O post de ontem saiu um bocado estranho, mas pronto, ultimamente posts estranhos é mesmo comigo.....  mas gostei dos comentários. Dizia a Smootha neste Post, que eu sou Jovens que pensamum jovem que penso ... não sei se me deixa mais feliz o prémio ou a parte do ser um Jovem... mas pronto... a Smootha é uma daquelas amigas.... Para mim o blog só faz sentido se for um espaço de partilha de ideias, se eu e quem por aqui passa, pudermos pensar e partilhar ideias...    hummm, onde é que eu ia?... Já sei.

 

Ia falar dos comentários ao post de ontem, dizia a Iris o seguinte:

 

A minha sobrinha apenas tem 7 anos e também recebeu um Magalhães e já faz tudo só. Utilizei só por isso mesmo, porque acho que com a tecnologia de hoje, os miúdos estão cada vez mais a só, todos nós estamos mais sós, mesmo quando escrevemos em blogs, mesmo quando respondemos às mensagens uns dos outros, mesmo quando nos ligamos através de twiters , e msn's , e facebooks , e hi5 , e outros que tais... estamos desesperadamente sós. 

Iludimo-nos que vivemos numa sociedade de comunicação e esquecemos simplesmente que essa comunicação é virtual, um conjunto de monólogos que se tentam fazer ouvir, porque não existe algo básico e primordial, o contacto humano, o toque...

 

Mundo virtualSim e não, sim, a tendência é a centrar cada vez mais a nossa vida à volta dos computadores e das tecnologias, como dizia ontem, a vida mudou muito nos ultimos anos, a forma como vemos e vivemos o mundo mudou radicalmente, e não me parece que a mudança fique por aqui ou tenda a abrandar... mas não acho que isso signifique mais solidão ou isolamento.

 

A tecnologia é como tudo na vida, irá influenciar-nos até ao ponto em que cada um de nós o permita. Ao contrário do que diz a Iris, eu não acho que estejamos cada vez mais sós, pelo contrário, estamos cada vez mais próximos. A comunicação pode ser tão real ou virtual como o desejemos, eu tenho conhecido excelentes pessoas por aqui, pessoas que valem porque pensam.... mas acredito que exista quem se refugie atrás das palavras e se esconda debaixo delas.

 

É claro que se não tivermos cuidado, as  coisas podem-se descontrolar, eu  já não tenho paciência para mais redes sociais, chegou um ponto em que disse basta. São os blogs, o messenger, o Hi5, o facebook, o netlog, o Linkedsis, o twiter, e vários mais... chega a um ponto em que temos que decidir.... eu decidi que ficava pelo messenger... não há pachorra para mais.... nem pachorra nem tempo... mas estou longe de me sentir só.

 

Quanto ao resto do Post, estou mais de acordo com  a Zaka, quando ela diz que só abrimos a porta da nossa vida até onde queremos, que com o Oscarito.... não sou assim tão pessimista, a natureza tem sempre tendência para o equilibrio e cada acção tem como resposta uma reação, mais tarde ou mais cedo o ser humanos tem tendência ao equilibrio...a sociedade está longe da decadência.

 

Ou seja, há que ser optimistas e aproveitar para pensar

 

Quanto á parte do tema SEXO, amiga Flor... pois, és uma querida 

 

Jorge

PS:O problema das comunicações cá em casa foi devido a que alguém decidiu desligar um cabo porque não estava marcado...e o contrato com o novo fornecedor de serviços já está tratado...e a carta para a Netcabo a explicar porquê...também.

PS2:Todas as pessoas que costumam comentar por aqui.... são jovens que pensam...sintam-se à vontade para levar o prémio.

 

publicado às 22:07

Um rasto do teu sangue na neve ... Fim.

por Jorge Soares, em 14.02.09

Rosa

Fotografia minha, retirada de Momentos e olhares

 

Continuação do Conto Um rasto do teu sangue na neve de Gabriel Garcia Marquez, parte anterior aqui

 

 

- Afinal, faltam só quatro dias - concluiu. - Até lá, vá ao Louvre. Vale a pena.

Ao sair, Billy Sánchez encontrou-se, sem saber o que fazer, na Place de la Concorde. Viu a torre Eiffel por cima dos telhados e pareceu-lhe tão próxima que tentou chegar até ela caminhando pelo cais. Mas de repente percebeu que estava mais longe do que lhe parecia, e que além disso mudava de lugar conforme a procurava. Começou então a pensar em Nena Daconte sentado num banco na margem do Sena. Viu passar os rebocadores por baixo das pontes, e não lhe pareceram barcos e sim casas errantes com telhados vermelhos e janelas com vasos de flores nos parapeitos, e arames com roupa secando no convés. Contemplou durante um longo tempo um pescador imóvel, com a vara imóvel e a linha imóvel na corrente, e cansou-se de esperar que alguma coisa se movesse, até que começou a escurecer, e decidiu pegar um táxi para voltar ao hotel. Só então percebeu que ignorava o nome e o endereço, e que não tinha a menor idéia de em que lado de Paris estava o hospital. Atordoado pelo pânico, entrou no primeiro café que encontrou, pediu um conhaque e tentou pôr seus pensamentos em ordem. Enquanto pensava, se viu repetido muitas vezes e de ângulos diferentes nos numerosos espelhos das paredes, e sentiu-se assustado e solitário, e pela primeira vez desde seu nascimento pensou na realidade da morte. Mas com o segundo copo sentiu-se melhor, e teve a idéia providencial de voltar à embaixada. Buscou o cartão no bolso para recordar o nome da rua, e descobriu que no verso estavam impressos o nome e o endereço do hotel. Ficou tão mal impressionado com aquela experiência que durante o fim de semana não tornou a sair do quarto a não ser para comer e para mudar o carro de calçada conforme correspondesse o dia.

Durante três dias caiu sem pausa a mesma garoa fina e suja da manhã em que chegaram. Billy Sánchez, que nunca havia lido um livro inteiro, quis um para não se aborrecer esticado na cama, mas os únicos que encontrou nas maletas de sua mulher eram em idiomas diferentes ao castelhano. Assim continuou esperando a terça-feira, contemplando os pavões repetidos no papel das paredes e sem deixar de pensar um só instante em Nena Daconte.

Na segunda-feira arrumou um pouco o quarto, pensando no que ela diria se o encontrasse naquele estado, e só então descobriu que o casaco de visom estava manchado de sangue seco. Passou a tarde lavando-o com o sabonete que encontrou na frasqueira, até que conseguiu deixá-lo outra vez como havia sido levado para o avião em Madri.

A terça-feira amanheceu turva e gelada, mas sem a garoa, e Billy Sánchez levantou-se às seis, e esperou na porta do hospital junto com uma multidão de parentes de enfermos carregados de pacotes de presentes e ramos de flores. Entrou com o tropel, levando no braço o casaco de visom, sem perguntar nada e sem nenhuma idéia de onde podia estar Nena Daconte, mas mantido pela certeza de que haveria de encontrar o médico asiático. Passou por um pátio interior muito grande, com flores e pássaros silvestres, em cujos lados estavam os pavilhões dos doentes: as mulheres, à direita, e os homens, à esquerda. Seguindo os visitantes, entrou no pavilhão das mulheres. Viu uma longa fileira de enfermas sentadas nas camas com a camisola de trapo do hospital, iluminadas pelas luzes grandes das janelas, e até pensou que aquilo tudo era mais alegre do que se podia imaginar lá de fora. Chegou até o extremo do corredor, e depois percorreu-o de novo no sentido contrário, até convencer-se de que nenhuma das enfermas era Nena Daconte. Depois percorreu outra vez a galeria exterior, olhando pela janela os pavilhões masculinos, até que pensou estar reconhecendo o médico que procurava. Era ele, de fato. Estava com outros médicos e várias enfermeiras, examinando um enfermo.

Billy Sánchez entrou no pavilhão, afastou uma das enfermeiras do grupo e parou na frente do médico asiático, que estava inclinado sobre o enfermo. Chamou-o. O médico levantou seus olhos desolados, pensou um instante e então o reconheceu.

- Mas onde diabos o senhor se meteu? - disse.

Billy Sánchez ficou perplexo.

- No hotel - disse. - Aqui, na esquina.

Então ficou sabendo. Nena Daconte tinha sangrado até morrer às 7:10 da noite da quinta-feira, 9 de janeiro, depois de 72 horas de esforços inúteis dos especialistas mais qualificados da França. Até o último instante havia estado lúcida e serena, e deu instruções para que procurassem seu marido no hotel Plaza Athenée, onde tinham um quarto reservado, e deu os dados para que entrassem em contato com seus pais. A embaixada havia sido informada na sexta-feira por um telegrama urgente da chancelaria, quando os pais de Nena Daconte já estavam voando para Paris. O embaixador em pessoa encarregou-se dos trâmites do embalsamento e dos funerais, e permaneceu em contato com a Chefatura de Polícia de Paris para localizar Billy Sánchez. Um chamado urgente com seus dados pessoais foi transmitido desde a noite da sexta-feira até a tarde do domingo, através do rádio e da televisão, e durante essas 48 horas foi o homem mais procurado da França. Seu retrato, encontrado na bolsa de Nena Daconte, estava exposto por todos os lados. Três Bentley conversíveis do mesmo modelo haviam sido localizados, mas nenhum era o dele. Os pais de Nena Daconte haviam chegado no sábado ao meio-dia, e velaram o cadáver na capela do hospital esperando até a última hora encontrar Billy Sánchez. Também os pais dele haviam sido informados, e estiveram prontos para voar a Paris, mas no final desistiram por uma confusão de telegramas. Os funerais ocorreram no domingo às duas da tarde, a apenas duzentos metros do sórdido quarto de hotel onde Billy Sánchez agonizava de solidão pelo amor de Nena Daconte.

O funcionário que o havia recebido na embaixada me disse anos mais tarde que ele mesmo recebeu o telegrama de sua chancelaria uma hora depois de Billy Sánchez ter saído de seu escritório, e que andou procurando-o pelos bares sigilosos do Faubourg St. Honoré. Confessou-me que não tinha prestado muita atenção quando o recebeu, porque nunca teria imaginado que aquele costenho atordoado pela novidade de Paris, e com uma jaqueta de cordeiro tão mal posta, tivesse a seu favor uma origem tão ilustre.

No mesmo domingo de noite, enquanto ele suportava a vontade de chorar de raiva, os pais de Nena Daconte desistiram da busca e levaram o corpo embalsamado dentro do ataúde metálico, e quem chegou a vê-lo continuou repetindo durante muitos anos que nunca haviam visto uma mulher mais bela, viva ou morta.

 

Assim, quando Billy Sánchez entrou enfim no hospital, na manhã da terça-feira, já se havia consumado o enterro no triste panteão de La Manga, a muito poucos metros da casa onde eles haviam decifrado as primeiras claves da felicidade. O médico asiático que deixou Billy Sánchez a par da tragédia quis dar-lhe umas pílulas tranqüilizantes na sala do hospital, mas ele as recusou. Foi embora sem se despedir, sem nada a agradecer, pensando que a única coisa que ele necessitava com urgência era encontrar alguém para arrebentar a correntadas, para se desquitar de sua desgraça. Quando saiu do hospital, nem ao menos percebeu que estava caindo do céu uma neve sem rastros de sangue, cujos flocos ternos e nítidos pareciam pluminhas de pombas, e que nas ruas de Paris havia um ar de festa, porque era a primeira nevada grande em dez anos.

 

1976.

 

Fim

 

Texto completo aqui:http://conselheiroacacio.wordpress.com/2008/09/26/o-rastro-do-teu-sangue-na-neve-g-g-marquez/

 

publicado às 21:05

Rosa...triste

 

Continuação do Conto Um rasto do teu sangue na neve de Gabriel Garcia Marquez, parte anterior aqui


Às sete tomou outro café com leite e comeu dois ovos cozidos que ele mesmo pegou do balcão depois de 48 horas comendo a mesma coisa no mesmo lugar. Quando voltou ao hotel para se deitar encontrou seu carro sozinho numa calçada e todos os outros na calçada em frente, e tinha uma notificação de multa colocada no pára-brisa. O porteiro do Hotel Nicole teve trabalho para explicar-lhe que nos dias ímpares do mês podia-se estacionar na calçada dos números ímpares, e no dia seguinte, na calçada contrária. Tantas artimanhas racionalistas eram incompreensíveis para um Sánchez de Ávila de pura cepa, que apenas dois anos antes havia se enfiado num cinema de bairro com o automóvel oficial do prefeito, e havia causado estragos de morte diante de dois policiais impávidos. Entendeu menos ainda quando o porteiro do hotel aconselhou-o a pagar a multa mas a não mudar o carro de lugar naquela hora, porque teria de mudá-lo outra vez à meia-noite. Naquela madrugada, pela primeira vez, não pensou em Nena Daconte, mas se revirava na cama sem poder dormir, pensando em suas próprias noites de pesadelo nas cantinas de maricas do mercado público de Cartagena do Caribe.


Lembrava-se do sabor do peixe frito e do arroz de coco nas pensões do embarcadouro onde atracavam as escunas de Aruba. Lembrou-se de sua casa com as paredes cobertas de trinitárias, onde agora seriam sete da noite de ontem, e viu seu pai com um pijama de seda lendo o jornal no fresco da varanda. Lembrou-se de sua mãe, de quem nunca se sabia onde estava a nenhuma hora, sua mãe apetitosa e faladeira, com um vestido de domingo e uma rosa na orelha a partir do entardecer, afogando-se de calor por causa do estorvo de suas telas esplêndidas.


Uma tarde, quando ele tinha sete anos, havia entrado de repente no quarto dela e a surpreendera nua na cama com um de seus amantes casuais. Aquele percalço, do qual nunca haviam falado, estabeleceu entre eles uma relação de cumplicidade que era mais útil que o amor. No entanto, ele não foi consciente disso, nem de tantas outras coisas terríveis de sua solidão de filho único, até aquela noite em que se encontrou dando voltas na cama de uma triste água furtada de Paris, nem ninguém a quem contar seu infortúnio, e com uma raiva feroz contra si mesmo porque não podia suportar a vontade de chorar.


Foi uma insônia proveitosa. Na sexta-feira levantou estropiado pela noite ruim, mas decidido a definir sua vida. Decidiu violar a fechadura de sua maleta para mudar de roupa, pois as chaves de todas estavam na bolsa de Nena Daconte, com a maior parte do dinheiro e a caderneta de telefone onde talvez tivesse encontrado o número de algum conhecido de Paris.


Na cafeteria de sempre percebeu que havia aprendido a cumprimentar em francês, e a pedir sanduíches de presunto e café com leite. Também sabia que nunca lhe seria possível pedir manteiga ou ovos do jeito que fosse, porque nunca aprenderia a dizer, mas a manteiga era sempre servida com o pão, e os ovos cozidos estavam à vista no balcão e apanhava-os sem precisar pedir. Além disso, depois de três dias, o pessoal que servia estava familiarizado com ele, e o ajudava a se explicar.


Assim, na sexta-feira na hora do almoço, enquanto tentava botar a cabeça no lugar, pediu um filé com batatas fritas e uma garrafa de vinho. Então sentiu-se tão bem que pediu outra garrafa, bebeu-a até a metade, e atravessou a rua com a firme resolução de se meter no hospital à força. Não sabia onde encontrar Nena Daconte, mas em sua mente estava fixa a imagem providencial do médico asiático, e estava certo de encontrá-lo. Não entrou pela porta principal, mas pela de emergência, que lhe havia parecido menos vigiada, mas não conseguiu ir além do corredor onde Nena Daconte lhe dissera adeus com a mão. Um guarda com o avental salpicado de sangue perguntou-lhe algo, e ele não prestou atenção. O vigia seguiu-o, repetindo sempre a mesma pergunta em francês, e finalmente agarrou-o pelo braço com tanta força que o parou em seco. Billy Sánchez tentou se safar com um recurso de brigador, e então o vigia mandou-o à merda em francês, torceu-lhe o braço nas costas com uma chave mestra, e sem deixar de mandá-lo mil vezes à puta mãe que o pariu levou-o quase que suspenso até a porta, xingando de dor, e atirou-o como um saco de batatas no meio da rua.


Naquela tarde, dolorido pela lição, Billy Sánchez começou a ser adulto. Decidiu, como Nena Daconte teria feito, procurar seu embaixador. O porteiro do hotel, que apesar de sua cara de enfezado era muito serviçal, e além disso muito paciente com os idiomas, encontrou o número e o endereço da embaixada na lista telefônica, e anotou-os num cartão. Atendeu uma mulher muito amável, em cuja voz pausada e sem brilho Billy Sãnchez imediatamente reconheceu a dicção dos Andes. Começou por anunciar-se com seu nome completo, certo de impressionar a mulher com seus dois sobrenomes, mas a voz não se alterou no telefone. Ouviu-a explicar de cor a lição de que o senhor embaixador não estava em seu escritório no momento e não era esperado até o dia seguinte, mas de qualquer jeito não poderia recebê-lo sem hora marcada e só num caso especial. Billy Sánchez compreendeu então que tampouco por este caminho chegaria a Nena Daconte, e agradeceu a informação com a mesma amabilidade com que a tinha recebido. E pegou um táxi para a embaixada. Ficava no número 22 da rua do Eliseu, dentro de um dos setores mais agradáveis de Paris, mas a única coisa que impressionou Billy Sánchez, de acordo com o que ele mesmo me contou em Cartagena de Indias muitos anos depois, foi que o sol estava tão claro como no Caribe pela primeira vez desde a sua chegada, e que a torre Eiffel sobressaía por cima da cidade num céu radiante. O funcionário que o recebeu no lugar do embaixador parecia acabado de se restabelecer de uma doença mortal, não só pelo terno de veludo negro, mas também pelo sigilo de seus gestos e a mansidão da sua voz. Entendeu a ansiedade de Billy Sánchez, mas recordou, sem perder a doçura, que estavam num país civilizado cujas normas restritas se baseavam nos critérios mais antigos e sábios, ao contrário das Américas bárbaras, onde bastava subornar o porteiro para entrar nos hospitais. “Não, meu caro jovem”, disse. Não havia outro remédio além de submeter-se ao império da razão, e esperar até a terça-feira.

 

Continua

Imagem minha retirada do blogMomentos e olhares

publicado às 21:04

O fim do caminho

por Jorge Soares, em 29.05.08

Existem muitos desafios a circular pela blogosfera, neste momento tenho 2 ou três em atraso, mas este é um desafio diferente, o desafio do Finúrias que ele tem no seu blog Ministério da Soltura. O desafio está lá para quem o queira apanhar, mas a mim ele chegou-me por email. No email vinham três fotografias, eu deveria escolher uma e fazer um texto para a imagem.

 

É um desafio diferente, um desafio aliciante, tão aliciante que sou capaz de lá voltar.

 

A imagem é esta que coloco aqui em baixo, eu olhei para ela e vi solidão e vida, se calhar noutra altura, noutra hora, com outro estado de espírito poderia ter visto outra coisa, Paz, silêncio, ou calma, o instrumento musical, e de certeza que o texto seria completamente diferente, porque na realidade, o que escrevemos tem muito  a ver com o nosso estado de espírito e pouco  com o que está na imagem.

 

Solidão

 

O fim do caminho

 

É o fim do caminho, um longo e penoso caminho, e agora estou só, mas nem sempre foi assim, já tive uma vida, uma família, amigos, já fui criança inocente e rebelde, já fui jovem impetuoso e inconsequente, já fui irmão, pai, tio, já fui amigo, inimigo, ladrão de beijos e sentimentos honestos.. e desonestos, já fui marido, amante, já trai e fui traído, ... porque eu vivi!

 

Agora estou só... não, não é verdade, comigo estão as recordações, as vivências, as pessoas, os anos bons e os maus, as dores, as ilusões, as paixões, os amores, os desamores, os enganos, as verdades inconsequentes, as mentiras duras, a dor.... Sim, a dor... no fim, resta a dor.. a dor de aquilo que apesar de tudo, podíamos ter vivido e não vivemos.

 

Resta a solidão...... e os fantasmas que fomos acumulando ao longo do caminho...... e a certeza que ante esta solidão.. não serei o fantasma de ninguém!

 

Jorge Soares

PS:Passem por lá, e peçam ao Finúrias para participar no desafio..

 

publicado às 21:36

O segredo do silêncio!

por Jorge Soares, em 08.05.08

Ontem estava este segredo no shiuu.... um segredo que fala de silêncio e solidão, achei muito curioso, porque tinha visto o poema dois dias antes num blog ...e tinha utilizado precisamente este trecho num comentário..... noutro blog..... e depois dizem que não há coincidências ....e para seguirem as coincidências, ontem, a S@rit@ utilizou esta imagem num post dela. ....eu hoje vou plagiar.....o Poema, a imagem do shiuuuuu  e o post da S@rit@

 

Shiuuu, um segredo

Imagem retirada do Shiuu

 

Poema Do homem Só

 

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

 

António Gedeão

 

Não faço ideia quem terá colocado este segredo, mas uma coisa posso dizer...... o poema está completamente adequado ao silêncio e solidão que ela(e) expressa.

 

 

Quem me leva os meus fantasmas ... Pedro Abrunhosa

 

Jorge

 

publicado às 22:27


Ó pra mim!

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