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Olhar para o futuro com alguma esperança

por Jorge Soares, em 25.01.12

O N. armado em fotógrafo

Imagem minha do Momentos e olhares

 

De: professora

Para: Encarregado de educação

 

Caro encarregado de educação

 

Informo que o N. teve um comportamento incorrecto hoje na aula de inglês. O aluno esteve a "comer" um chupa às escondidas.

 

Devo dizer-lhe que fiquei bastante triste com ele, uma vez que ultimamente este estava a passar todos os exercicios para o caderno e a esforçar-se para estar mais concentrado. Porém de vez em quando, tinha que o chamar à atenção. E, numa dessas vezes apercebi-me que o N. tinha um chupa chupa na mão.

 

Quando lhe perguntei o que estava a fazer ele não negou e respondeu:

- estou a comer um chupa!

 

Agradeço que converse com o seu educando para que tal não volte a acontecer.

 

 

Atentamente, a Professora

 

Isto foi hoje, é o primeiro escrito na caderneta em muito tempo...e neste momento estou na dúvida, devo falar com o N. e dar-lhe os parabéns porque se está a esforçar verdadeiramente para se portar bem e copiar direitinho os trabalhos para o caderno, coisa que até há pouco tempo era um verdadeiro problema, ou chatear-me e dar-lhe uma reprimenda porque ele vai comer chupas ás escondidas para a sala de aula?

 

É oficial, o meu filho está a crescer e as coisas vão-se compondo... bom, quase!

(a minha meia laranja já fingiu que lhe dava uma reprimenda)

 

Jorge Soares

 

publicado às 22:01

Hiperactividade, a visão de uma professora

por Jorge Soares, em 16.12.11

Hiperactividade

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Em todas as profissões há melhores e piores profissionais, os professores não são excepção, à medida que os nossos filhos vão crescendo vamos tendo a consciência plena disso, nós já passamos por quase tudo, desde a menina que achava que qualquer criança que saía um bocadinho da norma dela era um problema, tinha que ser avaliada e se possivel medicada, até à senhora professora à moda antiga, super disciplinadora, que levava a turma com mão de ferro, mas que olhava para qualquer diferença, cor da pele incluída, de lado, passando pela professora que tinha consciência plena do problema e que sabia como lidar com ele.

 

Com o tempo a sensação que fica é que a maioria não sabe ou não quer saber, já seja porque não se preocupa, porque simplesmente desistiram, ou porque se acham acima do problema... felizmente há excepções,.... hoje a Marta deixou-me um comentário ao meu post sobre a hiperactividade de terça-feira passada que não posso deixar de partilhar porque é importante termos a visão do outro lado. Obrigado Marta.

 

 

Jorge:
Voltei aqui porque este é um tema que me toca e gostaria de deixar aqui umas palavras, ainda que breves que o tempo é de avaliações e, DT de uma turma complicada, o tempo voa.


Já fui professora de vários alunos com as mesmas características do teu filho e este ano, tenho outro menino que,como referes, tem uma dificuldade enorme em se concentrar e trabalhar com algum silêncio. E, refira-se, em deixar trabalhar a turma.


Se é um desafio? Enorme e saberás melhor do que eu do que falo, mas é preciso nunca esquecer que não é algo intencional, muito menos reflecte directamente pouca vontade de colaborar.


Ou de aprender.


É mesmo mais forte que eles e, portanto, por muito difícil e exigente que seja no dia a dia, há que contextualizá-lo.


A maioria dos professores entende, conhece as particularidades desta doença e trabalha no sentido de os integrar e minimizar os impactos para ele e para os outros. E tudo deve ser feito no sentido de os incluir e socializar, eu sei.


Este meu aluno deste ano, passa ainda pelo processo de divórcio altamente litigioso entre os pais e, portanto, pedir-lhe que se acalme assemelha-se uma quase impossibilidade. Como directora de turma e receptora de todas as queixas, procuro ser assertiva e escolher os momentos que pedem, de facto, uma intervenção minha ou uma convocatória dos EE à escola. 


Até agora tenho conseguido atenuar os percalços e "acalmar" os ânimos , os do menino inclusivé.


Posso dizer-te que até a técnica da respiração abdominal e umas noções de Yoga tenho sugerido e treinado na turma e ele sempre participa na medida que vai conseguindo... Tem sido engraçado vê-lo tentar ficar quieto e, pelo canto do olho, ir olhando para os outros ;)


Outro dia desapareceu a meio da aula e fui dar com ele debaixo da banca do laboratório. Tive que conter-me muito para não rir (não fossem os outros querer imitá-lo depois), porque ele é muito engraçado.


Há que entender as características e as dificuldades que uma criança dessas passa, há que olhar com atenção os seus olhos e perceber que, às vezes, eles não conseguem nem ter os olhos focados num mesmo objecto por mais que uns segundos...


É um verdadeiro jogo de paciência, de harmonização entre interesses que se chocam e as necesidades de pedagogia diferenciada destas crianças. E tentamos corresponder.


Mas depois são todas aquelas pressões de cumprimentos de programas e metas de aprendizagem e sucesso educativo...E avaliações cegas.E toneladas de papéis que nos tiram energias...


Estamos atentos Jorge e tenho a certeza que muitos pensam (e agem) como eu.


Desculpa-me o lençol,mas tinha que dizer algo e tentar ser solidária com pais que nos pedem ajuda.


Nesse caso, contigo.

 

Marta M 

 

Jorge Soares

publicado às 22:15

Crianças hiperactivas

 

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

De vez em quando fico a pensar que os professores do meu filho deviam passar um fim de semana com ele... um fim de semana em que ele não tomasse a medicação, um ou dois dias em que pudessem lidar com o normal de uma criança com esta doença, talvez assim percebessem que não, que eles não são assim porque são malcriados, que não são assim porque são do contra, ou porque não lhes apetece fazer o que o professor manda.

 

Talvez se eles vissem e sentissem como é difícil para estas crianças estarem un segundo quietas, se vissem e sentissem o que passam alguns pais todos os dias, tentassem olhar para o assunto de outra forma e não tentassem resolver tudo com castigos, faltas disciplinares e baixas notas.

 

O N. desde o segundo ano que está sinalizado com hiperactividade, défice de atenção e dislexia, desde essa altura que a escola tem conhecimento e que ele está sujeito a apoio e condições especiais de avaliação de acordo com  o Decreto-lei 3/2008.

 

A lei diz que após a notificação, deverá ser elaborado um plano de apoio e avaliação específico e de acordo com as necessidades, a verdade é que salvo raras excepções, a maioria dos professores insiste em ver o assunto como um problema disciplinar e muito raramente elaboram planos de avaliação específicos. 

 

Num destes dias o N. teve uma prova de avaliação de matemática que para além de ocorrer ao fim da tarde, quando já passou o efeito da medicação, tinha mais de 40 alíneas... é claro que correu muito mal, mas havia alguma hipótese de correr bem?

 

Um dos maiores problemas do N. é com o inglês, apesar das muitas horas de estudo em casa, do apoio no centro de estudo e das aulas, não conseguiu fazer nada no teste... crianças hiperactivas e com dislexia dificilmente conseguem decorar... quando a P. tentou falar com a professora esta insistiu em que o problema era falta de estudo... e ela nem acreditava que ele tivesse dislexia.... Fantástico, andamos nós anos a gastar rios de dinheiro em especialistas, ele foi testado e avaliado por especialistas em dislexia, por psicólogos, por pedo-psiquiatras... e agora aparece uma professora de inglês que mandou esta gente toda às urtigas.. porque ela é que percebe do assunto... e avalia-o como a todos os outros alunos.

 

Infelizmente não há forma de contornar os horários das escolas, o horário é à tarde e não há volta a dar, dar-lhe a medicação a meio do dia está fora de questão, porque nesse caso, para além de que não consegue estudar ou fazer o que quer que seja durante a manhã, à noite não dorme. Resta-nos tentar que a escola entenda o problema e que aplique o que está na lei de modo a minimizar o problema, infelizmente a grande maioria dos professores insiste em olhar para estas crianças de lado, sem entender que o que ali está é uma doença como outra qualquer, não é um problema disciplinar. Ou será que como dizia a minha meia laranja um destes dias:

 

Será que chamam:

um pai de um filho cego para se queixarem que ele não vê para o quadro?

Um pai de um filho surdo para se queixarem que ele não ouviu a campainha do recreio, ou um ditado?

Um pai de um filho paraplégico para se queixarem que ele não conseguiu correr os 100 metros ?

Um pai de um filho com muletas para se queixarem que ele é sempre o último a entrar?

 

Então porque é que se chama todas as semanas um pai de um filho hiperactivo com défice de atenção para se queixarem

- que ele não está quieto na carteira

- que ele se distrai com facilidade

- que ele se esquece dos tpcs ?????

 

Jorge Soares

publicado às 22:31

Fugir de casa

Imagem minha do Momentos e Olhares

 

Há alturas na vida em que somos apanhados em contramão, esteve prestes a acontecer um destes dias. Ter um filho hiperactivo não é nada fácil, não o é quando ele tem 4 ou 5 anos, não melhora quando ele vai para a escola e a julgar pela amostra, a adolescência vai ser um caso bicudo.

 

As coisas na escola vão indo, está a ser muito bom para o que eram as nossas expectativas, o que não quer dizer que quase todas as semanas não apareça mais uma coisa qualquer... no Sábado apanhamos o N. em falta, como o caso era mais ou menos grave e ainda por cima repetido, levou umas palmadas, há muito que eu não lhe batia, mas ante a tentativa de mentir para esconder a falta, perdi a paciência.

 

Apesar do grave do assunto, a coisa ficou pelas palmadas e por uma advertência de que de modo algum poderia repetir a graça. Não demorou muito, na segunda feira voltou a pecar. Acho que ele não tem muita sorte, porque na terça já eu tinha descoberto.

 

Ao fim do dia estive mais de uma hora à conversa com ele, não era bem conversa, ele ia balbuciando umas coisas e eu puxando pelas pontas e descobrindo até onde ia a coisa, no fim descobri que: Não almoçou na escola, na hora do almoço saiu da escola e foi comprar gomas e pastilhas com os colegas, em lugar de comer o lanche, leva dinheiro às escondidas e compra sandes e sumos nas máquinas da escola, o lanche de casa é sandes e sumo. Está proibido de sair da escola, mas sai montes de vezes com os colegas... entre outras coisas, algumas bem mais graves.

 

A conversa não foi fácil, a dada altura virou-se para mim e disse-me:

 

- Se continuas a ameaçar-me, saio de casa!

- Sais de casa como?

- Sim, saio de casa

- E vais para onde?

- Para onde gostem de mim e não me façam sofrer!

 

Aqui perdi a paciência

 

- Mas tu julgas o quê?, que me assustas com isso?, se queres sair de casa a porta está aberta.

- Mas é que vou mesmo - aqui levanta-se e sai disparado para a porta da rua.

- ..... 

 

Desta eu não estava à espera.....

 

- Ouve lá, onde é que tu vais?

- Não sei, vou-me embora!

- Ok, tu podes ir, mas não levas nada que seja desta casa

- Mas eu não levo nada

- Levas levas, esses sapatos e essa roupa são de cá, tira lá os sapatos e a roupa

- Mas tu queres que eu vá para a rua de cuecas?

- De cuecas não, que essas também são de cá.

- Eu não vou para a rua nú!

- Isso é problema teu, tu não dizes que não precisas de nós?.

 

Voltou para o quarto, ... foi por pouco, com a chuva que estava lá fora ele não ia longe, mas.....

 

Acho que tirando a minha meia laranja, não conheço ninguém que não tenha alguma vez pensado em sair de casa, o facto de ser adoptado e de passar a vida a aprontar não nos facilita a vida, nem a ele nem a nós... 

 

Eu senti que ele estava a utilizar  a ameaça como estratagema para assustar a mãe, e decidi mostrar-lhe que não podia ser, por pouco não era eu o apanhado na minha ratoeira... as crianças hiperactivas tem uma memória curta, dizem os médicos que os castigos devem ser firmes e imediatos, castigos prolongados não resultam porque passado pouco tempo já não tem a noção de porque estão castigados. O facto de ter sido castigado no Sábado e na segunda estar a aprontar de novo mostra que a ciência sabe do que fala.... mas não é fácil para mim como pai interiorizar, e claro, é muito complicado explicar ao mundo, e em especial à maioria dos professores que não é uma questão de atitude ou má criação das crianças, é sim uma doença. 

 

Entretanto falamos com a escola, que nos diz que não tem forma de controlar se eles saem ou não do recinto, havia um projecto de implementação de entradas controladas por cartão que estava quase pronto,.....  foi cancelado pela crise.... a nós resta-nos estar com o coração nas mãos.... 

 

Pai sofre.

 

Jorge Soares

publicado às 22:04

Crianças hiperactivas.. há vida para além da doença

 

"...Quando vejo um hiperactivo que muito sofreu na sua infância, tal o meu G., com imensas dificuldades de aprendizagem, escrever assim, já adulto, não consigo conter a minha alegria. Só me pode trazer esperança de um dia ver também o meu G. realizado e feliz.

Há 30 anos, a hiperactividade não era diagnosticada. Há 30 anos, um hiperactivo era tido como mal-educado, irrequieto e até mesmo "burro".


Há 30 anos, ser hiperactivo era uma sentença difícil e conduzia muitas vezes ao abandono escolar.

Hoje, este hiperactivo é capaz de escrever de forma agradável, com metáforas e imagens alusivas ao que pretende descrever, de forma harmoniosa.


Ao ler este texto, e, apesar da imagem que nos assola a mente, senti uma luz lá bem ao fundo, uma certeza que, seja qual for o rumo que o G. tomar, poderá ser tão realizado e feliz como qualquer outra criança."

 

O texto acima é da Anabela, retirei-o deste post do seu blog, Abigai... todos os pais sonhamos com o melhor para os nossos filhos, no possível e cada um à sua maneira,  queremos que eles sejam educados, comportados e bons alunos, que tenham sonhos e que sejam bem sucedidos na sua realização. Isto é o normal, o que ambiciona quem tem filhos "normais"... quando temos um filho hiperactivo as coisas mudam um pouco de figura, quando lemos o Energia a mais, percebemos que a Teresa não tem muito tempo para sonhar ou para pensar no futuro, a sua luta diária é tal que para ela ter um dia mais calmo já é uma enorme vitória.

 

Nunca falei com a Anabela, mas pelo que leio dos seus posts e a julgar pelo texto acima, partilhamos uma luta e uma preocupação, as dificuldades de aprendizagem dos nossos filhos. Vivemos numa época em que o sucesso na vida está ligado aos êxitos escolares, sabemos que não é verdade, mas na nossa sociedade ser alguém na vida é ter um curso superior.. mesmo que no fim se termine numa caixa de supermercado ou num call center... o importante é estudar.. E não é fácil pensar que com o que vemos no dia a dia dos nossos filhos, eles terão muita dificuldade para lá  chegar.

 

Uma criança hiperactiva não é menos inteligente que qualquer criança dita normal, pelo contrário, muitas vezes a inteligência está acima da média, simplesmente as dificuldades de concentração e os restantes problemas associados à doença, fazem com que a atenção se canalize para tudo menos para o que é essencial.. o que torna as coisas muito complicadas na escola. Se a isto juntarmos o desinteresse e o preconceito contra quem não está formatado pelos cânones ditos normais da nossa sociedade... temos garantida uma enorme luta.

 

Por vezes dou por mim a  pensar o que será do futuro do N., nem sempre da melhor maneira ou com muitas esperanças, por isso textos como o da Anabela, ou mesmo esta noticia do Ionline fazem-me olhar em frente e acreditar que a nossa luta diária não é em vão, que lutar contra um mundo que por vezes só aceita quem é formatado vale a pena..e que de forma alguma podemos desistir.. porque os nossos filhos contam connosco e pouco mais.

 

Como eu te entendo Anabela.

 

O texto a que a Anabela se refere chama-se  o Suicídio e está neste outro post dela

 

Jorge Soares

publicado às 21:42

As crianças, os pais e a mentira

por Jorge Soares, em 31.05.10

As crianças, os pais e as mentiras

 

Ando há uns dias para falar deste tema, tenho andado às voltas e está difícil, a Anabela tem falado no assunto no Abigai, neste post a propósito da hiperactividade e neste outro a propósito de mais um daqueles estudos parvos que costumam aparecer e onde se chega à brilhante conclusão.. que as crianças mentirosas serão adultos com maior sucesso que as honestas.

 

Lembro-me de ser criança e de ser bastante mentiroso, já não me consigo lembrar a propósito de quê, mas lembro-me perfeitamente de mais de uma situação em que menti descaradamente aos meus pais... e o que é mais incrível, lembro-me de uma situação em que teria 7 ou 8 anos e estar a mentir aos meus pais e  sentir-me estranho porque estava a mentir, mas insistia na mentira até ao fim.

 

Porque o fazia?, Num Post que tinha como titulo Disciplina vem do latim Discerne, aprender falei da minha relação com o meu pai e uma das coisas de que falei foi da disciplina pelo medo. Estes dias estive a olhar para trás e voltei até aquela altura, a verdade é que o que me fazia mentir era o medo.

 

Já houve alturas em que fui duro com os meus filhos, especialmente com o N., não é fácil lidar com uma criança que passa a maior parte do tempo a fazer asneiras, como a Anabela tão bem explica no seu blog, uma criança hiperactiva é uma criança que exige muito de nós e nem sempre sabemos lidar com a situação. É claro que quanto mais são as asneiras mais são os castigos, as crianças hiperactivas não conseguem controlar os seus impulsos, no fim a solução é a mentira.. mas eles são crianças, nós somos os adultos, nós é que temos que pensar no assunto e tentar dar a volta...  porque eles não conseguem mesmo.

 

Hoje sei que o N. mente porque tem medo dos castigos e também sei que na vida não há volta atrás, só há futuro e tentar não repetirmos os erros do passado. Ser uma criança que mentia não fez de mim um adulto mentiroso.. talvez tenha feito de mim um pai mais exigente com os meus filhos... mas nunca é tarde para aprendermos com os nossos erros e passarmos a ser melhores como pessoas e como pais.

 

Jorge Soares

publicado às 21:14

Ainda a hiperactividade.

por Jorge Soares, em 09.06.09

Criança hiperactiva

 

Por norma sei quando um tema é muito ou pouco tratado na internet pelos logs aqui do meu cantinho, há temas que desde o mesmo momento em que os toco, passam a ter visitas diárias, em alguns casos muitas visitas, foi assim com a Adopção em Portugal, e com as famílias de acolhimento, todos os dias há pessoas que chegam ao blog porque fizeram uma pesquisa no Google, são de longe os que trazem mais visitas, em ambos falei de temas que são pouco debatidos e sobre os que há pouca informação na internet.

 

Desde há dois dias reparei que há muita gente que vem parar ao post em que falei da hiperactividade, é outro tema do que pouco se fala, apesar de que há muita gente que tem opinião, principalmente a opinião que há muito de falta de educação e pouco de doença. Não deixa de ser verdade em muitos casos, mas também é doença em muitos outros.

 

Há mais de um ano escrevi um post que  tinha como titulo Eu pai, confesso-me incapaz e que começava assim:

 

"6:55 da manhã, toca o despertador, é sexta feira, Jorge, cheira a queimado, não cheira nada, Jorge, cheira mesmo a queimado,!

 

-N. tu estás a queimar coisas?

 

-Não mamã!

 

O facto de ele a essa hora estar acordado, já é mau sinal, a P levanta-se e vai ver, de facto cheirava muito a queimado, ela grita qualquer coisa com ele... e é aí que eu me levanto, ela tinha encontrado uma daquelas caixas de fósforos de brinde na cama..... eu encontrei uma caixa de fósforos das grandes..... e depois disso, a tampa de uma caixa com restos de plásticos, de papel, de não sei quantas coisas queimadas e ainda quentes..... tudo isto na cama, debaixo de edredão, onde também tinha encontrado os fósforos."

 

Nesse dia eu interiorizei que tínhamos um problema, até ali eu achava que era uma questão de educação, eu achava que o meu rigor e mão dura iam fazer com o N. deixasse de fazer asneiras e traquinices umas atrás das outras, nesse dia, e ante o facto de que podíamos todos ter morrido queimados, eu aceitei que realmente era preciso mais, que sozinhos não íamos lá. 

 

A hiperactividade vai muito mais além da falta de educação, é verdade que existe muita gente que se aproveita da palavrinha para explicar a falta de educação dos filhos, mas também é verdade que há muitos casos em que a doença existe mesmo.

 

Mas uma coisa certa, hiperactividade não é sinal de falta de educação, o N. é uma criança traquinas e que está sempre pronto a aprontar, mas é educado e sabe comportar-se em casa e na rua.

 

Vou deixar aqui o comentário da Anabela (obrigado), ela explica muito bem o que é a hiperactividade e o que sentimos os pais.

 

"Pois é... sou mãe de uma criança hiperactiva!

 

É verdade que há uma tendência geral em chamar hiperactivo a qualquer criança activa, irrequieta ou até mal-educada, uma forma de desculpar esta ou aquela atitude... é verdade, sim.

 

Mas contudo, a hiperactividade existe, é um distúrbio da aprendizagem e do comportamento muito difícil de viver, quer para o hiperactivo, quer para seus familiares.

 

E não é a dizer que não passa de uma desculpa para o desresponsabilizar que se vai resolver um problema tão complexo.

 

O distúrbio de défice de atenção com hiperactividade (DDAH) e que muitas vezes vem acompanhado de dislexia, dificulta muito a vida da criança que não pode, não consegue controlar os seus impulsos. Não é uma questão de educação, mas claro está, não impede de dar educação.

 

O meu filho tem imensas dificuldades, quer na escola, quer na sua vivência diária, mas não é mal educado. Não falta ao respeito a ninguém, o que também não quer dizer que não faça asneiras... Uma criança "hiperactiva" não é apenas mexida... tem outras dificuldades... Aprende com castigos como qualquer outra criança, mas o défice de atenção e a sua incapacidade em manter-se atento, leva a que não consiga "lembrar-se" que não pode fazer determinadas acções. A informação está lá e depois da asneira feita até é capaz de se lembrar, mas as acções são mais rápidas que o pensamento...

 

Saio com o meu filho e ele não se porta mal... foram anos de treino, de paciência, de explicações, de conversas meigas... porque as palmadas, os ralhetes... não resolvem nada nestas crianças, pelo contrário, porque são crianças com comportamentos compulsivos, por vezes até agressivos. Agressividade gere agressividade... não sabem medir consequências e se o exemplo que damos é que se pode dar palmadas, assim o fazem porque não têm capacidade para entender de outra forma. Não nada fácil lidar com crianças com DDAH, por muita teoria que se tenha, nem sempre temos a paciência necessária.

 

A medicação resolve o défice de atenção, permite ter mais concentração... não resolve nem cura a doenças. São normalmente crianças inteligentes mas com imensas dificuldades na aplicação dos conhecimentos. É como estar descansadamente no sofá a ver TV e mudar de canal com o comando, mas sem ele não sabe como fazê-lo. É este o problema do DDAH, não tem comando, os canais estão lá, mas não tem como mudá-los. E tem noção dessa limitação, o que, a cada dia que passa, lhe diminui a auto-estima.

 

Toda esta conversa é irritante para os pais de crianças realmente hiperactivas, os problemas destas crianças já são suficientes, não precisam de ser catalogadas de mal-educadas.

 

Não há nada que doa mais a uma mãe que ver o seu filho, à noite, na cama, antes de dormir, a chorar por não saber como parar, dizer que "se calhar sou burro, mas vale desistir... não sei fazer nada bem"

 

Muito mais há a dizer,.. fica para outro dia

 

Jorge Soares

 

PS:imagem retirada da internet 

PS2:Bons feriados e bom fim de semana a todos, que aqui o senhor vai para o Alentejo, longe de blogs e computadores.

 

publicado às 21:45

Hiperactividade ou falta de educação?

por Jorge Soares, em 07.06.09

 

Hiperactividade ou falta de educação?

 

Na sexta, este post do Cocó na fralda chamou a minha atenção, a minha e a de muita gente, é um tema complicado. A fronteira que separa o problema de saúde da falta de educação é muitas vezes muito ténue  e há coisas que estão na moda, uma delas é ao menor desvio levar a criancinha ao especialista.

 

Eu tenho dois filhos em idade escolar, já conheci várias professoras, e muitas crianças e tenho uma opinião formada sobre este assunto.. é claro que ela vale o que vale, não sou médico nem especialista em nada disto... sou só pai e uma pessoa bastante observadora.

 

O que tenho observado é que há uma enorme desresponsabilização por partes de pais e professores, as crianças são medidas por parâmetros, e tanto pais como professores gostam de criancinhas perfeitas, tudo o que sai do normal é rapidamente enviado para especialistas, que claro, detectam de imediato um problema qualquer que deve ser tratado.

 

A R. sempre foi uma criança feliz e de trato fácil, quando chegou à escola não teve problemas nenhuns de aprendizagem e nunca tivemos queixas sobre o seu comportamento, ela absorve tudo o que lhe passa à volta e segundo algumas professoras, só não é uma aluna excepcional porque é completamente distraída... até quando escreve. Para azar dela, no primeiro e segundo ano apanhou uma professora picuinhas, ela tem a letra horrível, não consegue manter um caderno limpo e organizado e a professora decidiu que aquilo não era normal, vai de aí decidiu marcar uma reunião connosco e sugeriu que a levássemos a um especialista. É claro que disse que não, ela é boa aluna, aprende bem e rapidamente. No ano a seguir trocamos a miúda de escola e assunto resolvido.

 

Com o N. as coisas não são tão fáceis, quando começaram os problemas na escola, achamos que ele precisava de mão dura e controlo... quando as coisas continuaram, aqui o céptico teve que se render à evidência, e quando o segundo especialista diagnosticou o as mesmas coisas, tivemos que nos conformar. Défice de atenção e dislexia,... mas acreditem que não foi fácil convencer uma professora rigorosa e à antiga, ela durante muito tempo achava que era fita do miúdo.

 

Mas é claro que no meio de tudo isto há muitas falhas de educação, por muito hiperactiva que seja uma criança, quando eu leio isto:

 

- Acho que chega a um restaurante e pega nos pratos, de uma ponta da mesa à outra, e atira-os para o chão, estilhaçando tudo.

 

Ou o seguinte que li neste blog

 

A festa começou no carro, eles lembraram-se de disputar o lugar do condutor e o avô não achou piada nenhuma...acabamos por perder mais de trinta minutos, com o carro na torreira do sol, tentando sentar os diabinhos nas respectivas cadeirinhas....o melhor que conseguimos foi um Rafa sentado no banco mas sem cinto e um Quico sentado no chão do carro, entalado entre os bancos....pronto, sei que não iam em segurança mas pelo menos estavam no carro!!

 

O que vejo aqui é falta de educação, as crianças até podem ser hiperactivas, mas desculpem lá, mesmo as crianças hiperactivas necessitam de controlo por parte dos pais. As crianças hiperactivas, para além de tratamento, necessitam de mão  firme, deixar que uma criança chegue a um restaurante e desate a partir pratos ou admitir que elas viajem como lhes apetece no carro é irresponsabilidade por parte dos pais.  Lá por as criancinhas serem doentes não se pode permitir tudo, até porque elas vão sempre explorar os limites e vão querer sempre ir mais longe, e ou colocamos rédea curta... ou acontece o que vimos escrito ali em cima. 

 

Peço desculpa se estou a ser injusto com alguém, mas fala a minha experiencia de pai e muitas vezes uma palmada dada na hora certa evita muitos problemas no futuro.

 

Hiperactividade ou falta de educação?... ambos!!!!

 

Jorge Soares

 

 

publicado às 21:43


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