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Manuela Moreira foi mãe no final do ano passado, após a licença parental voltou ao trabalho e  decidiu gozar do seu direito às horas de amamentação, para isso falou com a sua entidade patronal e pediu para entrar uma hora mais tarde no horário da manhã, de modo a conseguir conjugar a amamentação do seu filho com os horários dos transportes públicos. A entidade patronal discorda do horário proposto, propõe a hora do almoço e impede-a de trabalhar durante o período da manhã. 
 
Até aqui nada de estranho, este tipo de coisas acontece cada vez menos mas infelizmente vai acontecendo, nada disto seria muito estranho, não fosse o caso de a entidade empregadora de Manuela Moreira ser o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos do Norte (STRUN). 
 
A lei não é clara quanto ao período em que o horário de amamentação deverá ser cumprido, normalmente empresas e trabalhadores chegam a acordo sobre  a melhor hora, neste caso pelos vistos não há acordo possível.
 
Manuela alega que o horário proposto pelo sindicato patrão não é compatível com os horários do seu filho e os dos transportes públicos, o sindicato  alega que não a pode dispensar no horário que Manuela pretende.
 
Entretanto Manuela passa as manhãs à porta do sindicato onde não a deixam entrar se não cumprir os horários propostos pela empresa.
 
Alguém consegue imaginar o que diria o sindicato se isto em lugar de estar a acontecer com um dos seus funcionários estivesse a acontecer com um dos seus filiados e outra entidade empregadora qualquer? Na hora de defender quem trabalha, o mote deste sindicato deve ser, "Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço"
 
Felizmente este é um caso cada vez mais raro no nosso país, cada vez mais as empresas portuguesas olham para a maternidade e para os direitos das mulheres como algo normal... mas que este caso aconteça precisamente com uma empregada de um sindicato, é de bradar aos céus.
 
Por estas e por outras é que cada vez há menos sindicalizados em Portugal
 
Há um sindicato dos empregados dos sindicatos?, deveria haver.
 
Jorge Soares

publicado às 22:16

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Imagem do Sol

 

J. tem 15 anos e vive há 16 meses na ala pedopsiquiátrica do Hospital Dona Estefânia. A doença que a levou a ser internada nesta unidade já foi estabilizada e os médicos deram-lhe alta clínica há mais de um ano.

 

Há noticias que são difíceis de digerir, esta é muito difícil, até porque há o que está escrito preto no branco e o que está escrito nas entrelinhas.

 

O que está escrito preto no Branco é que uma jovem de 15 anos está há mais de um ano encerrada numa enfermaria de um hospital, onde partilha os seus dias com  "doentes agudos com perturbações mentais", isto porque a CPCJ considera que a sua família, na noticia falam da mãe, não está em condições de a acolher em segurança e não haverá vagas para ela em nenhuma das mais de cem instituições que há neste país.

 

Para quem não sabe em Portugal há mais, muito mais de cem instituições de acolhimento, e por incrível que pareça não há em nenhuma uma vaga para esta jovem que está assim condenada a viver os seus dias entre médicos, enfermeiros e pessoas doentes.

 

Não sai, raramente tem visitas, não vai à escola e os únicos jovens da sua idade com quem se dá são os tais  "doentes agudos com perturbações mentais"... se eu não mandar os meus filhos para a escola de certeza que me cai em cima a CPCJ e a segurança social de Setúbal e haverá até quem me ameace com os institucionalizar, mas pelos vistos isso não se aplica aos jovens que estão à guarda do estado.

 

O que não está escrito preto no branco e se percebe nas entrelinhas é que o verdadeiro problema não será realmente a falta de vagas nas instituições, o problema será que não há vagas para ela devido aos seus antecedentes de problemas psiquiátricos, se fosse uma jovem normal e sem problemas, de certeza que haveria vagas.... que nesse caso não seriam necessárias, pois não fossem os seus problemas estaria com a família... fantástico não é? 

 

É assim que o estado e a segurança social tratam dos jovens que tem ao seu cargo, não é por isso de estranhar que existam mais de 8000 jovens e crianças institucionalizadas, ora se demoram mais de um ano em arranjar solução para uma jovem que está a perder a sua vida encerrada num hospital...

 

Há mais alguém que  pense que tudo isto não passa de uma forma de maus tratos do estado para alguém que está à sua guarda? Qual é a CPCJ que protege as crianças dos maus tratos do estado?

 

Jorge Soares

publicado às 22:41

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Imagem de aqui

 

"Entre outras observações, Manuel Luís Goucha não aceita que a juíza tenha dito que ele se “põe a jeito de piadas”, nomeadamente por ter “atitudes e roupas coloridas, próprias do universo feminino”."

 

Não tinha ouvido falar deste caso, aliás, não gosto lá muito do Goucha e tirando a sua participação num dos programas sobre candidatos a chefes de cozinha, não me lembro de ter visto outro dos programas em que ele aparece... mas isso não me impede de achar que tal como qualquer outra pessoa, ele tem direito à sua vida privada e merece o mesmo respeito que qualquer outra pessoa.

 

O caso remonta a 28 de Dezembro de 2009, no programa da RTP2 “5 para a meia-noite”, Goucha, que poucos dias antes tinha revelado a sua homossexualidade,  foi eleito por Filomena Cautela como a  “a apresentadora do ano”, concorria com  Cláudia Vieira e Carolina Patrocínio.

 

O apresentador não gostou e decidiu processar o programa, foi aí que apareceu a juíza citada acima que pelos vistos tem um modo muito peculiar de interpretar as leis e que baseada entre outras coisas no facto de  ele ter" atitudes e roupas coloridas, próprias do universo feminino", decidiu  a favor dos apresentadores do programa e contra Goucha.

 

Entendo a revolta de Manuel luís Goucha e entendo muito bem a sua decisão de apresentar queixa contra o estado português. Até posso conseguir entender o que se passou no 5 para a meia noite, que afinal era um programa em que se fazia humor, nem sempre bem conseguido, mas humor, mas não há forma de conseguir entender os comentários da juíza.

 

A forma como a juíza se expressa é claramente discriminatória e preconceituosa, que alguém se vista de forma mais ou menos vistosa ou que diga mais ou menos piadas, não pode ser motivo nem de preconceito nem de discriminação. Eu não percebo nada de leis, mas não estou a ver qual é a lei que permite que uma pessoa seja achincalhada devido à forma como se veste, se expressa ou aos seus gostos e preferências sexuais.

 

Depois de casos como este, ou como este de que falei aqui, ou de este outro de que falei aqui, ou este outro de que falei aqui, é caso para perguntar: O que se passa com os juízes deste país?

 

Jorge Soares

publicado às 22:41

Eles comem tudo, eles comem tudo ....

por Jorge Soares, em 20.11.14

Subvenções vitalicias

 

Imagem de aqui

 

Afinal Cavaco Silva tinha razão, PS e PSD podem chegar a consensos, não sei se para resolver os problemas do país e dos portugueses isso será possível, mas está visto que no que toca à melhoria de vida dos políticos, eles conseguem.

 

Hoje foi votada e aprovada com os votos de PS e PSD e com abstenção do CDS, uma norma do Orçamento do Estado que repõe as subvenções vitalícias a ex-políticos.

 

Esta norma não estava contemplada na versão do orçamento apresentada pelo governo, mas o pedido de alteração  foi apresentado na passada sexta-feira pelos deputados Couto dos Santos (PSD) e José Lello (PS), ambos membros do Conselho de Administração da Assembleia da República.

 

Para quem não se recorda, a subvenção mensal vitalícia é atribuída  a membros do Governo, deputados, autarcas e juízes do Tribunal Constitucional sem carreira de magistrados  e foi revogada em 2005, com José Sócrates no Governo. No entanto, os titulares de cargos políticos que tivessem completado 12 anos à data da entrada em vigor da lei de Sócrates mantiveram o direito à subvenção.

 

 

Desde Janeiro de 2014, o valor destas subvenções passou a estar dependente dos rendimentos do beneficiário e do seu agregado familiar, mediante a apresentação da declaração de IRS. Se o rendimento for superior a 2000 euros (excluindo a subvenção), essa prestação é suspensa. Nas restantes situações fica limitada à diferença entre os 2000 euros e o rendimento (excluindo a subvenção).

 

A proposta que foi agora apresentada devolve o valor total das subvenções a todos os políticos que estão em condições de a receber.

 

Gostava de perceber a lógica de pensamento dos senhores que apresentaram a proposta de alteração, o governo nega-se a devolver os salários que foram retirados aos funcionários públicos porque o país não está me condições, o PSD , o CDS e o governo foram unânimes ao criticar o tribunal constitucional quando este proibiu os cortes nos salários que eram inconstitucionais, quer dizer, não há condições para devolver os salários e pensões a quem precisa e a quem trabalhou a vida inteira, mas há dinheiro para devolver pensões vitalícias a quem governou 12 anos? Mas afinal os portugueses não são todos iguais?

 

Com que lata é que estes senhores pedem sacrificou aos portugueses quando depois eles são os primeiros a não os fazer?

 

Já dizia o Zeca:

 

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

 

Jorge Soares

publicado às 22:55

Pires de Lima acha que o parlamento é um circo

por Jorge Soares, em 07.11.14

piresdelima.jpg

 

Imagem do Diário Económico

 

Quando é que chegamos ao ponto em que vale tudo?

 

O ministro Pires de Lima, numa clara falta de respeito pelo lugar em que estava e por todos os portugueses ali representados,  achou que a tribuna do parlamento é o local ideal para se ir fazer Standup Comédia. E a presidente da assembleia da República o que fez ante esta triste figura? Nem sei se ela lá estava, mas imagino que tal como os senhores deputados da maioria, terá achado graça à triste figura do senhor.

 

Qual é a diferença entre a forma como o senhor se expressou e os famosos corninhos de Manuel Pinho? para mim nenhuma e se o senhor tivesse vergonha devia seguir o mesmo caminho que seguiu Manuel Pinho e demitir-se.

 

Eu sei que às vezes é difícil de acreditar, mas o parlamento ainda não é um circo e para ver palhaços haverá de certeza outros lugares mais apropriados... demita-se senhor ministro, porque definitivamente, pelo menos a mim, não me merece o menor respeito.

 

 

Jorge Soares

 

publicado às 19:28

Advogados

 

Imagem de aqui

 

A história vem narrada no Público, não explica tudo mas ajuda a perceber para além da desfaçatez e da falta de vergonha que por ái impera, como é que o país chegou à situação em que estamos.

 

Segundo a noticia um conhecido advogado convidou para almoçar um alto funcionário do estado, talvez para dar algum colorido ao almoço, fez-se acompanhar de duas advogadas do escritório para o que trabalhava. 

 

Dá-se o caso que o alto funcionário do estado presidia à alta comissão criada para acompanhar as contrapartidas oferecidas pela empresa que vendeu os dois submarinos a Paulo Portas, já quem fez o convite e as duas advogadas que deram colorido ao almoço, trabalhavam para a empresa de advogados que redigiu os contratos das contrapartidas.

 

Para quem já não se lembra,  as contrapartidas pelas que ainda estamos à espera, diziam respeito ao negocio de mais de mil milhões de euros que deixou ao país  dois submarinos que raramente saem das docas porque não há dinheiro para combustível ou manutenção.

 

O que é que no meio de tudo isto é a noticia? A noticia é que esse almoço no que participaram 3 advogados e um funcionário do estado, no qual segundo este não se trataram negócios e que não passou de amena cavaqueira, foi facturado ao estado como serviços juridicos na módica quantia de “1080 euros + IVA”

 

Não contente com facturar o almoço de amena cavaqueira, quando confrontada com a reclamação do estado por tão absurda factura, a mesma empresa facturou mais 45 minutos de um jurista pelo tratamento da reclamação, isto apesar de ter reconhecido o erro da factura inicial.

 

Definitivamente já não há almoços grátis... muito menos se mete empresas de advogados com falta de vergonha e o estado.

 

Jorge Soares

publicado às 22:20

Co-adopção - Os deputados tem consciência?

por Jorge Soares, em 14.03.14

Co-adopção e a assembleia da república

 

Imagem do Público 

 

 

“Conformei-me com a orientação firme de voto, que interpretei como sendo, na verdade, uma obrigatoriedade. Conformei-me porque senti que não estava mandatada pelos que me elegeram para me abster que seria o meu sentido de voto”

 

Teresa Caeiro, deputada do CDS

 

O que se passou hoje na assembleia da República deixou-me a pensar, há vários posts aqui no blog em que me mostrei contra a diminuição do número dos deputados, pelos mais variados motivos... mas em dias como os de hoje pergunto-me, terei mesmo razão?, o desfecho teria sido diferente se em lugar de mais de duzentos tivéssemos 6 deputados, um por cada  partido?

 

Acho que não restam dúvidas a ninguém que esta é uma questão de consciência, e sabemos porque já ouve uma votação antes em que a maioria foi a favor da lei, que há muita gente com consciência e que pensa nos interesses das crianças e das famílias antes dos interesses eleitorais do partido, então, o que aconteceu hoje?

 

Tinha lido algures que dentro do PSD havia imensas pressões e discussões para que se colocassem os interesses eleitorais do partido antes das consciências,  pelos vistos a pressão funcionou... agora sabemos que dentro do PSD há quem coloque os interesses eleitorais antes da sua consciência... e já agora, antes do interesses das crianças e das famílias... questão; em que outras situações é que farão isso? será que os interesses do país estarão antes ou depois dos interesses do partido?... se calhar isto explica muitas coisas...

 

Quanto a  Teresa Caeiro, louvese-lhe a honestidade de reconhecer o que aconteceu, mas se continua a ter consciência, demita-se, está visto que os interesses do partido estão em primeiro lugar, e não me parece  que isso seja compatível com o mandato que o povo lhe deu com os seus votos.

 

O que se passou hoje na assembleia da república é uma vergonha, os deputados e nós que os elegemos deveriamos todos ter vergonha por vivermos numa democracia que se rege pelos interesses em lugar de pelas nossas consciências.

 

Jorge Soares

publicado às 22:36

O Dux? mas afinal o que é um Dux?

por Jorge Soares, em 26.01.14

Praxes

 

Imagem de aqui 

 

Dux ... a palavra entrou-nos de repente pela porta dentro, apesar das minhas duas passagens pelo ensino superior, nunca a tinha ouvido até agora, sempre achei que as praxes eram simplesmente manifestações espontâneas de parvoíce generalizada em que os alunos do segundo ano se vingavam nos caloiros pelo que tinham sofrido no ano anterior. Foi por isso com um enorme espanto que percebi que afinal as praxes são os mecanismos de iniciação a qualquer coisa que tem mais a ver com seitas e religião que com o ensino superior e academia.

 

Pelos vistos no topo da seita há alguém que se faz chamar Dux e que tem entre as suas prerrogativas a de iniciar os vários responsáveis pela iniciação do povo.

 

Tenho estado a seguir com atenção os comentários ao Post "Carta aberta a um dux" primeiro no Pés no Sofá (onde os comentários foram encerrados)  e depois no Pontos de vista onde continuam abertos e a coisa aqueceu. Fico parvo com algumas coisas que se dizem, há quem defenda as praxes com unhas e dentes e há até quem  entenda que  que o que aconteceu no Meco não interessa a mais ninguém que a quem lá estava e às famílias, como se a morte de seis pessoas pudesse de alguma forma ser um assunto privado.

 

Vi também com alguma atenção o documentário Praxis de Bruno Moraes Cabral que nos mostra alguma da realidade das praxes e onde dá para perceber perfeitamente o espírito da coisa, o que se vê ali não passa de um mostruário de abusos e humilhações cometidas por uns supostos doutores sobre os pobres estudantes que acham que tem que passar por aquilo tudo, e tudo podem ser muitas coisas, para serem aceites.

 

O documentário foi filmado de norte a sul do pais em várias universidades diferentes e o espírito é o mesmo em todos lados, não é uma amostra do pior que se faz, é uma amostra de uma parte do que se faz e que para mim não foi novidade nenhuma, as minhas recordações do que vi nas duas faculdades em que andei eram mais ou menos à volta do que foi mostrado: abusos e humilhação pura e completamente gratuita.

 

Há muito que quem diga que as praxes foram essenciais para a sua integração e formação pessoal, ora o masoquismo é uma tara conhecida, não fazia ideia é que estava tão generalizada na sociedade portuguesa, dizer que é preciso ser sujeito a abusos e humilhações para se crescer como estudante e pessoa só pode ser sinal de masoquismo.

 

Acredito que existam praxes e praxes e que nem tudo será assim tão mau, como pai e cidadão preocupa-me seriamente que na maioria dos casos as praxes não passem disso, de humilhação e abusos e que por trás de tudo isto já exista uma organização que foge ao controlo das faculdades e até da sociedade.

 

Não sei o que se passou no Meco, tenho sérias duvidas que alguma vez se saiba sem sombra de dúvida, até porque não sabemos se o Dux alguma vez sairá do seu estado amnésico, ou se quando o fizer recordará o que se passou, o que ele acha que se passou ou o que ele desejava que se tivesse passado.  

 

Sei que estivessem eles num ritual à beira mar ou em simples conversa na areia, nada disto se teria passado desta forma se não existissem uma comissão de praxes a ser iniciada e um Dux, e sei que queiram ou não os defensores das praxes e do que lhes está associado, está na altura que as universidades ou em seu lugar o a sociedade e todo país, tomem consciência do que se está a passar, até porque não é a primeira vez que há mortos, feridos e processos em tribunal associados às praxes.

 

Infelizmente o documentário não está disponível na net, mas deixo um trailer e a opinião do realizador

 

 

Jorge Soares

 

publicado às 21:53

A vida num hospital português perto de si

por Jorge Soares, em 22.01.14

A vida num hospital Português perto de si

 

Há quem diga que Portugal é um país desenvolvido, do primeiro mundo, pena que isso seja só no papel, porque quem no dia a dia tem que sofrer a realidade não é isso que sente, há coisas que acontecem por cá que mais parecem retiradas de um filme de terror do século passado.

 

O seguinte relato foi escrito em primeira pessoa pela Golimix no Eu tento, mas meu tento não consegue! e é o segundo capítulo, o primeiro pode ser lido aqui.

 

Esta é a segunda fase dos meus relatos das experiências passadas com meus pais. Deixei este para último porque é o mais difícil de escrever e o mais difícil de recordar, já que não é só uma recordação mas algo que ainda sobrevive ao dia-a-dia.

 

Em  agosto de 2012, e depois de muitas peripécias que qualquer dia contarei, foi diagnosticado ao meu pai, nos Hospitais de Coimbra, uma Demência de Corpos de Lewy, que qualquer pesquisa simples na net vos elucidará do que se trata. Menos frequente que o Alzheimer e com progressão mais rápida e igualmente difícil, quer para o portador da doença quer para os seus familiares. E chega a um ponto que sobretudo para os seus familiares.

 

Podem dizer-me "Faço ideia do que estás a passar". Eu respondo a esta frase, não. Não fazem a mínima ideia do que é ver o nosso pai (neste caso) ser portador de uma demência. Do que é vê-lo a não ser ele, do que é vê-lo a ir-se e o seu corpo ainda estar presente. Dói mais do que a morte. Porque é uma morte lenta e insidiosa. Leva-o todos os dias. Tira cada dia um pouco e cada dia o leva para mais longe. Não é ele que está ali...

 

Alguém me dizia aqui há uns tempos. Não digas isso, ainda o podes abraçar. É verdade. Ainda o posso abraçar, ainda tolera os abraços que nunca me deu e agora dá, porque agora não tem o travão mental de não demonstrar carinho. Ainda tolera abraços porque ainda me conhece, ainda não está agressivo. Mas que preço tem este abraço? Um preço que não vale a pena pagar... Estarei a ser crua ou realista de mais? Vejo as coisas de dentro e não de fora. Tão simples quanto isso.

 

Este tipo de Demência está associada a sintomas Parkinsónicos. Ambas as doenças são de cariz neurológico e associadas a geriatria mas como exibem alterações de comportamento levam a um internamento na psiquiatria. Se tem ou não lógica não sei. O certo é que o serviço de neurologia não está preparado para receber estes doentes e não existe outro serviço adequado para pessoas que necessitam de uma vigilância constante, quer pelo seu sentido de orientação alterado, quer pela sua parte cognitiva já com muitas falhas. E é deste serviço, da psiquiatria de um Hospital em Trás-os-Montes, um grande Hospital considerado de "qualidade", onde o meu pai esteve internado que vou falar o que muitos calam. Calam por vergonha de dizer que estiveram lá internados, por vergonha de ter tido um familiar lá internado, por pruridos de uma sociedade hipócrita e mesquinha.

 

Ao entrar naquele serviço parece que recuamos no tempo. Depois de questionar algumas pessoas, nomeadamente profissionais de saúde que trabalham em outros locais e nesta área, pude constatar que felizmente não é frequente a existência de locais que funcionam como aquele serviço em particular, género psiquiatria de há um século atrás. Ali as mulheres e homens estão no mesmo espaço físico, à noite estão em dormitórios separados mas de dia não. Outra particularidade é que os doentes durante o dia não têm acesso à sua enfermaria, o que dificulta o acesso aos seus pertences, como roupa e produtos de higiene. Ali não se lava os dentes a menos que se ande com a escova e pasta à tiracolo. Não se tem roupa própria, porque nem sei se existe onde a guardar, já que não vi as enfermarias, e me disseram para não levar a roupa dele. Disseram que tinham pijamas no serviço e fatos de treino e tudo o que fosse preciso. Ok...

 

O que se vislumbra são pijamas a cair pelas pernas abaixo dos utentes, e se há os que conseguem ir puxando a roupa atempadamente, há os que, por força da lentidão produzida pela medicação não o conseguem fazer, portanto estão a ver o aspecto que dá pessoas com as calças a cair e com ar de que não estão bem neste mundo?

Além disso, todas as patologias também estão juntas, é tudo ao molhe e fé em Deus. Quem é internado por uma depressão sai dali mais deprimido, isso é certo. Terapeuticamente controlado, mas mais deprimido. Como não se podem deitar, porque as enfermarias estão fechadas se bem se lembram, e a medicação dá pedrada vemos pessoas deitadas pelos cadeirões num desconforto que dá dó. O ar andrajoso que transmitem é gritante. Cheguei a ver um senhor no chão do corredor a bater com a cabeça na parede e ali esteve um bom bocado.

 

A única casa de banho que serve todos os utentes tem o papel higiénico fora da proteção, exigida num estabelecimento público, que estava ausente e pelo que constatei há muito partida. A figura em que estava o papel higiénico, que andava nas mãos de todos, estava indescritível! O aspecto físico degradante do serviço era notório! E era notório que era um serviço esquecido há muito pela administração do Hospital que sabe que doentes psiquiátricos não se queixam e se o fazem ninguém lhes dá crédito. Triste, mas a pura realidade. E triste que a própria sociedade também parece forçar a esse esquecimento. Pois bem, ninguém está livre, isso assusta não é? Não fujam porque o que têm medo ainda vos pega!

 

Num dos dias quem que visitei meu pai ele estava vestido com um roupão que tenho a sensação que nem o meu cão se deitaria ali! Aliás, tenho a sensação quem nem um cão de rua se aproximaria daquilo! Se o roupão lhe tirou o frio e providenciou o conforto necessário? Acho que sim. Mas e a dignidade humana? Mesmo sujeita a perder um roupão vesti-o com outra coisa que não aquilo! Soube depois que outros doentes se encarregavam de ajudar o meu pai a não perder o acessório.

 

E agora o que mais me custou. Estive uns dias sem realizar a visita. Habito longe e tive que trabalhar. Quando fui lá constatei o que a minha prima me dizia pelo telefone. O seu estado era deplorável! Ele necessita de ajuda para realizar as actividades mais básicas como o cuidar da sua higiene. Fá-lo, mas precisa de ajuda. Precisa de ajuda até para lavar a cara e escovar os dentes. Que se lhe diga "agora lave a cara", e ele lava. "Agora escove os dentes". Embora tenhamos que colocar a pasta e dizer quando bochechar e cuspir fora. A cara dele não era lavada há séculos!!! Estava cheia de crostas, unhas sujas, dentes cheios de comida,... a descrição pode estar a ser nojenta, mas foi com esse aspecto mal cuidado que o encontrei!

 

No dia da alta para o vestir mandaram-nos para a tal casa de banho usada por todos os utentes (foi aí que eu vi o estado da coisa) para vestir um senhor de idade, com dificuldades motoras, que não tinha onde se sentar para se vestir e que tinha dificuldade em estar de pé. E nem que não tivesse! Felizmente levava companhia para nos ajudar. Penoso... custava ter-nos levado a uma enfermaria? A um lugar mais aprazível do que aquele?

 

Trabalhar ali não deve ser fácil. Num serviço rejeitado e com rejeitados pela sociedade. É o que vi. Se há bons e maus profissionais, claro! Como em todo o lado. Não me esqueço, no entanto, de uma situação em específico numa das minha deslocações para a visita. Não esqueço da cara da besta, desculpem o termo, mas não tenho outro melhor e que descreva tão bem a energúmena, que ao me abrir a porta do serviço sempre fechado à chave, se apercebe que o meu pai está atrás dela, e ela não sabia que aquele era o significado da minha presença, se vira para ele com ar agressivo e diz "Chegue para lá quero abrir a porta!" depois olha para as suas calças pingadas de sopa, que faz notar a sua falta de destreza, e diz com ar arrogante "Olhe para aí todo sujo e pingado! Que vergonha!". Não vou dizer o que me apeteceu fazer àquela não-pessoa, que fez meu pai olhar com ar confuso para as calças e ansioso para mim. O que fiz foi entrar, passando pela cavalgadura, segurar o meu pai e levá-lo até à entrada da casa de banho de onde tirei um papel e lhe limpei as calças. Podem imaginar o ar com que a peça ficou ao ver que era por "aquele" a razão que eu estava ali.  

 

Ele detestava estar ali e eu detestava que ele ali estivesse. Dizia que o tratavam mal, mas não conseguia explicar as situações.

Espero não voltar a precisar daquele serviço mas sei que poderei vir a precisar... O que fazer? Escrever? Falar? Não sei. As minhas energias não dão para todas as lutas.

 

Neste momento tenho que lidar com o meu pai institucionalizado, e que não sabe que é ali que vai ficar... Que pensa que um dia irá voltar à sua casa que fez com as suas mãos. Como lhe explicar o que ele não entende? Como lhe dizer que ali é onde ele está melhor? Ali tem a vigilância que precisa, os cuidados que necessita e até o carinho que lhe faz bem. Até agora nisso parece que tivemos sorte... Alguma há que tentar chegar até ele.

 

Só tenho pena que ela não tenha escrito o nome do hospital, porque este tipo de coisas só pode acabar se forem denunciadas e não há crise ou cortes nos orçamentos que possam explicar coisas como estas, isto é uma vergonha que não tem explicação nem desculpa

 

Jorge Soares

publicado às 23:40

Mandela

 

Imagem de Artigo 21 

 

É um capricho da história que a morte de Nelson Mandela encontre no poder em Portugal o mesmo partido que governava naquela altura quando alguém decidiu votar contra a moção das Nações Unidas que  pedia a sua libertação.

 

Hoje o governo de Passos Coelho declarou três dias de luto nacional pela morte de Madiba, Cavaco Silva é hoje presidente da Republica, na altura era primeiro ministro e responsável pelo governo,  já expressou o seu pesar em nome de todos os portugueses, era bom que o senhor ou algum dos então responsáveis, nos esclarecesse os motivos pelos que nos fez passar a vergonha de sermos um dos três países que votaram contra a liberdade e a favor de quem prendia, discriminava e oprimia.

 

Mandela ficará para sempre como um símbolo da luta pelos oprimidos, um homem que  da luta contra a discriminação, a segregação e o racismo uma forma de vida, o seu lugar na história será de certeza absoluta eterno.

 

O que aconteceu naquela votação é uma vergonha para o país, e era bom que todos fossemos esclarecidos, quem e porquê tomou a decisão de votar contra? Em nome ou a pedido de quem?

 

Jorge Soares

publicado às 15:58


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